Tuesday, May 23, 2006

O complemento solidário de reforma para idosos - ou a fraude reaccionária contra idosos

Complemento solidário para idosos - Ora aqui está um nome pomposo para uma expressão que poderia ser melhor resumida na expressão: “os velhos que se danem”. O Governo, que já nos vai habituando às suas investidas contra os próprios que o elegeram, anunciou há pouco tempo a sua nova fórmula mágica para combater a pobreza nas camadas mais velhas da população. Quando, em campanha eleitoral, o actual Primeiro-Ministro sorria para os idosos prometendo-lhes que nenhum receberia valores de pensão abaixo dos 300€, todos, idosos e outros, pensávamos que o Engenheiro estava a prometer uma subida das pensões, uma medida positiva entre tantas, anunciadas nesse efusivo período de propaganda. Sinceramente, com tanto acumular de mentiras destes senhores, esperávamos já que esta fosse apenas mais uma patranha.

A visão da qual parte o Governo é a de que os idosos são uns gatunos, que importa controlar mais que os grandes grupos económicos. Além disso, o que era prometido começa a ser afinal uma promessa desfeita. Ao invés de fazer as pensões convergirem no sentido do salário mínimo nacional (ainda assim baixo), o governo mostra o respeito que não tem por quem trabalhou uma vida inteira e que vive agora em situações muito complicadas de miséria ou pobreza extrema. São centenas de milhar os idosos que precisam do Estado na garantia da sua subsistência. São muitos os que não têm dinheiro para aviar as receitas do médico.

Vai daí, em vez de aumentar, como dizia, as pensões, o governo decide implementar um complemento solidário, que mais é uma esmola caritária para idosos em situação de pobreza extrema. Curioso é o facto de que o PS propunha-se a tirar 300.000 idosos da pobreza e afinal só vai atribuir o complemento a 40.000 (cerca de 11% do prometido – num teste seria uma negativa medíocre e assustadora). Como se tal não bastasse, o governo decide, numa atitude a roçar tempos de outrora, bastante mais escuros e decadentes, contar com os rendimentos dos filhos destes idosos para fazer o cálculo e mesmo decidir do deferimento do complemento. Ora, a solidariedade a que o governo se refere é afinal um novo dever, não um novo direito, mas um novo dever: o dever dos trabalhadores passarem a ser responsáveis pelo seu próprio envelhecimento, mais pelo dos seus pais. Só disso não viria grande mal ao mundo… a questão central é que, no meio disto tudo o governo arranjou maneira de demitir o Estado dessa sua função central: a da protecção social.

Assim, o nosso magnífico executivo “socialista” vem introduzir mais um factor de desequilíbrio entre idosos: entre aqueles cujos filhos não se importam de divulgar os seus rendimentos e com esses ajudar os pais e entre aqueles, cujos filhos não querem sequer declarar os rendimentos e que, por isso, não poderão obter o tal complemento. Que divisão social é esta? Que diferença existe entre uns e outros idosos?

Outra questão que não deixa de me repugnar é a forma como o governo encara os idosos. Um pouco como parasitas ingratos e trapaceiros da sociedade portuguesa, o que é comprovado pelo vómito verbal de uma representante do governo na assembleia da república em reunião de comissão: “Vocês não fazem ideia dos esquemas e trapaças que os reformados do interior são capazes de fazer só para conseguir o complemento. As funcionárias da Seg. Social, como até sentem pena dos velhotes, ajudam-nos a obter a prestação.” Ora é esta concepção fascizante e anormal que os leva a impor um conjunto de documentos a apresentar mais uma multiplicidade de documentos e formulários a preencher para que um idoso possa requerer o complemento. Estamos todos convictos que, com a assustadora taxa de analfabetismo entre idosos, estas pessoas vão conseguir ultrapassar esta barreira burocrática com um sorriso. Aos trabalhadores o que é seu, seus gatunos!

“a solidariedade familiar não se impõe por decreto”

Friday, May 12, 2006

verdades que saem (por descuido)

fazedor de ideias do capital (portanto do Público) diz:

"Temos que acabar com a fome, antes que os esfomeados acabem com esta sociedade."

Anda uma pessoa a tentar arranjar uma expressão boa para explicar a social-democracia e quais os seus objectivos, quando vem um dos que trabalham para manter a coisa com está agora, resolver tudo com uma frase. Tracando por miúdos : temos que os tratar um bocadinho melhor, senão eles ainda se revoltam e nos tiram do poleiro.
Sim, senhor. Parabéns ao Público.

Tuesday, May 09, 2006

Suspensão de contributos

Estou em Atenas, a Helénica.
Por isso mesmo, os meus posts não aparecerão antes da próxima semana, provavelmente.
Desafio o mamute para tapar a lacuna provocada pela minha ausência involuntária.

Até breve.
A luta continua!

Wednesday, May 03, 2006

1 de Maio (sempre em tempo)

O mamutemorto atrasou-se na escrita sobre as comemorações da Revolução de Abril, mas esteve a tempo na participação e trabalho. Está, portanto, salvaguardado o atraso de tão oportuno texto.

Está agora em falta um não menos necessário texto sobre o dia do Trabalhador, dia em que Abril faz ainda mais sentido, dia aliás em que abril cresce até ser maio.

E neste primeiro dia de maio estiveram nas ruas os homens e as mulheres, comemorando aquilo que já não é só uma evocação de Haymarket, é a celebração da luta e a demonstração viva do confronto agudo de classes e da capacidade de evidenciar direitos dos trabalhadores. Direitos ofendidos, retirados, direitos esmagados, mas que não passam sem luta, mas que não ficarão para trás na construção do futuro.

Eram, segundo a polícia 30 mil. a polícia... outra polícia foi quem marcou este dia a sangue de operário em chicago, carregando sobre homens que queriam apenas um horário de trabalho digno de um ser humano. Mas eram, como dizia, segundo a polícia, 30 mil. 30 mil trabalhadores, homens, mulheres, jovens e até reformados. Eram mais, claro está. Eram os suficientes para encher a alameda universitária de lisboa enquanto ainda a marcha saía do estádio primeiro de maio. Mas eram mais. Eram mais uns quantos milhares por esse país a fora. Por onde houvesse um trabalhador. Foram muitas as marchas. os comícios. as votações. Foram muitos os jovens que participaram no seu primeiro primeiro de maio. muitos os trabalhadores que o voltaram a lembrar... em luta!

