Monday, July 14, 2008

Ora vejam lá se apanham esta na TV

Como seria, no mínimo, correcto que todos quantos se preocuparam com a tal de ingrid betancourt, agora se preocupassem de facto com o que se passa na Colômbia.

Monday, July 07, 2008

ainda sobre uribe

obrigado, vítor. assim é mais fácil.
documentos norte-americanos sobre Uribe.

voto fascista

Eu não ia dizer nada sobre isto. Mas depois de o anónimo ter lançado um desafio à racionalidade e à rectidão crítica, achei que umas palavras sobre o assunto não viriam em demasia.

A libertação de Ingrid Betancourt podia ser um motivo de regozijo político e constituir, de facto, um momento importante para a procura de soluções para a questão colombiana. Qual questão colombiana?, perguntarão todos quantos sorvam a desinformação da comunicação social dominante com a mesma avidez com com que os putos mamam nas mamas das prestáveis mães. Para esses, será bom procurar algo mais. Será bom tentarem saber onde estão as sete dezenas de activistas sindicais assassinadas pelo Governo neo-fascista de uribe; será talvez útil ler e tentar buscar as posições daqueles que, no terreno da colômbia, lutam contra um presidente ilegítimo apoiado pela grande potência americana por representar uma fonte inesgotável de cristais de cocaína; talvez também possa ser-vos útil saber que o regime de extrema direita de uribe negoceia directamente os actos dos paramilitares e de outros mercenários assassinos que esventram diariamente a colômbia, pilhando, saqueando, sequestrando e matando. As papas desinformativas que nos dão à boca já mastigadas na TV e nos jornais não excplicam os fenómenos políticos que nos rodeiam. Basta prestar a mínima atenção para descobrir a cada passo, uma nova mentira ou incongruência.

O que se passou na Assembleia da República com o voto de congratulação pela libertação de Ingrid Betancourt foi apenas uma manobra de aproveitamento político com vista ao isolamento do PCP e ao branqueamento do papel do regime uribista. PS, CDS e PSD uniram-se na apresentação de um voto intelectual e politicamente desonesto, cujo objectivo não era saudar a libertação de Ingrid, mas apenas louvar o fascista uribe e condenar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército Popular. Seria bom relembrar que as FARC libertaram um vasto conjunto de prisioneiros nos passados meses, num processo de libertação unilateral intermediado pelo Presidente Chávez e que ninguém saudou tal acto, tão demonstrativo que foi da verdadeira vontade que as FARC apresentam para buscar solução pacífica para o conflito.

Seria bom relembrar que nos cárceres do regime uribista estão centenas de prisioneiros políticos, entre os quais comunistas e sindicalistas e que não houve até ao momento nenhuma libertação desses presos políticos.

A estes a Assembleia da República não dirigiu palavras de apoio. Ao regime uribista a Assembleia da República dirigiu um clamoroso aplauso, bafiento, mas eficaz. PS, CDS e PSD demonstram uma vez mais a quem servilmente obedecem e ajoelham às orientações norte-americanas. Brasil, Venezuela, Cuba, Bolívia e outros países vizinhos não identificam as FARC como forças terroristas, mas Portugal quer mostrar bom serviço à embaixada norte-americana e eis que, bem-comportado, apresenta trabalho feito.

A Assembleia da República poderia ter saudado a libertação para estimular a resolução pacífica do conflito que se vive na colômbia. Mas não o fez. Preferiu acicatar o regime uribista para a aniquilação da guerrilha revolucionária. Tal como antes, nós (comunistas portugueses) éramos terroristas; tal como che e fidel foram terroristas, como mandela foi temido terrorista, tal como todos os movimentos de libertação foram terroristas, agora o são as FARC.

O Bloco de Esquerda, absteve-se no voto do PCP que saudava a libertação e apelava à solução pacífica do conflito, colocando sempre como principal objectivo a paz. Aliás, o voto do PCP, rejeitado pelo PS, CDS e PSD, era o únco que mencionava a palavra "PAZ" e que fora apresentado de facto para saudar a libertação de Ingrid Betancourt. Já o voto da direita e da extrema-direita, apoiado pelo Bloco de Esquerda não tinha outro objectivo senão sentenciar a luta armada do povo colombiano e de ajoelhar perante o narcopresidente uribe.

Assim se vê.

Thursday, July 03, 2008

dignidade

Porque existirão forças que até se dizem de esquerda que defendem a liberalização, legalização, normalização e regulamentação das diversas formas de prostituição?

A libertação do Homem, a libertação da Mulher, pressupõe antes de tudo a conquista da mais elementar das liberdades: a de não ser explorado. A exploração laboral é uma das mais importantes formas de exploração do Homem pelo homem e é, no essencial, a que define as regras em que a actual sociedade capitalista se enquadra.

A exploração sexual, ao contrário do que muitos nos pretendem fazer crer, não é uma exploração laboral, na medida em que a entrega do corpo - recipiente principal da nossa própria entidade e racionalidade - não é um trabalho. Na verdade, aceitar a venda do corpo como um trabalho, seria consagrar como mercadoria o acto sexual e os seus resultados, nomeadamente, o prazer, o amor, a satisfação física. Mas mais que isso, seria aceitar que o conjunto do lumpenproletariat que recorre à prostituição para satisfação, quer seja de vícios ou de necessidades vitais, é patrão de si próprio. Caso contrário, aqueles que defendem a prostituição como forma de trabalho, considerarão que são prostitutos e prostitutas são "trabalhadores" por conta de outrém, não dispondo assim de auto-determinação no uso e posse da ferramenta de trabalho, nem tampouco da organização do seu próprio trabalho. Ora se assim é, então deve aceitar-se que estes "trabalhadores" não são sequer donos do seu próprio corpo, despojando-se da sua própria vontade e alma*.

