Friday, September 09, 2005

Presidencial Vergonha

Eis que nós, portugueses voltamos a dar provas de que merecemos os epítetos de povo sofredor.
A nossa sina, antes que alguma manhã de nevoeiro nos traga uma surpresa esperada há muito, será fustigada por vendavais de toda a ordem.

Eis que somos novamente postos à prova pelo Concílio dos Deuses. Marte não descansa o seu insaciável ódio ao nosso mártir povo. Pena que não venham hoje sereias, nem alcancemos ilhas de amor, para mitigar tão triste fado.

Mas tal castigo persegue-nos há muito. Por Júpiter!
Que nos reservará ainda o destino? Que fadigas e tormentas teremos ainda de dobrar antes do nascimento do nosso longínquo quinto império?

Nos entretantos, muitos vão reclamando a armadura sebastiânica. São figuras que já deviam viver nos antigos livros, remetidos aos negros capítulos da História sofrida a que, na verdade, pertencem.

Ah... trágicas estórias as da nossa Ocidental Praia Lusitana! Valha-nos um qualquer Deus menos fatídico, nem que seja um daqueles pequenos, menos famosos... ou mesmo um semi-deus que nos acuda. Se não há Neptuno, nem Júpiter, se nem Marte nos acode e se Vénus anda ocupada a tentar lembrar o amor a quem o esqueceu, contantavamo-nos agora com a ajuda de Baco, ou mesmo Dionísio mais arcaico, caso Baco esteja ocupado. (À falta deles, enviem-nos ao menos umas bacantes que nos dilacerem a carne e o sofrimento.)

Mas porquê, esta trágica invocação do Concílio há muito extinto, como todos sabemos, para ser substituído, curiosamente, num Concílio?

É simples. Não bastava sermos o país que orgulhosamente ocupa os primeiros lugares de tudo quanto é negativo e o último de tudo quanto é positivo no seio da União Europeia? Não, não bastava... Não basta também sermos um país corroído pela corrupção em larga escala, um país de cruzamentos promíscuos de interesses, um país de muitos pobres e poucos ricos. Nada disso basta. Não basta já vivermos a empobrecer enquanto trabalhamos, não basta ainda viver à míngua para comprar o pão e pôr a comida na mesa para os miúdos. Não, nada disso é ainda suficiente para que paguemos o pecado de sermos Portugueses. Há-que fazer jus à nossa sina.

Enquanto esperamos a manhã submersa em nevoeiro, outros há que vão fazendo fumo.
Capas de revista, de jornais, doutores da sapiência divina e paladinos da razão que já mais ninguém tem. São eles quem agora, a juntar a tudo, nos vem lembrar que estamos podres por dentro. Que não há decência contemporânea e outro remédio não nos resta senão o de remexer nos baús bolorentos do sótão político empoeirado.

Venham eles, que não estão cansados de governar o nosso país. Venham eles que já ninguém lembra. Aqueles que, à espreita, nunca deixaram de querer ser a nossa consciência. E nós, perdoai-nos Júpiter, Marte, Baco, Vénus, Neptuno... Devolvei-nos a memória e o discernimento que em má-hora no-los levastes. Não digo que não os tenhamos, mas tão apagados que estão, oh Deuses!

Venham eles de novo, em armaduras plásticas brilhantes e nevoeiros fingidos. Guerreiros contra a senescência e a idade, que talvez não mereçamos mais nem melhor.

Venham que o povo saberá, a seu tempo, pedir-vos as contas que lhe devem.
As soluções estão à vista. Contrariar os Deuses e seu concílio nunca foi fácil, e certamente, pagaremos caro por o fazer novamente. Mas a História do nosso país tem ainda muito que escrever. Em boa hora saberemos virar o rumo da nossa barca, contra soares, cavacos e outros parasitas arcaico-modernos, rumo a um futuro de vitórias. Um futuro a que não tenhamos vontade de chamar império, porque nele não subjugaremos ninguém.

Razão suba ao concílio extinto do Olympo, ou aos céus do Senhor pois o destino a que nos sujeitam em breve será ruína. Sobre a ruína, edificaremos um Portugal independente de vossos estigmas e ditames. Independente de vossos famigerados querubins, musas ou semi-deuses.

Não há deus que nos amarre para sempre, há vida para além de Soares e Cavaco. Há povo para além das ilustres casas e palácios. Há economia para além das grandes corporações. Há política para além do PS e PSD. Há política nas nossas mãos. Há Partido Comunista!


Deixo o post histórico-científico para o mamutemorto para ele dar uso ao que anda a estudar.

Wednesday, September 07, 2005

Tempo mau para lirismos

Eu bem sei: só o feliz
É que agrada.
Gosta-se de ouvir
A sua voz.
A sua face é bela.
A árvore aleijada no pátio
Mostra que o terreno é mau, mas
Os que passam chamam-lhe aleijada
Com razão
Os barcos verdes e as velas alegres do Sund
Não as vejo.
De tudo
Só vejo a rede rasgada dos pescadores
Porque é que eu só falo da lavradeira
De quarenta anos que anda toda torcida?
Os peitos das moças
São quentes como dantes
Na minha mão uma rima
Parecer-me-ia insolência
Dentro de mim lutam
O entusiasmo pela macieira em flor
E o horror dos discursos do pintor de tabuletas
Mas só o segundo
Me força a sentar-me à mesa.


Bertolt Brecht

Thursday, September 01, 2005

A caverna invertida do idealismo

Ontem fui ao teatro aqui em Setúbal, no INATEL.
Assistir a uma peça levada a cena no âmbito do Festival de Setúbal, pelo Fonte-Nova Teatro Estúdio.

Gostei da peça, gostei do texto, gostei dos dois actores que, impecavelmente, deram vida a duas personagens de loucura.

No entanto, aquela peça deixou-me a pensar. Não conheço o dramaturgo, nem tenho certeza quanto à ideia central do texto. De qualquer das formas... Um intelectual profundamente desenraizado da realidade, marcadamente idealista, teimava em comprovar a tese de que o Homem que é escravo da vida, não poderá nunca deixar de o ser. O seu companheiro de quarto, um operário da construção civil, operador de martelo pneumático há três anos consecutivos, é aquilo a que comummente chamamos um idiota.

A ideia do intelectual era provar que o operário era um escravo da sua própria vontade, da vontade de arrecadar mais dinheiro. Para o intelectual, o sistema não desempenhava um papel. O capitalismo teria escravos por vontade própria de cada um, não podendo escravizar aqueles que não se seduzem pelo incremento da sua riqueza. O operário, por seu lado, nem sequer entendia muito bem o conceito de liberdade. Não compreendia como podia ele ser escravo da sua própria vontade.

O intelectual queria escrever um livro em que publicaria a mais absurda tese do mundo: os escravos sê-lo-ão para sempre, por sua própria vontade. O operário queria ganhar mais dinheiro e por isso trabalhava 12 horas por dia agarrado a um martelo pneumático, como um animal de carga, sem pensar, sem questionar. Ambos assumiam que viviam numa democracia. O intelectual era livre porque estava acima, como que num pódio, donde podia avistar os operários escravos lá em baixo, em carreiros como formigas.

A determinada altura, o operário, numa crise de fúria, rasga todo o seu dinheiro. O intelectual despedaça a sua tese. Para ele, o operário não podia ter feito aquilo. Para ele, o operário libertou-se da escravidão naquele exacto momento. Isso destruiu-lhe todo o raciocínio que edificara ao longo daqueles tempos.

O idealismo abundava em ambas as personagens, mas a tese foi rasgada. Ambos não eram mais que um delírio, as suas próprias sombras na parede da caverna. A vida, lá fora, continuava. O operário não deixou, obviamente de o ser. O intelectual chorou noite fora.

post scriptum: operário - ser humano que intervém directamente no processo de transformação da matéria prima, é o proletário que opera maquinaria, produzindo directamente mais-valia para um patrão.
proletário: o ser humano que não detém qualquer outra fonte de rendimento para além da venda da sua força de trabalho, a troco da exploração da mais-valia que, directa ou indirectamente, produz.
escravo: ser humano que é propriedade de um senhor de terras, a sua subsistência é-lhe garantida, pois disso depende a qualidade do seu trabalho. O escravo não é livre, não recebe salário.

post post scriptum: como é fácil perceber, existe uma diferença abissal entre escravo e operário, eliminá-la é entrar na esfera da pura metafísica. O escravo tem garantida a sua existência, enquanto que o proletário e o operário têm-na dependente da oferta de trabalho. Regra geral, tanto a um quanto a outros é atribuído o mínimo necessário para a subsistência biológica, um sobre a forma de géneros, outros em salário. O escravo não é dono de si, constitui propriedade de outrém. O operário não é propriedade de ninguém. Não queremos, com isto, dizer que a vida do escravo é melhor que a de um operário. Mas, socialmente vendo, a classe dos escravos teria uma garantia de vida, enquanto o operariado não a tem. O operariado pode ser vagueante e alternante, enquanto que os escravos não. O patronato pode bem dispensar um operário, pode contratar outro imediatamente de seguida por menor salário. O senhor de terras não tinha qualquer interesse em mandar embora um escravo, seria dinheiro perdido, pois teria de comprar outro. Enquanto que os senhores de terras teriam conveniência no bem-estar dos escravos, na sua saúde e na manutenção do seu valor, o patronato actual, utiliza o operariado e o proletariado, no geral, como um "escravo" de aluguer.

Wednesday, August 31, 2005

Coelhos e outras promessas de felicidade

Existem (ainda) vários tipos de coelhos: aqueles de estimação (os anões), os que as nossas avós criam para fazerem guisados e os que escrevem. O leitor (deste blog), que por natureza é atento e inconformado (está num blog de esquerda bárbara, ou um blog bárbaro de esquerda, não sei bem) dirá "Este mamute não está morto, está só senil. Os coelhos não escrevem." Ao que este mamute, morto mas (ainda) não senil, responderá: Pelo menos não deviam. Pelo menos o Paulo.
Pois é, detesto o Paulo. Detesto títulos que pretendem ser o suprasumo da originalidade e afinal são só pirosos ( O Zahir, Na margem do rio piedra eu sentei e chorei).
Detesto frases que pretendem ser profundamente profundas (a redundância é propositada) e que pretendem ser guias para a vida, mas que se alguém mergulhasse de cabeça nessas frases, ficava com toda a certeza paraplégico ("Escuta o teu coração, ele conhece todas as coisas, onde ele estiver, é onde estará o teu tesouro"(????), " "Quando alguém quer alguma coisa, todo o universo conspira para que possa consegui- la" (????) "É preciso não abrandar nunca,mesmo tendo chegar tao longe", ou o meu preferido "Os barcos estão mais seguros no porto, mas não foi para isso que foram construídos" muito profundo).

Também detesto Paulo Coelho porque, para mim, uma das coisas boas de se ler um livro, é conhecer-se alguém que também já o leu, e não todas as pessoas que conheces já o terem lido, e adorado e decorado passagens, que escrevem em mensagens (bonitas) às outras pessoas.

Mas acima de tudo, detesto Paulo Coelho porque é um prometedor de felicidade. Mas não um a sério. Não é daqueles que fala de um mundo melhor e de uma vida melhor, mas que é preciso lutar por isso. O nosso amigo faz lembrar aqueles anúncios de jornal "reze pais nossos durantes 9 dias, publique ao 10º dia e os seus desejos vão-se realizar todos". Ou seja, com um bocadinho de magia, tendo fé, acreditando no futuro e seguindo o coração outras balelas que tais, somos todos felizes e encontramos todos o amor e uma mina de ouro e 3 suecas (ou suecos...ou o que preferirem) que nos dão uvas à boca (até os que não têm direito a viver).