E a ofensiva não parará. Mas um dia cederá nas suas forças ilusoriamente e cairá às nossas mãos. Mas o que importa é que a resistência é mais forte, que a vida une cada vez mais trabalhadores. O que importa é saber que esta marcha não pára por um só dia, nem que seja feriado nacional. O que importa é saber que a direita, seja pelas trapaçarias do PS, seja pelas vergonhas do PSD, contará sempre com a resistência. Resistência da esquerda comunista. Mas acima de tudo, resistência dos que trabalham.

Thursday, April 27, 2006

25 de Abril (atrasado)

Raio de blog de esquerda que não dá três vivas ao 25 de Abril. Não há um cravo nem nada. Em hora tardia nos redimimos. Pedimos desculpa. Estivemos na rua a comemorar (desculpa verdadeira que não justifica a total ausência).

Falamos e festejamos o 25 de Abril. o Dia da Liberdade, não num acto de saudosismo, mas conscientes da importância que teve, e ainda tem para as nossas vidas.

Hoje ensinam-nos na escola, e no educador-mor, a televisão, uma coisa do estilo "antes do 25 não se podia falar, reunir ou associar e agora pode-se, graças aos militares que estavam descontentes com a guerra colonial que fizeram um golpe miltar e, por acaso, as pessoas saíram também à rua".

Não podia ser mais redutor.

Não nos podemos esquecer do que foram os 48 anos de fascismo em Portugal. Pela pobreza extrema, pelo analfabetismo, pelas perseguições políticas, pela tortura e muitas vezes a morte a quem defendia tão-só a liberdade e lutava por ela.

Limitar as conquistas de Abril ao direito de associação, reunião e expressão é dar uma visão distorcida da realidade. Não podemos, por uma questão de tempo (e já agora de espaço) enumerar todas estas conquistas, mas não podemos falar de Abril sem referir o direito a férias pagas, o salário mínimo nacional, o fim dos latinfúndios (a terra a quem a trabalha!) e dos monopólios, as nacionalizações, a massificação da cultura, do ensino, da saúde....

( e em 2006 os latifúndios aí estão, empresas do estado as que ainda não foram privatizadas estão na lista, os senhores do antigamente são os de agora, saúde, ensino e cultura são para quem os possa pagar, o salário mínimo é de facto, mínimo......)


Por último, o dia 25 de Abril surgiu de facto pela mão dos militares. Mas não podemos nunca pensar que foi um acto isolado do resto da luta dos trabalhadores e da população por melhores condições de vida e contra o fascismo. De facto, toda a luta desenvolvida, desde as grandes greves das 8 horas, às lutas sectoriais, às comemorações do 1º de Maio, em que naturalmente destacamos o papel dos comunistas pelo seu papel na organização e direcção dos trabalhadores, forma essenciais para a materialização do descontentamento polpular num dia- o 25 de Abril.

Por isso estivemos na rua . Para lembrar o 25 de Abril. Para desmistificar ideias erradas. Mas sobretudo para defender o que foi conquistado com a Revolução

Wednesday, April 26, 2006

Há flores que já brotaram, mas encherão ainda o mundo e nossas vidas

Na sua obra, O Capital, Marx apresenta um capítulo maravilhoso [Capítulo XI – nota do editor], o qual quero traduzir para a mais simples das linguagens, tão simples que possibilite até aos semi-letrados a sua compreensão, o capítulo sobre a cooperação, no qual Marx sustenta que o colectivo faz nascer uma nova força. Não é apenas o somatório de pessoas, nem tampouco o somatório das suas forças, mas uma completamente nova, muito mais poderosa força. No seu capítulo sobre cooperação, Marx escreve sobre a força material. Mas quando, partindo dessa análise, a unidade da consciência e da vontade florescerem, essa força torna-se ilimitada.

Nadezhda Krupskaya, em carta dirigida a A. M. Gorki de Setembro de 1932.

Friday, April 21, 2006

Os deputados a menos.

Desde que um conjunto de deputados da nação nos presentearam com um potenciado comportamento de displicência nas vésperas da Páscoa, abundam por aí doutores e outros papagaios que cavalgam a onda, exigindo a reforma do sistema político.

Claro que a ideia de que existem deputados a mais começa a ter cada vez mais eco na população, fortemente fomentada pela comunicação social dominante. A democracia representativa que temos em Portugal, ainda que burguesa, é minimamente próxima do cidadão e tem uma garantia de pluralidade significativa, tendo em conta que é capaz de reflectir, por uma lado as diversas regiões do país, por outro, as forças partidárias em um largo espectro.

O capital, a burguesia e os serviços de comunicação ao seu dispor têm vindo a promover, desde cedo, um ataque cerrado às conquistas de Abril. Ora, uma dessas conquistas é precisamente a democracia representativa. Todos os dias se ataca cada uma das conquistas de Abril, logo esta não escapa à fúria contra-revolucionária.

A ideia de que existem deputados a mais, de que não fazem nenhum, de que só querem encher o bolso e deter poder é disso forte expressão. Conquistar esta posição nas massas é meio caminho andado para que a população aplauda um forte e rude golpe contra o regime democrático burguês actual, provocando um retrocesso grave na reconstituição do poder político corporativista. A restauração dos monopólios económicos está garantida, resta garantir a restauração do monopólio político.

O Partido Socialista, com o apoio declarado do PSD já afirmaram que querem alterar a composição da democracia portuguesa. Utilizando as suas próprias falhas. São exactamente PS e PSD os partidos que mais faltam às reuniões plenárias e de Comissões parlamentares e os que mais deputados inactivos têm. São exactamente esses dois partidos os donos da alternância doentia que tem governado o país e que tem conduzido ao desbaratar da esperança popular. E, pasme-se, são precisamente eles que se arrogam na posse da seriedade ética para rever as leis que fazem a democracia que temos.

Vejamos, sob o pretexto de existirem deputados a mais, PS e PSD propõem uma solução de diminuição do número de deputados e da criação de círculos uninominais. Ou seja, só os partidos mais votados em cada região do país elegeriam deputados, um pouco à semelhança do que acontece nos EUA. Isto, obviamente, varreria do panorama os partidos menos votados. Boa solução, menos deputados, menos representatividade, menos pluralidade, mais concentração, mais facilidade em recompor o monopólio político.

Ao mesmo tempo que nos tentam convencer de que existem deputados a mais, escondem que existem deputados que efectivamente trabalham. Existem deputados que trabalham e estão, curiosamente nas forças políticas menos votadas. Deputados que não faltam, que dinamizam o trabalho e apresentam propostas sérias para o progresso social do país. E entre os deputados que trabalham, existem 12 que além de trabalhar ali dentro, trabalham no terreno, com as populações, numa íntima ligação com a luta de massas, com os anseios dos trabalhadores, das mulheres e dos jovens, deputados que não beneficiam do estatuto monetário, que têm como princípio não serem beneficiados pela tarefa que neste momento cumprem.