Quem defende a regulamentação da exploração sexual, quem complacente e oportunisticamente, tolera sequer a ideia de apadrinhamento pelo Estado de uma exploração desta Natureza, manifesta o mais profundo desprezo pela dignidade humana. Quem aceita que seja possível, em qualquer circunstância, vender ou submeter a exploração por outrém, o seu próprio corpo sexual, aceita implicita, mas intoleravelmente, a mercantilização do amor e da relação sexual. Mais que isso, aceita implicitamente a separação idealista que o capitalismo nos impõe entre o corpo e o raciocínio, entre o físico e o ideal. A consideração da prostituição como um trabalho passível de ser considerado no plano é exactamente aceitar que a mercantilização do corpo é uma solução de recurso para a sobrevivência.

A esquerda, qualquer esquerda, qualquer força progressista, minimamente humanista não pode em momento algum abandonar a luta pelo direito à auto-determinação do ser humano, não pode abandonar a luta pela dignidade e pelos direitos ao trabalho, ao salário, ao descanso, e a uma vida digna em todas as suas dimensões: económica, social, política e cultural. É puramente incompatível a aceitação da venda do corpo humano com a defesa intrasigente dos direitos do povo, dos homens, das mulheres, dos jovens e das crianças.

A prostituição e o proxenetismo são apenas vertentes da relação da sociedade capitalista com o lumpen, em que o próprio sistema, principalmente através das suas operações obscuras mas também absurdamente lucrativas, remete para a condição de objectos os homens e mulheres que, por uma outra condicionante das suas vidas, foram obrigados a viver de comportamentos parasitários e não produtivos. Aceitar a prostituição, é abandonar a luta pela criação de condições para a extinção do lumpen e a luta por uma sociedade em que ninguém se prostitua.

Quem quiser, em acto consciente e voluntário, distribuir amor ou prazer a parceiros que em liberdade escolhe, mesmo aleatoriamente, manifesta apenas um comportamento sexual fetichista, porventura saudável (desde que protegido). Quem quiser praticar para si próprio ou para quem escolha a pornografia e o erotismo, mais não faz senão procurar as formas que mais lhe aprazem para o amor e o prazer. Quem, por força das circunstâncias, se submeter aos circuitos parasitas da prostituição de sobrevivência ou de contemplação de vício ou doença, não merece dos humanistas outra postura que não a da solidariedade para a luta com vista à sua libertação.


*alma - uso a palavra com consciência. Não na perspectiva idealista ou espiritual do termo que pressupõe a separação entre corpo e alma (espírito), mas exactamente no sentido oposto, partindo do princípio de que são indissociáveis corpo e alma, na medida em que a alma é a expressão racional e emocional do corpo humano, resultado sempre de uma interacção permanente entre o corpo e os estímulos exteriores.

Saturday, June 28, 2008

outra vez a manipulação

Recorrentemente, à medida que nos aproximamos de momentos eleitorais, as sondagens sobre a intenção de voto da população começam a ser instrumentalizadas com maior intensidade.

Durante o mandato do Partido Socialista, com o PSD em destroços no plano da liderança, as sondagens não podiam fazer dissipar as intenções de voto do Partido Socialista. A estabilidade eleitoral era apresentada como um apoio silencioso ao governo. Incompreensivelmente, segundo as sondagens o Partido Socialista arrecadaria sempre grande parte dos votos - o que era justificado pelos fazedores de opinião e outros iluminados acima de toda a suspeita com a ausência de alternativas à direita.

O que mudou agora?

Por um lado a aproximação temporal de períodos eleitorais. Por outro, a alteração das características conjunturais de alguns partidos da "oposição". Ora vejamos: as peças começam a mover-se no tabuleiro da política nacional. As posições alinham-se na defesa de um sistema estável, sempre em conformidade com as grandes orientações dos grandes interesses económicos e do directório europeu. Importa mobilizar todos os esforços para que o poder político português mantenha o povo contido entre as linhas de delimitação do campo neo-liberal e à mercê da exploração.

Vejamos o que está mudar: o PSD está a sofrer um autêntico lifting mediático, um branqueamento. A imagem de Ferreira Leite, depois de Ministra da Educação proto-fascista; passando por Ministra das Finanças da desumanidade e do desastre técnico, passa a santa aparecida do rigor e da austeridade competente. Com isto, o sistema promove uma real força de alternativa eleitoral ao PS, sem permitir o surgimento da alternativa política. Ao mesmo tempo, ainda que nas costas da população, o bloco central partidário - representante claro do bloco central de interesses - vai-se posicionando para assumir, se necessário, um Governo de "união nacional".