Mas há outros prometedores de felicidade, aliás, todos na mesma linha do misticismo e da fé.
Basta darmos um chuto numa pedra e encontramos 3 centros de "atendimento espiritual", ou uma IURD ou outras coisas assim que enganam milhares de pessoas, prometendo uma vida feliz e aproveitando para surripiar uns trocos (no caso do Paulo Coelho, o preço do livro, que ele aproveita para fazer mais um retiro espiritual para se encontrar a si mesmo e ao "nada" nas montanhas isoladas do Kilimanjaro onde só vive um monge altamente sábio onde ele aprende a sua "filosofia"; no caso das igrejas (com aspas e sem) na dízima cobrada para pagar a felicidade).
Causa-me estranheza como esses vendedores de banha da cobra têm tantos seguidores (é só ir a uma 5ª feira à IURD em Chelas e ver o espectáculo...não, não é um jogo do Benfica, é mesmo mais uma sessão para curar paralisias e dívidas e maus-olhados e unhas encravadas, só com o olhar do sacerdote).

Talvez não me cause tanta estranheza assim. Talvez as pessoas precisem de acreditar nalguma coisa, nem que seja nuns charlatães que prometem riqueza e amor e uma cabra se se tiver fé e uns trocos.

Eu também sou (mais) um prometedor de felicidade.
Prometo felicidade a todos se acordarmos para a vida e lutarmos por aquilo que é nosso por direito.

(Morra o Coelho!Pim!)

Tuesday, August 30, 2005

Homenagem ao mamute morto

O mamute, mais que não seja porque está morto, merece uma homenagem. O seu compromisso com a causa da Humanidade e com a transformação da Sociedade, de forma tão séria, tão enraizada no mais profundo sentimento e convicção, leva-o a assumir uma prioridade total.
A prioridade total da transformação social, esquecendo-se muitas vezes a si mesmo, como tantos outros milhares de comunistas apaixonados pela luta, pelos seus saltos e retrocessos, pelas suas conquistas, pelas suas dificuldades.

A prioridade que o mamute, embora morto, dedica com todas as suas forças a esse compromisso, faz com que o mamute tenha uma interpretação muito lúcida e racional, característica aliás, própria do mamute e outros paquidermes ancestrais. Claro que não quero com este post vir contrariar as teses do mamute, com as quais, no essencial, estou de acordo.

Concordo com o mamute na sua tese sobre o vegetarianismo, veganismo e outros ismos que, em nome da salvação do planeta, o ajudam a destruir. Como já foi referido, a produção desenfreada de soja, geneticamente manipulada ou não, é o principal responsável pela desmatação da Amazónia e, consequentemente, pela vida de sofrimento de milhares de pessoas das comunidades indígenas. Hoje, é comum o suicídio colectivo adolescente entre as tribos da amazónia afectadas pela desmatação. As empresas, visando exclusivamente lucrar, indemnizam as tribos e as comunidades desalojadas por quantias próxima da dezena de cêntimos por mês. Centenas de adolescentes indígenas suicidam-se. Centenas de adultos indígenas, de tribos em extinção, estão submetidos ao alcoolismo e ao trabalho explorado para essas empresas. O álcool foi um instrumento dessas próprias empresas para controlar as populações. E a soja, continua, em pacotes de leite, em granulado, em seitã ou tofu, a ser amiga dos amigos do ambiente, dos animais.

Não será demais dizer que a principal causa de extinção de espécies endémicas da amazónia é a destruição do habitat, ou seja, a desmatação.

Produzimos duas vezes mais do que precisamos, à escala mundial, para comer. Mesmo assim, mais de metade da população do nosso planeta não tem acesso a alimentação saudável. O que os países ditos desenvolvidos jogam fora num mês, chegaria para anos de vida num país da África sub-sahariana, ou do Corno de África.

Há realmente muita coisa por explicar... o capitalismo mostra a cada dia que, além de não resolver os problemas essenciais da Humanidade, tem vindo a agravá-los. Hoje morrem milhares de crianças, diariamente... vítimas da fome!!! A água canalizada é um bem de luxo em muitos locais do nosso globo. O acesso aos avanços da saúde e da tecnologia esstá limitado a quem os possa pagar.

De qualquer das formas, queria escrever a tal homenagem ao mamute.

Quando ouço um puto mimado dizer-me que é vegan porque é contra a forma como matam os animais, contra a forma como os criam, contra o tratamento hormonal que lhes dão, contra a dominância do ser humano sobre outros animais, etc. isso não me faz assim muita confusão. Agora... quando me vêem azucrinar com o veganismo como forma revolucionária de transformar o planeta e a sociedade, e dizer que "ah e tal, se todos fossemos vegans, o mundo era maravilhoso" e quando me vêm dizer que não comem animais porque querem acabar com a forma como são produzidos os produtos animais... e pergunto-lhes: e porque é que são assim tratados os animais? E respondem-me: porque as pessoas os comem. Até me passo!!!

Porra, então e o capitalismo? já ouviste falar? nunca te passou pela cabeça que os animais são assim tratados porque ao capitalismo o que interessa é o lucro? nunca te passou pela cabeça que a soja que comes é também fruto desse mesmo sistema capitalista, plantada, colhida e tratada por crianças nos campos desmatados da antiga amazónia? Não percebes que, mesmo que fossemos todos vegan, enquanto o capitalismo persistir como forma de economia dominante não há alimentação que nos valha? porque nunca te questionaste? Já pensaste o que seria se todos comessemos erva? Seria exactamente a mesma coisa, animais morreriam, extinções verificar-se-iam a um ritmo muito mais acelerado do que hoje. A desmatação das florestas acentuar-se-ia e onde um dia houvera árvores e arbustos, teríamos a soja. E laboratórios por todo o mundo vender-te-iam as leveduras de cerveja e a L-carnitina extraída de animais entubados, já que as plantas não a possuem em quantidade suficiente para ser rentável comercializar. O sistema capitalista tudo fará para lucrar com a alternativa vegan. Aliás, já o faz.

Realmente, come o que e como quiseres, se te chateia comer animais, óptimo, não os comas. Mas por favor, não me venhas encher com a treta da transformação da sociedade quando tratarmos bem as vacas.

Friday, August 26, 2005

4 Ideias de Férias

Férias! Dormência! Discussões sem sentido (sobre nada), um copo (ó mais!) na esplanada, apanhar sol na mona até derreter… e acabou tudo! (de volta ao ser)

Durante duas semanas de profundo estado reflexivo (leia-se vegetativo) apanhei e/ou aprofundei três ou quatro ideias soltas (e não têm, com uma óbvia excepção, quase nada têm a ver) que merecem uma referência. Aqui vão:

1- As férias conduzem a um estado de profunda depressão, porque por um lado percebemos como viveríamos se não tivéssemos de trabalhar para comer (tipo se ganhássemos o tótómilhões ou explorássemos os outros), dar educação aos filhos, etc. por outro, porque percebemos, na calma e no lazer que a vida deveria ser, compreendemos a vertigem em que se tornou a vida, no stress, nas preocupações diárias, ou seja, percebemos que se tornou impraticável viver.

2- Cada vez me impressiona e me faz mais confusão o discurso dos vegetarianos que não comem carne “porque ah e tal tadinhas das vaquinhas e dos animaizinhos todos que são seres vivos” (atenção: não critico aqueles que, por considerarem que é mais saudável ou porque simplesmente não gostam ou se fartaram, não comem carne; isso são questões de opção). Não tenho dúvidas que as vaquinhas e as galinhas têm um tratamento brutal nos currais e aviários, mas identifico isso, não como o problema estar em seres omnívoros consumirem carne, mas no sistema capitalista, que procura desenfreadamente a maximização do lucro, mesmo que para tenha cortar as pernas às galinhas e electrocutar as vacas.
Acima de tudo, parece-se uma opção hipócrita (se calhar fruto do desconhecimento), tanto mais que o grande substituto da carne, a soja, é produzida maioritariamente na América do Sul, por uma multinacional que desbasta, para a sua produção, milhares de hectares de floresta da Amazónia. Também não deve fazer muito bem à fauna e à flora da Amazónia, pois não?
(e além disso, um bom bife…)

3- Apesar de não ter acompanhado nada de notícias do mundo real, reparei que desapareceu dos telejornais e jornais portugueses a crise e o descontentamento social contra este governo. Já não há desemprego, já não há fome, já não há luta e reivindicação popular, há incêndios! Esta questão, obviamente, é tratada como o espectáculo do costume: as imagens brutalíssimas das chamas a consumirem o que a Natureza demorou dezenas, centenas, milhares de anos a construir; imagens de famílias, populações inteiras que perderam tudo o que tinham (tudo em directo e exclusivo!!! Não perca!!). (Obviamente, não estou a dizer que não se devia falar dos incêndios; mas de outra maneira… Sei lá, informando os portugueses o que os sucessivos governos não fizeram na prevenção dos incêndios, que promoveram a desertificação do interior e suas matas, que acabaram com os campos cultivados, que antes eram uma barreira ao fogo, que cortam sucessivamente nos orçamentos de bombeiros e guardas florestais… Essas coisas!)

4- O regresso ao mundo real é indispensável. Se bem que tem um sabor especial ser barrasco por uns dias, não pensar em mais nada senão no nosso prazer e no nosso divertimento, é inevitável pensar no mundo em vivemos, falar do mundo em que vivemos, tentar transformar o mundo em que vivemos…

Wednesday, August 24, 2005

Shoa? Sionismo, invasão e exploração.


Já passam mais de 50 anos sobre as primeiras mortes às mãos do nazismo. Shoa é a escrita latina para uma palavra hebraica que significa "calamidade". É utilizada em substituição de "Holocausto".

Utilizarei "Shoa" exactamente porque aqueles que mais esquecem a calamidade, são aqueles que a ela mais expostos foram.

São exactamente os membros do povo que utiliza essa palavra. "Holocausto" é a forma mais comum de nos referirmos a essa bárbara calamidade que assolou o Ser Humano na Europa, pelas próprias mãos do poder que ele acabou por desenhar. "Holos" em grego significa "total", como "Kaustos" significa queimado, queimada. Holocausto seria a queimada total. Não estará deslocado da realidade... infelizmente.

Mas mais que holocausto, que é uma palavra mais utilizada pelos não-judeus, importa relembrar Shoa nestes tempos. Os revisionistas históricos, nacionais-socialistas e outros fascistas negam a existência do Holocausto por óbvios motivos de interesse político. O que não é tolerável é que o povo judeu esqueça o Shoa. Não pode esquecer. Na verdade também não esqueceu. Sempre que lhe convém utiliza a sua evocação para se martirizar, para relembrar o quão sofredor foi.

E ninguém negará a desgraça que, por várias vezes na história, se abateu sobre esse povo. Nem ninguém, no seu estado normal, poderá tentar apagar o que aconteceu em meados do século XX. Milhões de crianças, mulheres e homens judeus pereceram sob o jugo do império da águia e da suástica. Milhares e milhares de muitos outros homens, membros de outros povos, comunistas, ciganos também lá ficaram, por aqueles infames campos de concentração, por aquelas ruas, mortos a tiro pelas costas ou torturados até à morte.



Quem sofreu com esta tragédia, calamidade foi a Humanidade. Claro que, pelo significado e peso económico e populacional que o povo judeu representava na Alemanha até 1942, o genocídio em massa a que foi sujeito é motivo para profunda reflexão colectiva, para homenagem e evocação.

O Shoa não pode ser um mero instrumento de martirização de um povo. Não pode ser a justificação do sionismo de extrema-direita nem das suas acções e atropelos aos mais básicos direitos humanos.

Após a fixação do Estado de Israel no médio-oriente, este Estado tudo tem feito para expandir o seu território e a exploração dos recursos naturais de um outro estado que, por acaso, também ali existe - o Estado Palestiniano. É aqui que entra o esquecimento do Shoa.

Como pode um estado de um povo que passou pelo mais hediondo e obscuro episódio da história contemporânea, levar agora a cabo, em nome das suas sagradas escrituras, com o incondicional apoio dos Estados Unidos da América e a complacência e passividade da União Europeia, a mais selvagem campanha contra o povo palestiniano? Esses terroristas...

Como pode o Estado sionista de Israel esquecer o Shoa nestes tempos? Como pode agora desenvolver a mais selvagem campanha de ocupação tortura, morte e privação de saúde, educação e habitação? Espalhar colonatos, check points e implantar-se militarmente com toda a força em território de outro povo? É o desígnio que lhes foi atribuído pelo seu Deus? É vir semear a vingança de todos os martírios a que foi sujeito, mas desta feita ao povo palestiniano que, será, certamente, reencarnação conjunta de egípcios e nazis?

