O espaço da extrema-direita
Um olhar sobre a história recente da humanidade denuncia as tendências do capitalismo, por ter sido também este a dominá-la. Analisar a história do século XX é, em grande parte, olhar o capitalismo, da sua fase infantil após as embrionárias da revolução industrial, à sua fase mais avançada que hoje ainda tem expressão. Claro que a história do século XX é marcada pela maior insurreição dos trabalhadores que o mundo já conheceu, uma insurreição que daria origem a um Estado Proletário, no rumo do socialismo e do comunismo.
No entanto, é inegável que também merece bastante destaque o avanço do capitalismo, a sua consolidação, contando claro, com as adversidades com que sempre se deparou no quadro da luta de classes, e dos obstáculos anti-capitalistas e anti-imperialistas com que se foi cruzando.
Claro que o que mais marca a história, ainda hoje, é exactamente o confronto incontornável entre as classes de interesses antagónicos, entre os dois pólos das relações de produção, trabalhadores e os detentores de capital. Mas as grandes experiências socialistas fracassaram perante a dimensão titânica que os estados do capital conseguiram alcançar e perante, claro, outros mecanismos que conseguiram criar.
A luta de classes continua a ser o eixo fundamental da história, quer durante os avanços, quer durante os recuos ou crises do capitalismo. Se atentarmos às mais graves crises do capitalismo, veremos que o sistema está disposto a procurar e utilizar formas de organização e exercício políticas que, não sendo as suas opções primárias, constituem os seus braços fortes em ocasiões de desequilíbrio.
O capitalismo, na senda da sua perpetuação enquanto sistema dominante e no aprofundamento da sua capacidade predatória não hesita em recorrer a métodos de ofensiva aberta, deixando a sua posição mais típica em que aplica uma ofensiva mais encapotada.
Perante os graves desequilíbrios dos anos 30, por exemplo, o capitalismo viu-se forçado a criar e a promover forças políticas fascistas, que foram em muitos casos o garante da sobrevivência do próprio sistema. O Capitalismo poderia ter enfrentado uma derrota irrecuperável caso não tivesse existido o contrabalanço do nazi-fascismo, que veio repor privilégios perdidos do capital e das classes que o sustentam, com ramificações por toda a Europa.
O capitalismo, após essa sua fase de promoção da extrema-direita de forma acentuada, preferiu recorrer a métodos menos claros, utilizando, em muitos casos, o próprio sistema democrático, apoiando ditadores, como foi hábito em países espalhados por todo o mundo. Um outro recurso foi a intervenção militar e a agressão, garantindo que o sistema capitalista se podia apoderar de recursos e riquezas naturais dos países mais fracos.
No entanto, só precedendo grandes crises do capitalismo, o próprio sistema decide atribuir importância à extrema-direita, ou melhor, decide deixar-lhe espaço para proliferar e para crescer. No geral, o sistema capitalista consegue sustentar-se na base das falsas democracias, das chamadas democracias ocidentais. Nestes espaços, o poder capitalista consegue, no essencial, promover a sua política, simultaneamente, alimentando a necessidade de qualidade de vida das burguesias em que assenta e aumentando a sua influência sobre outros países que se situam fora da esfera dos ditos civilizados.
No entanto, em períodos de grande crise, as democracias burguesas podem não ser suficientes para garantir o controlo de massas que o capitalismo exige em determinados momentos de maior desequilíbrio no seu próprio sistema. Nesses casos, o leque de recursos do capitalismo abre-se significativamente. A violência, a repressão, a opressão, a censura, a tortura, a eliminação tornam-se instrumentos comuns. Por outras palavras, quando a guerra, as invasões, o saque e a predação não são suficientes para restabelecer o equilíbrio no sistema capitalista, o fascismo e o nazismo servem bastante bem esse desígnio.
O que presenciamos neste momento, na “terra dos valores novos e humanos” – Europa – é exactamente o recrudescer do mais intolerante fascismo. O capital está, de certo modo, a conseguir incutir uma moral como raramente conseguirá ter feito. São muitos aqueles que já alimentam a guerra entre Ocidente e Oriente, Cristo e Maomé, Deus e Alá, Bíblia e Corão nas suas próprias cabeças. E é isso que representa um avanço da extrema-direita. A forma irascível como este assunto tem vindo a ser tratado na comunicação social, pelos próprios governos, pelos clarividentes de algibeira, oops perdão, comentadores políticos, revela exactamente que se tem tentado por todos os meios, exaltar os ódios de ambos os lados.
A extrema-direita, frente de batalha do imperialismo nos momentos mais duros, aí está em força a cumprir o seu papel. Espalhar o ódio e o fundamentalismo. Aqui e lá. É que aqui também existe fundamentalismo e fanatismo, não é só no médio-oriente.
Basta atentar à forma como nos consideramos socialmente superiores aos países do Islão, para detectar fundamentalismo. Basta olhar as páginas dos jornais e ver homens e mulheres chorando e rastejando pelo chão pedindo milagres a nossa senhora em fátima… que pensariam estes se um qualquer cartoonista espetasse com a irmã Lúcia a torturar prisioneiros em Guantanamo?
Monday, February 20, 2006
Monday, February 13, 2006
Ir à bola!
Não pretendo entrar em análises sobre como se transformou o futebol numa indústria, transformou-se um desporto que se jogava e via por prazer e amor à camisola, num negócio em que o que mais interessa não é tanto o espectáculo e a exibição, mas a cotação na bolsa e o número de camisolas vendidas.
É tradição generalizada da espécie que vai ao estádio o insulto aos jogadores e respectivas famílias, porque lhes pagam o ordenado e eles não comem a relva nem têm amor à camisola; aos jogadores e às suas mães porque são todos, sem excepção, uns carniceiros que não vêm a bola mas unicamente as pernas dos nossos jogadores; e o preferido de todos, o árbitro e toda, mas toda a sua família, amigos e conhecidos, porque, obviamente, só vê as faltas da nossa equipa e está, claramente, ao serviço da conspiração congeminada pelos outros clubes, Liga de Clubes, governo e quem sabe do amaricanos (que, como toda a gente sabe andam sempre metidos nestas tramóias) para o nosso Benfica não ser campeão.
Eu, que até nem sou daqueles que não come para não perder um jogo nem bate na mulher quando o Benfica perde, sou plenamente a favor do insulto.
Passando a explicar: é terapêutico poder berrar a plenos pulmões que à hora do jogo, a mulher do árbitro não está propriamente a ver a actuação do marido, ou que a mãe do guarda-redes da equipa adversária tinha tantos problemas com a monogamia, que surgem dúvidas quanto à paternidade do jogador...
Mais: é terapêutico e, apesar do que custa um bilhete para um jogo de futebol, sempre é mais barato que ir ao psicanalista e a conta da farmácia em anti-depressivos e afins
(Insulto mais original até agora num jogo de futebol : "Compraste uma tenda a pensar que era uma casa!" ?!?!?! O Império lança desde já um passatempo sobre que raio quer dizer isto.)
É tradição generalizada da espécie que vai ao estádio o insulto aos jogadores e respectivas famílias, porque lhes pagam o ordenado e eles não comem a relva nem têm amor à camisola; aos jogadores e às suas mães porque são todos, sem excepção, uns carniceiros que não vêm a bola mas unicamente as pernas dos nossos jogadores; e o preferido de todos, o árbitro e toda, mas toda a sua família, amigos e conhecidos, porque, obviamente, só vê as faltas da nossa equipa e está, claramente, ao serviço da conspiração congeminada pelos outros clubes, Liga de Clubes, governo e quem sabe do amaricanos (que, como toda a gente sabe andam sempre metidos nestas tramóias) para o nosso Benfica não ser campeão.
Eu, que até nem sou daqueles que não come para não perder um jogo nem bate na mulher quando o Benfica perde, sou plenamente a favor do insulto.
Passando a explicar: é terapêutico poder berrar a plenos pulmões que à hora do jogo, a mulher do árbitro não está propriamente a ver a actuação do marido, ou que a mãe do guarda-redes da equipa adversária tinha tantos problemas com a monogamia, que surgem dúvidas quanto à paternidade do jogador...
Mais: é terapêutico e, apesar do que custa um bilhete para um jogo de futebol, sempre é mais barato que ir ao psicanalista e a conta da farmácia em anti-depressivos e afins
(Insulto mais original até agora num jogo de futebol : "Compraste uma tenda a pensar que era uma casa!" ?!?!?! O Império lança desde já um passatempo sobre que raio quer dizer isto.)
Friday, February 10, 2006
liberdade de imprensa...
Deixo já claro que não sou particular estudioso das questões políticas e sociais do médio-oriente; não sou nem tenho qualquer qualificação que me permita ter o rigor necessário para estabelecer verdades sobre essa matéria; não pretendo no entanto, como outros, fazer crer que possuo tais credenciais. Prefiro que fique já o registo desta advertência. E digo isto porque recorrentemente a televisão e os jornais trazem aos seus programas ou colunas os mesmo do costume, com as opiniões do costume revestidos da esplêndida capa de especialistas disto e daquilo, sem, na verdade, mais não fazerem que veicular as posições oficiais do imperialismo e dos seus directores nevrálgicos.
As questões que se têm vindo a colocar de forma gradativamente mais preocupante em torno de países e povos do médio-oriente, particularmente no que toca ao dito choque ou confronto cultural e religioso com os países ocidentais não têm deixado de nos preocupar sobremaneira. Todos os dias, a cada minuto nos entra de rajada uma notícia, um artigo de opinião, uma foto sobre o que supostamente se passa nesses países árabes. Com a velocidade da modernidade, já nem paramos, muitas vezes, para questionar o lado de cá desta história.
1. Desde há décadas que se tem vindo a criar junto das sociedades ocidentais que o conceito de civilização é-lhes exclusivo, remetendo, implicitamente, todos os países que não reproduzam os seus métodos de organização ou religião para o estatuto de incivilizados ou, à velha moda romana, de bárbaros.
As questões que se têm vindo a colocar de forma gradativamente mais preocupante em torno de países e povos do médio-oriente, particularmente no que toca ao dito choque ou confronto cultural e religioso com os países ocidentais não têm deixado de nos preocupar sobremaneira. Todos os dias, a cada minuto nos entra de rajada uma notícia, um artigo de opinião, uma foto sobre o que supostamente se passa nesses países árabes. Com a velocidade da modernidade, já nem paramos, muitas vezes, para questionar o lado de cá desta história.
1. Desde há décadas que se tem vindo a criar junto das sociedades ocidentais que o conceito de civilização é-lhes exclusivo, remetendo, implicitamente, todos os países que não reproduzam os seus métodos de organização ou religião para o estatuto de incivilizados ou, à velha moda romana, de bárbaros.
2. A cada notícia que passa consolida-se a linguagem ofensiva aos povos que, diferentemente dos da maioria da Europa e da América, não sustentam a sua visão do mundo nas dicotomias do cristianismo, e também àqueles que não partilham da sua mecânica económica capitalista.
3. O conceito de terrorismo começa a alargar-se e a estender-se a movimentos de defesa patriótica, a movimentos revolucionários e a lutas populares de libertação e conquista.
O terrorismo serviu sempre ao longo da História para justificar as incursões agressivas dos mais fortes, tipicamente transformados em mártires.
O terrorismo serviu sempre ao longo da História para justificar as incursões agressivas dos mais fortes, tipicamente transformados em mártires.
4. Conceitos como o de “fanatismo” e “terrorismo”, aludindo a uma inexplicável demência colectiva circunscrita ao islamismo, são cada vez mais irradiados e, sem darmos por isso, começamos a relacionar a tez escurecida, a barba e o turbante com bombas. É curioso, no entanto, que não o façamos quando imaginamos as estrelas e as riscas da bandeira dos EUA que, sozinhos já mataram, por via também do terrorismo organizado, muitos mais seres humanos que todos árabes juntos.
5. A última ofensiva ideológica que nos tem sido dirigida (a dos Cartoons) não tem outro objectivo senão o de criar o caldo cultural e de opinião que permita a caracterização ocidental do Islão como um cancro planetário que urge erradicar. De alguma forma faz-se parecer de todo incompreensível que povos muçulmanos não saibam brincar… Souberam os católicos reagir decentemente quando espetaram, num cartoon português, com um preservativo no nariz do papa? Souberam os católicos manter a dignidade democrática quando passou “a última tentação de Cristo” nas salas de cinema de Roma? E souberam esses ditos civilizados acolher a liberdade de expressão quando Saramago publica um livro que ficciona mordazmente em torno da vida do seu profeta?
6. A liberdade de expressão e de imprensa é um direito inalienável nos países ocidentais é-o porque se enquadra no modelo de sociedade que aqui se tem vindo a construir. Isso não significa que se exija igual aplicação ou compreensão do princípio em países, culturas e povos radicalmente diferentes. Essa liberdade tem vindo a ser o estandarte ocidental deste novo confronto. Aqui. Lá existirá outro.
7. O que importa neste momento ao imperialismo é criar as condições subjectivas que sirvam de pano de fundo a novas agressões, liquidando o direito á diferença, partindo contra os povos que não mostram total submissão. Daí, na Europa nos dizerem que estamos perante um ataque inadmissível à liberdade de imprensa. Daí também os líderes religiosos e políticos árabes utilizaram a raiva à nossa intolerância para justificar a sua.
8. Aqueles que participam nos ataques às embaixadas dinamarquesas e que acalentam a raiva, o ódio, a xenofobia e o confronto titânico dos deuses de uns contra os deuses de outros são tão criminosos quanto aqueles que provocaram os desequilíbrios. O capitalismo é global e a sua influência no ocidente não é diferente daquela que tem no médio-oriente, ainda que, obviamente, com expressões e interesses concretos diferentes.
No entanto, todos os que promovem este caldo de ódio são directa ou indirectamente lacaios do grande e poderoso polvo do capital e do imperialismo norte-americano que, com tudo isto, já se posiciona ávido de arrancar para a sua nova cruzada, babando qual predador perante a presa.
Com isto, lucram os senhores do petróleo de todo o mundo. Lucram os governos corruptos, islâmicos e ocidentais. Lucram as grandes corporações. Com isto, derrama-se o sangue dos povos, manipulados ou não. Perdem-se vidas necessárias para construir um futuro novo.
No entanto, todos os que promovem este caldo de ódio são directa ou indirectamente lacaios do grande e poderoso polvo do capital e do imperialismo norte-americano que, com tudo isto, já se posiciona ávido de arrancar para a sua nova cruzada, babando qual predador perante a presa.
Com isto, lucram os senhores do petróleo de todo o mundo. Lucram os governos corruptos, islâmicos e ocidentais. Lucram as grandes corporações. Com isto, derrama-se o sangue dos povos, manipulados ou não. Perdem-se vidas necessárias para construir um futuro novo.
Friday, January 27, 2006
um terrorista... foi você que pediu?
“Bush diz que os palestinianos têm que arcar com as consequências dos seus actos.” – Sic Notícias – Jornal de síntese
“We do not deal with Hamas. Hamas is a terrorist organization.” Scott Mclellan – Porta-voz da Casa Branca
Ambas as frases foram produzidas no dia 25 de Janeiro de 2006, ou seja, poucas horas após a divulgação do resultado oficial das eleições que tomaram lugar na Palestina, para a escolha do novo governo. Após mais de dez anos de governo sustentado numa maioria parlamentar pelo partido social-democrata e conciliador Fatah, os extremistas do Hamas acabam por vencer as eleições com uma folgada maioria absoluta. A questão que se coloca é: quem ganha com este resultado?