No outro plano, ou seja, no Plano B do capital, vão-se ensaiando as outras "alternativas" do sistema. Manuel Alegre cumpre o papel histórico que lhe coube e que assume com diligência a cada vez que tal lhe é exigido. O Bloco de Esquerda começa finalmente a mostrar a sua verdadeira face de reformista e de bolsa de contenção e reorientação do descontentamento. As suas campanhas anti-sindicais, o seu discurso anti-partidos denunciam perfeitamente o seu alinhamento com as orientações reaccionárias. Mas mais que isso, as movimentações premeditadas do BE e de forças mais obscuras da chamada "esquerda" começam a ensaiar os típicos golpes para que o poder nunca caia de facto nas mãos dos trabalhadores. A burguesia destacada, a pequena-burguesia e as elites da pequena-burguesia de fachada pseudo-socialista começa a assumir os postos nas alturas em que o proletariado avança mais na luta, particularmente nas alturas em que a luta de massas assume dimensões de grande importância. O engrandecimento artifical do BE, promovido por estes golpes mediáticos e pela manipulação de informação, acompanhados por uma objectiva e cada vez mais clara promoção na Comunicação Social Dominante é aliás a própria resposta da burguesia à luta popular. Ou seja, que o descontentamento encontre sempre uma resposta que bloqueie o desenvolvimento da consciência de classe - uma fase de retardamento e contenção.

As sondagens, à medida que nos aproximamos das eleições, tendem sempre a dar uma votação superior ao BE do que ao PCP, não fossem elas concebidas e executadas pelas mesmas forças que são motor e sustento do próprio BE. Mas a realidade desmente sempre as sondagens com significativas margens. Esperemos que o reforço da luta desague como um rio no aumento da consciência de classe. Mas o trabalho que temos pela frente não é fácil - a inevitabilidade histórica não está balizada no tempo, nem tampouco sabemos se o tempo chegará para atingirmos a sua concretização. Mas o que sabemos é que os processos históricos não cessam, podem acelerar ou desacelerar, mas são sempre inexoráveis e irrevogáveis. E desses processos, os protagonistas não são as franjas da burguesia, de esquerda ou de direita; mas sim os trabalhadores e os povos de todo o mundo.

Wednesday, June 25, 2008

África

No Burkina Faso a repressão policial abateu-se contra as manifestações e houve 2 centenas de mortos.

Nos Camarões, centenas de jovens e trabalhadores foram presos por se manifestarem contra o aumento do custo de vida - com recurso a julgamentos aleatórios e em série. Também nos Camarões, a polícia assassinou durante 2006 e 2007 vários estudantes que participavam em protestos contra a limitação das entradas na Nova Faculdade de Medicina da Universidade de Buea.

No Senegal, motins e manifestações de milhares de mulheres saíram à rua contra o aumento do preço dos bens essenciais.

Na Costa do Marfim, a população manifesta-se gritando "Gbagbo, temos fome!", enquanto o Presidente recebe os amigos franceses (Jack Lang - que medalhou pela sua qualidade de "humanista") e com eles dança pelo "red light district" de Abidjan. Também sobre estes homens e mulheres famintos caiu o bastão do Estado repressor.

Na África do Sul, nomeadamente em Joanesburgo, manifestações de milhares de trabalhadores, jovens e mulheres, lutam contra a privatização da água. Os tribunais declaram ilegais e inconstitucionais os contadores de água pré-pagos no Soweto.

Marrocos continua ocupando o Sahara Ocidental, condenando milhares ao isolamento, à fome e à sede, limitando o acesso de um povo aos mais essenciais serviços, como a Educação e a Saúde.

Por toda a África, a terra sangra e o povo luta.
África nas mãos de todos menos do seu povo.

E sempre que o povo se levanta para fazer o seu destino por mãos próprias, a repressão cai lesta. E a lavagem ideológica não tarda. Por toda a África, a terra chora e o povo combate.

Mas nós por cá... só temos acesso a notícias sobre um tal Zimbabwe. Parece que já não é terra de turismo-safari, nem de latifúndio britânico. Parece que por lá já não manda o homem branco e seus caprichos. Por isso mesmo, cá e lá se começa a desenhar uma intervenção estrangeira mais musculada. Fiquemos atentos. Curiosamente ninguém fala de intervenções democráticas na Costa do Marfim, no Senegal, em Marrocos, nos Camarões ou no Burkina Faso.

Saturday, June 21, 2008

a esquerda e o futebol

Chegado a casa, vinha com um momento linear de grande significado direito ao computador para para aqui atirar umas linhas sobre um artigo de opinião que li do Vasco Pulido Valente na última página do Público de hoje. No entanto, para variar, descobri que a resposta estava dada de forma bem mais sóbria do que eu seria capaz de fazer. E, para quê duplicar esforços e tempo precioso em respostas a essa escumalha aparelhista e parasitária? Ora aqui deixo um texto que dá bem a resposta necessária.

Wednesday, June 18, 2008

A democracia só lhes agrada quando os serve

Toda a solidariedade com os Jovens Comunistas da República Checa!

Friday, June 13, 2008

vitória do povo irlandês


Viva o povo irlandês!


Que dizer dos imprevistos deste calibre? Como reagirão os lordes europeus?
Que será do "futuro da carreira política" de José Sócrates?
O povo irlandês teve a oportunidade de se pronunciar, como mais nenhum outro desta feita. Mas o capital não vai baixar braços nem poupar-se a novas soluções. O projecto de dominação europeia é muito mais importante que qualquer forma de democracia. Muito mais importante que as palavras dos povos, que as vidas das gentes!
Mas eles que aprendam: na medida em que nos tentam amarrar, os povos encontrarão sempre formas de se libertar!