Também aqui a religião é pretexto perfeito para chamar terroristas a uns e mártires a outros. Serve de cobertura perfeita para o avanço dos interesses do capital israelita e internacional. A questão não é religiosa. Deus não se quer meter nas guerras dos Homens, por mais que o queiram cá enfiar à força. E, quando bem vistas as coisas, deus é o pretexto.

Como pode hoje Israel ocupar ilegalmente e ao arrepio dos acordos internacionais um estado, massacrar diariamente um povo inteiro e sair mais que impune nos meios da Comunicação Social Dominante. Como se sentiriam os judeus de 1942 se o nazismo lhes tivesse montado barreiras militares à porta de suas casas? se lhes tivessem retirado todos os direitos, incluindo a sua própria dignidade? Custa a crer... mas isso passou-se. E agora, de novo se passa, pelas mãos do torturado, nasceu um novo carrasco.

Por grandes áreas da Palestina abundam colonatos, cidades erguidas em território palestiniano, donde um palestiniano não pode sequer aproximar-se. Em diversos pontos estratégicos o exército israelita montou os seus famosos Check-points, onde passa arbitrariamente apenas quem o soldado de serviço quiser. Se acaso um dia está de mau humor, calha e dá um tiro na nuca do pobre estudante palestiniano a caminho da sua escola. A humilhação e a destruição da pátria palestiniana é constante, diária. O terror sionista espalhou-se por toda a Palestina. E nós por cá? Que vemos disso? Muros gigantes levantam-se na Palestina para controlar as movimentações da população à vontade indiscriminada de Israel. As águas palestinianas, recurso finito e indispensável à vida da população, são exploradas por Israel num controlo claramente abusivo dos recursos da região.

E ainda temos que assistir, incrédulos, à suposta retirada dos colonos da faixa de Gaza. Mas ninguém é capaz de dizer na TV que um colono é um ocupante. É um Judeu que exerce sobre outros o terror que outrora infligiram a seus pais. É imperdoável. Colono...? porque não terrorista, invasor? Ambas as palavras se aplicariam bem melhor que "colono".
Um estado que fomenta a colonização de outro, através de fortes meios militares não pode chamar ninguém de terrorista.

Mataram-lhes os pais, os avós, destruiram-lhes casas, escolas e hospitais (tudo à revelia da nossa TV), violaram-lhes a mãe e a irmã, mataram-lhe o irmão a caminho da escola... Eles pegaram em pedras e marcharam contra os canhões... Quem é o terrorista?

Deus não deixou escrito em lugar algum que Israel deveria dominar os outros povos... Shoa? isso existiu?

Por cá, lembramos o holocausto. Pelos vistos, o Shoa anda esquecido no Médio-Oriente, por aqueles que menos o poderiam alguma vez esquecer.

Longa vida à luta do povo Palestiniano!
Palestina vencerá!

Nota: A frase alemã "Arbeit Macht Frei" significa "o Trabalho liberta" e estava inscrita em diversos locais ao longo dos campos de concentração. Sarcasmo na propaganda.

Tuesday, August 23, 2005

Guerras santas, jihads, crusadas e óleo de pedra

Em alguns sítios do nosso enorme globo a guerra continua.
Um pouco por todos os continentes continuam a desenvolver-se conflitos armados. A TV, os jornais, já pouco falam deles. Os interesses estão servidos, os apetites satisfeitos. Foi cumprida a missão da Comunicação Social.

E que missão! Enquanto é necessário justificar uma intervenção militar lá estão os milhares de câmaras, o embrenhado de doutores e sábios analistas a criar um pano de fundo de tal forma incompreensível que a única mensagem que passa é que existem os "bons" e os "maus". E fica logo ali decidido quem é quem. A TV, as rádios, os jornais fazem-nos o magnífico favor de tratar a informação por nós, de pensar por nós, de julgar por nós. Regra geral, a potência imperialista é o bom, o país faminto é o mau. Nem me lembro de muitas excepções a esta regra.

Das dezenas de intervenções militares que os Estados Unidos levaram a cabo nas últimas décadas, do Vietnam ao Iraque, passando pela Somália, Coreias, Guatemala, Costa Rica, União Soviética, Nicarágua, Chile, China, Panamá, Líbia, Suriname, e muitos outros, quem teve sempre razão na TV? Que heróis saíam vitoriosos, merecendo filmes de hollywood sobre míticas intervenções no Afeganistão? Que heróis foram feitos então? Aqueles e, exclusivamente aqueles, que se colocavam do lado da barricada dos Estados Unidos.

Vimos os Mujaheeden serem feitos autênticos salvadores do povo afegão, os taliban serem produzidos como uma frente guerreira por princípios puros contra a "invasão" soviética.

A guerra é levada pelos ventos orientados do capital imperialista. A atenção mediática que lhe é dispensada é efémera. As guerras continuam, as mortes sucedem-se, os insucessos perpetuam-se, as assimetrias agravam-se, os problemas persistem. A TV esquece.

A úlitmas incursão norte-americana no Iraque (que, aliás, continua intensa) teve a atenção que foi considerada incontornável para ser justificada ao mundo. Após cumprido esse supremo desígnio da Comunicação Social Dominante... Desapareceu. Esquecemo-nos de que continuam a lutar heroicamente milhões de iraquianos contra o invasor poderoso. Esquecemo-nos que lá vão morrendo.

Como pano de fundo dissimulado, apresentaram-nos choques religiosos. Explicam-se fenómenos sociais e políticos com recurso à religião e ao fanatismo. Querem que acreditemos que existe uma demência colectiva. Um demência endémica do médio-oriente. Os líderes políticos que fazem frente aos EUA são sistematicamente apresentados como fanáticos, loucos, obssessivos, ditadores.

No nosso sub-consciente as guerras modernas têm um fundo religioso. Em história ensinam-nos que as guerras do passado foram essencialmente religiosas. Escondem-nos a toda a hora que a religião nunca foi a razão. A religião foi, como hoje, a desculpa.

O verdadeiro interesse de toda e qualquer guerra é económico, geopolítico. A religião sempre deu uma óptima camuflagem, sempre serviu até de incentivo às tropas.

Hoje, os mensageiros dos deuses cumprem o seu papel. Colocam-se politicamente ao serviço dos interesses mais próximos. Bush invoca constantemente o cristianismo. Outros invocam Allah. Tudo dá no mesmo.

A religião nunca foi a razão. Hoje, deus deve estar triste.
Os homens estão submetidos à barbaridade do imperialismo violento. A civilização nunca existiu.
Não existe olhar horizontal. O Sul está submetido ao Norte. O Norte está submetido a si próprio. Colapsou sob o eixo do capitalismo.

As expressões criadas em torno da guerra. As verdades televisivas escondem a realidade.
Pena que a realidade seja tão cruel que muitos, ainda sabendo, deixam-se ficar pela TV.

Thursday, August 18, 2005

Mãe, porque é que as flores murcham?

Um globo dividido por um hemisfério abissal. Um risco invisível, mas um abismo colossal.
Como uma linha que separa uns dos outros, fendendo a Terra que pisamos desigualmente.

Aquelas praias de águas azuis, plantadas à beira das Repúblicas caribenhas, mas acessíveis exclusivamente aos senhores das monarquias europeias. Aqueles animais exóticos que salpicam savanas africanas onde habitam gentes negras do sol, mas visitados em carros e jipes por norte-americanos sedentos de hollywood. Aquelas pirâmides erguidas para o céu, ao serviço só do sábio turista, como as ruínas de antigos povos sábios andinos, ao serviço só de lara croft e outros viajantes de carteira gorda.

Onde descansam aquelas águas azuis, anda o povo na cana de açúcar de sol a sol. Onde passeiam os elefantes, girafas, leões, gnus e antílopes, andam os povos sedentos de água e arroz que um dia os colonos lhes tiraram. Onde três pirâmides ancestrais apontam o céu, andam os povos na monda do arroz, outros na monda do turista. Onde arqueo-cidades das culturas andinas hoje se escondem entre as belas florestas tropicais, anda o povo desde de criança com folha de coca na boca para entrar na mina escura e funda em busca do minério que não pode transformar em pão.

Onde existe riqueza natural, a economia é despedaçada. Os recursos naturais são, afinal de contas, o filão que nos sustenta em tão débil existência. Onde eles existem, esmagam-se as vontades dos povos, espezinham-se as organizações e estruturas de exploração. Substituem-se os engenhos por gigantescas destilarias. Os poços do médio-oriente canalizam tudo para ocidentais refinarias. Onde poderia existir uma mina, existe um poderoso complexo de exploração humana. Onde poderia existir pesca artesanal, enviam-se frotas estrangeiras que tudo arrastam. Nada já é do povo, nem dos povos.

A riqueza financeira dos países ditos desenvolvidos nada é sem a dita pobreza dos sub-desenvolvidos. A pobreza de espírito do ocidente nada é sem filmes e livros charlatães em que se ostentam as riquezas do oriente.

São países parasitas. Imperiais. Colonialistas. Ouvi um dia dizer: o imperialismo mais não é que uma fase avançada do colonialismo. Esta fórmula é um contributo. O imperialismo é a fase avançada do capitalismo. No entanto, sem dúvida, apresenta fortes traços do colonialismo. Esta fórmula leva-nos a crer que a mundialização do capitalismo, a sua aplicação imperialista, ressuscita as relações internacionais do tipo colonial. Ou seja, o capitalismo e o imperialismo mais não são que formas avançadas do colonialismo. Dissimuladas, mas no entanto, opressoras.

É por isso que as flores, que deviam erguer-se viçosas, murcham.

Wednesday, August 17, 2005

Curtas, como sempre.

Estamos de volta, com gripe e amigdalite, mas de volta. As férias foram curtas. Senti saudades de muita coisa.

Voltarei ao "ser" em breve. Logo após estes poucos dias de dormência de adaptação ao mundo real.

Sunday, July 31, 2005

L'être et le néant

Este blog tem sido actualizado com novas barbaridades com alguma regularidade.
Este blog, na sua existência materialista, actualizações existencialistas, é um acto.
É pensado e aqui está.

No entanto, ficará por escrever o próximo post, pelo menos durante uma semanita. (Até o mamute ou eu encontrarmos, presencialmente e fisicamente, um existencial computador com acesso à internet.

Estamos na fase do "nada". As férias para nós são a ausência de tudo. Deixamos de "ser" por uns bons dias. (sim, temos direito a ser brutos, parvos e barrascos)

Deixamos o nosso blog também pendurado à espera que nasça nova acção. Fica-se agora pela passiva função de esperar que o visitem. A "não-acção" reinará no mês de Agosto!


Ser... nada... Desta vez, não me lixem! Vamos pelo nada!!!

Thursday, July 28, 2005

Ideologias no nevoeiro - acendam-se os faróis!!!

Há uma coisa que já começa a tornar-se crónica e, também por isso, crítica.
A alternância recorrente entre o PSD e o PS no governo tem vindo a provocar danos profundos no desenvolvimento do país.

A desilusão que reina sempre poucos meses após eleições legislativas mostra de alguma forma o quão pouco convictos são os votos nestes Partidos. Dois partidos diferenciados por uma letra e nada mais, dois partidos amorfos, sem rectidão, partidos que partilham a mesma ideologia.

Dizer que não há ideologia no seio do PS e do PSD é, de certa forma, falso. É, pior que isso, fazer uma vontade a ambos os partidos. Na verdade, não existem convicções enraizadas nesses partidos, mas existem ideologias. Ideologias claras, mas escondidas por um enorme nevoeiro de falta de esclarecimento e frontalidade.

O neo-liberalismo é uma ideologia clara, descendente do capitalismo. É, aliás o seu aliado na construção de monopolismo e do imperialismo. Ora, o papel do Estado enquanto instrumento político e social de dominância é um aspecto caracterizador e diferenciador de ideologias. No caso do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, é totalmente partilhada a visão sobre o papel do Estado. Essa é a questão essencial.