Os desenvolvimentos que advirão desta vitória começam a tornar-se óbvios.
A resposta à pergunta não pode passar sem dois considerandos essenciais:
A Fatah, pelo seu papel de contenção da luta popular, pelo seu carácter submisso às ordens imperialistas e pela governação tipicamente social-democrata por que enveredeou, lançou o povo palestiniano na desilusão perante qualquer tipo de negociação. Na verdade, o caminho da negociação submissa tem conduzido a situação para o acentuar do conflito, para a tomada de localizações estratégicas em terreno palestiniano, para o constante crescimento da tese sionista, enquanto não resolveu os essenciais problemas do povo palestiniano no plano nacional e vendendo, no plano internacional, a dignidade e a soberania da pátria palestiniana.
o papel das organizações que optam, em determinados momentos da história, pelo recurso à violência contra civis, arriscam sempre o desvirtuamento da causa pela qual dizem combater. Daí o facto de muitas destas organizações serem criadas e apoiadas pelos Estados imperialistas, como o flagrante caso da Al-Qaeda, nascida nas fileiras dos Mujaheedeen e dos Taliban, ambas criadas com o investimento dos Estados Unidos da América. O desvirtuamento da causa popular e a sua transformação em violência não é sua característica própria, é antes o primeiro sinal da manipulação da causa pelo seu próprio adversário.
Quem ganha com este resultado é o estado sionista de Israel e seu aliado americano, os EUA. A política de expansão e geodominância característica do imperialismo tem vindo a ser a verdadeira causa do agravamento da tensão e da violência no médio-oriente. Quer os EUA, quer Israel já anunciaram não estar dispostos a continuar a farsa das negociações com uma organização como o Hamas. O caminho está livre, portanto, para a utilização da violência e da destruição em massa da pátria palestiniana. As incursões tenderão a aumentar, com o Hamas fazendo o papel que lhe cabe: o da justificação da agressão.
Naturalmente, as populações do mundo, ainda que manipuladas seriamente pela comunicação social dominante, não toleram a agressão injustificada, nem a violência unilateral que se traduz em invasões ao estilo colonial e na apropriação dos recursos de um povo por um estado que lhe é alheio. No entanto, uma justificação de recurso para essas incursões agressivas, é exactamente o argumento de que o invasor se está simplesmente a defender.
Os EUA e seus cães de fila (Inglaterra, Espanha, Portugal) utilizaram esse pobre argumento após o 11 de Setembro. Utilizaram-no para justificar a invasão do Afeganistão e, de forma contínua para desculpar todos os erros cometidos na invasão do Iraque. De certa forma, o alcance dessa justificação é tal, que ainda hoje serve de pretexto para planificar invasões a Cuba, Venezuela, República Popular Democrática da Coreia, Síria e uns tantos outros incómodos países. Incómodos por terem reservas petrolíferas maiores do que as que deviam, ou, pura e simplesmente, por não acatarem cada ordem mesquinha dos senhores do dinheiro.
A vitória do Hamas é a vitória da política de agressão de Israel e dos EUA. É a vitória do sionismo e do ódio. Com o Hamas no poder, o agressor passa a vítima constante. Os coitadinhos dos judeus, eternos mártires da História, serão agora alvos de intenso terror, fruto do fanatismo inexplicável de uns tantos milhões de muçulmanos passados da cabeça. Está montado palco para a morte vir abraçar mais uns milhares de palestinianos. Está livre o caminho do estado fascista de Israel. O holocausto continua, em chamas fora de fornos, sem calcinações conhecidas. Mas o sacrifício está à vista.
Esperemos nós que deus se retire humildemente desta batalha e deixe expostas as verdadeiras razões daquele sangue.
“We do not deal with Hamas. Hamas is a terrorist organization.” Scott Mclellan – Porta-voz da Casa Branca
Ambas as frases foram produzidas no dia 25 de Janeiro de 2006, ou seja, poucas horas após a divulgação do resultado oficial das eleições que tomaram lugar na Palestina, para a escolha do novo governo. Após mais de dez anos de governo sustentado numa maioria parlamentar pelo partido social-democrata e conciliador Fatah, os extremistas do Hamas acabam por vencer as eleições com uma folgada maioria absoluta. A questão que se coloca é: quem ganha com este resultado?
Os desenvolvimentos que advirão desta vitória começam a tornar-se óbvios.
A resposta à pergunta não pode passar sem dois considerandos essenciais:
A Fatah, pelo seu papel de contenção da luta popular, pelo seu carácter submisso às ordens imperialistas e pela governação tipicamente social-democrata por que enveredeou, lançou o povo palestiniano na desilusão perante qualquer tipo de negociação. Na verdade, o caminho da negociação submissa tem conduzido a situação para o acentuar do conflito, para a tomada de localizações estratégicas em terreno palestiniano, para o constante crescimento da tese sionista, enquanto não resolveu os essenciais problemas do povo palestiniano no plano nacional e vendendo, no plano internacional, a dignidade e a soberania da pátria palestiniana.
o papel das organizações que optam, em determinados momentos da história, pelo recurso à violência contra civis, arriscam sempre o desvirtuamento da causa pela qual dizem combater. Daí o facto de muitas destas organizações serem criadas e apoiadas pelos Estados imperialistas, como o flagrante caso da Al-Qaeda, nascida nas fileiras dos Mujaheedeen e dos Taliban, ambas criadas com o investimento dos Estados Unidos da América. O desvirtuamento da causa popular e a sua transformação em violência não é sua característica própria, é antes o primeiro sinal da manipulação da causa pelo seu próprio adversário.
Quem ganha com este resultado é o estado sionista de Israel e seu aliado americano, os EUA. A política de expansão e geodominância característica do imperialismo tem vindo a ser a verdadeira causa do agravamento da tensão e da violência no médio-oriente. Quer os EUA, quer Israel já anunciaram não estar dispostos a continuar a farsa das negociações com uma organização como o Hamas. O caminho está livre, portanto, para a utilização da violência e da destruição em massa da pátria palestiniana. As incursões tenderão a aumentar, com o Hamas fazendo o papel que lhe cabe: o da justificação da agressão.
Naturalmente, as populações do mundo, ainda que manipuladas seriamente pela comunicação social dominante, não toleram a agressão injustificada, nem a violência unilateral que se traduz em invasões ao estilo colonial e na apropriação dos recursos de um povo por um estado que lhe é alheio. No entanto, uma justificação de recurso para essas incursões agressivas, é exactamente o argumento de que o invasor se está simplesmente a defender.
Os EUA e seus cães de fila (Inglaterra, Espanha, Portugal) utilizaram esse pobre argumento após o 11 de Setembro. Utilizaram-no para justificar a invasão do Afeganistão e, de forma contínua para desculpar todos os erros cometidos na invasão do Iraque. De certa forma, o alcance dessa justificação é tal, que ainda hoje serve de pretexto para planificar invasões a Cuba, Venezuela, República Popular Democrática da Coreia, Síria e uns tantos outros incómodos países. Incómodos por terem reservas petrolíferas maiores do que as que deviam, ou, pura e simplesmente, por não acatarem cada ordem mesquinha dos senhores do dinheiro.
A vitória do Hamas é a vitória da política de agressão de Israel e dos EUA. É a vitória do sionismo e do ódio. Com o Hamas no poder, o agressor passa a vítima constante. Os coitadinhos dos judeus, eternos mártires da História, serão agora alvos de intenso terror, fruto do fanatismo inexplicável de uns tantos milhões de muçulmanos passados da cabeça. Está montado palco para a morte vir abraçar mais uns milhares de palestinianos. Está livre o caminho do estado fascista de Israel. O holocausto continua, em chamas fora de fornos, sem calcinações conhecidas. Mas o sacrifício está à vista.
Esperemos nós que deus se retire humildemente desta batalha e deixe expostas as verdadeiras razões daquele sangue.
Tuesday, January 24, 2006
Direita no poder
Nem sei por onde começar...
Pela primeira vez desde o 25 Abril temos um Presidente de direita...
Preparado ao ínfimo pormenor pelos xerifes do dinheiro, mais os jornais e televisões que controlam.
Ganha o candidato que menos propôs ( provavelmente para não lhe fugir a boca para a verdade), o candidato do PSD e do CDS (sim, afinal de contas no domingo vi umas bandeirinhas e umas declarações...), o candidato que, enquanto primeiro-ministro, tentou desmantelar empresas públicas, oferecendo-as aos privados, mandou atacar barbaramente manifestações, impôs leis anti-democráticas e anti-populares...
A quem é que favorece a vitória de Cavaco?
Aos jovens?
Aos trabalhadores?
À esmagadora maioria da população?
Não. Assim como Sócrates, Cavaco sempre esteve e estará com o grande capital, na procura de mais lucro e mais lucro, mesmo que isso signifique empurrar cada vez mais pessoas para o desemprego, o trabalho precário e a pobreza.
É assim o nosso mundo bárbaro (ou como quem diz o capitalismo)
Pela primeira vez desde o 25 Abril temos um Presidente de direita...
Preparado ao ínfimo pormenor pelos xerifes do dinheiro, mais os jornais e televisões que controlam.
Ganha o candidato que menos propôs ( provavelmente para não lhe fugir a boca para a verdade), o candidato do PSD e do CDS (sim, afinal de contas no domingo vi umas bandeirinhas e umas declarações...), o candidato que, enquanto primeiro-ministro, tentou desmantelar empresas públicas, oferecendo-as aos privados, mandou atacar barbaramente manifestações, impôs leis anti-democráticas e anti-populares...
A quem é que favorece a vitória de Cavaco?
Aos jovens?
Aos trabalhadores?
À esmagadora maioria da população?
Não. Assim como Sócrates, Cavaco sempre esteve e estará com o grande capital, na procura de mais lucro e mais lucro, mesmo que isso signifique empurrar cada vez mais pessoas para o desemprego, o trabalho precário e a pobreza.
É assim o nosso mundo bárbaro (ou como quem diz o capitalismo)
Monday, January 23, 2006
um bárbaro para o império
e o capital pariu um presidente da república. fabricado e eleito nos pasquins da famigerada imprensa escrita, entronado pelas cores sensacionalistas e vozes sábias na nossa tv.
perde portugal, perdem os jovens, os trabalhadores, perdemos nós. ganha a direita sedenta dos nossos bolsos e das nossas mentes. ganha o pior que, nós portugueses, temos para mostrar.
ganham os sorrisos de um primeiro-ministro mentiroso e dos seus amigos balofos.
estaremos cá para resistir, para nos plantarmos firmes onde for preciso, para nos movermos erguidos contra os ventos reaccionários. a luta ganha a força que o povo quiser. nós teremos a força que nos for exigida. agora... temos mais um facho com que nos preocupar.
perde portugal, perdem os jovens, os trabalhadores, perdemos nós. ganha a direita sedenta dos nossos bolsos e das nossas mentes. ganha o pior que, nós portugueses, temos para mostrar.
ganham os sorrisos de um primeiro-ministro mentiroso e dos seus amigos balofos.
estaremos cá para resistir, para nos plantarmos firmes onde for preciso, para nos movermos erguidos contra os ventos reaccionários. a luta ganha a força que o povo quiser. nós teremos a força que nos for exigida. agora... temos mais um facho com que nos preocupar.
Monday, January 16, 2006
O candidato do povo




Ora pois...
Um faz "...a sua maior iniciativa de campanha" como se repetia incessantemente na televisão, o outro faz um MEGA-COMÍCIO no Porto, como também os orgãos de comunicação social fizeram questão de repetir até soar a gasto.
Explicando, a maior iniciativa de campanha era de Jerónimo de Sousa, e era só um comício no Pavilhão Atlântico em que, para além de estar cheio, milhares de pessoas que não conseguiram entrar seguiam através de um ecrã gigante colocado cá fora.
O mega-comício era de Cavaco Silva e tinha a ver com o Coliseu do Porto, que cheio, não deve comportar tantas pessoas como as que estavam na parte de fora do Pavilhão Atlântico.
Esta parcialidade gritante prova de que lado estão os grandes orgãos de comunicação social e já agora os grupos económicos por detrás deles. Prova que Cavaco é o seu candidato.
Mas também prova, dúvidas houvesse, que Jerónimo é efectivamente o candidato do povo e que o povo está com ele.
Friday, January 13, 2006
The constant gardener
The constant gardener… título ainda assim melhor que o português. Não é costume tecer aqui no império, críticas quanto aos filmes que vejo ou não vejo. No entanto, tendo em conta que este levanta aspectos vastos da política e que são dezenas as pessoas que conheço e que falam do filme quase com uma lágrima no olho, decidi deixar aqui o que acho deste filme e deste tipo de filmes.
Do ponto de vista da execução, quer da fotografia, realização ou interpretação, o filme é praticamente imaculado. As cenas tétricas estão conseguidas ao ponto de nos arrancar a lágrima piedosa. A banda sonora é, pura e simplesmente, soberba. Respira-se um mundo diferente a cada plano, cada cena. O argumento, por seu lado, não sendo medíocre, é comum.
Feitas as considerações tecnicistas, para as quais, importará dizer, não sou qualificado, importa ir ao motivo de fundo do filme, o mesmo que me faz escrever. O filme é uma história de amor, ponto. Ainda assim, vários são os jovens adultos que saem do cinema com uma cara de admiração que só lhes fica bem, mas cuja carga de snobismo é indisfarçável. Ao fim daquele filme, fica-nos bem a todos dizer que o filme é excelente, que aquela farmacêutica é muito má e tal.
O filme caracteriza, embrenhado numa história de amor, as operações desumanas de uma farmacêutica no Quénia, dando a entender que estas operações afectam mais países africanos. O filme trata a vida de um conjunto de ditos activistas que tentam desmascarar a dita empresa e o estado britânico que encobre a realização de testes em seres humanos no continente africano.
O que está mal no filme, então? O filme transporta a visão imposta exactamente pelos mesmos que tenta acusar. O filme engrandece o papel de organizações como a Amnistia Internacional e outras ONG´s semelhantes e o dos activistas burgueses da caridade, reduzindo os povos africanos a insignificantes peões no tabuleiro. Insinua-se recorrentemente, através desta visão burguesa, que a emancipação do continente africano é dependente da boa-vontade dos meninos ricos que vestem uma bata e vão 10 anos para África ajudar os coitadinhos. Ninguém, nestes filmes, fala das verdadeiras causas que conduziram África ao estado em que está. Da mesma forma que encobrem o papel ancião dos europeus e o mais recente papel dos Estados Unidos da América no que toca à destruição de África, ensinam-nos agora a magistral tese de que só o homem branco pode salvar o continente negro.
Além disso, de fazer depender a emancipação popular de toda a África da boa-vontade activista, dita humanitária, este filme personifica, numa visão particularmente maniqueísta, a estratégia empresarial das farmacêuticas. Ou seja, a farmacêutica em causa no filme faz o que faz (testes em seres humanos das populações miseráveis do Quénia à revelia do seu conhecimento), porque é dirigida por pessoas sem escrúpulos e de mau carácter. O próprio estado britânico é, de alguma forma, ilibado, porque também aqui, a cobertura que dá às operações da farmacêutica está exclusivamente relacionada com o facto de um senhor sem carácter da diplomacia britânica favorecer a dita empresa em troca de empregos criados em solo britânico.