Wednesday, June 11, 2008

A situação não permite situacionismos

As correntes situacionistas, em grande parte escondidas não só nas caras tapadas dos putos anarquistas e no turismo "revolucionário" que se desloca atrás do G8 e das cimeiras dos senhores do capital mas também nos partidos políticos, são uma das mais poderosas formas de diversão e desconcentração do descontentamento e da luta.

Cada vez mais, ditos analistas, politólogos, comentadores, líderes partidários e movimentos anarquizantes, confluem nas teses superficiais do situacionismo. Alguns chamam-lhes insurreccionalismo ou activismo autónomo. Outros chamam-lhe mesmo "esquerda". Na verdade, tudo é apenas uma nova expressão da ofensiva ideológica do capitalismo. Fortemente alicerçada na ignorância de massas e no individualismo galopante, a doutrina da diversão e da ilusão, ancorada nas mais ignóbeis correntes idealistas do pensamento, vai fazendo caminho para conter a luta dos trabalhadores e dos povos.

O sistema capitalista, como bem podemos ver e sentir em Portugal, está em nova crise, daquelas cíclicas e estruturais que os marxistas sempre souberam identifcar. A crise atinge de formas diferentes as diferentes classes sociais, como seria de esperar. Ainda assim, desestrutura o funcionamento regular das sociedades dos países mais desenvolvidos e reduz significativamente a estabilidade dos processos de produção e da subsequente exploração. Ou seja, os equilíbrios são tão frágeis ou inexistentes que os próprios estados mais avançados do capital são alvo de profundas crises e agitados por autênticos terramotos económicos à mais pequena flutuação dos mercados e dos mecanismos de especulação.

E, no entanto, da mesma forma que os comunistas descodificam estes processos, o sistema capitalista conhece-os bem. Conhece-os perfeitamente, aliás. E é o próprio sistema e os seus homens-governos de mão bem colocados na política mundial que improvisa ponderadamente as medidas de mitigação de impactos e, acima de tudo, de manipulação de massas. Importa, pois, assegurar dois pontos essenciais: manter o descontentamento sem expressão revolucionária e manter a capacidade regenerativa do capitalismo, ou seja, da exploração.

Isto significa que, a cada altura, o capital estabelece as necessárias campanhas de ofensiva ideológica para satisfazer esses dois grandes desígnios fundamentais para a sua manutenção. O descontentamento atinge, particularmente em alturas de intensificação da opressão e da exploração, proporções massivas, mobilizando amplos sectores das camadas populares e dos trabalhadores. A conversão do descontentamento em consciência revolucionária é, no entanto, um processo exigente e prolongado, cujo desenvolvimento depende da existência de um conjunto de condições objectivas e subjectivas.

As bolsas de contenção do descontentamento funcionam essencialmente como bolsas de contenção do potencial revolucionário. É o próprio sistema que as acolhe e promove, desde sempre. Quer seja através dos situacionismos ou outros meios. O esquerdismo radical deixou de ter grande papel, sendo que não nos encontramos numa situação predominantemente revolucionária, mas sim resistente. Assim, importa dar outras expressões ao situacionismo. E eis que ele aparece sobre a forma de "forças de esquerda", "comícios da esquerda" e mesmo de "individualidades".

E todos esses, mais não são senão situacionistas. São os que se prestam a manter tudo como está.
Tudo para que a revolução continue fora das perspectivas dos descontentes. Só a luta de massas, em força, só o envolvimento directo dos trabalhadores, sem ícones ou chefes, sem ídolos ou guias, pode romper com o cerco do situacionismo e do capital! A luta é o caminho!

Sunday, June 08, 2008

Há sempre alguém que questiona

E mais uma vez, foi o Grupo Parlamentar do PCP - aqui!

Wednesday, June 04, 2008

às vezes...

acontece-me não saber bem qual é o blog adequado para escrever este tipo de coisas.

Amanhã nas ruas!

Só a luta dos trabalhadores pode provocar a ruptura política necessária.
Não há quem possa iludir isso. Centrar as atenções num ou outro fogacho político, com Maneis ou Xicos, é apenas uma forma de tentar esconder o papel da luta de massas.

Mas a luta dos trabalhadores é a força mais pujante de hoje e ultrapassará sempre a propaganda, o divisionismo e o oportunismo.

Dia 5, já amanhã, uma vez mais. Os Trabalhadores, essa locomotiva do progresso, estarão na rua!

Sunday, June 01, 2008

selecção no feminino?

Hoje enquanto almoçava no habitual restaurante de domingo - "a faca" - tive o azar de me calhar o televisor à frente. Ainda pensei que pudessem passar umas notícias, mas afinal calhou-me um programa doentio sobre a Selecção Nacional de Futebol. A bem da verdade, sobre aquele conjunto de pessoas que esqueceu há muito o que é Portugal e o Povo Português e que hoje apenas nele vê mais uma oportunidade de sucesso. Esqueceram-se das ruas, das miúdas, dos copos com os amigos, da pobreza. Agora gostam dos porsches, das capas das revistas, da noite alucinada e das miúdas postiças. Que eles joguem à bola, tudo bem. Que ganhem muitos jogos, melhor ainda!
Que nós julguemos o estado do país e a nossa grandeza é que já me põe os nervos em franja. É que tudo gira em torno do futebol. Distraem-nos da situação do país, da pobreza, dos custos de vida, do código do trabalho; distraem-nos de tudo o que interessa para olharmos feitos parvos durante dias inteiros para um autocarro onde viaja um grupo de pessoas que, não jogassem bem à bola e ninguém os queria ver à frente. É a telenovela nacional.