A suposta ausência de ideologia descompromete os Partidos com uma linha política, descompromete o eleitor que não quer, não pode, ou não sabe definir-se ideologicamente.

O papel do Estado para ambos, PS e PSD, é o de regular o mercado, é o de desaparecer e tornar-se exclusivamente um mecanismo de opressão ideológica de uma classe sobre outra. Os serviços sociais do Estado tendem, sob esta visão capitalista, a desaparecer para dar lugar a um mercado concorrencial que se aproxima com o tempo do monopólio empresarial.

As privatizações e as sucessivas descredibilizações e desmantelamentos da produção nacional e do património do Estado, bem como dos seus serviços mais não representam senão exactamente isso: a desresponsabilização por sectores fundamentais e insubstituíveis que terão assim de ser garantidos por interesses privados.

Hoje, na Assembleia da República será aprovado pela maioria absoluta do Partido Socialista um conjunto de medidas legislativas que vão exactamente ao encontro do enfraquecimento do Estado. Retirar direitos aos trabalhadores é o rumo assumido como primordial sempre que PS e PSD estão no Governo. O acordo é obvio nesta matéria. Hoje, no final da sessão da manhã na Assembleia da República, centenas de trabalhadores da Administração Pública manifestaram a sua ira, descontentamento e desilusão para com este tipo de políticas.

O desdém estava na cara de cada senhor deputado do Partido Socialista. Uma altivez injustificável, um desprezo desumano por aqueles que os elegeram. Um total desrespeito que chegou ao ponto de, pelas palavras do Ministro dos Assuntos Parlamentares, ser declarado que o Governo se reveste de toda a legitimidade porque foi democraticamente eleito.

Liguem-se agora os faróis, descortine-se o nevoeiro que esconde as ideologias!

Legitimidade: o governo dispõe, sem dúvida, de legitimidade institucional e legal para levar a cabo o que entender no plano executivo da política. Mas... e legitimidade política, ética e social? Será que um Partido que apresenta um programa eleitoral pode chegar a governo e virar do avesso tudo quanto prometeu em campanha. Pode... a lei permite. Mas mantém a sua legitimidade democrática? Um governo que, nos primeiros meses de governação já suscitou mais contestação social que o anterior em três anos...? Não porque o anterior fosse melhor, mas era, ainda assim, mais dissimulado e teve medo de avançar tanto. Claro que o PSD agora aplaude em surdina todas as medidas do PS. Quem lhes dera terem sido eles os pais de tais políticas. Mas não tinham estabilidade governamental nem credibilidade suficiente para o fazer sem criar gigantescas ondas de luta de massas capazes de derrubar as paredes e alicerces de qualquer governo. Foi o medo e a estratégia política que os impediu de concretizar estas medidas.
O medo das massas, dos trabalhadores e do povo.

A ideologia está lá. Não lhe põem um nome, mas não desaparece por isso. No entanto, tem nome, chama-se neo-liberalismo.

O nevoeiro levantado todas as manhãs pela Comunicação Social, pelo Governo, pelos colunistas e comentadores(?), pelos analistas(?) e outros senhores já não pode esconder algo que se torna agora mais vísivel porque o tempo foi pouco. Foi pouco o tempo que passou entre a desacreditação da direita e a verificação das políticas de direita do Governo PS.

Se, em situações normais, a memória tende a tornar difusas as semelhanças entre um governo e o seu seguinte, porque passa tempo até começarem a fazer borrada. Desta feita, está à vista.
O desdém estampado nos sorrisos dos ministros, secretários de estado e deputados do PS, não foi possível esconder com nenhum nevoeiro, porque o povo começou a ligar os faróis. Começou a ligar aqueles que só alguns podem ter, porque encarecem o preço do carro, os faróis de nevoeiro.

E aquele desdém, desprezo e desrespeito teve a sua resposta nas bancadas: FASCISTAS!!! MENTIROSOS!!! A LUTA CONTINUA!!!

e também aqui, nestes cânticos de guerra, está uma ideologia: a ideologia popular e trabalhadora da construção de um mundo liderado por quem o constrói: o marxismo. A ideologia daquelas vozes e punhos também está coberta pelo nevoeiro... Mas à vista está algo que muitos dizem já não existir: a luta de classes, o antagonismo profundo entre quem explora e quem é explorado. Entre quem governa e quem é governado, uns com os votos de outros...

E o PS de cima do seu poleiro institucional, mesmo ao lado do grande capital, puxa os galões da legitimidade. Acusa o PCP de mobilizar para as galerias da Assembleia sem perceber que ali estão todos, comunistas e não comunistas, e muitos daqueles que, enganados, votaram PS. Esse desdém, de considerar pequenos grupos, aquilo que são as vozes das massas, será o que conduz inevitavelmente o PS à derrota, que, em última instância, levará o capitalismo à sua ruína que já se adivinha.

E, nos entretantos, a democracia esconde-se numa qualquer viela, com os braços caídos de tanta labuta. Porque a democracia foi substituída por um seu parente distante. Um a que chamam também "democracia" mas que só por alguma afinidade familiar distante se compreende. A democracia foi substituída pela representatividade sem controlo democrático. Os mecanismos de controlo democrático são a condição essencial para o desenvolvimento da democracia... Se não existe direito de manifestação, de greve, de livre organização sindical, então onde está o controlo popular?

Por isso, quando acendemos os faróis, os de nevoeiro e aqueles que nos guiam em promontórios escondidos, lembramo-nos de uma palavra que não temos em Português. Laocratia. Lao(do grego: gentes, pessoas) Kratia (do grego: força, poder). Poderemos talvez dizer "laocracia". Para os utilizadores desta palavra, ela distingue-se de "democracia". Distingue-se porque "democracia" é o sistema político que nasce da vontade popular e "laocracia" é a participação popular. Não é um regime político, é um acto.

O poder das gentes.
A força das gentes.

Bonito conceito. Pena ainda faltar acender tanto farol...
Bom saber que tantos se esforçam por, quer de noite, quer nas auroras escuras, acender um em cada promontório, em cada barra. Um em cada mente.

Faróis de nevoeiro, faróis de guia... Mentes abertas, punhos cerrados!

Tuesday, July 26, 2005

Soares é bué cool!

Espantem-se os distraídos! O Márinho está de volta. E volta como o salvador da pátria, o Homem que vai salvar o país da ameaça da direita, da crise, dos Americanos e das epidemias de jaquinzinhos assassinos...
Mas quem é este homem, herói da Revolução de Abril, pai da Democracia portuguesa? Convém lembrar algumas façanhas deste senhor,para além de ter dado vida a esse outro tão ilustre personagem, de seu nome João.

Soares, firme lutador anti-facista (boa piada!) , logo após o 25 de Abril , começa logo logo a conspirar contra as conquistas do povo. Ao mesmo tempo que falava em comícios de socialismo e sociedade sem classes e fim da exploração dos trabalhadores, e essas coisas todas, era um amigo do peito do Carlucci (também esse um defensor dos valores da democracia e da liberdade, conhecido especialista da CIA em golpes de Estado e mudanças de regime mais favorável aos EUA num sem número de países), metido em festas na embaixada americana, arquitectando em conjunto planos para levar a sua "revolução" a bom porto (trocando por miúdos: trocar uma democracia avançada por o que temos hoje, uma democracia bárbara).

Depois vem o Marinho primeiro-ministro, e das primeiras coisas que diz é que se tem que pôr o socialismo na gaveta para bem da economia portuguesa (mais uma vez temos que recorrer ao dicionário: para bem dos Champaulimaud's, Mello's e companhia). É deste nosso amigo que surgem os ataques aos trabalhadores no pós 25 de Abril. Pérolas como os contratos a prazo (a pretexto dos trabalhos sazonais, e que agora imperam neste nosso mundo), ou o começo das privatizações (com os custos para o Estado e consequentemente para a população) ou o ataque à Reforma Agrária (com agressões e assassinatos à mistura), ou a entrada na CEE (que tantas coisas boas tem trazido para Portugal), têm como mentor este verdadeiro "pai da democracia portuguesa".

Sim, de facto, quando o chamam assim, estão a fazer jus à ilustre personagem. O bochechas é, de facto, um dos obreiros desta democracia que nós temos, tão democrática que até temos o direito de não ter pão para a boca e um tecto por cima de nós. Soares é, de facto o pai desta "democracia", mas a democracia da pobreza, económica e cultural, do desemprego, da fome e da guerra.

Nos últimos anos, temos assistido a uma nova bochecha (ah!boa laracha) do Bochecas. A do notável, afastado da vida política, mas preocupado com o rumo neo-liberal que o país tem tomado. Não tem sido raro ver esta espécie rara criticar a guerra no Vietnam, o pacote laboral, o crescente desemprego, o aumento dos impostos, tudo preocupações justas. As hostes perguntavam-se : "será que o velho está cheché?Depois de tantos anos a f**er a vida aos trabalhadores é que se lembra deles?Será da velhice?" Pois bem, já temos a resposta. O nosso amigo estava a preparar o terreno. O nosso amigo prepara-se para ser novamente candidato a "presidente de todos os portugueses", diz ele, para "unir os portugueses", para "dar estabilidade política", para "impedir o avanço da Direita".

Pois bem, neste mundo que é o nosso, com notáveis de Esquerda destes, não precisamos da Direita.

Wednesday, July 20, 2005

Serra Mãe



Serra Mãe...

Foi como Sebastião da Gama chamou à Serra da Arrábida. A Serra da Arrábida de orogenia e morfologia únicas em Portugal, de flora e fauna únicas em praticamente todo o planeta, está hoje, mais uma vez em chamas.

Os incêndios florestais acontecem. Algumas espécies arbóreas e arbustivas, inclusivamente, só conseguem completar o seu ciclo de vida com a actuação das chamas, apresentando mecanismos próprios para provocar deflagração de incêndios.

Mesmo os incêndios acidentais têm lugar na natureza, esporadicamente e com baixa taxa de recorrência e reincidência.

Mas agora... Aaaargh! Ardem as florestas, as matas. Que agonia. O problema central é que não estamos a falar de incêndios de causa natural. Na sua maioria, estes incêndios, ainda que possam não ter origem criminosa, têm-na na negligência. Na nossa negligência enquanto seres conscientes dos cuidados necessários para conviver com as florestas. Negligência das autoridades que sempre sabem o que é necessário saber, mas nunca fazem... E onde estão agora os helicópteros? Onde estão os recursos e os meios para o combate aos incêndios?

Agora choro porque nos matam a Serra. Agora eles lamentam... Mas deviam ter percebido que a Serra precisa de ser cuidada. Não serve espetar lá com uns meninos bem pagos para dizerem que sim à Secil, que sim às construções dos endinheirados, que não aos pescadores e que não ao pessoal que quer fazer umas caminhadas a pé. Não serve dizer que existe um Parque que toma conta da nossa Serra, quando já o ano passado a direcção desse mesmo parque afirmou que era impossível ver a Serra da Arrábida a arder. Revolta-me. Arde cá dentro do meu corpo, mesmo no peito, ligeiramente à esquerda... Não arde... pesa.

Ardem os fetos, os abetos, os pinheiros e os peneireiros. Ardem os ovos da coruja, mais aquele rosmaninho lindo. Arde o medronho. Vemos arder aquilo que mais amamos... dói. A Serra nua, chora. Mais de metade dela é já um enorme afloramento litológico, sem as flores, sem o verde das folhas. Pedra, raízes mortas e árvores pretas ficam para lembrar durante muito tempo o que lhe fizeram. O que lhe fizemos. Sim, pode ter sido aquela garrafa que deixaste no outro dia em alpertuche, ou aquele entulho que que despejaste mesmo à beira da estrada, pode ter sido a beata fatal do cigarro distraído que deitaste pela janela do carro.

O ano passado o fogo iniciou-se dentro de uma das grandes propriedades que se plantam na Serra. Não sei se pediram contas ao Senhor... Duvido muito. E no entretanto, a Serra arde. A Serra Mãe...

Crepita.