Existem, portanto, deputados a menos. Deputados comunistas. A questão não está no número de deputados, mas na política que preconizam. Com mais deputados comunistas, com mais deputados de esquerda, a Assembleia da República estaria à altura de satisfazer as principais necessidades da população e do país.

Diminuam-se os deputados da direita (PS, PSD e CDS) e veremos que o que existem é deputados sérios a menos.

Onde pára a cultura XVII?

Em Junho de 2004, o Partido Socialista acusava o Governo, então PSD-CDS, de insensibilidade cultural, referindo que a decisão de fundir o Instituto Português de Arqueologia não tinha compatibilidade com a estrutura do Instituto Português do Património Arquitectónico. O Partido Socialista assumia, de diversas formas, o seu apoio à luta dos quadros do IPA pela manutenção do organismo, do seu organigrama e da sua autonomia e independência.

O Instituto Português de Arqueologia funciona, principalmente, em edifícios antigos e algo degradados na Avenida da Índia, em Lisboa. Quem por ali passar, olhando de fora, não diria o que lá dentro se passa e se constrói. Embora leve a cabo as suas tarefas em grandes pavilhões decrépitos, antigas instalações da Marinha, o IPA tem tido a capacidade de produzir ciência, cultura e conhecimento.

Desengane-se, no entanto, que o IPA é um instituto de biblioteca, desengane-se quem pensa que o IPA é um conjunto burocrático de funcionários do Estado que escrevem livros e artigos científicos. O IPA é responsável pela introdução do critério arqueológico no ordenamento do território de todo o país, dinamizando um tecido empresarial de mais de 50 empresas. É o IPA que, junto do Poder Local, garante a avaliação científica de sítios arqueológicos e a tomada das medidas necessárias para a conservação ou registo dos dados.

O IPA, nas suas variadas vertentes de trabalho, tem tido a capacidade para ser motor do desenvolvimento da Arqueologia em Portugal, para a qual acordámos tão tardiamente.

Mas o IPA também é um exemplo de boa gestão, o IPA funciona com um quadro reduzido de pessoas, tem crescido em capacidade de resposta ao que lhe é exigido e conseguiu, em poucos anos, angariar o estatuto de maior autoridade no campo da Arqueologia em Portugal. O IPA não apresenta défice estrutural, garante a gestão adequada dos dinheiros públicos e tem os salários em dia. O IPA funciona em condições de grande dificuldade e um dos espaços que se lhe têm mostrado bastante necessários aguarda uma verba de, pasme-se, 100.000€ (vinte mil contos!!!) para dinamizar um espaço fundamental, anexo à sua biblioteca.

E já que falámos da biblioteca do IPA, não seria justo não referir a sua importância. A biblioteca é de acesso público e está, inclusivamente, disponível on-line - http://www.ipa.min-cultura.pt/Biblioteca . A biblioteca é a maior do género no país e dispõe de um acervo único e de grande valor, herdado do Estado Alemão, ao abrigo de um protocolo entre Instituto Alemão de Arqueologia e o IPA. A biblioteca do IPA acolhe desde os estudantes aos profissionais de arqueologia ou áreas afins e associadas de todo o país.

Mas falar do Instituto Português de Arqueologia não deve deixar passar ao lado aquilo que a maioria de nós não sabe: o que o IPA produz. O IPA tem actualmente a maior colecção de ossos de aves da Península Ibérica, recolhidos pelos seus próprios profissionais, catalogando e identificando, dando um precioso contributo para o estudo do passado (arqueozoologia) mas também garantindo a existência de uma base de dados única que serve também para os trabalhos da biologia actual, para a identificação de espécies e compreensão das causas de morte.

O IPA realizou o único estudo polínico de alta-resolução do país, com um calendário pormenorizado ao dia e com centenas de espécies polinizadoras estudadas em Lisboa e Barreiro, dando um contributo essencial à medicina, principalmente para os estudos alergológicos e imunológicos. Também no departamento de arqueobotânica, o IPA dispõe de uma equipa que tem dado sérios contributos para a compreensão científica da paleo e arqueoclimatologia, através do estudo sistemático das deposições fósseis de grãos de pólen em sistemas lagunares do continente, do litoral ao interior.

O IPA tem o único centro de estudo do país em arqueotecnologia, capaz de identificar a evolução tecnológica dos utensílios do Homem em território nacional desde o paleolítico.

O IPA dispõe de uma equipa de estudo em arqueologia sub-aquática e marinha e tem demonstrado extrema capacidade e criatividade no que toca à identificação, recuperação e conservação de peças importantíssimas da arqueologia do país. O IPA desenvolveu mecanismos próprios de tratamento de madeiras e metais antigos, conseguindo conservar desde pirogas com mais de 2000 anos até canhões e peças de antigas embarcações do século XVI.

O IPA é um centro de criatividade e empenho, onde a ciência se respira a cada passo, onde os olhares dos profissionais são humanos e comprometidos com o trabalho. O IPA é um centro de produção científica, mas também de engenharia de soluções.

Num país em que a cultura, bem como a ciência, são utilizados exclusivamente para servir de atracção na feira da política nacional, em que os sucessivos governos têm tratado o trabalho dos nossos cientistas como um peso orçamental e não como uma mais-valia, a cultura é a primeira a pagar.

A cultura é essencial ao desenvolvimento do ser humano e, neste caso concreto, essencial à relação harmoniosa entre futuro e passado, garante do respeito pela história e indicador da humildade que terá de ter qualquer sociedade, no reconhecimento de que o futuro não se constrói sem aprender com o passado.

A direita, seja PS, PSD ou CDS, entende a cultura como uma mercadoria, necessariamente rentável e lucrativa, reservada às elites burguesas ou intelectuais. É nesse entendimento que o PS, agora governo, faz tábua rasa das suas próprias palavras de Junho de 2004 e cumpre o seu papel de vanguarda do patronato. Cultura nacional e popular, ciência pública e tudo quanto possa ser democrático não estão nos objectivos do Governo. Ceder espaços a empresas “culturais” para nos cobrarem bilhetes de valores astronómicos para ver os freak shows do capital é dinamizar cultura ou mesmo trancar em salas altivas e inacessíveis os melhores espectáculos e exposições do mundo, nisso sim, os nossos governos são exímios. Está feita a cultura.

Thursday, April 13, 2006

não aos insultos no futebol??? então para que serviria o jogo?

ontem houve uma manifestação sobre questões do desporto em frente à Assembleia da República.