Mas o que mais me chocou foi o título da segunda parte dessa reportagem: selecção no feminino. Pensei: "vá lá, depois desta parvoeira toda, vão passar uns minutos sobre a nossa selecção nacional de futebol feminino." Pois. mas não... Qual não é o meu espanto quando a reportagem se mostra sobre as namoradas ou mulheres dos membros da selecção nacional de futebol masculino. É uma autêntica vergonha. Mostrar ou destacar o empenho das mulheres no desporto e os sucessos mesmo contra ventos e marés? não... pois claro que não. Afinal de contas a televisão serve apenas para educar as massas na doutrina da classe dominante. E diz-nos essa doutrina que a mulher fica em casa a tratar das coisas do lar e que deve ser, se possível, boazona e algo fútil, sempre apoiando o marido para o que der e vier.

E assim, ao invés de divulgar aquelas mulheres que se esforçam por ser por si próprias a diferença, vá de mandar pelos nossos olhos adentro as mulheres dos jogadores. Essas sim, bonitas, postiças, caseiras e incondicionais apoiantes do sucesso de seus maridos. Em casa, tratam dos filhos, decoram o lugar do pendura do porsche e também ficam bem nos ferraris, aparecem no estádio nos dias do jogo e servem de cartão de visita e de placard publicitário para promover a imagem dos jogadores a ver se vendem mais umas botas da nike. E assim, o futebol indústria apagou o papel do futebol desporto. Assim a esposa do jogador apagou a papel da mulher.

Thursday, May 29, 2008

é impressão minha ou...

Há jogadas que, por mais bem ensaiadas, por mais exaltadas que pareçam, não escondem o essencial. No mesmo dia em que a notícia da criação de uma "frente de 'esquerda'" que aglomera o Bloco de Esquerda, o Manuel Alegre e mais uns quantos ex-comunistas e outros revisionistas e oportunistas da mesma espécie, atinge os jornais como um metoro; o bloco de esquerda vai para a Assembleia da República fazer um número particularmente triste, talvez para mostrar que, mesmo namorando alguns PS's, continua zangado com o Governo.

Há coisas que de tão flagrantes, por vezes custam a ver.

Ora vejamos:
i. Diz Manuel Alegre a certa altura do seu vaidoso manifesto que recusar é uma virtude, transpondo palavras de Miguel Torga. Mas este Manuel Alegre não será o mesmo que deu todos os seus fôlegos políticos a um PS que sempre praticou uma política de direita? Não será o mesmo que abandonou a luta pela transformação da sociedade e que se converteu às modernices da social-democracia e à mordomias da institucionalização? Então este Manuel Alegre não é o mesmo que tem servido ao longo da história como muleta do PS, como a consciência inútil mas tranquilizante de que alguém diz "não" no seio do PS, mesmo que isso não produza nenhum efeito. Não tenhamos ilusões, este Manuel Alegre sabe tão bem quanto nós qual é o seu verdadeiro papel. Num país como Portugal, de recentes revoluções e manifestamente virado à esquerda, qualquer partido de direita precisa de uma face aparente de esquerda - assim o fez PSD com Sá-Carneiro; o faz PS com Manuel Alegre e outros tantos chamados democratas. Então este Manuel Alegre não será o mesmo que diz que "sim" a tudo lá no parlamento? Onde está a coragem de dizer "não"?

2. A coragem de dizer "não" de Manuel Alegre aparece sempre que é necessária para salvar o PS. O próprio Mário Soares, o não menos rastejante Vital Moreira, vieram deixar os seus avisos à praça pública: é preciso começar a mostrar nem que seja uma réstia de preocupação social para que os comunistas não assumam o protagonismo das bandeiras da esquerda. Então, qual paladino do anticomunismo, lá vem o cavaleiro brilhante da poesia, o homem de esquerda, mostrar que há no PS quem pense nessas coisas sociais e que não pode nunca é o Poder cair na rua, onde bem se pode entender, cair em mãos de comunistas. E assim, lá vem o ego insaciável do Manuel Alegre angariar mais umas simpatias, mesmo que seja preciso criar um partido ou um movimento. Qualquer coisa para travar o avanço dos comunistas e deixar intocado o sistema que prontamente defende desde, pelo menos, o 11 de Março.

3. O Bloco de Esquerda anda lá pela Assembleia a fazer o que pode para não se ficar atrás do PCP em nada. Pelo menos na letra dos Projectos de Lei e outras iniciativas. Não há nada que lhes não valha e se for preciso copiam os projectos, o que é preciso é que se faça! Até aí tudo bem. Quantos mais melhor! Agora o que não pode é fingir que está muito zangado com o Governo, que é revolucionário ou isto ou aqueloutro, que as palavras já pouco dizem na boca destas gentes. Então anda por ali a fazer as figuras tristes que hoje fez, sem centrar as questões sociais nas questões políticas e trazendo a política parlamentar para o mesmo nível que o lado oposto do hemiciclo - o da demagogia barata e achincalhante - e depois anda pelas costas a criar movimentos com os responsáveis pelo rumo político actual? haja decência e seriedade.

Bem podem espernear de incómodo. Podem bem criar as ilusões de última da hora que a situação exige para a manutenção do poder e para o afastamento dos comunistas. Bem podem querer que todos andemos de vendas que haverá sempre quem atento esteja, aponte o dedo e acuse. E o que não podem mesmo, mesmo, mas mesmo mesmo iludir é que: não haverá ruptura de esquerda, democrática, séria e comprometida sem o Partido Comunista Português. E isso salta à vista.