As cinzas esvoaçam pela cidade de Setúbal, trazidas por uma enorme nuvem negra a cavalo da nortada que desce a encosta Sul da Arrábida. Os carros estão cobertos por pequenas partículas daquelas árvores e animais... Valham-nos agora os ciclos da Natureza. Esperar que tudo volte ao equilíbrio. O fogo em si faz parte do equilíbrio. Como a catástrofe e o lago sereno. Ambos são Natureza. Mas custa saber que, pelo meio aparecemos nós. A acção dos Homens.

Arde.

O fogo está incontrolável. Em várias frentes, os homens da paz tentam agora remediar a negligência dos nossos senhores. Quanto tempo passará até alguém vir a lucrar com a desvalorização das madeiras, com a desclassificação dos terrenos, com a especulação financeira? Quanto tempo terá de passar até alguém perceber que a Serra respira connosco? Que a Serra se entrega a nós e que o seu destino está nas nossas mãos?

Ah, Arrábida! Serra Mãe... Chorem os que te amam, enquanto ardes. Vibrem os céus e os mares que te envolvem e acolhem, solidários com as tuas chamas avassaladoras. Nadem para perto roazes, botos e toninhas, venham ver o que nós fizemos...

Espera.

É bom para ti, Serra Alpina, saber que, inciaste o teu crescimento há cerca de 145 Milhões de Anos, aqui foste ficando. É bom saber, Serra Mosteiro, que aqui ficarás muito depois de nos termos ido. Que continuarás, Senhora da natureza, tal onda que domina o seu próprio tempo, cicatrizada por feridas profundas, mas viva em todo o seu esplendor.


Serra da Arrábida: corresponde a uma cadeia montanhosa de orogenia alpina, o nome de "Arrábida" vem do árabe que significa "Mosteiro".

Sebastião da Gama escreveu:
"A serra tem o ar de uma onda que avança impetuosa e subitamente estaca e se esculpe no ar; é uma onda de pedra e mato, é o fóssil de uma onda"…

"Na orla meridional da península que tem o seu nome, a serra da Arrábida estende-se do morro de Palmela até à agulha do Cabo Espichel, num comprimento de 35 km e largura média de 6 km. A estrada sobranceira ao oceano, para descer ao Portinho embrenha-se na Mata do Solitário, trecho único em Portugal de floresta primitiva com influências mediterrâneas e atlânticas."

Tuesday, July 19, 2005

Arte, cenários de fundo e apetite

Todos podemos exprimirmo-nos de várias formas. Podemos inclusivamente optar sobre que formas o que queremos fazer. E o mais curioso é que, para além de escolhermos a nossa expressão, temos um gosto interior de procurar as expressões dos outros.

Se há um grito estridente, há sempre um ouvido sereno para o escutar.
Uma escultura, por mais enorme que seja, há-de sempre caber na imaginação de outro.
Um gesto pode ficar para sempre riscado no espaço e no tempo para muitos.
Aquela tela azul terá sempre alguém que a contemple.

Das formas como nos expressamos, será a arte a suprema. A que toca, independentemente do sexo, da cultura, é universal. Não será difícil ver um ocidental pasmado a olhar para um Monet mesmo ao lado de um Índio norte-americano igualmente maravilhado. No entanto, separa-os um mar de culturas, um oceano de milhas e milhas.

A arte, sob todas as suas formas, emociona na criação e na fruição. É um néctar que nos alimenta a alma a todos. Ainda que nem todos tenhamos os mesmos gostos, não conheço ninguém que não goste de arte, seja ela qual for.

E porque escrevo, melodramaticamente, sobre a arte? Escrevo porque a Arte, as Artes, estão sob a ameaça dum cenário negro, dum mau cenógrafo (pois, podia ser um cenário negro, mas bonito, tipo um daqueles magníficos cenários dendríticos dos filmes do tim burton).

Mas não. As artes estão agora ameaçadas pelo apetite, o monstruoso apetite do lucro.
Se virmos bem, a arte, as suas diversas e maravilhosas expressões estão a tender para uma convergência em feixe monocromático. Todas as suas cores começam a fugir para pequenos recantos, ao alcance só de alguns... Massificam-se as tendências da arte nas suas mais alienantes versões. Investem-se rios de dinheiro em publicidade exclusivamente para as grandes produções.

E porquê? Porque será cada vez mais difícil frequentar a sala de espectáculos? Aquela de cujo magnífico tecto penda aquele esplendoroso lustre! Porque será cada vez mais difícil passear junto às telas onde corre o amor do pintor, não fora o bendito café-galeria mesmo ao lado da minha casa, aquele, daquela senhora querida que acha que todos devemos poder ter, fazer e ver arte, nossa ou dos outros.

O apetite está por todo o lado. Espreita por detrás a figura sombria do lucro. O lucro. Dita tudo. Dita o que é e o que não. Dita o que chega às nossas mãos, olhos, ouvidos e dita o que não chega.
Pior: dita a quem chega o quê!

Temos a arte fechada em galerias de ouro, para quem tenha bolsos de ouro, em salas de cristal para bolsas de diamante. Temos, na outra mão, a massificação da arte tipo fast-food. As faixas gravadas por uma máquina que repete o mesmo som ad nauseum. Os filmes em que os americanos são sempre os bons. Os livros em que a maior ginástica imaginativa pedida é a capacidade de ver um puto a voar numa vassoura.

O apetite levou-nos a perder de vista muita coisa. Dá dinheiro, vês, não dá não vês. Triste. Verídico.

O pior é a forma como esse apetite consegue transformar tudo o que toca, não em ouro, como Midas, mas em pornografia. A música é uma arte magnífica, aliás, todas são. Mas ao percorrer aquele corredor do jumbo, a britney spears aparece umas dez vezes... O "I´m in love with não-sei-quem" aparece outras trinta. Na banca das revistas, a cinturão negro aparece como revista de artes marciais, as cassetes para ensinar olaria estão na secção dos vasos e podemos aprender a pintar com o planeta agostinho em menos de um mês.

Fico triste. Pois fico. A arte nasce de todos e é para todos. Está na altura de quebrar os muros que não nos deixam ver. De perceber que a fruição e criação não são compatíveis com este ávido apetite de lucro. Um dia, quando estiver só a contemplar uma árvore, por não haver mais arte, pereceberei que acabaram com ela. E os das bolsas de ouro, sozinhos na galeria deserta, vão perceber que o dinheiro não enche o peito com paz.

Monday, July 18, 2005

Quando somos nós os bárbaros...

A gente bem pára de meter as moedinhas, mas o carrossel continua a andar à roda.

Thursday, July 14, 2005

"Mein Insel" - Adalberto, rei dos bárbaros

Mais uma voltinha...

Esta cena é mesmo daquelas que um gajo já nem sabe o que há-de dizer. Presumo que, pelo título deste post, saberás perfeitamente de que animal político estou a falar. Nem podia estar a referir-me a outro que não ao esplendoroso Sr. Adalberto, esse destemido combatente pelo povo do nosso lindo arquipélago da Madeira.

Que fazer? Já começa a ser demais... só falta mesmo aquele anormal migrar para o continente e ninguém lhe aviar um bruto dum enxerto de porrada, como ele há muito merece. O problema é que lá nas ilhas onde é rei, o senhor domina tudo quanto é negócio, tudo quanto é órgão de comunicação social e tudo quanto é investimento. Este senhor exerce o poder à velha moda. Esconde do povo da Madeira a verdade sobre o dia a dia do que se passa fora da ilha e convence tudo e todos que, fora da Madeira, somos todos uns animais sujos que nem estradas têm para andar de carro.

Da última vez que lá estive, tive a oportunidade de ver a realidade que não tinha testemunhado na minha primeira visita. Tive a triste oportunidade de ver mais do que a cidade do Funchal. E, só me faltou chorar... mas nã faltou muito. A degradação a que estão sujeitas as populações das zonas mais pobres é realmente assustadora. A pobreza é extrema e contrasta abissalmente com a opulência dos túneis, das vias rápidas e das lindíssimas vivendas de luxo do Funchal.

Agora, para além de todas as barbaridades que vêm flutuando sobre o atlântico com os ventos de sudoeste, chegou-nos a última moda em política ditatorial.

O ordinário, que bate aos pontos este blog e todos os amigos nele referidos em termos de barbaridade, acabou de se referir a chineses e indianos, pouco depois de ter chamado "filhos da puta" aos jornalistas.

Ora, este rastejante insular, amigo íntimo de uma mula com quem já passou ferverosos momentos, vem-nos agora dizer que não quer lá os Chineses e Indianos na Madeira. O pior é que diz isto sem nível nenhum. Tipo: podia fundamentar estas teses com teoria política, tipo escrevendo um "Mein Insel", mas nem isso. O pobre fica-se mesmo pela baixaria e nem sequer contribui para o património ideológico da política mundial.

O que não podemos já tolerar é que um homenzito, que só por acaso ocupa um lugar para que foi eleito, sendo esse um dos lugares de maior responsabilidade no Estado Português, se dê ao luxo de dizer tudo o que lhe vai na demente marmita, sem que por isso, preste contas a ninguém.

Pá, já chega! Agora não quer lá os chineses, qualquer dia não quer lá os madeirenses e depois?
Aquele Arquipélago consome milhões e milhões de Euros ao Estado e não se vê nada de lá em troca sem ser aquela besta quadrada e seu típico vernáculo.

Os coitados dos madeirenses não têm outro remédio senão aturar a besta. Aliás: o pior é que muitos acham que o gajo é mesmo o grande defensor dos seus interesses. Grande parte do povo daquela região nunca se deslocou ao continente português ou nunca saiu da própria ilha em que vive. Vive-se um clima de total ignorância sobre o exterior. Pensa-se que a Madeira é uma zona fortmente desenvolvida, quando na verdade aquilo mete dó.

Ora, se os grandes ideólogos da extrema direita sempre escreveram uns livritos, este nosso pequeno bacorinho não deveria deixar-se ficar. Mas desengane-se quem julga que o coloco no mesmo patamar de inteligência ou capacidade política que os seus inspiradores. Enquanto que "Mein Kampf" pode ser considerado uma produção política, "Mein Insel" não passaria de um escarro junto às beatas de cigarro no chão da taberna.

Wednesday, July 06, 2005

Os lacaios, os interesses e os suspeitos do costume

Hoje em dia ouve-se de tudo…

Um senhor que actualmente é deputado na Assembleia da República, que já foi ministro da Economia num governo do Partido Socialista e que, infelizmente, já foi até comunista, saiu-se durante uma sessão plenária da Assembleia da República com uma tirada que não ficaria mal ao mais reaccionário dos conspiradores terroristas, ou ao mais retrógrado dos fascistas.

“O PCP é responsável pelo agravamento do desemprego, pela sua visão conservadora da economia.” Disse o ilustre. Esta política de câmara cada vez me enoja mais. Qualquer bastardo vai lá, atira umas bujardas e sai impune com um aplauso acéfalo do seu rebanho. E o povo lá fora, sem saber o que dizem e o que fazem estes senhores da direita, estes lords da política e do dinheiro. A clivagem é visível: a esquerda e a direita na Assembleia da República dividem-se pelo corredor que separa o PS do Partido Ecologista “Os verdes”. Só não vê quem não quer. Desse corredor para lá, as votações são praticamente unânimes nas questões cruciais que se colocam.

Mas dizia então o Sr. Deputado Pina Moura, sábio político e amigo do povo e dos trabalhadores que o PCP seria o culpado pelo agravamento do desemprego e que teria uma visão retrógrada da economia… Ora vamos lá ver isso:

- Retrógrado é o que se passa actualmente: é ver os trabalhadores venderem a sua força de trabalho por salários que mal pagam a comida, endividarem-se para comprar casas ao capital que enriquece à custa do seu próprio trabalho e ir gastar o dinheiro todo que recebeu em impostos ou em supermercados, todos do mesmo grupo económico, deixando ainda uns cobres valentes no banco que paga uns impostos miseráveis. Retrógrado é o trabalhador não saber se para a semana que vem tem ou não trabalho porque os senhores do governo permitem que os patrões mantenham os trabalhadores a prazo por 6 anos (!!!). Retrógrado é exigir dos trabalhadores que esmifrem a sua vida, o seu dia a dia, que não vejam os seus filhos e companheiros e companheiras, que contraiam as doenças das articulações, percam braços, dedos, inalem substâncias perigosas e, para ganhar mais uns trocos, despedi-los todos e enfiar a merda da fábrica na Malásia. Retrógrado é olhar e ver filas de trabalhadores à porta das Empresas de Trabalho Temporário à espera que alguém lhes ofereça um preço, ou á porta do centro de emprego, porque perdeu o seu numa fábrica que levantou voo para outro país.

