Friday, August 26, 2005

4 Ideias de Férias

Férias! Dormência! Discussões sem sentido (sobre nada), um copo (ó mais!) na esplanada, apanhar sol na mona até derreter… e acabou tudo! (de volta ao ser)

Durante duas semanas de profundo estado reflexivo (leia-se vegetativo) apanhei e/ou aprofundei três ou quatro ideias soltas (e não têm, com uma óbvia excepção, quase nada têm a ver) que merecem uma referência. Aqui vão:

1- As férias conduzem a um estado de profunda depressão, porque por um lado percebemos como viveríamos se não tivéssemos de trabalhar para comer (tipo se ganhássemos o tótómilhões ou explorássemos os outros), dar educação aos filhos, etc. por outro, porque percebemos, na calma e no lazer que a vida deveria ser, compreendemos a vertigem em que se tornou a vida, no stress, nas preocupações diárias, ou seja, percebemos que se tornou impraticável viver.

2- Cada vez me impressiona e me faz mais confusão o discurso dos vegetarianos que não comem carne “porque ah e tal tadinhas das vaquinhas e dos animaizinhos todos que são seres vivos” (atenção: não critico aqueles que, por considerarem que é mais saudável ou porque simplesmente não gostam ou se fartaram, não comem carne; isso são questões de opção). Não tenho dúvidas que as vaquinhas e as galinhas têm um tratamento brutal nos currais e aviários, mas identifico isso, não como o problema estar em seres omnívoros consumirem carne, mas no sistema capitalista, que procura desenfreadamente a maximização do lucro, mesmo que para tenha cortar as pernas às galinhas e electrocutar as vacas.
Acima de tudo, parece-se uma opção hipócrita (se calhar fruto do desconhecimento), tanto mais que o grande substituto da carne, a soja, é produzida maioritariamente na América do Sul, por uma multinacional que desbasta, para a sua produção, milhares de hectares de floresta da Amazónia. Também não deve fazer muito bem à fauna e à flora da Amazónia, pois não?
(e além disso, um bom bife…)

3- Apesar de não ter acompanhado nada de notícias do mundo real, reparei que desapareceu dos telejornais e jornais portugueses a crise e o descontentamento social contra este governo. Já não há desemprego, já não há fome, já não há luta e reivindicação popular, há incêndios! Esta questão, obviamente, é tratada como o espectáculo do costume: as imagens brutalíssimas das chamas a consumirem o que a Natureza demorou dezenas, centenas, milhares de anos a construir; imagens de famílias, populações inteiras que perderam tudo o que tinham (tudo em directo e exclusivo!!! Não perca!!). (Obviamente, não estou a dizer que não se devia falar dos incêndios; mas de outra maneira… Sei lá, informando os portugueses o que os sucessivos governos não fizeram na prevenção dos incêndios, que promoveram a desertificação do interior e suas matas, que acabaram com os campos cultivados, que antes eram uma barreira ao fogo, que cortam sucessivamente nos orçamentos de bombeiros e guardas florestais… Essas coisas!)

4- O regresso ao mundo real é indispensável. Se bem que tem um sabor especial ser barrasco por uns dias, não pensar em mais nada senão no nosso prazer e no nosso divertimento, é inevitável pensar no mundo em vivemos, falar do mundo em que vivemos, tentar transformar o mundo em que vivemos…

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