Tuesday, May 27, 2008

"À má-fila" ou "A mafia"?

Já não conheço surpresas nem me escandalizo com as barbaridades da região autónoma da madeira. Não me escandalizo mas revolto-me mais e mais. Eu e outros, valha-nos isso.

Há cerca de um ano atrás, um deputado eleito pelo PCP na Assembleia da República e um deputado eleito pelo PCP na Assembleia Legislativa Regional da Madeira foram acompanhados de alguns membros da Organização da Madeira da Juventude Comunista Portuguesa visitar uma escola no Concelho de Câmara de Lobos - um dos mais pobres da Europa - e viram-se impedidos de realizar a visita. A Srª Presidente do Conselho Executivo, avisada com antecedência da visita, limitou-se a dizer que estava numa reunião. Ao que a delegação de comunistas respondeu que não havia mal, que contactaria com estudantes, professores e funcionários no âmbito da sua normal actividade de ligação entre as tarefas institucionais e o trabalho de massas. Disse então a Srª Presidente que não gostaria que por ali andassem comunistas a contactar com alunos e professores sem controlo ou supervisão. Claro que a invocação do Estatuto do Deputado, da Constituição da República não foram suficientes para demover a senhora da sua ânsia de satisfazer as exigências da máfia local. Mostrou, pois, o seu bom trabalho e a sua língua sempre pronta lamber as botas de qualquer porco que por ali ganhe eleições.

E pronto. Contei um episódio.

Mas esta segunda-feira, numa iniciativa do mesmo género, de visita à Universidade da Madeira, o PCP e a JCP convocam a comunicação social da ilha para uma conferência sobre a situação do Ensino Superior. Ora lá estavam os jovens comunistas e mais um deles que por acaso tem a tarefa de realizar trabalho institucional na Assembleia da República aguardando os dedicados agentes da comunicação social local. Continuaram esperando até verificar que alguns chegavam, recolhiam imagens, e abalavam. "estranho comportamento este" para quem quer fazer jornalismo a sério, pensaram os jovens comunistas. E não é que nenhum desses ditos jornalistas se dignou sequer a dirigir-se aos jovens comunistas? Vinham como iam, sem palavras.

Que se passaria ali?
por que estariam aqueles jornalistas a ter aquele comportamento?

A situação foi-nos esclarecida mais tarde quando vimos os jornais e a tv. A direcção da JSD - Madeira e da Associação Académica da Universidade da Madeira interceptou os empenhados jornalistas a meio e disse-lhes que a iniciativa da JCP era sobre o preço dos transportes (!!! relembro que a conferência de imprensa relacionava a visita da JCP com a situação do Ensino Superior Público) e que esse problema havia sido resolvido pela JSD depois de contactada pela Associação Académica. Assim, em conjunto e certamente de braço dado, a direcção associativa e a direcção dos jovens porquinhos lá do sítio deram uma conferência de imprensa aproveitando que lá estavam os órgãos da comunicação social.

A verdade:
A JCP convocou uma conferência de imprensa sobre o Ensino Superior Público e a Universidade da Madeira;
A JCP cumpriu e realizou a iniciativa de contacto com os estudantes, como anunciado;
A JCP aguardou a comunicação social no local, que não chegou a contactar em momento algum nenhum elemento da JCP.

A notícia:
A JSD e AAUMA anunciam conjuntamente que a JCP havia cancelado a iniciativa porque essa iniciativa era em torno do preço dos transportes, problema entretanto resolvido pela JSD e pela AAUMA em ferverosa colaboração, revelando a sensibilidade do Governo Regional para as questões dos estudantes e dos jovens.

depois disto... que dizer mais?
que dizer mais a não ser que a comunicação social noticiou um anúncio calamitosamente mentiroso, dando cobertura a uma manobra do mais nível mais rasteiro e mais anti-democrático promovida por uma associação académica que deveria defender os interesses dos estudantes que representa ao invés de catar os piolhos dos macacos mafiosos que espalham tentáculos pela ilha sufocando a liberdade e a democracia e vivendo, qual parasitas, da pobreza de mais de 30% da população que ocupa a região autónoma da Madeira e que continua, inconscientemente a acreditar, que o porco maior é o salvador e o messias e que o bem-estar se mede pelos cristianos ronaldos e vânias, pelos mundiais, europeus ou festivais da canção.
bem-haja ao povo da madeira, por terem lá ficado com o que de pior temos na política, bem-haja pelo involuntário martírio a que se submete. Ah! triste sois povo madeirense, mesmo sem o saberdes.