1 (um) manifestante com 1 (um) cachecol (cachecol) a dizer fairplay e que gritava a plenos pulmões:

"- NINGUÉM PÁRA O FAIRPLAY!!!"

"-NENHUM GOVERNO PÁRA O FAIRPLAY!!!"

"-NÃO AO RACISMO NO FUTEBOL!!!"

"-NÃO AOS INSULTOS (sim, insultos...) NO FUTEBOL!!!"

e esta?!?!

passado algum tempo, a manifestação foi reprimida por 1 (um) polícia (polícia) que desmobilizou o manifestante.

Friday, March 31, 2006

palavras para quê?

"a sua situação só se complicará se procurarem salário, não emprego"
Belmiro de Azevedo - Escola Superior de Educação de Coimbra - referindo-se à dificuldade de um jovem encontrar o primeiro emprego.

O papel do acaso e o Ocaso das ideologias – parte II

É pois, desde os primeiros anúncios do materialismo histórico, que o capitalismo mais se empenha no aperfeiçoamento das suas armas de extinção ideológica. O capitalismo entende agora que o avanço prático da sua concepção ideológica depende do ocaso da ideologia nas massas, particularmente junto dos trabalhadores. A elitização da ideologia é o objectivo fulcral desta estratégia.

Os intelectuais do capital e a vanguarda económica da sociedade aprofundam e estudam a ideologia do capital, avança novas formas de exploração e sustentação do sistema capitalista. A concentração do estudo ideológico nas elites do capital, simultaneamente eliminando as bases filosóficas necessárias à compreensão das ideologias é a nova táctica do capitalismo. Ao eliminar a concepção de ideologia, o sistema acaba por conseguir um melhor controlo de massas, uma espécie de ilusão colectiva de que o acaso, a sorte e a competência de gestão de cada líder determinam o curso da história. A eliminação do conceito de ideologia, acaba com uma dualidade essencial: a do antagonismo de classe, a do antagonismo ideológico. De algum modo, pode dizer-se que o capital tem duas ideologias: a ideologia capitalista neo-liberal concentrada nas suas elites e a ideologia da ignorância que postula o ocaso de todas as ideologias que dirige às massas.

A ideia de que não mais existem ideologias é a mãe da doutrina da conciliação de interesses entre classes antagónicas, típica forma da mística impossibilidade histórica. O papel do acaso é, pois, evidenciado pela doutrina burguesa, desvalorizando o papel das leis e dos mecanismos naturais da sociedade humana.

O acaso, embora existente e com expressão importante numa abordagem micro-histórica[1] não determina a história da Humanidade. Esta é desenvolvida com base em leis básicas, em leis eminentemente materiais em oposição ao papel das leis do espírito.
A luta de classes é regida por leis e não pelo acaso. E a luta de classes rege a história do Homem.

É a negação do parágrafo anterior que serve de pilar à ideologia burguesa irradiada junto das massas. Julgo, no entanto, que as elites do capital baseiam a sua análise no mais puro do materialismo dialéctico e que é exactamente a abordagem materialista e científica que lhes permite aperfeiçoar de tal forma os mecanismos de exploração e opressão. É partindo da concepção marxista da divisão da sociedade em classes, bem como da perfeita consciência de que é a luta e o antagonismo permanente entre as classes que move a história que o capitalismo dinamiza as diversas ofensivas.

Um pequeno modelo do que foi escrito acima seria a hipotética situação:
“duas facções em guerra – uma poderosa e rica e outra pobre e apenas mais numerosa, sendo que a primeira explora ou escraviza a segunda – mas só a mais poderosa sabe que está em guerra porque mata no escuro”. É esta a jogada mais desenvolvida do capital no plano ideológico: garantir que só a burguesia sabe que existe uma luta de classes, garantindo que o proletariado acredita na conciliação de interesses.


[1] Pedimos desculpa pela invenção de termos, mas é que não há aqui entendidos nesta coisa das ciências sociais como dadas nas escolas– micro-história: história de um episódio numa vida, cingida a pequenos acontecimentos; contra macro-história: história da humanidade ou de uma sociedade, contendo a relação entre seres humanos, entre classes, entre homem e natureza, etc..

Thursday, March 30, 2006

Alguém nos anda a enganar (e eu sei quem é)

Aumenta o desemprego. Aumenta a pobreza. Avança a precariedade. Avançam as privatizações. Fecham maternidades. Fecham escolas. Ensino? Só para quem tenha dinheiro. Em Portugal dois milhões de pobres. Em Portugal dois milhões de pessoas sem direito as esgotos.

E ele, para resolver os problemas dos portugueses, cria um sistema de simplificação dos serviços do Estado. Muito bem!

Viva a caixa de correio electrónica para cada cidadão!
(cria emprego?Não, mas fica bem fica bem anunciar)

Viva o portal da Habitação!
(resolve os problemas de habitação?Não, mas pode ser que se engane mais alguns)

Viva a declaração fiscal electrónica!
(torna o acesso ao ensino e ao saber um direito de todos? Não, mas isso não interessa)

Ah, num país em que, em finais de 2005 só 1,483 milhões de pessoas têm acesso à internet!!!

O papel do acaso e o Ocaso das ideologias - parte I

O sistema capitalista, com quase 250 anos de construção não tem conseguido ultrapassar os problemas que desde logo se lhe colocaram. Sempre os marxistas acusaram o capitalismo de conter em si o gene da desumanidade, por centrar a organização da sociedade humana, não no Homem, mas na acumulação de capital.

A produção mundial conheceu avanços magníficos no quadro inegável da evolução do capitalismo, avanços esses fortemente relacionados com o funcionamento do próprio mercado capitalista e com as dinâmicas criadas pela concorrência entre empresas que acabou por favorecer a evolução tecnológica nos sistemas de produção.

Hoje, a produção é maior do que a necessária para que todos os seres humanos pudessem viver em condições de dignidade e a mão-de-obra envolvida na produção poderia empregar todos desde que diminuída a carga sobre cada indivíduo. A tecnologia dos sistemas de produção e os custos de produção também já permitem que os salários dos trabalhadores vão ganhando aproximação ao valor da produção.

No entanto, nenhuma destas potencialidades da humanidade e da sua sociedade mundial se verifica. Pelo contrário, a concentração de capital é cada vez mais acentuada, a produção e a riqueza são cada vez mais mal distribuídas entre as classes e entre os diferentes povos do mundo.

As ideologias, os sistemas de modelos conceptuais e bases teóricas para a acção, fazem hoje, cada vez mais sentido. Numa altura em que os povos se encontram numa encruzilhada histórica, urge construir um rumo alternativo para a história colectiva da humanidade. Tal não acontecerá por acaso.