- Retrógrado é continuar a dizer que temos de ser competitivos, sermos cada vez mais punidos e ver tudo a piorar cada vez mais. Já agora, vejamos uma coisa: para que países e regiões vão as fábricas e empresas que abalam daqui? Roménia, Filipinas, Ucrânia, América Latina e América Central, Índia, Malásia, Polónia, Moldávia… tudo países despedaçados e desmembrados pelo capitalismo. Países e regiões do globo totalmente desestruturalizados, países em que os Salários Mínimos Nacionais não ascendem a mais de dez, quinze contos. É com esses países que os governos portugueses querem competir. É com eles que nos querem igualar??? Quando falam de competitividade, é entre quem? Porra que isto de dizer nomes bonitos sem explicar as coisas, deixa muitas dúvidas. É bom ser competitivo… ena ena somos competitivos!!! Mas… competimos com quem?

- Retrógrado é continuarmos a viver no mesmo regime económico que há 200 anos está em prática e que já provou não ser capaz de resolver os problemas da humanidade. Retrógrado é dizerem-nos que a economia e o trabalho têm evoluído muito, quando na prática, o essencial se mantém: mantém-se a exploração patronal dos trabalhadores, mantém-se a precariedade no trabalho e o desemprego, mantêm-se os baixos salários e as pensões de miséria, mantêm-se as assimetrias sociais e económicas, mantém-se a existência de um punhado de ricos privilegiados e de milhões e milhões de outros que não têm onde cair mortos.

- Retrógrado é continuar a achar que os trabalhadores devem submeter-se a todos os caprichos das empresas porque senão elas vão-se embora ou despedem-nos. Isso é retrógrado porque isso sempre foi assim. Conservador é preferir a manutenção do Estado de coisas. Sempre os trabalhadores tiveram que se submeter ao capital nacional, estrangeiro, multinacional e transnacional. Retrógrado é defender que assim continue. Nada é mais conservador que tentar manter o sistema como está, fechando os olhos às suas profundas contradicções internas.

Mas… depois vêm estes senhores iluminados, os senhores que representam as empresas ao mesmo tempo que o povo, dizer-nos que aqueles que lutam pela melhoria de vida dos trabalhadores é que são os culpados pelo desemprego… Valha-nos Nossa Senhora!

Dizer que existe falta de investimento estrangeiro em Portugal porque existe um Partido que defende os trabalhadores é a coisa mais anti-democrática que já ouvi. Ou seja, para este Senhor, e certamente para muitos outros, se não existisse um Partido como o PCP e, quem sabe, uma central sindical como a CGTP-IN, então, o capital investiria em força no nosso país, brotariam fábricas e oficinas rentáveis, floresceria o negócio e o céu seria riscado por um intenso arco-íris, como na Malásia, no México, no Bangladesh, e outros muitos magníficos países que, por serem tão esplendorosos, lhes chamam países do 3º Mundo.

Claro. Se os trabalhadores não reivindicassem os seus direitos, os patrões podiam cá plantar mais unidades e mais empresas. A questão é: para quem seria o produto do trabalho nelas produzido? Para um Estado submisso sem sentido de dever? Para os trabalhadores que, de vestes rotas, aspiram a ver a cor do pão? Ou para os grandes senhores do dinheiro, da banca, das fábricas, da poltrona descansada? Muitas fábricas que nos destruam os recursos naturais, que explorem sem limites o nosso povo, que não contribuam para o desenvolvimento do país… é isso que estes senhores querem? Será que não existem exemplos que bastem? Olhemos para os países com quem queremos competir… os direitos dos seus povos são, sem excepção, muito inferiores aos nossos… Querem agora, diminuir-nos os direitos para competir com eles… isto só visto…

Thursday, June 30, 2005

O Secretariado Bárbaro

Mandam as regras da boa organização e da capacidade articulada de resposta que, por detrás de cada colectivo, exista um secretariado. Um secretariado investido do poder de decidir política e executivamente. Os partidos políticos têm os seus. Independentemente do nome que dão a esse organismo, existe sempre um conjunto de dirigentes eleitos que decidem sobre orientações e formas de as levar a cabo. O que é normal e ainda bem.

No entanto, anda aí, há já bastante tempo, um secretariado oculto. O secretariado do capital e dos seus interesses. A convergência de interesses em torno de políticas fundamentais entre os partidos do sistema é notável. Particularmente entre o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata, a coligação de interesses, a convergência de posições, é totalmente inolvidável.

Não há volta a dar… é vê-los levantar-se todos ao mesmo tempo no parlamento. É vê-los a dizer exactamente o mesmo, mudando os vocábulos. É vê-los, sem vergonha a defender os mesmos interesses, sem qualquer reserva. É vê-los, sistematicamente, a trocar galhardetes sem qualquer consequência de fundo. É vê-los na televisão a debater, sem que haja a mínima oposição de ideias. É vê-los competir pelo prémio da “cara mais bonita”, para que não tenham que confrontar as opções políticas.

Senão vejamos:

O Partido Socialista acaba de ser eleito governo e continua com o apoio de Portugal às guerras do imperialismo.
O Partido Socialista continua com a imposição do código do trabalho aos trabalhadores portugueses, com tudo quanto isso acarreta.
O Partido Socialista mantém a lei de financiamento do Ensino Superior, mantendo o Ensino Superior ao alcance exclusivo daqueles que o podem pagar.
O Partido Socialista afinal não vai desenvolver a regionalização.
O Partido Socialista afinal não vai despenalizar o aborto, prefere andar numa salganhada com os seus amigos do berloque de esquerda e mendigar um referendo ao Presidente da República. Quem tira os proveitos? A direita retrógrada que vai aproveitando o tempo para fazer campanha e propaganda pelo preconceito.
O Partido Socialista vai mesmo implantar co-incineradoras, entregando volumosos lucros a empresas que vão passar a receber para utilizar combustível que antes pagavam. Vai mesmo arruinar o Parque Natural da Serra da Arrábida para satisfazer os interesses sabe-se lá de quem. Até porque Portugal não produz suficientes Resíduos Industriais Perigosos para justificar este processo… Vamos importar merda dos outros países?
O Partido Socialista aumentou os impostos indirectos, fazendo pagar os mesmos de sempre a factura crescente das más políticas dos governos.
O Partido Socialista não mexeu na tributação das mais-valias das transacções em bolsa, nem mexe nos impostos do sector financeiro que acumula lucros assustadores.
O Partido Socialista continua com a intenção de privatizar a eito todo o sector produtivo nacional e, a juntar à festa, agora também a água.
O Partido Socialista continua, como já afirmou, a querer retirar os Estudantes da Gestão Democrática das Instituições de Ensino Superior.
O Partido Socialista vai aumentar a idade da reforma.
O Partido Socialista vai congelar as progressões na carreira dos funcionários públicos.
O Partido Socialista vai retirar privilégios aos trabalhadores da administração pública sob o pretexto da igualdade… porque não dar mais direitos aos outros?

E muitos outros fenómenos “inesperados” seria possível escrever mas chega. Afinal estes são exactamente iguais aos outros… Com a diferença que se dizem de esquerda. Para mal da própria esquerda! Fazem a merda e a esquerda paga a factura. Depois dizem que isto é tudo igual, mas não é!!! PSD e PSD são iguais, ponto. Mas não podemos correr o risco de dizer que a extrema-direita bolorenta do CDS é a mesma coisa… isso seria perigoso. Seria também ingénuo e falso dizer que o berloque é igual… não é. O berloque é uma cagada da burguesia para distrair a malta. Foi um engodo que a própria burguesia nos deitou para ver se os achamos “com pinta”. Tipo: “eles são fixes… fumam berlaitas”. Não, não são iguais: são amorfos e oportunistas, não têm estrutura nem projecto. Tomam as suas posições conforme aquilo que acham que lhes pode garantir mais votos entre o seu público alvo e não por convicções. Resta-nos a CDU… enfim. Quase desaparecida dos nossos jornais e alvo da difamação dos eruditos senhores professores, das televisões às escolas e igrejas. Estes, desafio-vos a todos a acompanhar a sua acção política e, por vossos próprios olhos, será fácil verificar as diferenças.

Mas… falávamos do secretariado. Não era pouco importante o anterior parágrafo. Serve então este já longo e enfadonho post para provar que as orientações de PSD e PS emanam de uma mesma fonte. Vejamos a forma como tudo encaixa. Como defendem exactamente a mesma visão da sociedade. Tudo sujeito ao mercado, ao lucro, ponto final. As grandes empresas é que mandam e o resto é treta! Basta ver como ambos protegem os interesses dos bancos, das seguradoras e de todo o sector financeiro. Basta ver como se colocam de joelhos para atrair uma empresa para território nacional, cedendo tudo, infra-estruturas, máquinas, terreno, benesses fiscais, etc., mas que, à mínima cócega da empresa, nada se faz para impedir que se vá embora e que deixe as suas centenas de trabalhadoras e trabalhadores no olho da rua. Depois dizem-lhes: “Epá, mas a gente dá-vos uns tostões de indemnização, até vos pagamos acima da tabela e tal.” Ai! Mas ninguém percebe que o que estes trabalhadores querem é trabalhar? Querem saber se amanhã os putos comem ou não!!!

Mas ainda ninguém reparou que eles fazem exactamente o mesmo? Ainda ninguém reparou que a televisão decide quem para lá vai? Então o Sócrates e o Santana não tinham ambos um programa de tv em que debatiam? Curioso, um foi primeiro ministro pouco tempo depois, o outro é agora! Curioso também é o facto de executarem exactamente o mesmo tipo de políticas! Irra que isto já chateia!

Então, o PS chega ao governo e mais não faz senão continuar o trabalho dos outros? Então isto não mostra que existe uma orientação comum? As leis que apresentam nas questões de fundo são exactamente iguais. Quem manda nesta merda afinal? Se eles nos apresentam um programa mas chegam lá e fazem exactamente o contrário, não acham que alguma coisa está mal? Quem manda? Esta questão é tortuosa… e o pior é que já ninguém manda… manda o interesse irracional e impessoal do dinheiro, da especulação e da exploração. Tudo gira em torno disso, do lucro. Pouco importa se o povão fica na fossa, desde que a banca ganhe mais uns trocos.

Wednesday, June 29, 2005

O amor e o capitalismo - as faces do império bárbaro

Amar talvez seja a capacidade suprema do Ser Humano.

O império bárbaro, no entanto, tudo faz para estropiar o amor. Leva-nos o amor pelo sol, pela lua, pelo mar e pela praia, o amor pelo vento, pelo gelo, pelas folhas do outono a cair, pela noite, leva-nos o amor por nós e pelos outros. Barbaramente, vamos, a cada dia que passa, ficando com cada vez menos tempo para amar e, pior, com cada vez menos objectos de amor. A humanidade ama a natureza, mas delapidam-na com máquinas sedentas de rocha, de óleo, de água, de madeira. A humanidade ama o desporto, mas vende-se ao quilo. Amamos a cultura mas destrói-se a criatividade e fecha-se o quadro lindo numa sala de ouro. Amamos a própria humanidade, mas encarceram-na num televisor enquanto é baleada com aço que ela própria tirou da terra. Amamos as mulheres, os homens, os filhos... mas já não os podemos ter... o império não deixa amar. Deixam-nos, quanto muito, acasalar e procriar. Mas amar...

O império bárbaro avança intrepidamente contra o amor. É mal a erradicar. O amor é a raíz do humanismo, pecado mortal na bíblia bárbara. Começa a ser comum ver as barrigas inchadas, as guerras sanguinárias, a pobreza miserável. Parece-nos inevitável que ao nosso lado o mendigo peça uma moeda, ou que à nossa frente um homem esquálido sinalize um lugar para estacionarmos o pópó. O humanismo, que é a forma suprema de amor, está a dar lugar outros sentimentos. Manipulados pela própria barbaridade, esquecemos que somos todos iguais.