Ou seja, a engrenagem do sistema capitalista, verdadeiro gerador desta e outras atrocidades diariamente cometidas há mais de uma centena de anos, não é, em momento algum, posta em causa pelo filme. A burguesia abandona a sala de cinema, com a sua lágrima pendendo do olho, com a mesma sensação de quem observa as fotos de meninos negros que morrem de fome como contemplando arte, com a mesma sensação que tem a beata quando deixa duas moedas ao senhor sem pernas à porta da igreja.
Podem esperar os quenianos, os sudaneses, os somalis, os etíopes, os eritreus, os djibutianos e os outros coitadinhos que a boa-vontade dos brancos lhes dê para sarar as feridas de outros países que não os seus. O colonialismo britânico, italiano, francês, as incursões militares dos Estados Unidos durante os anos 80 e 90 na maioria destes países, a destruição da revolução socialista da Etiópia, as guerras civis a mando das potências colonialistas e alimentadas pela indústria do armamento, o saque dos poucos recursos naturais do corno de África e a implantação geoestratégica e militar da grande potência imperialista são tudo factores desprezados por estes filmes e por esta visão do mundo. A distribuição da riqueza desequilibrada, o desmantelamento do sistema social dos povos, a exploração desenfreada destas populações como seres humanos descartáveis por parte das multinacionais, o abandono do investimento após a destruição dos países e o usufruto dos benefícios geoestratégicos, a imposição de modelos políticos desadequados, a divisão artificial dos povos, tudo isto, imposições estrangeiras, nunca são referidas nem acusadas.
O episódio retratado pelo filme “the constant gardener” não é um episódio… é uma característica natural do sistema capitalista. Não encontra a sua solução no activismo voluntarista da burguesia. Não a encontrará no preenchimento de cargos de direcção das multinacionais por pessoas de bom coração, escrupulosas ou bondosas. Não a encontrará na evangelização dos povos muçulmanos do Corno de África, nem na intervenção dos senhores doutores dos médicos sem fronteiras, nem aterragem de farinhas recolhidas nos supermercados dos brancos.
É tudo isto que faltava mostrar, para que esta história de amor passasse disso mesmo. Para que o filme deixasse de ser uma mera estetização da miséria com o aproveitamento comercial do sofrimento da criança africana, faltava-lhe dizer a verdade.
O filme é, um thriller com uma história de amor, ao estilo de um Alfaiate do Panamá, nem mais, nem menos.
Do ponto de vista da execução, quer da fotografia, realização ou interpretação, o filme é praticamente imaculado. As cenas tétricas estão conseguidas ao ponto de nos arrancar a lágrima piedosa. A banda sonora é, pura e simplesmente, soberba. Respira-se um mundo diferente a cada plano, cada cena. O argumento, por seu lado, não sendo medíocre, é comum.
Feitas as considerações tecnicistas, para as quais, importará dizer, não sou qualificado, importa ir ao motivo de fundo do filme, o mesmo que me faz escrever. O filme é uma história de amor, ponto. Ainda assim, vários são os jovens adultos que saem do cinema com uma cara de admiração que só lhes fica bem, mas cuja carga de snobismo é indisfarçável. Ao fim daquele filme, fica-nos bem a todos dizer que o filme é excelente, que aquela farmacêutica é muito má e tal.
O filme caracteriza, embrenhado numa história de amor, as operações desumanas de uma farmacêutica no Quénia, dando a entender que estas operações afectam mais países africanos. O filme trata a vida de um conjunto de ditos activistas que tentam desmascarar a dita empresa e o estado britânico que encobre a realização de testes em seres humanos no continente africano.
O que está mal no filme, então? O filme transporta a visão imposta exactamente pelos mesmos que tenta acusar. O filme engrandece o papel de organizações como a Amnistia Internacional e outras ONG´s semelhantes e o dos activistas burgueses da caridade, reduzindo os povos africanos a insignificantes peões no tabuleiro. Insinua-se recorrentemente, através desta visão burguesa, que a emancipação do continente africano é dependente da boa-vontade dos meninos ricos que vestem uma bata e vão 10 anos para África ajudar os coitadinhos. Ninguém, nestes filmes, fala das verdadeiras causas que conduziram África ao estado em que está. Da mesma forma que encobrem o papel ancião dos europeus e o mais recente papel dos Estados Unidos da América no que toca à destruição de África, ensinam-nos agora a magistral tese de que só o homem branco pode salvar o continente negro.
Além disso, de fazer depender a emancipação popular de toda a África da boa-vontade activista, dita humanitária, este filme personifica, numa visão particularmente maniqueísta, a estratégia empresarial das farmacêuticas. Ou seja, a farmacêutica em causa no filme faz o que faz (testes em seres humanos das populações miseráveis do Quénia à revelia do seu conhecimento), porque é dirigida por pessoas sem escrúpulos e de mau carácter. O próprio estado britânico é, de alguma forma, ilibado, porque também aqui, a cobertura que dá às operações da farmacêutica está exclusivamente relacionada com o facto de um senhor sem carácter da diplomacia britânica favorecer a dita empresa em troca de empregos criados em solo britânico.
Ou seja, a engrenagem do sistema capitalista, verdadeiro gerador desta e outras atrocidades diariamente cometidas há mais de uma centena de anos, não é, em momento algum, posta em causa pelo filme. A burguesia abandona a sala de cinema, com a sua lágrima pendendo do olho, com a mesma sensação de quem observa as fotos de meninos negros que morrem de fome como contemplando arte, com a mesma sensação que tem a beata quando deixa duas moedas ao senhor sem pernas à porta da igreja.
Podem esperar os quenianos, os sudaneses, os somalis, os etíopes, os eritreus, os djibutianos e os outros coitadinhos que a boa-vontade dos brancos lhes dê para sarar as feridas de outros países que não os seus. O colonialismo britânico, italiano, francês, as incursões militares dos Estados Unidos durante os anos 80 e 90 na maioria destes países, a destruição da revolução socialista da Etiópia, as guerras civis a mando das potências colonialistas e alimentadas pela indústria do armamento, o saque dos poucos recursos naturais do corno de África e a implantação geoestratégica e militar da grande potência imperialista são tudo factores desprezados por estes filmes e por esta visão do mundo. A distribuição da riqueza desequilibrada, o desmantelamento do sistema social dos povos, a exploração desenfreada destas populações como seres humanos descartáveis por parte das multinacionais, o abandono do investimento após a destruição dos países e o usufruto dos benefícios geoestratégicos, a imposição de modelos políticos desadequados, a divisão artificial dos povos, tudo isto, imposições estrangeiras, nunca são referidas nem acusadas.
O episódio retratado pelo filme “the constant gardener” não é um episódio… é uma característica natural do sistema capitalista. Não encontra a sua solução no activismo voluntarista da burguesia. Não a encontrará no preenchimento de cargos de direcção das multinacionais por pessoas de bom coração, escrupulosas ou bondosas. Não a encontrará na evangelização dos povos muçulmanos do Corno de África, nem na intervenção dos senhores doutores dos médicos sem fronteiras, nem aterragem de farinhas recolhidas nos supermercados dos brancos.
É tudo isto que faltava mostrar, para que esta história de amor passasse disso mesmo. Para que o filme deixasse de ser uma mera estetização da miséria com o aproveitamento comercial do sofrimento da criança africana, faltava-lhe dizer a verdade.
O filme é, um thriller com uma história de amor, ao estilo de um Alfaiate do Panamá, nem mais, nem menos.
Friday, January 06, 2006
O simbionte parasita
Cerca de 200 anos de consolidação prática de um dos ideais mais predatórios da história da humanidade, fizeram também dele, um edifício social e orgânico permanentemente mutável e adaptável, deram-lhe capacidades de inteligência até hoje imbatíveis, mas não lhe retiraram o carácter autofágico e suicida que lhe é inerente e indissociável.
O capitalismo, tal como o conhecemos agora e mesmo nesta sua expressão imperialista, tem longa prática, longos anos de experiência, absorvendo na maioria das situações as maiores criações da humanidade para a satisfação das necessidades desse sistema, colocando a ciência e a economia ao serviço da sua sustentação e, sempre que possível, do seu próprio avanço político e estratégico.
A ofensiva ideológica é de tal forma brutal que a propaganda atinge graus de requinte nunca antes vistos. Num momento histórico em que, supostamente, a humanidade no geral devia estar mais capaz de analisar o meio, de interpretar a realidade e as formas de agir sobre ela, o capitalismo utiliza os mecanismos mais contraditórios de propaganda, assentes em raciocínios deveras elementares, mas ainda assim, muitas vezes praticamente indecifráveis. Os sinais são-nos dados diariamente, a cada segundo, em cada noticiário, em cada aula na escola, em cada dia de trabalho, em cada jornal. Mas tudo se torna bastante mais grave quando o capital detém inteiramente as forças governantes. Claro que isso acontece praticamente desde que existe capitalismo. Rapidamente o capital entendeu que, mesmo o parlamentarismo e as democracias representativas o podiam servir na perfeição, quem sabe, melhor até que uma assumida ditadura. A ilusão é a mais poderosa arma do capitalismo e do patronato. Numa altura em que a repressão não pode atingir os contornos que já atingiu – o que não quer dizer que não torne o capital a utilizá-la de forma massificada, caso entenda que é esse o recurso que mais o serve num futuro – o capital desenvolve novas formas de opressão.
A ofensiva ideológica que presenciamos actualmente é global e, obviamente, toma expressões diversas. Mas uma das suas formas mais preocupantes é a manipulação directa do raciocínio do indivíduo e dos colectivos, por via, quer de um controlo dos conteúdos educacionais, quer do recurso constante aos instrumentos de pressão social de que dispõe um estado. A utilização do Estado para servir o capital, no quadro da sua influência propagandística é um meio típico e habitual do capitalismo, complementado por uma forma de acção semelhante por parte dos partidos burgueses que disputam o poder executivo de um estado capitalista.
Indirectamente já nos remetemos a este assunto noutros posts. Hoje, quando subia um qualquer lance de escadas, revoltei-me com uma artimanha do capital admirável: fazer crer às massas trabalhadoras que o seu bem-estar depende do bem-estar e avanço do próprio capital. Curiosamente, esta relação é unívoca. O capital não assume, pelo contrário, combate a ideia de que o bem-estar das empresas depende do aumento do bem-estar dos trabalhadores.
Incontornavelmente, os interesses destes dois pólos (porque o capital não é propriamente uma classe, sendo representado por várias) são inconciliáveis. Existe um antagonismo insanável. Os trabalhadores anseiam a melhoria das suas condições de vida, dependente do valor dos seus salários e dos serviços públicos capazes de serem prestado pelo Estado. O capital aspira à maior arrecadação de lucro possível, extraído directamente do produto do trabalho dos outros. Ou seja, a razão lucro/salário deve ser sempre a maior possível para satisfazer o capital, verificando-se o inverso para os trabalhadores. À medida que essa taxa diminui o capital perde terreno. E é da diminuição dessa taxa que depende a qualidade de vida dos trabalhadores, bem como a capacidade de qualquer Estado de garantir os serviços básicos à sua população.
Não é raro, antes recorrente, ouvir o governo e os partidos burgueses, argumentarem constantemente com este postulado. A diminuição dos salários reais, por exemplo, ilustra perfeitamente esta concepção. Quanto menores forem os salários, mais vontade de investimento terá o capital privado, sabendo à partida que retirará mais lucros da sua actividade, ou seja, sabe de antemão que disporá de uma razão lucro/salário elevada. Ora, só por si, isto contraria a tese de que existe uma relação simbiótica entre trabalho e capital. Existe sim, uma relação parasitária entre estas duas forças.
Desiludam-se portanto aqueles que descansam ao ouvirem falar de grandes lucros, ou aqueles que suspiram de alívio quando ouvem dizer que tudo será privado porque os serviços públicos não prestam. Desiludam-se aqueles que esperam da florescência do mercado de capitais e do crescimento dos lucros advenientes da especulação uma melhoria concreta nas suas condições de vida. O capital, enquanto dominar, proporcionará aos trabalhadores exactamente o grau de qualidade de vida que julgar essencial para o cumprimento efectivo das tarefas que cabem aos trabalhadores. O capitalismo não anseia a sua própria ruptura e vem tratando a suas feridas provisoriamente e de forma remediada há muito, o que conduzirá a uma exposição cada vez maior das suas contradições internas, bem como das suas consequências junto dos povos.
O capitalismo, tal como o conhecemos agora e mesmo nesta sua expressão imperialista, tem longa prática, longos anos de experiência, absorvendo na maioria das situações as maiores criações da humanidade para a satisfação das necessidades desse sistema, colocando a ciência e a economia ao serviço da sua sustentação e, sempre que possível, do seu próprio avanço político e estratégico.
A ofensiva ideológica é de tal forma brutal que a propaganda atinge graus de requinte nunca antes vistos. Num momento histórico em que, supostamente, a humanidade no geral devia estar mais capaz de analisar o meio, de interpretar a realidade e as formas de agir sobre ela, o capitalismo utiliza os mecanismos mais contraditórios de propaganda, assentes em raciocínios deveras elementares, mas ainda assim, muitas vezes praticamente indecifráveis. Os sinais são-nos dados diariamente, a cada segundo, em cada noticiário, em cada aula na escola, em cada dia de trabalho, em cada jornal. Mas tudo se torna bastante mais grave quando o capital detém inteiramente as forças governantes. Claro que isso acontece praticamente desde que existe capitalismo. Rapidamente o capital entendeu que, mesmo o parlamentarismo e as democracias representativas o podiam servir na perfeição, quem sabe, melhor até que uma assumida ditadura. A ilusão é a mais poderosa arma do capitalismo e do patronato. Numa altura em que a repressão não pode atingir os contornos que já atingiu – o que não quer dizer que não torne o capital a utilizá-la de forma massificada, caso entenda que é esse o recurso que mais o serve num futuro – o capital desenvolve novas formas de opressão.
A ofensiva ideológica que presenciamos actualmente é global e, obviamente, toma expressões diversas. Mas uma das suas formas mais preocupantes é a manipulação directa do raciocínio do indivíduo e dos colectivos, por via, quer de um controlo dos conteúdos educacionais, quer do recurso constante aos instrumentos de pressão social de que dispõe um estado. A utilização do Estado para servir o capital, no quadro da sua influência propagandística é um meio típico e habitual do capitalismo, complementado por uma forma de acção semelhante por parte dos partidos burgueses que disputam o poder executivo de um estado capitalista.
Indirectamente já nos remetemos a este assunto noutros posts. Hoje, quando subia um qualquer lance de escadas, revoltei-me com uma artimanha do capital admirável: fazer crer às massas trabalhadoras que o seu bem-estar depende do bem-estar e avanço do próprio capital. Curiosamente, esta relação é unívoca. O capital não assume, pelo contrário, combate a ideia de que o bem-estar das empresas depende do aumento do bem-estar dos trabalhadores.
Incontornavelmente, os interesses destes dois pólos (porque o capital não é propriamente uma classe, sendo representado por várias) são inconciliáveis. Existe um antagonismo insanável. Os trabalhadores anseiam a melhoria das suas condições de vida, dependente do valor dos seus salários e dos serviços públicos capazes de serem prestado pelo Estado. O capital aspira à maior arrecadação de lucro possível, extraído directamente do produto do trabalho dos outros. Ou seja, a razão lucro/salário deve ser sempre a maior possível para satisfazer o capital, verificando-se o inverso para os trabalhadores. À medida que essa taxa diminui o capital perde terreno. E é da diminuição dessa taxa que depende a qualidade de vida dos trabalhadores, bem como a capacidade de qualquer Estado de garantir os serviços básicos à sua população.