Saturday, May 17, 2008

quando os paradoxos explicam a realidade

Uma das coisas de que cedo me apercebi é que na política e na economia, nada acontece por acaso. Embora os acasos possam determinar conjunturas que influenciam, a política, eles não a determinam. Por isso mesmo, alguns slogans dos governos, algumas orientações aparecem como nascidas de preocupações, mas acabam por não representar nada mais além das orientações do grande capital na sua senda imparável pelo lucro.
A julgar pela propaganda, muitas vezes somos levados a crer que existe mesmo uma vontade política de aplicar medidas de contenção do desperdício, quando, todos sabemos, isso é intrinsecamente contrário à natureza do capitalismo.
Por exemplo, quando nós os ouvimos dizer que é preciso assegurar um uso eficiente da água e encarecer-lhe os preços para motivar a poupança desse bem escasso. A campanha em torno da água é clara: obter controlo sobre o recurso, garantir a sua distribuição de acordo com a geopolítica do capital e do lucro. Embora a ofensiva queira relacionar o consumo da água com o seu custo ao utente (que passa a cliente), a verdade é que a privatização da água motiva automaticamente a sua venda irracional, presidindo ao consumo e à oferta o objectivo do lucro e não da gestão equilibrada. O aumento dos preços da água pune exclusivamente aqueles que não a podem pagar, reservando a utilização desse recurso para os que podem. As piscinas continuarão cheias, como os depósitos dos lexus e dos ferraris. As casas dos pobres ficarão sem água como já hoje não têm comida.
A propaganda em torno da água é semelhante a uma outra que se vai desenvolvendo em torno do ambiente, dos combustíveis e do consumo de energia eléctrica. Se ouvirmos a campanha do governo, não raras vezes se fala de eficiência energética. O governo aliás, tem mesmo um plano de aumento da eficiência energética e essa questão - como bem se viu nos impostos sobre as lâmpadas incandescentes - é por vezes apresentada como nuclear no âmbito da política enrgética. Podemos pensar que existe um contrasenso: se o governo é submisso à classe dominante e a classe dominante quer vender mais energia para encaixar mais lucros, como é possível que apele à diminuição dos consumos energéticos?
Na verdade, nunca existiu um apelo à diminuição dos consumos. Há um apelo ao seu aumento. Através do conceito de eficiência energética, o governo e o capital apresentam novamente as suas preocupações ambientais e aparentemente apelam à diminuição dos consumos. Com efeito, o paradoxo de Jevons explica bem esta estratégia do capital.
A eficiência energética por si só não é um elemento favorável às sustentabilidade da relação homem-natureza. Pelo contrário, no âmbito de uma sociedade capitalista, o aumento da eficiência energética conduz directamente ao aumento dos consumos. Confuso? claro que sim. Por isso é que esta teoria económica se chama "paradoxo". O aumento da eficiência energética provoca a diminuição dos custos de produção, logo, pelo mesmo custo, produz-se mais. Ao produzir-se mais, amplia-se a utilização de um determinado processo produtivo, de uma determinada tecnologia e, por sua vez, o consumo do seu sustento - no caso actual combustíveis.
Assim, o aumento da eficiência energética sem a alteração do paradigma de sistema produtivo e sem a preocupação política real para a alteração dos métodos de produção energética e minimização dos impactos da produção e consumo na Natureza, representa apenas o aumento dos próprios consumos e, por sua vez, o aumento dos lucros das petrolíferas e das companhias eléctricas.
Voltemos ao exemplo das lâmpadas: a eficiência energética das lâmpadas modernas é bastante superior às lâmpadas incandescentes - é um facto. No entanto, a generalização da utilização desta nova tecnologia, por si só, não representa a diminuição dos consumos, sendo que mais lâmpadas se instalarão e mais tempo ficarão ligadas. Isto significa que as nossas facturas de electricidade, como todos terão já reparado, não diminuiram nem tampouco estabilizaram - antes pelo contrário, continuam a subir consideravelmente. Da mesma forma, sob o pretexto da eficiência energética, o governo e as organização ditas ambientalistas estimularam a troca de lâmpadas incandescentes por lâmpadas de alta eficiência energética.
Ora, num pequeno período de tempo, milhões de pessoas deitaram fora lâmpadas ainda úteis, apenas por serem incandescentes, e trocaram-nas por lâmpadas mais recentes, mais caras. Isto significa que um conjunto muito vasto de lâmpadas foi para o lixo sem necessidade nenhuma, ou seja, esse conjunto de lâmpadas, vidros, metal, filamentos, gases, foram engrossar o volume do desperdício. Ao mesmo tempo, as empresas fabricantes de lâmpadas, venderam milhões de novas unidades, encaixando milhões, vendendo as novas lâmpadas a um preço empolado pelo aumento da procura estimulada por motivos supostamente ambientais. É a irracionalidade total, mas é também o lucro total.
Paga o consumidor, paga o ambiente, recebem as empresas fabricantes em lucro e em publicidade.
Outro exemplo: o aumento da eficiência energética apresentado como forma de diminuir o consumo de combustíveis fósseis. Aqui o paradoxo de Jevons afirma-se com toda a clareza: o impacto do aumento da eficiência energética desde a invenção do motor nos consumos tem sido o do crescimento desmesurado dos consumos de combustíveis. Claro que, independentemente da forma de organização social e económica, a generalização de uso de uma tecnologia provocará sempre o aumento do consumo dos combustíveis que lhe são associados.
Mais utilizadores, mais consumo. Mas isso não pode significar que se utilize a "eficiência energética" como instrumento de propaganda para a defesa da naturza, porque isso é coisa que dela não pode resultar no quadro da economia capitalista. A eficiência energética deve ser promovida, claro, essencialmente como forma de promover e incrementar a qualidade de vida, mas numa perspectiva equilibrada e bem distribuída pelo globo. Utilizar esse conceito como o capitaol vai fazendo nos ditos países desenvolvidos é mera propaganda e diversão, é aumentar o manto de ilusão que nos vão pondo à frente no que toca à "defesa do ambiente". Ora neste caso, no dos combustíveis fósseis, o aumento da eficiência energética não representa necessariamente a diminuição do consumo. Um carro que atinja 80km/h como velocidade máxima e consuma 8lt/100km (a 80km/h) é um carro de baixa eficiência energética.
No entanto, um carro que atinja 180km/h e consuma 6,5lt/100km (em ciclo misto) é um carro de maior eficiência energética. O segundo carro, a 180km/h consome, todavia, cerca de 10-11lt/100km e como faz maiores distâncias em menos tempo, consome mais combustível em menores intervalos de tempo. Além disso, o segundo carro, embora energeticamente mais eficiente, pelas características que tem passa a ser mais distribuído, mais vendido e mais utilizado. No quadro geral, ainda que possa apresentar melhorias para a necessidade de deslocação do indivíduo que o utiliza, representa um exponencial aumento dos consumos de energia (por queima de combustíveis) no plano global. Ou seja, a eficiência energética implica, ao contrário do que parece, um aumento dos consumos.
A eficiência energética não é, por si, um objectivo prejudicial ou negativo. De facto, ela catapulta o desenvolvimento tecnológico para novos patamares e o bem-estar individual daqueles que têm acesso à tecnologia para novos níveis. O que não pode é dizer-se que a eficiência energética é um conceito directamente relacionado com a conservação dos valores e recursos naturais, porque não é de todo. Isto significa que quando o conceito de eficiência energética é utilizado pela campanha capitalista para nos enganar, algo que não querem que vejamos se está a passar.