Como já não exigimos ter o tempo do jantar para os putos? Como já achamos natural que as mulheres não tenham tempo para os filhos? E que os homens não tenham tempo para as mulheres? E que já ninguém se veja a outra hora que não seja a de acordar as seis da manhã para ir trabalhar? Como toleramos que nos levem o amor? Que nos façam odiar aqueles que tiveram o seu país destruído pela guerra ou pela barbaridade e que agora, sem soluções, migram para outras terras? Que nos façam olhar serenos para as árvores que caem e os indígenas que fogem por suicídio? Que nos toldem a revolta quando o esmagam a humanidade?

Enquanto uns vivem na opulência de relvados e piscinas, de casas e casarões, de mansões e de limusinas, outros vivem na miséria, outros vivem sem ter o que comer, sem nunca ter visto pai nem mãe... Enquanto crescem lucros como nunca antes, enquanto se canonizam papas, se constroem igrejas e outros santuários do luxo e da abundância, o povo lá fora morre aos poucos. Morre mesmo. Morrem os que nos deixam para sempre e morrem aos poucos aqueles que já não podem amar. Não os deixam amar.

Mas eles enganam-se quando pensam que podem amarrar-nos para sempre. Por toda a parte o amor nasce como espinhos de uma rosa, naturalmente. O amor pela luta e pela vida, pelos outros e por nós. O amor pela luz que nos deixa ver é incontrolável e mais cedo ou mais tarde, irrompe! na revolta. não nos levam o amor. Não nos levam o grito!

E a cada um que calam, outros mil se levantam. Não nos tiram o amor ainda que no-lo escondam! Não deixaremos que a vontade do lucro seja mais forte que a paixão pelo mundo e pela vida. Em cada canto nasce a papoila vermelha do combate! Aqui e ali as vozes dos homens levantam-se contra a mordaça. Ergam-se Homens, trabalhadores e trabalhadoras!
sob todas as formas, exijam respeito!

O outro dizia que "amar a humanidade é fácil, mais difícil é amar cada Ser Humano". E pois, amar é sentir a dor da Humanidade e com ela lutar pela sua libertação. Não podemos amar cada Ser Humano enquanto existirem os projectistas do império bárbaro.

Monday, June 20, 2005

O aborto das nossas correntes.

É urgente quebrar as correntes que nos amarram ao porto do preconceito. Levantar a âncora e seguir em frente pelo mar da tolerância. É urgente avisar toda a gente que existe o controlo moral, o controlo psicológico e que essa é uma das bases para o controlo político e económico.

Vivemos em pleno sec XXI, num país europeu (ou não?) e dito desenvolvido. Vivemos, no entanto, com um terço da população abaixo do limite de pobreza e com uma das populações mais endividadas da Europa. Mas cá estamos. No limite do futuro, mas agarrados a bolores antigos.

Vivemos num pequeno país próximo da realidade antiga. Próximos de uma realidade que muitos julgam já ultrapassada. O Estado laico, sem relações privilegiadas com religião, é algo que merece a nossa maior atenção e o nosso mais empenhado alerta.

Ao fim de novas eleições, cá estamos de novo sem permitir que o problema do aborto clandestino seja discutido.

Os compromissos obscuros entre o Partido Socialista e entidades religiosas não permitem que este assunto seja tratado com a importância que deve ser. Não quer ter a responsabilidade perante os sectores mais retrógrados de assumir a despenalização do aborto. O outros, os berloques estavam convencidos de que poderiam ter mais um tempo de antena na ribalta das luzes em torno de um referendo! Estiveram-se nas tintas para as mulheres, pensaram exclusivamente no protagonismo que dali poderiam tirar.

Como é possível que ainda estejamos amarrados ao cais da imposição moral?
Como é possível que não se cobre a estes senhores que cumpram o dever básico de garantir a saúde das mulheres portuguesas, no momento em que tomam a decisão mais difícil das suas vidas?

Andamos a colocar a questão no plano ético e moral... e quem tem o direito de impor a sua moral a outro!? São os padres e as beatas? São as gajas do papel que vão abortar a Inglaterra? Quem pode vir meter grilhões na vida dos outros? Como pode um padreco apregoar na sua igreja que quem recorre ao aborto é pecador, sem nunca chamar pecador a quem mete as mulheres na situação de pobreza extrema ou de desamparo social? Como não é pecador o explorador que retira à mulher dez vez mais que aquilo que lhe paga? como não é pecador o governante que permite que milhares de mulheres e jovens mulheres não tenham acesso à informação, ao planeamento familiar e à contracepção gratuita? Porque não acusam de pecadores aqueles que rebentam o mundo, deixando milhões de famílias sem quaisquer condições para ter e suportar filhos?

Quem são esses corvos? Esses religiosos abutres empedernidos? Esses que espalham a desgraça e que fazem um dos papeis mais nojentos da sociedade quando acusam e julgam. Quando julgam eles os poderosos? Os que compram o seu lugar no céu, em belas quintas recheadas de cerejeiras? Porque não julgam eles a sua própria mãe, a igreja católica?

E porque raio continuamos a tolerar que os ranhosos do CDS espalhem a fé e a moral e a defesa da vida, quando são responsáveis por muitas mortes no Iraque? Como podem eles arrogar-se defensores da vida quando são os mais conservadores do actual sistema político? Mas quem são esses badamecos para virem dar lições de moral às mulheres portuguesas? Esses senhores que nasceram em berços de ouro e viveram toda a sua vida sob a soalheira dourada do latifúndio querem agora vir atar com a sua moral as mulheres encurraladas!


Abortem as mentes retrógradas e faça-se nascer um mundo de tolerância! Abortem as correntes da moral caduca e brotem flores nos ventres das mulheres!

Friday, June 17, 2005

Tudo magro e o Estado Obeso?

O peso do Estado preocupa todos os digníssimos senhores analistas do mundo. Os senhores que analisam tudo e sabem falar de tudo, falam muito do peso do Estado. O peso do Estado preocupa-me também muito. É muito estranho que o Estado pese muito, quando todos temos umas contas bancárias tão levezinhas. Todos, todos não. Há por aí uns poucos que têm o bandulho cheio da guita e de caviar.

Mas isto do peso do Estado... Estas novas e imensas barabaridades que se vão implantando e vão criando raízes, preocupam-me. Ora, um Estado pesado parece mau. Aliás um Estado como este parece que está sempre em mau estado, quanto mais se estiver pesado. No entanto, quando ouço os senhores na bancada da TV a falarem do peso do Estado não posso deixar de pensar:

"Ora este borrabotas, que ainda ontem não era ninguém e agora é doutor da nação e sabe falar de tudo, vem agora falar do peso do Estado - que é preciso emagrecer o Estado e não-sei-quê - Então mas este não foi aquele que no dia em que fiz greve me chamou nomes? Este não foi aquele que disse mal dos trabalhadores ainda no outro dia? Não foi também ele que disse que os Estados Unidos é que eram a cena mais fixe do mundo? Lembro-me bem de o ouvir a dizer que os Estudantes só queriam era copos e algazarra... E de o ouvir dizer que a Europa era um mar de rosas que resolveria todos os nossos problemas... Era ele, era! Mas agora vem aqui para a TV, muito imparcial, dizer que sabe tudo. Sabe tudo e pronto, não há volta a dar. O senhor até tem um curso superior, numa porra qualquer daquelas em que sabem tudo. Não... espera lá."

E penso "espera lá", "espera lá" porque afinal o gajo não está a cagar aquelas barbaridades todas sem razão. Alguma coisa o faz dizer aquelas frases bonitas todas. Pois é, lembro-me... Ele está do outro lado da barricada. Ele é o gajo que sempre defendeu os patrões, aquele que ainda não engoliu o 25 de Abril, aquele que ainda guarda a foto do salazar com carinho escondida na gaveta da mesinha de cabeceira. E tudo começa a fazer sentido...

Exacto: o Estado tem peso a mais porque faz mais coisas do que eles gostariam. O Estado garante a Educação, a Segurança, a Saúde, a Protecção Social, garante ainda muita coisa. E, por isso mesmo, o Estado está pesado. Ora, se estes senhores querem emagrecer o Estado, quem querem eles engordar? Alguém há-de ter que garantir a Educação, a Segurança, a Saúde, a Protecção Social. Quem será? Provavelmente os mesmos que pagam aos senhores que sabem de tudo. E tudo começa a fazer sentido na minha pobre cabecita...

É isso! o que o senhor que sabe tudo quer é que emagrece o Estado para engordar o capital privado. Sim, porque eu não hei-de engordar certamente. Agora vou ao hospital, pago mil paus, quando aquela porra for toda privada, largo o ordenado para me darem um comprimido.
Hoje ando à escola e só pago os livros, quando for privada, pago tudo e ainda mais para dar um lucrozito ao dono da escola. Já agora as forças armadas também podem ser privadas e depois em vez de defenderem o povo, defendem quem lhes paga.

Mas o peso do Estado... Há muita malta a bulir no Estado? Vamos lá a ver aqui uma coisa. Quando falam da função pública, lembramo-nos da senhora mal humurada que nos atende nas finanças sem paciência porque ganha uma merda e tem de aturar milhares de pessoas com pressa e tem de estar a bater tudo à máquina porque a informática ainda não lhe chegou ao escritório, e que nunca teve um curso de formação para aprender a ser simpática com os utentes e porque há anos que faz todos os dias exactamente a mesma coisa num gabinete claustrofóbico onde um gordo que trabalha no balcão do lado se farta de suar. Mas é só isso a função pública?

Então e os professores, estão a mais, quando sabemos que há putos a chumbar a torto e a direito nas escolas e que muitos nem sequer lá andam? E os polícias? também estão a mais? então mas ouvimos toda a gente a dizer que há poucos! E os médicos e enfermeiros? são muitos? então porque raio esperamos anos a fio por uma cagada duma operação que leva meia hora? Isso é que é a função pública! E a marinha, a força aérea, o exército? podemos dispensá-los? E os serviços de investigação? os laboratórios do Estado e os Institutos Públicos? são muitos? vamos desmantelá-los? ou vendê-los?

O peso do Estado é um cliché. O Estado não está obeso, quem está obeso é o grande capital que não cansa de encher à nossa custa e agora até o Estado nos quer levar.
Privatize-se o Estado, então e passamos a votar em empresas para o gerir! Eu voto McDonald´s! Tu votas Microsoft!

O défice. O défice quê???

Desde há uns tempos para cá que não se ouve falar doutra coisa.
Défice pra cá, défice pra lá?

Uns engravatados tótós falam dessa porra como se fosse a coisa mais importante do mundo... A malta vai falando nos cafés: "pois é, pá... o défice e tal." E o nosso défice?

O défice do orçamento é a percentagem do Produto Interno Bruto que corresponde a dinheiro que falta, dinheiro que não há. Há várias formas de o ir buscar... Porque escolhem sempre a mesma? Sempre a de ir buscar a quem já não tem mais para dar.

Olhamos para os lucros das grandes empresas e da banca e verificamos que andam a nadar em dinheiro, mas vão sempre pedi-lo a quem tem pouco, a quem trabalha dias de sol a sol para comer e vestir.

E então o défice orçamental da malta? Quase toda a gente chega ao fim do mês sem um tostão. Muitos chegam inclusivamente com saldo bancário negativo. Esse é um défice a que ninguém liga! O défice serve de desculpa para tudo: aumentar impostos, precariezar o trabalho, retirar direitos, reformas, pensões, despedimentos, aumentar as propinas, tudo!
Justificam tudo com essa coisa que é o défice! E nós, pumba, vai de pagar para combater o défice!

Porque não investem na produção nacional e no consumo dos produtos nacionais? Porque raio hão-de vender tudo aos senhores do dinheiro estrangeiro? Já começa a ser demais! Porque não investem na Educação para qualificar o trabalho e a mão-de-obra, porque não aumentam os salários para beneficiar a economia? Para que merda quero eu saber se o défice é inferior a 3% se não tenho com que comer?