Ao longo da história, as classes dominantes foram sempre utilizando diversas metodologias de ofensiva ideológica e de controlo, para a manutenção das relações inter-classistas. A repressão, a ignorância de massas, o controlo religioso, a fome, o desemprego e outras formas de opressão física, psicológica ou ideológica sempre foram os recursos mais utilizados pelas classes dominantes.

O capitalismo, no entanto, tem vindo a aperfeiçoar todos esses mecanismos, não abandonando nenhum deles, refinando cada um, aperfeiçoando-os enquanto metodologias. O capitalismo e os sistemas que representam os pólos opressores e exploradores têm levado a tortura, a guerra e outras formas de repressão a novos patamares de desumanidade, mas também encobertos pela arma de ponta do imperialismo e do capitalismo – a ideologia. E é aqui que o sistema capitalista tem desenvolvido as mais brilhantes testes (não menos erradas) ideológicas que lhe possibilitam de certa forma o controlo de massas.

Uma das questões centrais que se coloca é a que se relaciona com as novas formas de misticismos e idealismos baseados na ignorância que o capitalismo tem conseguido criar e espalhar, utilizando mesmo os recursos dos Estados como os sistemas educativos de massas. O ocaso das ideologias tão anunciado pelos professores da política neo-liberal e destacados quadros intelectuais do capitalismo é a mais refinada das evoluções da ofensiva dirigida contra os povos e contra os trabalhadores de todo o mundo. A ausência da perspectiva materialista que é infundida nas massas conduz à aceitação passiva de conceitos paralelos à realidade, um dos principais e cada vez mais sustentado pela rede ideológica do capitalismo é o do acaso, aliás já promovido desde que o marxismo sistematiza as leis da história.

Monday, March 20, 2006

Invasão continuada, ocupação por consolidar

A ocupação continua, ainda que na TV não abra telejornais, nem se ouça nas rádios nem leia nos jornais. O exército mais poderoso do mundo, com a ajuda dos lacaios do imperialismo e com a cobertura da comunicação lá vai asfixiando um país, um povo e uma milenar cultura.

Nos jornais, no televisor, o Iraque é apenas um deserto, árido e vazio, sem sangue, sem vida. Nos jornais, o Iraque foi o país das armas de destruição maciça, das armas biológicas, da tirania, sempre um país de bárbaros terroristas que ali emergiam contra o mundo civilizado. Nos jornais e na tv, o Iraque sempre foi aquilo que o imperialismo quis que fosse. E mesmo agora, provadas que estão as mentiras alvitradas pela demência prepotente do capitalismo, o Iraque continua a ser um deserto por onde marcham, qual cruzados, os civilizados soldados do império.

O Iraque, a sua vida, as suas vidas, a sua resistência e o seu sangue derramado nas suas próprias ruas, não existe para as câmeras da Tv, nem para as objectivas dos jornais. Quanto muito pode existir um amputado de guerra em estado aflitivo para ganhar um prémio foto-jornalístico, mas a dor, essa, não existe nem nunca existiu porque, aliás, os terroristas não sentem dor.

O Iraque, afinal de contas, não tinha armas de destruição maciçaa. Nem tampouco se provaram quaisquer ligações a organizações terroristas internacionais. O Iraque, afinal, não dominava a arte das armas biológicas, nem tinha planos de promover uma Jihad contra o ocidente cristão. Afinal, o Iraque tinha era petróleo. Afinal o Iraque tinha rios de petróleo.

Afinal o Iraque tinha gente, gente sofrida de décadas de repressão. Afinal o Iraque tinha casas, prédios, afinal o Iraque não era apenas um deserto com terroristas, lá viviam crianças, mulheres e homens, trabalhadores e trabalhadoras. Afinal no Iraque também existiam árvores, jardins, escolas e hospitais.

Afinal os satélites da guerra dos senhores do petróleo, com a sua magnífica resolução xpto não apanharam o panorama iraquiano completo pior, só detectaram o que lá não estava. E hoje? quem lhes pede contas? Os mesmos de sempre: os povos e os trabalhadores. Anunciar o reconhecimento da mentira não é tarefa para as TV's, jornais ou rádios. Denunciar o genocídio não é desígnio dos que promoveram a guerra. Julgar os criminosos de mãos sangrentas não é típico da justiça capitalista. E hoje, promovem-se os assassinos. Barroso é senhor presidente (vómito), Bush é lorde da guerra e do petróleo, Blair é dama-de-ferro reciclada e não consta que Aznar apodreça numa prisão longe de sua casa.

Mas são os mesmos que, em todo o mundo souberam a mentira, que hoje lutam como antes. É o povo iraquiano em armas na defesa da sua pátria, soberania e independência que já deu milhares de filhos à sua terra, é o povo iraquiano sofrido e empobrecido que mastiga urânio na sua comida e o engole na sua água por mais milhões e milhões de anos no futuro. Mas são também muitos pelo mundo, os explorados que nasceram fora do Iraque. E podia ter tudo acontecido com eles. Não com a burguesia pseudo-socialista a quem o Iraque pouco importa. A esses não acontecem desgraças, porque a solidariedade burguesa passa fronteiras com aviões, enquanto a proletária voa o mundo apenas com a forçaa da razão e, por vezes, um pedaço de pão. Para esses o Iraque é história do passado, que lhes colocou fronhas no jornal quando era moda, para esses já só interessa o pós-Iraque. E o povo do Iraque que é hoje vanguarda do heroísmo anti-imperialista e que resiste com as armas que não tem contra a máquina esmagadora dos tanques de guerra e contra binóculos de infra-vermelhos, satélites de precisão, espingardas metralhadoras e canhões, contra o urânio cancerígeno e as armas dos patrões, ali continua de pé. E um dia ele escreverá a história do seu país, com novos jornais, rádios e Tv's.

Wednesday, March 08, 2006

Paridade concertada

O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda entendem que a defesa dos direitos das mulheres tem expressão máxima naquilo a que chamam a paridade, por sua vez inserido no tema por si próprios fabricado igualdade de género.

A paridade em si não é um estado necessariamente negativo nem positivo. A participação da mulher e do homem em igualdade não significa directamente a igualdade numérica. A paridade, enquanto estado de participação em determinada etapa da vida política, social ou económica, deve ser atingida com naturalidade e não com obrigatoriedade. A própria concepção de atribuir à construção da paridade o carácter limitativo e obrigatório encerra a indisfarçável tendência patriarcal da sociedade em que vivemos, ou, num outro extremo pode transportar a visão individualista do feminismo frígido e tão abominável quanto o machismo.