Não é raro, antes recorrente, ouvir o governo e os partidos burgueses, argumentarem constantemente com este postulado. A diminuição dos salários reais, por exemplo, ilustra perfeitamente esta concepção. Quanto menores forem os salários, mais vontade de investimento terá o capital privado, sabendo à partida que retirará mais lucros da sua actividade, ou seja, sabe de antemão que disporá de uma razão lucro/salário elevada. Ora, só por si, isto contraria a tese de que existe uma relação simbiótica entre trabalho e capital. Existe sim, uma relação parasitária entre estas duas forças.
Desiludam-se portanto aqueles que descansam ao ouvirem falar de grandes lucros, ou aqueles que suspiram de alívio quando ouvem dizer que tudo será privado porque os serviços públicos não prestam. Desiludam-se aqueles que esperam da florescência do mercado de capitais e do crescimento dos lucros advenientes da especulação uma melhoria concreta nas suas condições de vida. O capital, enquanto dominar, proporcionará aos trabalhadores exactamente o grau de qualidade de vida que julgar essencial para o cumprimento efectivo das tarefas que cabem aos trabalhadores. O capitalismo não anseia a sua própria ruptura e vem tratando a suas feridas provisoriamente e de forma remediada há muito, o que conduzirá a uma exposição cada vez maior das suas contradições internas, bem como das suas consequências junto dos povos.
Queres saudinha? Paga!
Hoje foi discutido na Assembleia da República um Projecto de Lei do PCP que sustentava a revogação das taxas revogadoras praticadas no serviço nacional de saúde. A direita uniu-se, com a mãozinha do Partido Socialista, também ele cada vez mais posicionado à direita e mais uma vez manifestou a sua visão retrógrada perante os serviços públicos.
A verdade é que a política deste governo tem estado apostada no desmantelamento dos serviços públicos, não fazendo excepção do Serviço Nacional de Saúde, conquista irrevogável da Revolução Democrática de Abril. Das bancadas da direita, contando sempre a partir do corredor que divide as bancadas do PS e do PCP, sentiu-se o maior repúdio pela população. Acusou de tudo os portugueses que recorrem às urgências dos hospitais. Acusou-os de despesistas, alarmistas, abusadores, hipocondríacos, enfim… PS, PSD e CDS foram tão unânimes quanto reaccionários, sustentando que as pessoas vão às urgências porque este serviço é barato. Para estes partidos, o pessoal, os velhotes e tudo, vão às urgências porque curtem a cena de passar 5 a 6 horas num hall mal-cheiroso, onde se vê de tudo, desde o toxicodependente a vomitar ao nosso lado, ao velhote cadavérico que morre ali mesmo no corredor ao lado sem sequer um familiar que o abrace no último fôlego.
É isto mesmo. Eu, que me dirijo sempre que necessário às urgências dos hospitais públicos, gosto tanto de lá ir como de passear junto ao rio numa tarde soalheira. Aliás, como aquilo até me sai mais barato que umas bjecas na cervejaria mais próxima, vou ali desbundar uma beca as urgências do hospital, às vezes até convido os meus amigos e fazemos lá grandes festas.
E é muita giro! Mesmo ao nosso lado costuma estar sempre a acontecer uma rave da terceira idade reumática e hipertensa. São um clube muito restrito, porque não basta ser velho, tem de se ser também reumático e hipertenso.
Ora bem, para estes partidos, a desculpa é a seguinte: “Se houver taxas moderadoras, o pessoal não abusa dos hospitais.” Na verdade escondem a real intenção – fazer pagar pelo serviço público, pois é esse o primeiro passo para acabar com ele. Aquilo que é pago não é público, é híbrido… está na fronteira entre o público e o que em breve será privado. Utilizarei como ilustração a Educação. A educação pública era gratuita logo após o vinte e cinco de Abril. O governo de Cavaco Silva introduziu novamente o pagamento da taxa, vulgo propina, e daí até essa taxa atingir valores completamente descabidos foi espaço curtíssimo de tempo. Os estudantes permitiram a introdução da propina… o que estava em causa não era tanto o seu valor, mas a sua carga ideológica, o seu significado político e social.
Acontece que hoje, muito pouco tempo depois (cerca de 15-20 anos) as propinas já estão em 900€ e já impedem muita gente de estudar. Isto veio sem dúvida constituir o grande passo em frente do Ensino Superior Privado. Cada vez é mais semelhante o valor da propina no público e no privado. Quem ganha? A rede privada de educação que, curiosamente, consegue cobrir todo o território nacional, proeza que não consegue a rede pública universitária.
Ora, com a saúde está a passar-se o mesmo. A introdução da taxa moderadora, escudada num conjunto demagógico de pretextos, não é mais do que o início da mercantilização da saúde. Quem não quer uma saúde pública gratuita são as grandes empresas que exploram agora hospitais. A saúde pode ser uma autêntica máquina de fazer dinheiro, porque é algo a que não podemos escapar, se estamos doentes, temos de ir…
As taxas moderadoras continuam a existir… barbaramente. Irão aumentar, barbara e desproporcionadamente. Quem ganha? Ganha o neo-liberalismo e os hospitais e clínicas privadas. Quando for impossível recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, quer pelos exagerados preços, quer pela fraca prestação de um serviço que tem vindo a ser desmantelado, então os utentes serão obrigados a ir ao privado. Quando não restar um centro de saúde para escoar doenças menos urgentes, quando no hospital público, ao invés de esperarmos as 5 horas habituais pelo atendimento, esperarmos 10 por não existirem médicos no sector público, então, serão os privados a solução. Tudo bem… para quem? Para quem tiver dinheiro para pagar… quem não tiver… morra longe.
Isto está cada vez mais uma América. Acabe-se com a hipocrisia. É tempo de ir aos bolsos de quem tem dinheiro. Porque é que a banca e o sector financeiro pagam quantias miseráveis de impostos, quando são os sectores que mais lucram? Porque é que as transacções bolsistas não pagam impostos sobre as suas mais-valias? Para não ir a estes bolsos gigantescos buscar dinheiro e, pelo contrário, para os enriquecer cada vez vez mais temos cá o PS, o PSD e o CDS, paladinos do lucro, da desumanização e da exploração, sob a capa da hipocrisia e das lágrimas nos olhos pelos pobrezinhos.
A verdade é que a política deste governo tem estado apostada no desmantelamento dos serviços públicos, não fazendo excepção do Serviço Nacional de Saúde, conquista irrevogável da Revolução Democrática de Abril. Das bancadas da direita, contando sempre a partir do corredor que divide as bancadas do PS e do PCP, sentiu-se o maior repúdio pela população. Acusou de tudo os portugueses que recorrem às urgências dos hospitais. Acusou-os de despesistas, alarmistas, abusadores, hipocondríacos, enfim… PS, PSD e CDS foram tão unânimes quanto reaccionários, sustentando que as pessoas vão às urgências porque este serviço é barato. Para estes partidos, o pessoal, os velhotes e tudo, vão às urgências porque curtem a cena de passar 5 a 6 horas num hall mal-cheiroso, onde se vê de tudo, desde o toxicodependente a vomitar ao nosso lado, ao velhote cadavérico que morre ali mesmo no corredor ao lado sem sequer um familiar que o abrace no último fôlego.
É isto mesmo. Eu, que me dirijo sempre que necessário às urgências dos hospitais públicos, gosto tanto de lá ir como de passear junto ao rio numa tarde soalheira. Aliás, como aquilo até me sai mais barato que umas bjecas na cervejaria mais próxima, vou ali desbundar uma beca as urgências do hospital, às vezes até convido os meus amigos e fazemos lá grandes festas.
E é muita giro! Mesmo ao nosso lado costuma estar sempre a acontecer uma rave da terceira idade reumática e hipertensa. São um clube muito restrito, porque não basta ser velho, tem de se ser também reumático e hipertenso.
Ora bem, para estes partidos, a desculpa é a seguinte: “Se houver taxas moderadoras, o pessoal não abusa dos hospitais.” Na verdade escondem a real intenção – fazer pagar pelo serviço público, pois é esse o primeiro passo para acabar com ele. Aquilo que é pago não é público, é híbrido… está na fronteira entre o público e o que em breve será privado. Utilizarei como ilustração a Educação. A educação pública era gratuita logo após o vinte e cinco de Abril. O governo de Cavaco Silva introduziu novamente o pagamento da taxa, vulgo propina, e daí até essa taxa atingir valores completamente descabidos foi espaço curtíssimo de tempo. Os estudantes permitiram a introdução da propina… o que estava em causa não era tanto o seu valor, mas a sua carga ideológica, o seu significado político e social.
Acontece que hoje, muito pouco tempo depois (cerca de 15-20 anos) as propinas já estão em 900€ e já impedem muita gente de estudar. Isto veio sem dúvida constituir o grande passo em frente do Ensino Superior Privado. Cada vez é mais semelhante o valor da propina no público e no privado. Quem ganha? A rede privada de educação que, curiosamente, consegue cobrir todo o território nacional, proeza que não consegue a rede pública universitária.
Ora, com a saúde está a passar-se o mesmo. A introdução da taxa moderadora, escudada num conjunto demagógico de pretextos, não é mais do que o início da mercantilização da saúde. Quem não quer uma saúde pública gratuita são as grandes empresas que exploram agora hospitais. A saúde pode ser uma autêntica máquina de fazer dinheiro, porque é algo a que não podemos escapar, se estamos doentes, temos de ir…
As taxas moderadoras continuam a existir… barbaramente. Irão aumentar, barbara e desproporcionadamente. Quem ganha? Ganha o neo-liberalismo e os hospitais e clínicas privadas. Quando for impossível recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, quer pelos exagerados preços, quer pela fraca prestação de um serviço que tem vindo a ser desmantelado, então os utentes serão obrigados a ir ao privado. Quando não restar um centro de saúde para escoar doenças menos urgentes, quando no hospital público, ao invés de esperarmos as 5 horas habituais pelo atendimento, esperarmos 10 por não existirem médicos no sector público, então, serão os privados a solução. Tudo bem… para quem? Para quem tiver dinheiro para pagar… quem não tiver… morra longe.
Isto está cada vez mais uma América. Acabe-se com a hipocrisia. É tempo de ir aos bolsos de quem tem dinheiro. Porque é que a banca e o sector financeiro pagam quantias miseráveis de impostos, quando são os sectores que mais lucram? Porque é que as transacções bolsistas não pagam impostos sobre as suas mais-valias? Para não ir a estes bolsos gigantescos buscar dinheiro e, pelo contrário, para os enriquecer cada vez vez mais temos cá o PS, o PSD e o CDS, paladinos do lucro, da desumanização e da exploração, sob a capa da hipocrisia e das lágrimas nos olhos pelos pobrezinhos.
Sunday, January 01, 2006
Thursday, December 15, 2005
Valha-nos a razão que não temos
Não encontrei texto épico que pudesse ser base de sustento para o episódio que vivemos actualmente. Não há lusíadas, ilíada, odisseia, eneída nem outra qualquer composição heróica que ilustre as peripécias com que se cruza o colectivo português nesta sua fase, que de histórica só tem a tristeza, a desilusão e a vergonha.
Refiro-me, claro, à vergonha a que estamos sujeitos, como joguetes nas mãos das entidades do Olimpo, dos céus ou dos infernos. Claro, que, inevitavelmente (esperamos nós), o circo tem de se repetir em torno da escolha do presidente da república, pelo menos de 5 em 5 anos.
Mas o que já não era tão necessário, era a forma crescentemente decadente com que se tratam estas eleições nacionais. A desvalorização permanente em torno da figura do Presidente da República, a ascensão mítica da necessidade de reforçar o papel do presidente e da criação de um regime presidencialista à boa maneira norte-americana, são dois dos argumentos bafientos que, gradualmente e entre outros, nos impingem.
Cinco candidatos. Caso curioso. Em que diferem? O que está em jogo?
Para variar, a imprensa, a rádio e a Televisão fazem tudo para circunscrever a batalha eleitoral a este ou aquele candidato que melhor serve os interesses que manipulam esses mesmos órgãos de comunicação social. Ora, se os donos dos jornais, das rádios e das televisões apoiam determinado candidato, seríamos todos ingénuos, senão otários, em crer que os seus tentáculos comunicativos pudessem ser, efectivamente e como se afirmam, isentos. Na forma como se encara a realidade, particularmente na forma como se a interpreta, não há lugar a isenções. Eu não posso, não consigo, nem quero, ser imparcial… mas assumo-o. Quem ler isto, está desde o cabeçalho da página, avisado de que está sujeito a levar com uma opinião parcial, sinistra.
No entanto, abundam os jornais nacionais, regionais e locais, pejados de imparcialidade falsa, como abundam noticiários por rádio e televisão que se afirmam responsáveis e isentos, sem que na verdade o sejam.
Podemos ser acusados de tudo, mas não nos acusem de falsidade. Está assumida a nossa parcialidade. Parcialidade essa que é, simultaneamente, um apelo à inteligência. Não vendemos nada. Não apoiamos Jerónimo de Sousa só porque é quem fala melhor, mas porque é aquele único candidato que está do mesmo lado que nós. Assumimo-lo, sem qualquer espécie de prurido. O mesmo não são capazes de fazer os senhores que apoiam Cavaco. Escondem-se por detrás da capa da isenção, da seriedade…
Ainda há dois ou três dias atrás, num debate transmitido pela TV, confrontaram ideias Jerónimo de Sousa, candidato que se compromete com os trabalhadores, e Cavaco, candidato comprometido com o dinheiro dos seus patrões. E, pasme-se, vi o debate de fio a pavio e achei que o Cavaco foi muito pobre… Já o sabia miserável, mas nunca ao ponto de chamar a sua própria Maria para o debate, para justificar o quanto gosta de mulheres – “Lá em casa a minha mulher ri-se muito” – só visto. Cavaco insistiu nas concepções vagas de desenvolvimento económico, competitividade, inovação… mas não disse uma palavra sobre o desmantelamento do aparelho produtivo. Justificou novamente os seus actos de prepotência quando investiu contra manifestantes recorrendo às forças de segurança nacionais. Fingiu uma preocupação social que nunca soube sequer o que significa. Falou a custo sobre racismo e imigração, engolindo as palavras que proferia como se fossem pedras insolúveis na saliva do seu pensamento. “Eu rejeito o racismo” dizia, com o ar de quem engole fel e sorri para não ser mal-educado. Hoje lia-se no Diário de Notícias, pela pena do mais ordinário dos ordinários que teria sido genial a tirada: “Olhe que não… olhe que não”… Genial!? O Cavaco vinha com a piada preparada de casa, provavelmente enfiada na sua parca cabecinha por um dos seus bem pagos assessores de campanha, ou managers, ou que raio são. Além disso, reconhecê-la como genial é, no mínimo, depreciativo do sujeito e da sua fasquia para o “genial”.