Agora, dizem, pagam todos! Mentira! Descarada mentira! Ainda não vi os bancos abrirem os cordões à bolsa para pagar a crise! Mas quem é que provoca a crise? Sou eu? Tu? Donde é que veio essa crise? Deve ter sido o povo que jogou mal na bolsa... Então se não fomos nós que a gerámos porque é que temos de ser nós a pagá-la? Os pais da crise que se livrem dela!

O dinheiro quando desaparece dos nossos bolsos tem de ir para algum lado, ou desaparece? Onde é que ele anda? Vá-se buscar onde ele está!

Não nos venham é dizer que, por causa do défice, isto e aquilo. Peguem no poder que tenham e corrijam as assimetrias, possibilitem à população que ganhe melhores salários. Queixam-se que a malta se endivida? Então como é que querem que a gente viva, oh barrascos!?

Ao que ninguém liga é aos outros défices. O nosso défice democrático, o nosso défice cultural, o nosso défice salarial, o nosso défice científico, o nosso défice tecnológico. Querem mascarar tudo com o défice orçamental... Esse é o único que importa para fazer a vontadinha aos senhores da Europa.

Estes agora, com o défice acima do esperado. Acima do esperado, o tanas! Mais sabiam eles que mal lá chegassem ao poder iam usar o défice para fazer o que estão a fazer! Então e a fuga aos impostos? então e as grandes fortunas? Nesses não tocam. Então e as empresas que bazam, depois de receber milhões de euros do Estado para operar em Portugal? Então e as privatizações de tudo quanto é empresa? Nas mãos do Estado dão prejuízo, mas basta vendê-las para já darem lucro??? Só podem andar a enganar-nos à cara podre. E a gente a ver...

Já chega da conversa do défice! o défice... o défice o quê???

Thursday, June 16, 2005

Os filhos a menos

Esta anda-me a afligir há muito tempo.

Ouvimos justificações para tudo, convencem-nos de que tudo quanto é mau é inevitável. E pior... somos tão patinhos que acreditamos. Como é possível acreditar que o facto de nos sacarem uns trocos ao fim do mes e outros de cada vez que vamos às compras, vá impelir o país para uma situação cimeira, para o pelotão do desenvolvimento? Mas como é que é suposto sermos um grande país se a sua população não tem dinheiro para comprar um papo-seco? Para que raio quero eu que o país seja muito evoluído, se não tenho dinheiro para mandar cantar um cego.

Para quem será essa evolução?

É para ti, chefe? Que vais tu ganhar se a bolsa estiver a render, ou se o défice (?) diminuir à tua própria custa?

Mas esta entrada do blog é para falar dos filhos a menos, filhos e filhas. Aqueles que, por ordem divina, não há meio de nascerem. Esta foi uma das atoardas que nos mandaram para justificar isto e aquilo. O país está velho... não tem jovens e não há dinheiro para as reformas...

Ora bem, sim senhor, vamos lá a ver isso.

Se o problema é haver velhos demais, claro está, vá de aumentar a idade de reforma para que se desconte mais tempo, ou por outra, para te amarrar ao trabalhito por mais uns valentes anos. Mas cum raio! Porque é que o país está velho? O pessoal deixou de "amandar umas"? As tarefas íntimas já não são cumpridas como dantes? Ou antes, dita a natureza que o povo vá fazendo menos amor à medida que o tempo passa em Portugal? Parece, efectivamente, uma questão apolítica. O pessoal já não curte fazer bébés e prontos!

Mas então e as condições de vida? Então o desemprego? Como é que eu posso pensar em ter filhos se não tenho já que chegue para a merda da casita em que vivo, mais a porra do gás, da água, da luz, da comida pá boca e da roupita para me vestir? Como podemos pensar em procriar quando não temos um segundo para passar com os putos, porque os horários já não existem, trabalha-se e pronto, as horas que forem precisas!

Então e há poucos jovens? E mesmo assim os que existem estão no desemprego? E querem convencer-me de que, se houvesse mais, já havia trabalho para todos!? e entao o trabalho temporário e um gajo nunca saber se amanhã tem emprego ou se vai catar lixo? Isso não importa... Parece que deixamos todos de gostar das actividades caseiras e dos deveres reprodutivos. Ora essa! Toda a gente gosta de fazer amor!

O que se passa é que, e isso as abéculas sabichonas, não dizem, hoje existem muito mais formas de evitar que nasça um puto de cada vez que se vai prá cama. E, por isso mesmo, o pessoal previne-se, exacta e essencialmente, porque não existem condições para ter filhos.

Quem é que pode depois pagar a ama? a creche? a comida? os cuidados médicos? a escola? os livros? Pá! vão gozar com a puta cos pariu! Agora querem convencer-me que os velhotes vao ter que trabalhar mais porque a taxa de natalidade é baixa!?

Então criem condições para os miúdos, garantam condições de vida aos casais e aos jovens! Agora, não se venham é queixar da baixa taxa de natalidade. Tudo tem uma explicação. Esta é muito simples: não há dinheiro nas famílias, logo não há putos! Com o aumento da idade da reforma não estou a ver como se combate o envelhecimento da população...

As medidas dos governos da direita e do PS são tipo aspirinas... combatem os sintomas, mas nunca, nunca, combatem as causas da doença.

Tuesday, June 14, 2005

O descaramento amoral

Ontem faleceu uma figura maior da História contemporânea.
Ontem faleceu Álvaro Cunhal.

Álvaro Cunhal foi um exemplo de dedicação e de coragem. Foi um homem de elevados valores, mas que acima de tudo, deu tudo por eles. Um homem que marcou a luta dos trabalhadores portugueses, que marcou a conquista da liberdade e que foi um incontornável combatente pelas mais profundas aspirações do povo português.

Foi um comunista que expressou a sua grandeza em diversos níveis da vida. Expressou o seu magnânime Humanismo na arte, na pintura, na literatura. Um homem excepcional que deu um grandioso contributo para a construção e aperfeiçoamento das análises comunistas sobre o mundo, Portugal e seus problemas.

E agora... Deixa o exemplo e a inspiração, redobra a vontade transformadora dos comunistas com o seu legado.

Mas, e o que eu não esperava, mesmo no dia do seu falecimento, fomos todos presenteados com uma verdadeira operação de revisionismo e branqueamento histórico da sua vida e da vida dos comunistas e do seu Partido.

Logo nesse dia, uma iluminada abre as notícias da TV Pública como se possuísse o dom da análise sobre a vida de Álvaro Cunhal. Chama-lhe tudo: cruel (aliás como todos os comunistas), sedutor, e desistente. Como se portadora de uma verdade absoluta aceita de bom grado tecer comentários à vida de Álvaro Cunhal. Nesse mesmo dia, a mesma televisão pública desfere o golpe final contra a memória de Álvaro Cunhal no magnífico programa Prós & Contras, onde, pasme-se se sentam reconhecidos intelectuais da praça pública para desmantelar o património de luta e abnegação de Álvaro Cunhal.

O grande Senhor Luís Osório chega ao ponto de afirmar que Álvaro Cunhal não pedia duas vezes o mesmo prato para que ninguém soubesse qual a sua gastronomia favorita!!! Pá... só podes estar a gozar comigo!

Ficámos todos sabendo que Zita Seabra é pessoa indicada para falar de Cunhal e que não tem sequer réstias de suspeição e parcialidade. A falta de respeito demonstrada pela RTP devia suscitar todas as dúvidas.

Os jornais diários traziam hoje todo um conjunto das mais elementares teses anti-comunistas, sem sequer as fundamentar. Segundo estes, Álvaro Cunhal seria uma pessoa de cariz ditatorial, autoritário e arrogante, um Homem ao serviço de interesses estrangeiros que quis instaurar uma ditadura em Portugal... Benza-os Deus...

Estes senhores da comunicação Social, imparciais e verdadeiros paladinos da verdade, não respeitaram absolutamente nada! "Vai daí, o comuna morreu! Siga bombardear o pessoal com tretas inventadas só para dizer mal e cascar nos comunas!"

Como é possível que se proceda a tão caluniosa operação mesmo no dia da morte de um homem excepcional?

Mas quem são estas pessoas que gritam aos quatro ventos desde cedo a morte do comunismo e não há meio de se confirmar a maldita profecia??? Donde vêm, onde adquiriram tão profusa sapiência que os autoriza perante os milhões de portugueses e portuguesas a manipular os factos e a verdade a sabor da vontade de cada um?

Porquê a Zita Seabra? Porque o Luís Osório? Acaso foram amigos íntimos de Cunhal? E os milhares de militantes do Partido Comunista que com ele combateram anos a fio? Não seriam esses agora os mais importantes? os seus amigos? os seus camaradas?

Não deixa de ser curioso que, no dia da sua morte, tenham sido ditas as maiores barbaridades sobre a vida de Álvaro Cunhal... Um Homem que dedicou toda a sua vida à transformação da sociedade e à evolução do mundo para uma estado de maior organização e humanismo merecia pelo menos o respeito desses abutres que tudo farão para o apagar da História.

Mas desengane-se o pulha que pensa que pode enganar-nos todos. Álvaro Cunhal perdurará na memória colectiva do povo e dos trabalhadores portugueses, deixará as incontornáveis marcas no coração daqueles que anseiam por um mundo mais justo.

Descansemos, no entanto, porque o exemplo é seguido por muitos outros e porque sabemos que a luta continua. Álvaro Cunhal sabe que enquanto persistir a exploração do Homem pelo Homem, persiste a luta pelo socialismo!

O primeiro dia do fim da lucidez

Pois, devemos mesmo ter perdido a paciência para arriscar escarrapachar os nossos pensamentos revoltosos e, por vezes, tumultuosos, numa página da net que provavelmente ninguém visitará. Mas, o presente começa a dar-nos de tal forma a volta à barriga que aqui estamos, nem que seja para um visitante perdido poder ler outra versão - uncensored - das interpretações mainstream dos acontecimentos que nos rodeiam.
Eu nem acredito muito nesta cena dos blogs e, para ser sincero, até os considero, em geral, uma perda de tempo. Mas, realmente, começo a compreender aqueles que, não vendo reflexo do seu pensamento na esmagadora corrente do mercado, e aqueles cujas opiniões não têm outro espaço senão o alcance do seu próprio grito. Começo a compreender, ainda que pelos piores motivos.
Impele-me a escrever, lamentavelmente, a revolta que pulsa já dentro de mim contra a mentira, contra a ridicularidade.
Tudo merece ser questionado, mas nada é.
Tudo, independentemente donde venha, merece aprofundamento e seriedade, mas nada os tem.
Mastigam-nos tudo na Tv - está tudo pronto a engolir.
Os jornais mostram-nos as verdades absolutas avalizadas por analistas acima de qualquer suspeita que são pagos para pensar por nós.
E nunca nos questionamos... "Quem é o otário?"
Pensamos antes: "é o Sr. Professor... sabe muito este Senhor." Mas sabe de quê? Sabe o que é trabalhar horas e horas a fio a receber um salário de merda para por a comida na mesa? Sabe o que é ter um patrão a pressionar para trabalhar mais depressa? Sabe o que temer o fim do contrato a prazo?
Sabem esses encartados da TV e dos Jornais o que é a vida para além da sua verborreia diária?
Mas donde vêm, quem são? Tiraram o doutoramento em "Tudo"??? Sim... porque isto de falar com todas as certezas sobre o campeonato e logo a seguir enfiar uma bucha sobre Clonagem e ainda ter tempo para avaliar a política nacional, não é coisa fácil e não é, certamente, para qualquer um.
Já só não vê quem não quer, ouvimos às vezes... Esquecemos os que não vêem porque não podem. E esses, com pena minha, raras oportunidades terão de visitar este e os outros blogs.
Este é o primeiro dia do fim da lucidez. Arrisco a perdê-la uns minutos por dia para despejar aqui o chorrilho de revoltas que mais me afecte. Perco-a porque não é muito lúcido escrever para um ecrã, empenhar minutos que somados resultarão em dias, para sabe-se lá quem vir ler. Não é muito lúcido...