A grande questão que se coloca quando falamos de participação da mulher na sociedade é exactamente a mesma que deve ser ponto de partida para tantas outras análises. O que define o papel de cada ser humano na sociedade? O seu sexo? A sua cor? O seu credo? A sua orientação sexual? Julgo que não. O que determina o papel de cada um de nós na sociedade é a nossa intervenção no processo produtivo, a detenção ou não dos meios de produção, a acumulação e apropriação ou não das mais-valias e a existência ou não de um compromisso de classe prático.

Não entendo como podem ser considerados garantidos quaisquer direitos das mulheres pela simples obrigatoriedade de participarem em igual número nas diversas esferas da vida. A grande questão consiste na garantia das condições que possibilitem um relação entre a sociedade e a mulher nas mesmas condições com que esta se relaciona com o homem, condições essas que devem ser, paralela e simultaneamente mais abrangentes e mais dignas.

A libertação da mulher é a libertação do homem e do Homem.
A obrigatoriedade de medidas que garantam a paridade, a imposição de quotas por género, acarretam falácias, enganos e retrocessos no entendimento colectivo necessário à verdadeira emancipação da mulher.

1. A imposição, por ser isso mesmo, implica que existirá uma ingerência na vida das organizações, obrigando cada partido, associação ou estrutura democrática a limitar-se na construção das suas próprias opções.

2. A existência de igualdade numérica entre homens e mulheres não garante de forma alguma a igualdade de tratamento político entre géneros, isto porque a definição da génese política de cada pessoa depende exclusivamente da sua origem de classe e do seu compromisso ou integração de classe.

3. Partir do princípio que a paridade numérica é sinónimo de garantia de igualdade política e social entre géneros é assumir que todas as mulheres defendem os direitos das mulheres, o que me escuso a rebater.

4. Aceitar a paridade numérica, bem como defendê-la é fazer divergir das questões centrais, ludibriando homens e mulheres a resolução de um problema que tem principal raiz nas discriminações de base que sofrem homens e mulheres, principalmente nos locais de trabalho, com principal expressão como sabemos para o sexo feminino.

Monday, February 20, 2006

Fascismo revisitado

O espaço da extrema-direita

Um olhar sobre a história recente da humanidade denuncia as tendências do capitalismo, por ter sido também este a dominá-la. Analisar a história do século XX é, em grande parte, olhar o capitalismo, da sua fase infantil após as embrionárias da revolução industrial, à sua fase mais avançada que hoje ainda tem expressão. Claro que a história do século XX é marcada pela maior insurreição dos trabalhadores que o mundo já conheceu, uma insurreição que daria origem a um Estado Proletário, no rumo do socialismo e do comunismo.

No entanto, é inegável que também merece bastante destaque o avanço do capitalismo, a sua consolidação, contando claro, com as adversidades com que sempre se deparou no quadro da luta de classes, e dos obstáculos anti-capitalistas e anti-imperialistas com que se foi cruzando.

Claro que o que mais marca a história, ainda hoje, é exactamente o confronto incontornável entre as classes de interesses antagónicos, entre os dois pólos das relações de produção, trabalhadores e os detentores de capital. Mas as grandes experiências socialistas fracassaram perante a dimensão titânica que os estados do capital conseguiram alcançar e perante, claro, outros mecanismos que conseguiram criar.

A luta de classes continua a ser o eixo fundamental da história, quer durante os avanços, quer durante os recuos ou crises do capitalismo. Se atentarmos às mais graves crises do capitalismo, veremos que o sistema está disposto a procurar e utilizar formas de organização e exercício políticas que, não sendo as suas opções primárias, constituem os seus braços fortes em ocasiões de desequilíbrio.

O capitalismo, na senda da sua perpetuação enquanto sistema dominante e no aprofundamento da sua capacidade predatória não hesita em recorrer a métodos de ofensiva aberta, deixando a sua posição mais típica em que aplica uma ofensiva mais encapotada.

Perante os graves desequilíbrios dos anos 30, por exemplo, o capitalismo viu-se forçado a criar e a promover forças políticas fascistas, que foram em muitos casos o garante da sobrevivência do próprio sistema. O Capitalismo poderia ter enfrentado uma derrota irrecuperável caso não tivesse existido o contrabalanço do nazi-fascismo, que veio repor privilégios perdidos do capital e das classes que o sustentam, com ramificações por toda a Europa.

O capitalismo, após essa sua fase de promoção da extrema-direita de forma acentuada, preferiu recorrer a métodos menos claros, utilizando, em muitos casos, o próprio sistema democrático, apoiando ditadores, como foi hábito em países espalhados por todo o mundo. Um outro recurso foi a intervenção militar e a agressão, garantindo que o sistema capitalista se podia apoderar de recursos e riquezas naturais dos países mais fracos.

No entanto, só precedendo grandes crises do capitalismo, o próprio sistema decide atribuir importância à extrema-direita, ou melhor, decide deixar-lhe espaço para proliferar e para crescer. No geral, o sistema capitalista consegue sustentar-se na base das falsas democracias, das chamadas democracias ocidentais. Nestes espaços, o poder capitalista consegue, no essencial, promover a sua política, simultaneamente, alimentando a necessidade de qualidade de vida das burguesias em que assenta e aumentando a sua influência sobre outros países que se situam fora da esfera dos ditos civilizados.

No entanto, em períodos de grande crise, as democracias burguesas podem não ser suficientes para garantir o controlo de massas que o capitalismo exige em determinados momentos de maior desequilíbrio no seu próprio sistema. Nesses casos, o leque de recursos do capitalismo abre-se significativamente. A violência, a repressão, a opressão, a censura, a tortura, a eliminação tornam-se instrumentos comuns. Por outras palavras, quando a guerra, as invasões, o saque e a predação não são suficientes para restabelecer o equilíbrio no sistema capitalista, o fascismo e o nazismo servem bastante bem esse desígnio.

O que presenciamos neste momento, na “terra dos valores novos e humanos” – Europa – é exactamente o recrudescer do mais intolerante fascismo. O capital está, de certo modo, a conseguir incutir uma moral como raramente conseguirá ter feito. São muitos aqueles que já alimentam a guerra entre Ocidente e Oriente, Cristo e Maomé, Deus e Alá, Bíblia e Corão nas suas próprias cabeças. E é isso que representa um avanço da extrema-direita. A forma irascível como este assunto tem vindo a ser tratado na comunicação social, pelos próprios governos, pelos clarividentes de algibeira, oops perdão, comentadores políticos, revela exactamente que se tem tentado por todos os meios, exaltar os ódios de ambos os lados.