Jerónimo de Sousa, por seu lado, não foi excepcional, não foi genial, não é diferente de si próprio. Coloca-se, verdadeiramente, num discurso que ele moldou, mas que também o moldou a ele. Defende o que diz e diz o que defende, ao contrário de Cavaco Silva que, manifestamente, adapta o discurso à circunstância, não preenchendo nunca as lacunas. No discurso do Cavaco estão todas as palavras sonoras, mas não assume verbalmente, nem por uma vez, o carácter ideológico da sua candidatura. Salvo quando lhe foge o pobre raciocínio para a boca.
Naquele debate, independentemente da nossa parcialidade inevitável, Jerónimo foi mais sincero, mais frontal, menos esguio, menos falso. Naquele debate ou tempo de antena partilhado – porque de debate tem muito pouco este novo modelo americanóide, feito á imagem do que convém ao Cavaco – Naquele debate, Jerónimo mostrou que, independentemente do que não diga agora o candidato da direita, ele está incontornavelmente apostado na escalada reaccionária contra a essência da Constituição da República Portuguesa. Mostrou que, na sua simplicidade, é Homem para assumir a defesa dos trabalhadores, porque defendê-los é defender exactamente a constituição. É uma simplicidade determinada, de quem está inteiramente ao lado dos que trabalham e dos que são explorados. Um Jerónimo que se mostrou como o único, juntando outros elementos ao debate, capaz de promover uma ruptura democrática com a entrega do nosso país ao capital e ao capital transnacional.
Mas para o génio miserável do Diário de Notícias, triste traste da direita portuguesa, comprometido com a isenção. Ali escarrou um texto vergonhoso, provavelmente escrito à última da hora, só para fazer o frete para que foi pago.
Para ele, pouco importa que Cavaco tenha vendido Portugal ao desbarato, garantido um défice das contas públicas historicamente alto, para ele pouco importa que Cavaco tenha voltado a justificar todas as medidas que tomou no passado. Para ele pouco importa que Cavaco tenha sido um pobre exemplo da pose de Estado, desde o seu aspecto físico ao seu timbre bolorento de voz, passando essencialmente pela sua pobreza ideológica e argumentativa.
Refiro-me, claro, à vergonha a que estamos sujeitos, como joguetes nas mãos das entidades do Olimpo, dos céus ou dos infernos. Claro, que, inevitavelmente (esperamos nós), o circo tem de se repetir em torno da escolha do presidente da república, pelo menos de 5 em 5 anos.
Mas o que já não era tão necessário, era a forma crescentemente decadente com que se tratam estas eleições nacionais. A desvalorização permanente em torno da figura do Presidente da República, a ascensão mítica da necessidade de reforçar o papel do presidente e da criação de um regime presidencialista à boa maneira norte-americana, são dois dos argumentos bafientos que, gradualmente e entre outros, nos impingem.
Cinco candidatos. Caso curioso. Em que diferem? O que está em jogo?
Para variar, a imprensa, a rádio e a Televisão fazem tudo para circunscrever a batalha eleitoral a este ou aquele candidato que melhor serve os interesses que manipulam esses mesmos órgãos de comunicação social. Ora, se os donos dos jornais, das rádios e das televisões apoiam determinado candidato, seríamos todos ingénuos, senão otários, em crer que os seus tentáculos comunicativos pudessem ser, efectivamente e como se afirmam, isentos. Na forma como se encara a realidade, particularmente na forma como se a interpreta, não há lugar a isenções. Eu não posso, não consigo, nem quero, ser imparcial… mas assumo-o. Quem ler isto, está desde o cabeçalho da página, avisado de que está sujeito a levar com uma opinião parcial, sinistra.
No entanto, abundam os jornais nacionais, regionais e locais, pejados de imparcialidade falsa, como abundam noticiários por rádio e televisão que se afirmam responsáveis e isentos, sem que na verdade o sejam.
Podemos ser acusados de tudo, mas não nos acusem de falsidade. Está assumida a nossa parcialidade. Parcialidade essa que é, simultaneamente, um apelo à inteligência. Não vendemos nada. Não apoiamos Jerónimo de Sousa só porque é quem fala melhor, mas porque é aquele único candidato que está do mesmo lado que nós. Assumimo-lo, sem qualquer espécie de prurido. O mesmo não são capazes de fazer os senhores que apoiam Cavaco. Escondem-se por detrás da capa da isenção, da seriedade…
Ainda há dois ou três dias atrás, num debate transmitido pela TV, confrontaram ideias Jerónimo de Sousa, candidato que se compromete com os trabalhadores, e Cavaco, candidato comprometido com o dinheiro dos seus patrões. E, pasme-se, vi o debate de fio a pavio e achei que o Cavaco foi muito pobre… Já o sabia miserável, mas nunca ao ponto de chamar a sua própria Maria para o debate, para justificar o quanto gosta de mulheres – “Lá em casa a minha mulher ri-se muito” – só visto. Cavaco insistiu nas concepções vagas de desenvolvimento económico, competitividade, inovação… mas não disse uma palavra sobre o desmantelamento do aparelho produtivo. Justificou novamente os seus actos de prepotência quando investiu contra manifestantes recorrendo às forças de segurança nacionais. Fingiu uma preocupação social que nunca soube sequer o que significa. Falou a custo sobre racismo e imigração, engolindo as palavras que proferia como se fossem pedras insolúveis na saliva do seu pensamento. “Eu rejeito o racismo” dizia, com o ar de quem engole fel e sorri para não ser mal-educado. Hoje lia-se no Diário de Notícias, pela pena do mais ordinário dos ordinários que teria sido genial a tirada: “Olhe que não… olhe que não”… Genial!? O Cavaco vinha com a piada preparada de casa, provavelmente enfiada na sua parca cabecinha por um dos seus bem pagos assessores de campanha, ou managers, ou que raio são. Além disso, reconhecê-la como genial é, no mínimo, depreciativo do sujeito e da sua fasquia para o “genial”.
Jerónimo de Sousa, por seu lado, não foi excepcional, não foi genial, não é diferente de si próprio. Coloca-se, verdadeiramente, num discurso que ele moldou, mas que também o moldou a ele. Defende o que diz e diz o que defende, ao contrário de Cavaco Silva que, manifestamente, adapta o discurso à circunstância, não preenchendo nunca as lacunas. No discurso do Cavaco estão todas as palavras sonoras, mas não assume verbalmente, nem por uma vez, o carácter ideológico da sua candidatura. Salvo quando lhe foge o pobre raciocínio para a boca.
Naquele debate, independentemente da nossa parcialidade inevitável, Jerónimo foi mais sincero, mais frontal, menos esguio, menos falso. Naquele debate ou tempo de antena partilhado – porque de debate tem muito pouco este novo modelo americanóide, feito á imagem do que convém ao Cavaco – Naquele debate, Jerónimo mostrou que, independentemente do que não diga agora o candidato da direita, ele está incontornavelmente apostado na escalada reaccionária contra a essência da Constituição da República Portuguesa. Mostrou que, na sua simplicidade, é Homem para assumir a defesa dos trabalhadores, porque defendê-los é defender exactamente a constituição. É uma simplicidade determinada, de quem está inteiramente ao lado dos que trabalham e dos que são explorados. Um Jerónimo que se mostrou como o único, juntando outros elementos ao debate, capaz de promover uma ruptura democrática com a entrega do nosso país ao capital e ao capital transnacional.
Mas para o génio miserável do Diário de Notícias, triste traste da direita portuguesa, comprometido com a isenção. Ali escarrou um texto vergonhoso, provavelmente escrito à última da hora, só para fazer o frete para que foi pago.
Para ele, pouco importa que Cavaco tenha vendido Portugal ao desbarato, garantido um défice das contas públicas historicamente alto, para ele pouco importa que Cavaco tenha voltado a justificar todas as medidas que tomou no passado. Para ele pouco importa que Cavaco tenha sido um pobre exemplo da pose de Estado, desde o seu aspecto físico ao seu timbre bolorento de voz, passando essencialmente pela sua pobreza ideológica e argumentativa.
Acesa contenda (O império toma partido)
Após acesa contenda argumentativa, a Assembleia do Império Bárbaro decidiu, por unanimidade, o apoio a um candidato à Presidência da República.
Como blog que pugna, irremediavelmente, pela transformação do mundo e da ordem das coisas, esta era apenas mais uma fase que nos exigia tomar uma decisão. Ora, analisando as opções, a Assembleia, reunida numa viela de Lisboa onde cheirava a ginja e cidra, teceu a seguinte resolução.
1. Os candidatos à Presidência da República não surgiram agora, já existiam antes da marcação da data das eleições. Todos, sem excepção, também já existiam antes do anúncio das suas candidaturas a este órgão de soberania.
2. O Mário Soares é um traidor da classe operária, reciclada velharia do baú do desespero, contribuindo com a sua candidatura para a desacreditação do sistema democrático e da sua capacidade de auto-regeneração. Ao assumir-se como candidato, retira a confiança à própria população portuguesa, achando que é o único homem do país capaz de ser Presidente. O PS apoia este, porque se está borrifando para quem ganha as eleições, desde que seja o Cavaco, tolerando ainda o Soares e o Manuel. Aliás, para o actual governo do PS, o candidato que melhor garante a estabilidade dos trabalhos de desmantelamento nacional e atentados contra a pátria é o Cavaco. O Soares é um mito. Custa-me crer que ainda posso ter de vir a votar nele. Anima-me a ideia de que, caso isso tenha de acontecer, esta será provavelmente, a última vez.
3. O Manuel Alegre é um poeta fingidor no verdadeiro sentido da palavra. Ainda que fosse um poeta real e sincero, não faria dele automaticamente um humanista e um bom Presidente. No entanto, ele é mesmo falso. É resquício da aristocracia arrogante, do nariz empinado típico dos olhem-para-mim-que-sei-escrever-coisas-bonitas-mesmo-que-sejam-sobre-o-25-de-abril-revolução-que-em-vez-de-esperança-me-dá-comichão. É pois, este, um senhor que utilizou sempre a esquerda como o garante de poleiro. Um homem acima dos partidos mas a quem só faltou rastejar no esterco dos porcos do Montijo para implorar mais do que implorou ao PS o seu apoio partidário. Um caçador nato, não só de patos, mas de ingenuidades.
4. O Francisco Louçã é um candidato de ressabianço. O berloque não podia deixar passar esta oportunidade para relembrar todos que ainda existe. Principalmente depois da talhada que levaram nas autárquicas, impunha-se dizer ao povo que continuam cá. Com esta candidatura até garantem mais umas colocações acima do PCP nas sondagens. Mesmo que depois isso não se reflicta sequer num amendoim. O que importa são os jornais e os comentadores. Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade… pelo menos na cabecinha mimada do senhor Francisco Louçã (passe a citação de Goebbels).
5. O Cavaco é o candidato dos interesses do capital. É o candidato que preferia matar a Constituição à facada que jurar ter de a cumprir e fazer cumprir. Mas… ele está disposto a fazer esse esforço: jurar defendê-la e depois assassiná-la com desdém. Cavaco tem um brilho horrível na testa que insiste em não limpar… nós achamos que é suor. Cavaco é de direita. Cavaco fingiu que já não gosta do PSD só porque ninguém gosta do PSD. Cavaco não quer o apoio público da mula da cooperativa, mas a mula é a sombra do Cavaco. O Cavaco diz que lá em casa, a sua mulher se farta de rir e que gosta muito dela. O Cavaco não sabe falar como deve de ser. O Cavaco gosta do Sócrates e o Sócrates gosta do Cavaco. Nós não gostamos do Sócrates. O Cavaco acha bem vender o país ao capital nacional e finge não saber que o capital nacional vende o país ao capital estrangeiro, que depois compra o Cavaco. O Cavaco é um ser do passado, um cogumelo das caves escuras da história do país, um ser que ainda cheira aos bolores do fascimo, do corporativismo e do chauvinismo. Cavaco é contra a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, defendendo que as mulheres portuguesas devem continuar a ser presas, julgadas e humilhadas por terem tomado a decisão mais difícil das suas vidas, confrontadas com a ausência de meios para sustentar o seu filho. Cavaco está-se nas tintas para a IVG porque as mulheres dos seus patrocinadores vão abortar ao estrangeiro. O Cavaco é o candidato anti-Portugal.
6. O Jerónimo é o único que assume a sua parcialidade. É o único que fala contra as últimas revisões constitucionais descaracterizadoras. É o único que fala de desenvolvimento, justificando simultaneamente, com a defesa e fortalecimento do aparelho de produção nacional. É o único que não fala por palavras fáceis, preferindo explicar o que diz, mesmo que isso não mereça capas de jornal, nem soe tão bem aos ouvidos dos mais distraídos. É o único que não molda o discurso conforme a plateia. É o único capaz de defender a Constituição e os seus princípios, não por palavras, mas por ideais. Além disso, o Jerónimo é sincero, afável e simpático. Não é doutor, não é poeta, mas é construtor. Construtor empenhado do mundo do futuro.
7. Não descansamos à sombra das barbaridades que nos dizem que o Cavaco é o imaculado salvador da pátria, o messias esperado. Relembramos o passado e o papel histórico de cada um dos candidatos, fazendo jus ao ponto 1. O Império bárbaro apoia a candidatura de Jerónimo de Sousa à Presidência da República Portuguesa.
Como blog que pugna, irremediavelmente, pela transformação do mundo e da ordem das coisas, esta era apenas mais uma fase que nos exigia tomar uma decisão. Ora, analisando as opções, a Assembleia, reunida numa viela de Lisboa onde cheirava a ginja e cidra, teceu a seguinte resolução.
1. Os candidatos à Presidência da República não surgiram agora, já existiam antes da marcação da data das eleições. Todos, sem excepção, também já existiam antes do anúncio das suas candidaturas a este órgão de soberania.
2. O Mário Soares é um traidor da classe operária, reciclada velharia do baú do desespero, contribuindo com a sua candidatura para a desacreditação do sistema democrático e da sua capacidade de auto-regeneração. Ao assumir-se como candidato, retira a confiança à própria população portuguesa, achando que é o único homem do país capaz de ser Presidente. O PS apoia este, porque se está borrifando para quem ganha as eleições, desde que seja o Cavaco, tolerando ainda o Soares e o Manuel. Aliás, para o actual governo do PS, o candidato que melhor garante a estabilidade dos trabalhos de desmantelamento nacional e atentados contra a pátria é o Cavaco. O Soares é um mito. Custa-me crer que ainda posso ter de vir a votar nele. Anima-me a ideia de que, caso isso tenha de acontecer, esta será provavelmente, a última vez.
3. O Manuel Alegre é um poeta fingidor no verdadeiro sentido da palavra. Ainda que fosse um poeta real e sincero, não faria dele automaticamente um humanista e um bom Presidente. No entanto, ele é mesmo falso. É resquício da aristocracia arrogante, do nariz empinado típico dos olhem-para-mim-que-sei-escrever-coisas-bonitas-mesmo-que-sejam-sobre-o-25-de-abril-revolução-que-em-vez-de-esperança-me-dá-comichão. É pois, este, um senhor que utilizou sempre a esquerda como o garante de poleiro. Um homem acima dos partidos mas a quem só faltou rastejar no esterco dos porcos do Montijo para implorar mais do que implorou ao PS o seu apoio partidário. Um caçador nato, não só de patos, mas de ingenuidades.