A extrema-direita, frente de batalha do imperialismo nos momentos mais duros, aí está em força a cumprir o seu papel. Espalhar o ódio e o fundamentalismo. Aqui e lá. É que aqui também existe fundamentalismo e fanatismo, não é só no médio-oriente.

Basta atentar à forma como nos consideramos socialmente superiores aos países do Islão, para detectar fundamentalismo. Basta olhar as páginas dos jornais e ver homens e mulheres chorando e rastejando pelo chão pedindo milagres a nossa senhora em fátima… que pensariam estes se um qualquer cartoonista espetasse com a irmã Lúcia a torturar prisioneiros em Guantanamo?

Monday, February 13, 2006

Ir à bola!

Não pretendo entrar em análises sobre como se transformou o futebol numa indústria, transformou-se um desporto que se jogava e via por prazer e amor à camisola, num negócio em que o que mais interessa não é tanto o espectáculo e a exibição, mas a cotação na bolsa e o número de camisolas vendidas.

É tradição generalizada da espécie que vai ao estádio o insulto aos jogadores e respectivas famílias, porque lhes pagam o ordenado e eles não comem a relva nem têm amor à camisola; aos jogadores e às suas mães porque são todos, sem excepção, uns carniceiros que não vêm a bola mas unicamente as pernas dos nossos jogadores; e o preferido de todos, o árbitro e toda, mas toda a sua família, amigos e conhecidos, porque, obviamente, só vê as faltas da nossa equipa e está, claramente, ao serviço da conspiração congeminada pelos outros clubes, Liga de Clubes, governo e quem sabe do amaricanos (que, como toda a gente sabe andam sempre metidos nestas tramóias) para o nosso Benfica não ser campeão.

Eu, que até nem sou daqueles que não come para não perder um jogo nem bate na mulher quando o Benfica perde, sou plenamente a favor do insulto.

Passando a explicar: é terapêutico poder berrar a plenos pulmões que à hora do jogo, a mulher do árbitro não está propriamente a ver a actuação do marido, ou que a mãe do guarda-redes da equipa adversária tinha tantos problemas com a monogamia, que surgem dúvidas quanto à paternidade do jogador...

Mais: é terapêutico e, apesar do que custa um bilhete para um jogo de futebol, sempre é mais barato que ir ao psicanalista e a conta da farmácia em anti-depressivos e afins

(Insulto mais original até agora num jogo de futebol : "Compraste uma tenda a pensar que era uma casa!" ?!?!?! O Império lança desde já um passatempo sobre que raio quer dizer isto.)

Friday, February 10, 2006

liberdade de imprensa...

Deixo já claro que não sou particular estudioso das questões políticas e sociais do médio-oriente; não sou nem tenho qualquer qualificação que me permita ter o rigor necessário para estabelecer verdades sobre essa matéria; não pretendo no entanto, como outros, fazer crer que possuo tais credenciais. Prefiro que fique já o registo desta advertência. E digo isto porque recorrentemente a televisão e os jornais trazem aos seus programas ou colunas os mesmo do costume, com as opiniões do costume revestidos da esplêndida capa de especialistas disto e daquilo, sem, na verdade, mais não fazerem que veicular as posições oficiais do imperialismo e dos seus directores nevrálgicos.

As questões que se têm vindo a colocar de forma gradativamente mais preocupante em torno de países e povos do médio-oriente, particularmente no que toca ao dito choque ou confronto cultural e religioso com os países ocidentais não têm deixado de nos preocupar sobremaneira. Todos os dias, a cada minuto nos entra de rajada uma notícia, um artigo de opinião, uma foto sobre o que supostamente se passa nesses países árabes. Com a velocidade da modernidade, já nem paramos, muitas vezes, para questionar o lado de cá desta história.

1. Desde há décadas que se tem vindo a criar junto das sociedades ocidentais que o conceito de civilização é-lhes exclusivo, remetendo, implicitamente, todos os países que não reproduzam os seus métodos de organização ou religião para o estatuto de incivilizados ou, à velha moda romana, de bárbaros.
2. A cada notícia que passa consolida-se a linguagem ofensiva aos povos que, diferentemente dos da maioria da Europa e da América, não sustentam a sua visão do mundo nas dicotomias do cristianismo, e também àqueles que não partilham da sua mecânica económica capitalista.
3. O conceito de terrorismo começa a alargar-se e a estender-se a movimentos de defesa patriótica, a movimentos revolucionários e a lutas populares de libertação e conquista.
O terrorismo serviu sempre ao longo da História para justificar as incursões agressivas dos mais fortes, tipicamente transformados em mártires.
4. Conceitos como o de “fanatismo” e “terrorismo”, aludindo a uma inexplicável demência colectiva circunscrita ao islamismo, são cada vez mais irradiados e, sem darmos por isso, começamos a relacionar a tez escurecida, a barba e o turbante com bombas. É curioso, no entanto, que não o façamos quando imaginamos as estrelas e as riscas da bandeira dos EUA que, sozinhos já mataram, por via também do terrorismo organizado, muitos mais seres humanos que todos árabes juntos.
5. A última ofensiva ideológica que nos tem sido dirigida (a dos Cartoons) não tem outro objectivo senão o de criar o caldo cultural e de opinião que permita a caracterização ocidental do Islão como um cancro planetário que urge erradicar. De alguma forma faz-se parecer de todo incompreensível que povos muçulmanos não saibam brincar… Souberam os católicos reagir decentemente quando espetaram, num cartoon português, com um preservativo no nariz do papa? Souberam os católicos manter a dignidade democrática quando passou “a última tentação de Cristo” nas salas de cinema de Roma? E souberam esses ditos civilizados acolher a liberdade de expressão quando Saramago publica um livro que ficciona mordazmente em torno da vida do seu profeta?
6. A liberdade de expressão e de imprensa é um direito inalienável nos países ocidentais é-o porque se enquadra no modelo de sociedade que aqui se tem vindo a construir. Isso não significa que se exija igual aplicação ou compreensão do princípio em países, culturas e povos radicalmente diferentes. Essa liberdade tem vindo a ser o estandarte ocidental deste novo confronto. Aqui. Lá existirá outro.
7. O que importa neste momento ao imperialismo é criar as condições subjectivas que sirvam de pano de fundo a novas agressões, liquidando o direito á diferença, partindo contra os povos que não mostram total submissão. Daí, na Europa nos dizerem que estamos perante um ataque inadmissível à liberdade de imprensa. Daí também os líderes religiosos e políticos árabes utilizaram a raiva à nossa intolerância para justificar a sua.
8. Aqueles que participam nos ataques às embaixadas dinamarquesas e que acalentam a raiva, o ódio, a xenofobia e o confronto titânico dos deuses de uns contra os deuses de outros são tão criminosos quanto aqueles que provocaram os desequilíbrios. O capitalismo é global e a sua influência no ocidente não é diferente daquela que tem no médio-oriente, ainda que, obviamente, com expressões e interesses concretos diferentes.
No entanto, todos os que promovem este caldo de ódio são directa ou indirectamente lacaios do grande e poderoso polvo do capital e do imperialismo norte-americano que, com tudo isto, já se posiciona ávido de arrancar para a sua nova cruzada, babando qual predador perante a presa.