4. O Francisco Louçã é um candidato de ressabianço. O berloque não podia deixar passar esta oportunidade para relembrar todos que ainda existe. Principalmente depois da talhada que levaram nas autárquicas, impunha-se dizer ao povo que continuam cá. Com esta candidatura até garantem mais umas colocações acima do PCP nas sondagens. Mesmo que depois isso não se reflicta sequer num amendoim. O que importa são os jornais e os comentadores. Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade… pelo menos na cabecinha mimada do senhor Francisco Louçã (passe a citação de Goebbels).
5. O Cavaco é o candidato dos interesses do capital. É o candidato que preferia matar a Constituição à facada que jurar ter de a cumprir e fazer cumprir. Mas… ele está disposto a fazer esse esforço: jurar defendê-la e depois assassiná-la com desdém. Cavaco tem um brilho horrível na testa que insiste em não limpar… nós achamos que é suor. Cavaco é de direita. Cavaco fingiu que já não gosta do PSD só porque ninguém gosta do PSD. Cavaco não quer o apoio público da mula da cooperativa, mas a mula é a sombra do Cavaco. O Cavaco diz que lá em casa, a sua mulher se farta de rir e que gosta muito dela. O Cavaco não sabe falar como deve de ser. O Cavaco gosta do Sócrates e o Sócrates gosta do Cavaco. Nós não gostamos do Sócrates. O Cavaco acha bem vender o país ao capital nacional e finge não saber que o capital nacional vende o país ao capital estrangeiro, que depois compra o Cavaco. O Cavaco é um ser do passado, um cogumelo das caves escuras da história do país, um ser que ainda cheira aos bolores do fascimo, do corporativismo e do chauvinismo. Cavaco é contra a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, defendendo que as mulheres portuguesas devem continuar a ser presas, julgadas e humilhadas por terem tomado a decisão mais difícil das suas vidas, confrontadas com a ausência de meios para sustentar o seu filho. Cavaco está-se nas tintas para a IVG porque as mulheres dos seus patrocinadores vão abortar ao estrangeiro. O Cavaco é o candidato anti-Portugal.
6. O Jerónimo é o único que assume a sua parcialidade. É o único que fala contra as últimas revisões constitucionais descaracterizadoras. É o único que fala de desenvolvimento, justificando simultaneamente, com a defesa e fortalecimento do aparelho de produção nacional. É o único que não fala por palavras fáceis, preferindo explicar o que diz, mesmo que isso não mereça capas de jornal, nem soe tão bem aos ouvidos dos mais distraídos. É o único que não molda o discurso conforme a plateia. É o único capaz de defender a Constituição e os seus princípios, não por palavras, mas por ideais. Além disso, o Jerónimo é sincero, afável e simpático. Não é doutor, não é poeta, mas é construtor. Construtor empenhado do mundo do futuro.
7. Não descansamos à sombra das barbaridades que nos dizem que o Cavaco é o imaculado salvador da pátria, o messias esperado. Relembramos o passado e o papel histórico de cada um dos candidatos, fazendo jus ao ponto 1. O Império bárbaro apoia a candidatura de Jerónimo de Sousa à Presidência da República Portuguesa.
Sunday, December 04, 2005
Cavaquices
"Cavaco será um bom presidente com um bom primeiro-ministro- Sócrates." Esta piada não é das últimas do Gato Fedorento, mas sim do mui conhecido comediante, Belmiro de Azevedo.
Provavelmente, o Homem Sonae não terá dito isto para divertir os portugueses, mas porque acha mesmo. Porque, como lia há dias, o que é bom para o Belmiro, não é bom para a generalidade dos portugueses. Não sou eu que o digo, basta ver os últimos estudos e olhar para a nossa vida e dos próximos. Enquanto aumenta o desemprego (passámos a fasquia dos 600 000!), o custo de vida e pobreza generaliza-se, o grupo económico do belmiro viu aumentar os seus lucros em muitas centenas de milhões de euros. Ora, portanto, podemos concluir que a crise e o apertar do cinto é para alguns (muitos!), enquanto há outros que enriquecem com a crise.
Não é de admirar que o Belmiro e outros como ele apoiem Cavaco Silva na sua candidatura à Presidência da República. Cavaco Silva foi, e quer voltar a ser o melhor amigo do grande patronato (o tal que enche os bolsos à custa da crise dos outros).
Esta coisa da memória curta (já abordada noutro texto) faz-nos esquecer o que foram dez anos de Cavaco como Primeiro-Ministro. As tentativas de limitação ao direito à greve, o pacote laboral, a liquidação do aparelho produtivo português (e consequente aumento do défice - não, não são as despesas com coisas como a educação e saúde que fazem subir o défice, tem é a ver com se ter vendido ou destruido tudo o que eram fábricas e empresas nacionalizadas), o envio de forças de choque contra estudantes e trabalhadores pela primeira vez desde o 25 de Abril, o aparecimento de uma coisa chamada propina no ensino superior, tudo isto tem o dedo de Cavaco Silva.
Concluindo, e já que que o Império tomou Partido pelo candidato do povo e dos trabalhadores, desenganem-se aqules que vêm no Cavaco o salvador para todos os males. Cavaco está, como esteve durante dez anos à frente do governo, do lado dos que vivem à custa de explorar os outros, que vivem do desemprego e consequente aumento de mão-de-obra barata, sem direitos.
Cavaco é o candidato dos grupos económicos.
Provavelmente, o Homem Sonae não terá dito isto para divertir os portugueses, mas porque acha mesmo. Porque, como lia há dias, o que é bom para o Belmiro, não é bom para a generalidade dos portugueses. Não sou eu que o digo, basta ver os últimos estudos e olhar para a nossa vida e dos próximos. Enquanto aumenta o desemprego (passámos a fasquia dos 600 000!), o custo de vida e pobreza generaliza-se, o grupo económico do belmiro viu aumentar os seus lucros em muitas centenas de milhões de euros. Ora, portanto, podemos concluir que a crise e o apertar do cinto é para alguns (muitos!), enquanto há outros que enriquecem com a crise.
Não é de admirar que o Belmiro e outros como ele apoiem Cavaco Silva na sua candidatura à Presidência da República. Cavaco Silva foi, e quer voltar a ser o melhor amigo do grande patronato (o tal que enche os bolsos à custa da crise dos outros).
Esta coisa da memória curta (já abordada noutro texto) faz-nos esquecer o que foram dez anos de Cavaco como Primeiro-Ministro. As tentativas de limitação ao direito à greve, o pacote laboral, a liquidação do aparelho produtivo português (e consequente aumento do défice - não, não são as despesas com coisas como a educação e saúde que fazem subir o défice, tem é a ver com se ter vendido ou destruido tudo o que eram fábricas e empresas nacionalizadas), o envio de forças de choque contra estudantes e trabalhadores pela primeira vez desde o 25 de Abril, o aparecimento de uma coisa chamada propina no ensino superior, tudo isto tem o dedo de Cavaco Silva.
Concluindo, e já que que o Império tomou Partido pelo candidato do povo e dos trabalhadores, desenganem-se aqules que vêm no Cavaco o salvador para todos os males. Cavaco está, como esteve durante dez anos à frente do governo, do lado dos que vivem à custa de explorar os outros, que vivem do desemprego e consequente aumento de mão-de-obra barata, sem direitos.
Cavaco é o candidato dos grupos económicos.
Wednesday, November 30, 2005
Tuesday, November 29, 2005
Pergunte-se ao Pacman!
Há, portanto, um candidato alternativo, dizem eles. Um candidato acima das politiquices dos partidos, do sistema. Um candidato tão de esquerda e tão humanista, que até é poeta.
Existem dois exercícos que podemos fazer em relação a este candidato.
Em primeiro lembrarmo-nos: que é dirigente do PS desde a sua fundação, e que é deputado, eleito pelo PS, desde 76.
Em segundo perguntarmo-nos: Quando se tratou de desbaratar o nosso sistema produtivo, de que lado é que ele esteve?
Quando se tratou de perpetuar a precarização e a flexibilização dos postos de trabalho, de que lado é que ele esteve?
Quando se tratou de enviar tropas para ocupar outro país, onde é que estava o nosso amigo, que até escreve umas coisas sobre a paz?
Quando se tratou de limitar a vida democrática dos partidos, de que lado é que votou, ele que até escreve umas coisas sobre a liberdade e a democracia?
Quando se tratou de limitar a entrada de milhares de jovens a um nível superior de educação,de que lado é que ele esteve?
pois...
Para se poder ser de esquerda, não basta encher o peito e falar alto sobre liberdade e democracia, é necessário estar efectivamente do lado dos trabalhadores e das populações.
Existem dois exercícos que podemos fazer em relação a este candidato.
Em primeiro lembrarmo-nos: que é dirigente do PS desde a sua fundação, e que é deputado, eleito pelo PS, desde 76.
Em segundo perguntarmo-nos: Quando se tratou de desbaratar o nosso sistema produtivo, de que lado é que ele esteve?
Quando se tratou de perpetuar a precarização e a flexibilização dos postos de trabalho, de que lado é que ele esteve?
Quando se tratou de enviar tropas para ocupar outro país, onde é que estava o nosso amigo, que até escreve umas coisas sobre a paz?
Quando se tratou de limitar a vida democrática dos partidos, de que lado é que votou, ele que até escreve umas coisas sobre a liberdade e a democracia?
Quando se tratou de limitar a entrada de milhares de jovens a um nível superior de educação,de que lado é que ele esteve?
pois...
Para se poder ser de esquerda, não basta encher o peito e falar alto sobre liberdade e democracia, é necessário estar efectivamente do lado dos trabalhadores e das populações.
(e desses só conheço um candidato)
Thursday, November 17, 2005
Custas judiciais, Thatcher, Sócrates e sindicatos
Pois é. Um relação bárbara esta. E só mesmo um sistema tão aprimorado como o capital para se ir lembrar de uma destas.
Já nos anos oitenta uma daquelas digníssimas figuras de estado se havia lembrado de estratégia tão apurada e eficiente. Uma daquelas figuras que não merecerá mais no futuro que não o desdém do mundo. Ainda que no presente seja uma daquelas que, como alguns da nossa pátria, ressuscita tal Fénix em todo o seu esplendor. Desses salvadores messiânicos, contará o futuro apenas a verdade. Ficarão apenas as bocas famintas que deixaram em nome de chorudas contas bancárias e o rasto de destruição em nome de autoridade e moral.
E que nome de alta figura de Estado é aqui invocado? Thatcher. A “Dama de Ferro”. Responsável por utilizar uma política que tanto tem de maquiavélica como de predatória da classe trabalhadora. Os métodos do capital começam a perder a criatividade. Recorreu tão ilustre senhora ao aumento escabroso das custas judiciais e à diminuição da ajuda estatal. Com isto, apaziguou, tal como em Portugal agora se faz, muitos pilares da burguesia. Para isto, desculpou-se com a justiça social. Aumentou as custas. Diminuiu o apoio do Estado. Quem ficou a perder?
Não precisarás de mais que uma linha para adivinhar, certamente.
Ficaram a perder aqueles que, só com muita dificuldade as poderiam pagar, os trabalhadores. Com isto, com a incapacidade de recorrer ao apoio judicial, os trabalhadores deixaram também de ter o acesso à justiça. O acesso à justiça passou a ser também ele, reservado a uma elite. Por diversos motivos.
Um: o facto de um trabalhador não ter suficiente dinheiro para suportar as custas judiciais, afasta-o do recurso à justiça. Mesmo que tenha razão, por exemplo…. Num processo de despedimento sem justa causa.
Dois: ao acabar com os processos dos trabalhadores pobres a “entupirem” os tribunais, fica a costa livre para as grandes empresas e seus já habituais processos de dívidas e outros semelhantes banditismos. Aceleram-se os processos que beneficiam o grande capital.
As consequências imediatas de tão vil estratégia estão já à vista. As de médio-prazo? Sócrates acaba de as mostrar em Portugal. Com as dificuldades dos trabalhadores surgem as das suas estruturas sindicais. Com isso perde a capacidade reivindicativa das classes exploradas, favorecendo obviamente os do costume. Com sindicatos incapazes de sustentar as custas judiciais dos seus membros, cresce um descontentamento difícil de contrariar junto dos trabalhadores. Cresce a incapacidade de organizar a defesa. Diminui a capacidade financeira do sindicato. Fim.
NÃO! Também sobre isto o futuro reservará apenas uma negra página, lembrando as artimanhas do capitalismo, para que não venhamos a sofrer do mesmo num amanhã qualquer.
Já nos anos oitenta uma daquelas digníssimas figuras de estado se havia lembrado de estratégia tão apurada e eficiente. Uma daquelas figuras que não merecerá mais no futuro que não o desdém do mundo. Ainda que no presente seja uma daquelas que, como alguns da nossa pátria, ressuscita tal Fénix em todo o seu esplendor. Desses salvadores messiânicos, contará o futuro apenas a verdade. Ficarão apenas as bocas famintas que deixaram em nome de chorudas contas bancárias e o rasto de destruição em nome de autoridade e moral.
E que nome de alta figura de Estado é aqui invocado? Thatcher. A “Dama de Ferro”. Responsável por utilizar uma política que tanto tem de maquiavélica como de predatória da classe trabalhadora. Os métodos do capital começam a perder a criatividade. Recorreu tão ilustre senhora ao aumento escabroso das custas judiciais e à diminuição da ajuda estatal. Com isto, apaziguou, tal como em Portugal agora se faz, muitos pilares da burguesia. Para isto, desculpou-se com a justiça social. Aumentou as custas. Diminuiu o apoio do Estado. Quem ficou a perder?
Não precisarás de mais que uma linha para adivinhar, certamente.
Ficaram a perder aqueles que, só com muita dificuldade as poderiam pagar, os trabalhadores. Com isto, com a incapacidade de recorrer ao apoio judicial, os trabalhadores deixaram também de ter o acesso à justiça. O acesso à justiça passou a ser também ele, reservado a uma elite. Por diversos motivos.
Um: o facto de um trabalhador não ter suficiente dinheiro para suportar as custas judiciais, afasta-o do recurso à justiça. Mesmo que tenha razão, por exemplo…. Num processo de despedimento sem justa causa.
Dois: ao acabar com os processos dos trabalhadores pobres a “entupirem” os tribunais, fica a costa livre para as grandes empresas e seus já habituais processos de dívidas e outros semelhantes banditismos. Aceleram-se os processos que beneficiam o grande capital.
As consequências imediatas de tão vil estratégia estão já à vista. As de médio-prazo? Sócrates acaba de as mostrar em Portugal. Com as dificuldades dos trabalhadores surgem as das suas estruturas sindicais. Com isso perde a capacidade reivindicativa das classes exploradas, favorecendo obviamente os do costume. Com sindicatos incapazes de sustentar as custas judiciais dos seus membros, cresce um descontentamento difícil de contrariar junto dos trabalhadores. Cresce a incapacidade de organizar a defesa. Diminui a capacidade financeira do sindicato. Fim.
NÃO! Também sobre isto o futuro reservará apenas uma negra página, lembrando as artimanhas do capitalismo, para que não venhamos a sofrer do mesmo num amanhã qualquer.
Thursday, November 10, 2005
Marxismo e Ambiente
Há alguns anos atrás li um livro, cujo autor e editora não recordo os nomes, com o título “Marxismo e Ambiente”. Aquele livro despertou-me, na altura, para uma temática deveras importante. Tão importante quanto nova para o meu raciocínio, na altura, o de um marxista incipiente.