Com isto, lucram os senhores do petróleo de todo o mundo. Lucram os governos corruptos, islâmicos e ocidentais. Lucram as grandes corporações. Com isto, derrama-se o sangue dos povos, manipulados ou não. Perdem-se vidas necessárias para construir um futuro novo.

Friday, January 27, 2006

um terrorista... foi você que pediu?

“Bush diz que os palestinianos têm que arcar com as consequências dos seus actos.” – Sic Notícias – Jornal de síntese

“We do not deal with Hamas. Hamas is a terrorist organization.” Scott Mclellan – Porta-voz da Casa Branca

Ambas as frases foram produzidas no dia 25 de Janeiro de 2006, ou seja, poucas horas após a divulgação do resultado oficial das eleições que tomaram lugar na Palestina, para a escolha do novo governo. Após mais de dez anos de governo sustentado numa maioria parlamentar pelo partido social-democrata e conciliador Fatah, os extremistas do Hamas acabam por vencer as eleições com uma folgada maioria absoluta. A questão que se coloca é: quem ganha com este resultado?

Os desenvolvimentos que advirão desta vitória começam a tornar-se óbvios.
A resposta à pergunta não pode passar sem dois considerandos essenciais:

A Fatah, pelo seu papel de contenção da luta popular, pelo seu carácter submisso às ordens imperialistas e pela governação tipicamente social-democrata por que enveredeou, lançou o povo palestiniano na desilusão perante qualquer tipo de negociação. Na verdade, o caminho da negociação submissa tem conduzido a situação para o acentuar do conflito, para a tomada de localizações estratégicas em terreno palestiniano, para o constante crescimento da tese sionista, enquanto não resolveu os essenciais problemas do povo palestiniano no plano nacional e vendendo, no plano internacional, a dignidade e a soberania da pátria palestiniana.
o papel das organizações que optam, em determinados momentos da história, pelo recurso à violência contra civis, arriscam sempre o desvirtuamento da causa pela qual dizem combater. Daí o facto de muitas destas organizações serem criadas e apoiadas pelos Estados imperialistas, como o flagrante caso da Al-Qaeda, nascida nas fileiras dos Mujaheedeen e dos Taliban, ambas criadas com o investimento dos Estados Unidos da América. O desvirtuamento da causa popular e a sua transformação em violência não é sua característica própria, é antes o primeiro sinal da manipulação da causa pelo seu próprio adversário.

Quem ganha com este resultado é o estado sionista de Israel e seu aliado americano, os EUA. A política de expansão e geodominância característica do imperialismo tem vindo a ser a verdadeira causa do agravamento da tensão e da violência no médio-oriente. Quer os EUA, quer Israel já anunciaram não estar dispostos a continuar a farsa das negociações com uma organização como o Hamas. O caminho está livre, portanto, para a utilização da violência e da destruição em massa da pátria palestiniana. As incursões tenderão a aumentar, com o Hamas fazendo o papel que lhe cabe: o da justificação da agressão.

Naturalmente, as populações do mundo, ainda que manipuladas seriamente pela comunicação social dominante, não toleram a agressão injustificada, nem a violência unilateral que se traduz em invasões ao estilo colonial e na apropriação dos recursos de um povo por um estado que lhe é alheio. No entanto, uma justificação de recurso para essas incursões agressivas, é exactamente o argumento de que o invasor se está simplesmente a defender.
Os EUA e seus cães de fila (Inglaterra, Espanha, Portugal) utilizaram esse pobre argumento após o 11 de Setembro. Utilizaram-no para justificar a invasão do Afeganistão e, de forma contínua para desculpar todos os erros cometidos na invasão do Iraque. De certa forma, o alcance dessa justificação é tal, que ainda hoje serve de pretexto para planificar invasões a Cuba, Venezuela, República Popular Democrática da Coreia, Síria e uns tantos outros incómodos países. Incómodos por terem reservas petrolíferas maiores do que as que deviam, ou, pura e simplesmente, por não acatarem cada ordem mesquinha dos senhores do dinheiro.

A vitória do Hamas é a vitória da política de agressão de Israel e dos EUA. É a vitória do sionismo e do ódio. Com o Hamas no poder, o agressor passa a vítima constante. Os coitadinhos dos judeus, eternos mártires da História, serão agora alvos de intenso terror, fruto do fanatismo inexplicável de uns tantos milhões de muçulmanos passados da cabeça. Está montado palco para a morte vir abraçar mais uns milhares de palestinianos. Está livre o caminho do estado fascista de Israel. O holocausto continua, em chamas fora de fornos, sem calcinações conhecidas. Mas o sacrifício está à vista.

Esperemos nós que deus se retire humildemente desta batalha e deixe expostas as verdadeiras razões daquele sangue.

Tuesday, January 24, 2006

Direita no poder

Nem sei por onde começar...

Pela primeira vez desde o 25 Abril temos um Presidente de direita...
Preparado ao ínfimo pormenor pelos xerifes do dinheiro, mais os jornais e televisões que controlam.
Ganha o candidato que menos propôs ( provavelmente para não lhe fugir a boca para a verdade), o candidato do PSD e do CDS (sim, afinal de contas no domingo vi umas bandeirinhas e umas declarações...), o candidato que, enquanto primeiro-ministro, tentou desmantelar empresas públicas, oferecendo-as aos privados, mandou atacar barbaramente manifestações, impôs leis anti-democráticas e anti-populares...

A quem é que favorece a vitória de Cavaco?

Aos jovens?
Aos trabalhadores?
À esmagadora maioria da população?
Não. Assim como Sócrates, Cavaco sempre esteve e estará com o grande capital, na procura de mais lucro e mais lucro, mesmo que isso signifique empurrar cada vez mais pessoas para o desemprego, o trabalho precário e a pobreza.
É assim o nosso mundo bárbaro (ou como quem diz o capitalismo)