O ambiente, em senso lato, é toda o meio envolvente ao Ser Humano. No tratamento que aqui lhe vamos dar, o ambiente é apenas toda a
Natureza que nos rodeia, por nós influenciada e que sobre nós influi, mas que existe sem ter sido concebida pelo Ser Humano. Num entendimento mais estrito, trataremos o Ambiente essencialmente enquanto o conjunto dos recursos naturais que servem de sustento ao desenvolvimento das espécies vivas que habitam em regimes ecológicos interdependentes o planeta.
O marxismo e a prática económica que lhe subjaz são caracterizados, entre outros, por dois vectores paralelos:
1. o da utilização da economia ao serviço do conjunto dos Seres Humanos que intervêm na produção;
2. o da justa distribuição da riqueza ao invés da concentração e cumulação do lucro.
Quando nos defrontamos com a grande maioria dos casos de delapidação ou destruição ambiental actual, encontramos em larga escala uma relação directa entre eles e a exploração dos recursos naturais. Os grandes responsáveis pela degradação ambiental não são as populações, mas sim as grandes indústrias, quer sejam as extractivas, quer sejam as transformadoras e mesmo à agricultura intensiva. As grandes questões ambientais, desde o aquecimento global, à destruição das florestas tropicais sul-americanas, africanas e asiáticas estão intimamente ligadas à actividade do capital, na sua senda de auto-reprodução capitalista por via da exploração do Homem e da Natureza.
Muitas vezes, não relacionamos directamente o marxismo com a defesa do ambiente. Tendências políticas ditas ecologistas vieram fazer crer que existe uma política ecologista que não é necessariamente marxista. No entanto, esperamos que, com este post sejam dados passos para que o leitor passe a relacionar política e economia com ecologia e defesa do ambiente.
O objectivo essencial do marxismo não é, claro, a defesa do meio ambiente. Todavia, um breve raciocínio que leve em conta os dados que podemos tirar das observações do dia-a-dia capitalista, levar-nos-á à conclusão irremediável de que não existe protecção dos recursos naturais sem o socialismo, tal como não existirá humanismo no regime capitalista.
O humanismo está, ainda que muitas vezes o não vejamos, intimamente ligado com a defesa dos recursos naturais. O Homem não pode viver independentemente da abundância de recursos naturais. Principalmente, não pode viver em sociedade rumo ao progresso, nem tampouco manter as actuais condições sociais dos povos sem que existam recursos naturais que o sustentem. A abundância dos recursos naturais influencia, não só a economia capitalista, como também determina a continuidade da espécie e, em última análise, das espécies.
A visão dialéctica dos marxistas é a única abordagem humanista em torno das matérias do ambiente.
Para melhor ilustrar, destacarei dois tipos de políticas ditas ecologistas de diferentes matrizes e aquela a que se chama ecossocialismo:
a social-democrata, que encara o ambientalismo como um tema necessário mas incómodo. A protecção da natureza serve aqui o principal propósito de ser agente cosmético. O capitalismo e a exploração desenfreada dos recursos naturais não são postos em causa. Os Verdes da Alemanha são o típico paradigma de um partido de direita, sustentáculo do capitalismo e do reaccionarismo que afirma defender o ambiente. Na verdade, sob as políticas de direita, o ambiente é dogma exclusivo para limitar a actividade popular dele dependente. O grande capital continua a gerir e a explorar o ambiente em função da maximização do lucro. Para os interesses capitalistas, se for mais lucrativo produzir poluindo, eles assim o farão. Pensar o contrário é pura ingenuidade.
a radicalista, que encara o ambiente como algo superior à própria existência e subsistência da Humanidade, sem que aplique uma visão integrada. O fundamentalismo caracteriza esta corrente política, que mais não é senão uma forma enviesada de esquerdismo ou radicalismo pequeno-burguês. A defesa da natureza por si só, sem uma visão de desenvolvimento da sociedade não serve outros interesses senão os do capital. Estes movimentos não põem em causa os processos de produção capitalistas e fazem crer que toda a delapidação ambiental é fruto da má-vontade das grandes corporações. A defesa da natureza é o fim da ideologia destes grupelhos políticos.
o ecossocialismo é o socialismo, na medida em que o socialismo, para o ser, aplica a economia para o desenvolvimento horizontal da população, dos trabalhadores e do povo. Para o socialismo, a preservação da espécie humana, num rumo de constante diminuição do fosso entre ricos e pobres é o objectivo de médio-prazo. A eliminação das classes, a existência solidária e pacífica dos povos e a distribuição justa da riqueza é o objectivo final. Ambos estão inevitavelmente dependentes da preservação e boa gestão dos recursos naturais.
Assim, é idílico julgar que existe a possibilidade de que o sistema capitalista se venha a auto-controlar na exploração de recursos e na produção de poluentes. Actualmente, existe já tecnologia que permite o avanço das energias alternativas. E, tivesse o esforço de investigação e desenvolvimento sido iniciado antes, já essas energias teriam hoje utilização democrática. Caso a utilização dos combustíveis fósseis não fosse lucrativa, já o capital teria optado há muito por outras fontes de energia e teria investido os milhares de milhões necessários para a sua colocação no mercado. A grande questão é que não convém, obviamente, ao capital, possibilitar a independência energética dos cidadãos. A energia fotovoltaica, por exemplo, possibilita essa independência. A fusão nuclear, poderia também proporcionar energia limpa e barata para toda a população. No entanto, estas tecnologias não estão suficientemente desenvolvidas porque… não dão lucro e porque ainda há muito petróleo por vender.
Para melhor ilustrar: relembro o tamanho médio de uma bateria de telemóvel há dez anos atrás. Desafio-vos a lembrar quanto tempo durou até que diminuíssem para tamanhos centimétricos. Porquê? Se repararmos, foi uma questão de meses. De um momento para o outro as baterias de celulares passaram de autênticos tijolos para pequenos e leves paralelipípedos, curiosamente, com maiores períodos de autonomia e mais amperagem. Daí às baterias de lítio foi um pequeno salto. Porquê? simples… é que começou a dar lucro desmesurado a venda de telemóveis e serviços de telecomunicações através deles. Os motores dos automóveis têm sofrido grandes avanços tecnológicos, mas mantém-se a dependência dos derivados do petróleo. Porquê? porque ainda se obtém significativo lucro através da sua venda. A poluição daí resultante é apenas um dano colateral que o capitalismo desdenha. A poluição não tem reflexos negativos no lucro, por mais campanhas que a greenpeace faça para deixarmos de comprar em determinada petrolífera.
A superação do sistema de produção capitalista e a construção do socialismo é a única via política que preconiza indirectamente a preservação do ambiente. Fazer prevalecer a justa distribuição da riqueza e a própria existência da espécie e civilização humanas é indissociável da boa gestão dos recursos naturais, permitindo a racionalização do consumo dos recursos não vivos e permitindo o desenvolvimento do ciclo reprodutivo dos seres vivos. O exemplo já dado noutro post sobre o vegetarianismo e veganismo ilustram bem o quão incapazes de resolver os problemas ambientais são essas correntes inócuas.
O socialismo e a subversão dos métodos de produção capitalistas, a produção sustentada pelas necessidades do Homem em vez da obtenção de lucro, levam gradualmente a um maior respeito pela Natureza enquanto fonte, não do lucro, mas do nosso sustento. O socialismo, além de ser a única forma de organização das sociedades que pode garantir a sustentabilidade do Ser Humano, mostra-se também a única que coloca o bem-estar antes do lucro. Ora, como para o bem-estar se configura como requisito a abundância de recursos naturais e de elementos naturais sem degradação antrópica, o socialismo mostra-se também como a doutrina que coloca o ambiente frente ao lucro.
Lutar pelo Homem e pela sua emancipação é lutar pela sustentabilidade do ambiente.
Lutar pela consciência plena de cada um é lutar contra o poder do capital sobre a ignorância. Organizar a luta pela libertação dos trabalhadores é defender a natureza. Constituir o poder dos trabalhadores é eliminar a relação Capital – Natureza (predatória) e substitui-la pela relação Homem-natureza (simbiótica).
O ambiente, em senso lato, é toda o meio envolvente ao Ser Humano. No tratamento que aqui lhe vamos dar, o ambiente é apenas toda a
Natureza que nos rodeia, por nós influenciada e que sobre nós influi, mas que existe sem ter sido concebida pelo Ser Humano. Num entendimento mais estrito, trataremos o Ambiente essencialmente enquanto o conjunto dos recursos naturais que servem de sustento ao desenvolvimento das espécies vivas que habitam em regimes ecológicos interdependentes o planeta.O marxismo e a prática económica que lhe subjaz são caracterizados, entre outros, por dois vectores paralelos:
1. o da utilização da economia ao serviço do conjunto dos Seres Humanos que intervêm na produção;
2. o da justa distribuição da riqueza ao invés da concentração e cumulação do lucro.
Quando nos defrontamos com a grande maioria dos casos de delapidação ou destruição ambiental actual, encontramos em larga escala uma relação directa entre eles e a exploração dos recursos naturais. Os grandes responsáveis pela degradação ambiental não são as populações, mas sim as grandes indústrias, quer sejam as extractivas, quer sejam as transformadoras e mesmo à agricultura intensiva. As grandes questões ambientais, desde o aquecimento global, à destruição das florestas tropicais sul-americanas, africanas e asiáticas estão intimamente ligadas à actividade do capital, na sua senda de auto-reprodução capitalista por via da exploração do Homem e da Natureza.
Muitas vezes, não relacionamos directamente o marxismo com a defesa do ambiente. Tendências políticas ditas ecologistas vieram fazer crer que existe uma política ecologista que não é necessariamente marxista. No entanto, esperamos que, com este post sejam dados passos para que o leitor passe a relacionar política e economia com ecologia e defesa do ambiente.
O objectivo essencial do marxismo não é, claro, a defesa do meio ambiente. Todavia, um breve raciocínio que leve em conta os dados que podemos tirar das observações do dia-a-dia capitalista, levar-nos-á à conclusão irremediável de que não existe protecção dos recursos naturais sem o socialismo, tal como não existirá humanismo no regime capitalista.
O humanismo está, ainda que muitas vezes o não vejamos, intimamente ligado com a defesa dos recursos naturais. O Homem não pode viver independentemente da abundância de recursos naturais. Principalmente, não pode viver em sociedade rumo ao progresso, nem tampouco manter as actuais condições sociais dos povos sem que existam recursos naturais que o sustentem. A abundância dos recursos naturais influencia, não só a economia capitalista, como também determina a continuidade da espécie e, em última análise, das espécies.
A visão dialéctica dos marxistas é a única abordagem humanista em torno das matérias do ambiente.
Para melhor ilustrar, destacarei dois tipos de políticas ditas ecologistas de diferentes matrizes e aquela a que se chama ecossocialismo:
a social-democrata, que encara o ambientalismo como um tema necessário mas incómodo. A protecção da natureza serve aqui o principal propósito de ser agente cosmético. O capitalismo e a exploração desenfreada dos recursos naturais não são postos em causa. Os Verdes da Alemanha são o típico paradigma de um partido de direita, sustentáculo do capitalismo e do reaccionarismo que afirma defender o ambiente. Na verdade, sob as políticas de direita, o ambiente é dogma exclusivo para limitar a actividade popular dele dependente. O grande capital continua a gerir e a explorar o ambiente em função da maximização do lucro. Para os interesses capitalistas, se for mais lucrativo produzir poluindo, eles assim o farão. Pensar o contrário é pura ingenuidade.
a radicalista, que encara o ambiente como algo superior à própria existência e subsistência da Humanidade, sem que aplique uma visão integrada. O fundamentalismo caracteriza esta corrente política, que mais não é senão uma forma enviesada de esquerdismo ou radicalismo pequeno-burguês. A defesa da natureza por si só, sem uma visão de desenvolvimento da sociedade não serve outros interesses senão os do capital. Estes movimentos não põem em causa os processos de produção capitalistas e fazem crer que toda a delapidação ambiental é fruto da má-vontade das grandes corporações. A defesa da natureza é o fim da ideologia destes grupelhos políticos.
o ecossocialismo é o socialismo, na medida em que o socialismo, para o ser, aplica a economia para o desenvolvimento horizontal da população, dos trabalhadores e do povo. Para o socialismo, a preservação da espécie humana, num rumo de constante diminuição do fosso entre ricos e pobres é o objectivo de médio-prazo. A eliminação das classes, a existência solidária e pacífica dos povos e a distribuição justa da riqueza é o objectivo final. Ambos estão inevitavelmente dependentes da preservação e boa gestão dos recursos naturais.
Assim, é idílico julgar que existe a possibilidade de que o sistema capitalista se venha a auto-controlar na exploração de recursos e na produção de poluentes. Actualmente, existe já tecnologia que permite o avanço das energias alternativas. E, tivesse o esforço de investigação e desenvolvimento sido iniciado antes, já essas energias teriam hoje utilização democrática. Caso a utilização dos combustíveis fósseis não fosse lucrativa, já o capital teria optado há muito por outras fontes de energia e teria investido os milhares de milhões necessários para a sua colocação no mercado. A grande questão é que não convém, obviamente, ao capital, possibilitar a independência energética dos cidadãos. A energia fotovoltaica, por exemplo, possibilita essa independência. A fusão nuclear, poderia também proporcionar energia limpa e barata para toda a população. No entanto, estas tecnologias não estão suficientemente desenvolvidas porque… não dão lucro e porque ainda há muito petróleo por vender.
Para melhor ilustrar: relembro o tamanho médio de uma bateria de telemóvel há dez anos atrás. Desafio-vos a lembrar quanto tempo durou até que diminuíssem para tamanhos centimétricos. Porquê? Se repararmos, foi uma questão de meses. De um momento para o outro as baterias de celulares passaram de autênticos tijolos para pequenos e leves paralelipípedos, curiosamente, com maiores períodos de autonomia e mais amperagem. Daí às baterias de lítio foi um pequeno salto. Porquê? simples… é que começou a dar lucro desmesurado a venda de telemóveis e serviços de telecomunicações através deles. Os motores dos automóveis têm sofrido grandes avanços tecnológicos, mas mantém-se a dependência dos derivados do petróleo. Porquê? porque ainda se obtém significativo lucro através da sua venda. A poluição daí resultante é apenas um dano colateral que o capitalismo desdenha. A poluição não tem reflexos negativos no lucro, por mais campanhas que a greenpeace faça para deixarmos de comprar em determinada petrolífera.
A superação do sistema de produção capitalista e a construção do socialismo é a única via política que preconiza indirectamente a preservação do ambiente. Fazer prevalecer a justa distribuição da riqueza e a própria existência da espécie e civilização humanas é indissociável da boa gestão dos recursos naturais, permitindo a racionalização do consumo dos recursos não vivos e permitindo o desenvolvimento do ciclo reprodutivo dos seres vivos. O exemplo já dado noutro post sobre o vegetarianismo e veganismo ilustram bem o quão incapazes de resolver os problemas ambientais são essas correntes inócuas.

O socialismo e a subversão dos métodos de produção capitalistas, a produção sustentada pelas necessidades do Homem em vez da obtenção de lucro, levam gradualmente a um maior respeito pela Natureza enquanto fonte, não do lucro, mas do nosso sustento. O socialismo, além de ser a única forma de organização das sociedades que pode garantir a sustentabilidade do Ser Humano, mostra-se também a única que coloca o bem-estar antes do lucro. Ora, como para o bem-estar se configura como requisito a abundância de recursos naturais e de elementos naturais sem degradação antrópica, o socialismo mostra-se também como a doutrina que coloca o ambiente frente ao lucro.
Lutar pelo Homem e pela sua emancipação é lutar pela sustentabilidade do ambiente.
Lutar pela consciência plena de cada um é lutar contra o poder do capital sobre a ignorância. Organizar a luta pela libertação dos trabalhadores é defender a natureza. Constituir o poder dos trabalhadores é eliminar a relação Capital – Natureza (predatória) e substitui-la pela relação Homem-natureza (simbiótica).
Monday, November 07, 2005
Parlamentarismo, vanguarda legislativa do patronato – Vol II
No volume I desta pequena tese sobre o papel actual do parlamentarismo tentou, de alguma forma, recolocar na mesa e no meu raciocínio uma questão que não é suficientemente abordada, talvez desde o abrandamento da produção teórica do movimento operário e do movimento comunista internacional. Os grandes debates em torno desta matéria tomaram lugar nas Assembleias da Internacional Comunista, promovendo uma fértil troca de ideias entre os diversos representantes dos Partidos que a compunham.
A participação de comunistas no parlamentarismo encerra demasiados riscos e, portanto, a sua ponderação nunca será demasiada. O papel do parlamentarismo sustentado na chamada democracia representativa não é senão o de conciliação entre os interesses das classes. Claro que, do ponto de vista do keynesianismo, isso é o garante da sustentabilidade humanista do sistema capitalista. Não podemos, porém, esquecer que a representatividade partidária, logo de cada classe, pode não reflectir a verdadeira proporção social, económica e demográfica da dimensão de cada classe. O que, aliás, acontece na esmagadora maioria da vezes, já que este sistema é baseado na apresentação de candidaturas partidárias, cada uma movida pela força económica de que dispõe. Claro que essa força pode não ser exclusivamente sua. Por exemplo, um partido operário dispõe exclusivamente do trabalho militante e do contributo financeiro dos seus membros, enquanto que um partido burguês conta com o apoio dos grandes grupos económicos, com as pressões ideológicas do patronato e com o apoio da comunicação social dominante.
A negação do carácter de classe dos partidos burgueses foi apenas mais um ardil do capitalismo, inserido na campanha de camuflagem ideológica que tem sustentado o próprio sistema. A adaptação constante do capitalismo às condições de uma sociedade em evolução acelerada é admirável e o parlamentarismo, bem como as suas ramificações são uma expressão importante dessa adaptação. Facilmente constatamos que o capital apoia diferentes regimes em diferentes partes do globo. Essa é uma questão central.
Porque será o parlamentarismo burguês a vanguarda legislativa do patronato, se em muitos outros países não se verifica esse tipo de organização, não deixando, no entanto, de serem capitalistas ou base de apoio do capitalismo?
O capitalismo caracteriza-se, desde o cálculo do valor salarial até à forma de organização da sociedade, por uma economia de direitos populares notável, por uma absurda mas genial capacidade e vontade de obter lucro a partir do lucro, minimizando o custo do trabalho.
O nível de capacidade organizativa de um povo, principalmente das classes trabalhadoras está ligado às possibilidades de liberdade política desse povo. A tomada de consciência social e política estará ligada ao nível cultural e científico que esse povo adquiriu. O nível de reivindicação e de luta está ligado a ambas as premissas anteriores.
Em países capitalistas ou dominados por esse sistema económico que não se verifica a existência de um regime parlamentar, podem encontrar-se ditaduras militares, ditaduras religiosas, sultanatos, monarquias, oligarquias, regimes presidenciais e outras formas de exercício do poder político que não consistem na suposta conciliação de interesses. Claro que esse tipo de organização se observa essencialmente em países depauperados, com reduzida história revolucionária, com fracos movimentos comunistas ou sindicais de classe, com baixos níveis de escolaridade, cultura e ciência. Existem ainda os países em guerra, motivada essencialmente pela disputa do poder, muitas vezes entre diferentes facções do capitalismo.
Nesses países, o capitalismo com a sua testa de ferro imperial pode efectivamente ir quase tão longe quanto gostaria.
No entanto, o capital necessita também de diferenciar positivamente porções da população, para que exista escoamento do produto que produz a baixo-custo nos países chamados “em vias de desenvolvimento” ou “terceiro mundo”. Esses países, ainda que mantendo uma economia baseada na obtenção do lucro, podem garantir a parte da sua população, um nível de vida bastante superior e satisfatório. Aí entra o papel do parlamentarismo. Um povo mais consciente, mais capaz de se organizar, mais culto, com mais história revolucionária não pode viver muito tempo sob uma ditadura. Cabe então ao capitalismo fazer face a essa exigência popular, quase sempre motivada pela evolução dos movimentos populares e operários progressistas. A resposta é simples: ditadura política e corporativismo disfarçados – parlamentarismo.
Importa aqui clarificar o conceito de ditadura política. Quando ouvimos ou lemos esta palavra somos recorrentemente assaltados pelo conceito de violência humana, física até, repressão e ausência de liberdade de expressão. No entanto, o conceito de ditadura política é mais lato. Claro que um regime em que se verifiquem tais características pode ser apelidado de ditadura, mas o conceito é mais simples: a ditadura política é o exercício de poder de uma porção da humanidade sobre outra. A ditadura pode ser imposta por uma minoria ou por uma maioria. O parlamentarismo disfarça uma ditadura minoritária sobre a maioria. O poder é exercido em função dos interesses de uma minoria que detém o poder económico sobre aqueles que não o detêm. Portanto, exercido pelo capital sobre o trabalho. A pirâmide está invertida. O capital deve servir o desenvolvimento do trabalho, das condições de vida dos trabalhadores e não a concentração e acumulação de riqueza num punhado de entidades invisíveis.

O parlamentarismo garante esta ilusão. A representatividade aparenta ser escolhida livremente. A discussão parlamentar tem lugar e o resultado é democrático. Tudo isto é aceite como verdade indesmentível. A comunicação social não questiona nunca a legitimidade destes sistemas porque serve exactamente os mesmo interesses que eles.
O parlamentarismo é, portanto, uma vitória burguesa. Ainda que constitua um avanço popular face a outras formas de organização que sustentam o capitalismo. É um passo que tem de ser dado, como aliás o prova a própria história. É uma fase da emancipação dos povos e do Homem. É uma cedência do capitalismo. No entanto, o capitalismo aprendeu rapidamente a gerir muito bem essa sua cedência. Aprendeu a adaptá-la aos seus interesses e a servir-se dos satélites oportunistas que orbitam em torno do parlamentarismo. O capital não o combate salvo se os resultados eleitorais construírem, em determinado momento, uma maioria inesperada.
O papel dos comunistas, em cada etapa da História da Humanidade, é o da organização e criação de condições para a luta, promovendo a capacidade de obter vitórias em todas as frentes para o proletariado e derrotas para o capital e a burguesia. É por isso que se coloca, não indiferentemente, a questão da participação no regime parlamentar.
Se, por um lado, o parlamentarismo é um dos pilares de sustento do capitalismo, acabando por decidir sempre em consonância com as orientações do imperialismo; por outro, o parlamentarismo é mais um campo de batalha para alcançar vitórias para o proletariado e seus aliados. Virar as costas a essa batalha seria virá-las, em muitos casos, aos próprios trabalhadores. Assumir esta batalha acarreta o risco de aumentar a confiança popular no falso equilíbrio parlamentar.
Levanta-se ainda um conjunto muito vasto de outros problemas e riscos em torno da participação dos comunistas nos parlamentos.
Para o próximo volume: risco de contribuição para a correcção do capitalismo, risco de desagregação da unidade na acção dos comunistas, risco de promoção do oportunismo, risco de diminuição do alcance revolucionário das propostas comunistas – reformismo.
A participação de comunistas no parlamentarismo encerra demasiados riscos e, portanto, a sua ponderação nunca será demasiada. O papel do parlamentarismo sustentado na chamada democracia representativa não é senão o de conciliação entre os interesses das classes. Claro que, do ponto de vista do keynesianismo, isso é o garante da sustentabilidade humanista do sistema capitalista. Não podemos, porém, esquecer que a representatividade partidária, logo de cada classe, pode não reflectir a verdadeira proporção social, económica e demográfica da dimensão de cada classe. O que, aliás, acontece na esmagadora maioria da vezes, já que este sistema é baseado na apresentação de candidaturas partidárias, cada uma movida pela força económica de que dispõe. Claro que essa força pode não ser exclusivamente sua. Por exemplo, um partido operário dispõe exclusivamente do trabalho militante e do contributo financeiro dos seus membros, enquanto que um partido burguês conta com o apoio dos grandes grupos económicos, com as pressões ideológicas do patronato e com o apoio da comunicação social dominante.
A negação do carácter de classe dos partidos burgueses foi apenas mais um ardil do capitalismo, inserido na campanha de camuflagem ideológica que tem sustentado o próprio sistema. A adaptação constante do capitalismo às condições de uma sociedade em evolução acelerada é admirável e o parlamentarismo, bem como as suas ramificações são uma expressão importante dessa adaptação. Facilmente constatamos que o capital apoia diferentes regimes em diferentes partes do globo. Essa é uma questão central.
Porque será o parlamentarismo burguês a vanguarda legislativa do patronato, se em muitos outros países não se verifica esse tipo de organização, não deixando, no entanto, de serem capitalistas ou base de apoio do capitalismo?
O capitalismo caracteriza-se, desde o cálculo do valor salarial até à forma de organização da sociedade, por uma economia de direitos populares notável, por uma absurda mas genial capacidade e vontade de obter lucro a partir do lucro, minimizando o custo do trabalho.
O nível de capacidade organizativa de um povo, principalmente das classes trabalhadoras está ligado às possibilidades de liberdade política desse povo. A tomada de consciência social e política estará ligada ao nível cultural e científico que esse povo adquiriu. O nível de reivindicação e de luta está ligado a ambas as premissas anteriores.
Em países capitalistas ou dominados por esse sistema económico que não se verifica a existência de um regime parlamentar, podem encontrar-se ditaduras militares, ditaduras religiosas, sultanatos, monarquias, oligarquias, regimes presidenciais e outras formas de exercício do poder político que não consistem na suposta conciliação de interesses. Claro que esse tipo de organização se observa essencialmente em países depauperados, com reduzida história revolucionária, com fracos movimentos comunistas ou sindicais de classe, com baixos níveis de escolaridade, cultura e ciência. Existem ainda os países em guerra, motivada essencialmente pela disputa do poder, muitas vezes entre diferentes facções do capitalismo.
Nesses países, o capitalismo com a sua testa de ferro imperial pode efectivamente ir quase tão longe quanto gostaria.
No entanto, o capital necessita também de diferenciar positivamente porções da população, para que exista escoamento do produto que produz a baixo-custo nos países chamados “em vias de desenvolvimento” ou “terceiro mundo”. Esses países, ainda que mantendo uma economia baseada na obtenção do lucro, podem garantir a parte da sua população, um nível de vida bastante superior e satisfatório. Aí entra o papel do parlamentarismo. Um povo mais consciente, mais capaz de se organizar, mais culto, com mais história revolucionária não pode viver muito tempo sob uma ditadura. Cabe então ao capitalismo fazer face a essa exigência popular, quase sempre motivada pela evolução dos movimentos populares e operários progressistas. A resposta é simples: ditadura política e corporativismo disfarçados – parlamentarismo.
Importa aqui clarificar o conceito de ditadura política. Quando ouvimos ou lemos esta palavra somos recorrentemente assaltados pelo conceito de violência humana, física até, repressão e ausência de liberdade de expressão. No entanto, o conceito de ditadura política é mais lato. Claro que um regime em que se verifiquem tais características pode ser apelidado de ditadura, mas o conceito é mais simples: a ditadura política é o exercício de poder de uma porção da humanidade sobre outra. A ditadura pode ser imposta por uma minoria ou por uma maioria. O parlamentarismo disfarça uma ditadura minoritária sobre a maioria. O poder é exercido em função dos interesses de uma minoria que detém o poder económico sobre aqueles que não o detêm. Portanto, exercido pelo capital sobre o trabalho. A pirâmide está invertida. O capital deve servir o desenvolvimento do trabalho, das condições de vida dos trabalhadores e não a concentração e acumulação de riqueza num punhado de entidades invisíveis.

O parlamentarismo garante esta ilusão. A representatividade aparenta ser escolhida livremente. A discussão parlamentar tem lugar e o resultado é democrático. Tudo isto é aceite como verdade indesmentível. A comunicação social não questiona nunca a legitimidade destes sistemas porque serve exactamente os mesmo interesses que eles.
O parlamentarismo é, portanto, uma vitória burguesa. Ainda que constitua um avanço popular face a outras formas de organização que sustentam o capitalismo. É um passo que tem de ser dado, como aliás o prova a própria história. É uma fase da emancipação dos povos e do Homem. É uma cedência do capitalismo. No entanto, o capitalismo aprendeu rapidamente a gerir muito bem essa sua cedência. Aprendeu a adaptá-la aos seus interesses e a servir-se dos satélites oportunistas que orbitam em torno do parlamentarismo. O capital não o combate salvo se os resultados eleitorais construírem, em determinado momento, uma maioria inesperada.
O papel dos comunistas, em cada etapa da História da Humanidade, é o da organização e criação de condições para a luta, promovendo a capacidade de obter vitórias em todas as frentes para o proletariado e derrotas para o capital e a burguesia. É por isso que se coloca, não indiferentemente, a questão da participação no regime parlamentar.
Se, por um lado, o parlamentarismo é um dos pilares de sustento do capitalismo, acabando por decidir sempre em consonância com as orientações do imperialismo; por outro, o parlamentarismo é mais um campo de batalha para alcançar vitórias para o proletariado e seus aliados. Virar as costas a essa batalha seria virá-las, em muitos casos, aos próprios trabalhadores. Assumir esta batalha acarreta o risco de aumentar a confiança popular no falso equilíbrio parlamentar.Levanta-se ainda um conjunto muito vasto de outros problemas e riscos em torno da participação dos comunistas nos parlamentos.
Para o próximo volume: risco de contribuição para a correcção do capitalismo, risco de desagregação da unidade na acção dos comunistas, risco de promoção do oportunismo, risco de diminuição do alcance revolucionário das propostas comunistas – reformismo.
Sunday, November 06, 2005
Se um dia ouvires dizer...

Se um dia ouvires alguém dizer que ainda morre gente, que ainda vagueam moscas pelas bocas de crianças que transportam nos olhos a sua própria morte por serem tão vivos;
Se um dia ouvires alguém dizer que ainda há homens espancados, amordaçados e torturados e que ainda se apedrejam mulheres enterradas no chão;
Se um qualquer dia ouvires dizer que há quem morra por levantar a face da lama, quem seja acorrentado por fazer o futuro com suas próprias mãos;
Se, por acaso, um dia ouvires que ainda há bombas que esventram países e expõem a carne dos homens, das mulheres e das crianças;
Se ouvires um dia falar-se da fome, das árvores caídas, das águas poluídas, se ouvires falar de morte;
Se ouvires os rugidos dos vulcões como o choro da tua terra, e olhares os oceanos como as lágrimas dos que lutaram;
Se um dia ouvires... desliga a televisão, abre as páginas do teu pensamento.
se ouvires... junta-te a alguém que te tenha falado de quem trabalha e não tem pão.
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