Monday, May 12, 2008

voluntariado

Os mecanismos de diversão e de manipulação de massas atingem novos patamares da estupidez. A tese do empreendedorismo deu um novo salto e já se tornou na do voluntarismo. A generalização do desemprego e a apresentação da competição entre trabalhadores e do individualismo e "empreendedorismo" são apresentadas como chaves para o sucesso num mundo de insucesso. O empreendedorismo, além de comportar o sub-tom da "ambição", transporta uma outra noção que se vai enraizando: a da disponibilidade. Ou seja, o jovem empreendedor é aquele que está disponível a tudo para obter o seu lugar ao sol, é o jovem que não questiona a organização social, mas que antes a consolida por seus actos.

A complementar esta vertente da ofensiva ideológica mas também material, aparece um novo conceito como fórmula para a construção, não de um mundo, mas de um curriculum vitae melhor. Eis que o voluntariado se assume como a resposta para todos os males da participação cívica juvenil, mas não só, é óptimo tónico para o desemprego e para o enriquecimento dos currículos de jovens ignorantes e inaptos. Além disso, como o nome indica, é gratuito.

Na verdade, este novo "voluntariado" a que se referem as empresas, tem apenas isso em comum com o verdadeiro voluntariado: não é remunerado. No entanto, o verdadeiro voluntariado não pode ser aceite como trabalho gratuito para enriquecer ou gerar lucros para um determinado bolso. O voluntariado deve ser entendido como um trabalho levado a cabo de forma não remunerada e associado a um determinado fim que se apresenta como um objectivo - geralmente social e de efeitos colectivos. Por exemplo, dedico o meu trabalho de forma gratuita ao associativismo para assim dar um contributo a uma área de actividade social que promove o desporto, a cultura, a arte para todos, sem gerar nenhuma mais-valia financeira ou económica para nenhuma entidade privada a não ser a associação em si-mesma, que por sua vez aplicará essas mais-valias em outras tantas actividades do mesmo género.

Agora, o que é de todo insuportável e urge desmascarar é a utilização do termo "voluntariado" para dar cobertura à proliferação de trabalho escravo sem direitos que por aí vai rebentando no mundo dos privados e que se desenvolveu inicialmente à custa dos chamados estágios nas empresas. O desespero dos jovens é tal nos dias de hoje que qualquer actividade, mesmo que não remunerada, é melhor que estar parado em casa à espera que termine o subsídio de desemprego ou a procurar emprego nos jornais. Fazer currículo, isso sim, será um primeiro passo para o tal de "mercado de trabalho". E vai daí que mais vale ser voluntário numa empresa sem ganhar nada do que ficar à espera de emprego. Já há muitas empresas que o fazem: acolhem amavelmente os jovens voluntários sem lhes pagar e têm mesmo a benevolente cedência de lhes dar trabalho que possam fazer. Tudo isto, claro, com grande risco para a empresa e sem nenhum compromisso por parte do jovem que está ali apenas a enriquecer o seu CV. É uma benesse social que a empresa lhe dá... essa oportunidade de conhecer o mundo do trabalho sem compromissos. É esta a vergonha a que chegámos: confundir voluntariado com escravidão. É que "voluntariado" pressupõe opção e o que se sucede hoje é que milhares de jovens entram nestes esquemas das empresas e seus "voluntariados" exactamente porque não têm outra opção.

E como não têm outra opção e há que ser empreendedor (e empreendedor não é criar a sua própria empresa certamente, já que julgo ser de unânime reconhecimento que nunca seria sustentável ter cerca de 5 000 000 de novas empresas - uma por cada trabalhador no activo no futuro), o jovem lá se mete num desses "voluntariados" - sempre conta para o currículo. E de voluntariado em voluntariado, lá alguma empresa pode ser que o queira e lhe reconheça finalmente dignidade para lhe pagar efectivamente um miserável salário.

E há um outro voluntariado: o da caridade. Vá, aceitemos que isso possa ser chamado de voluntariado, porque o é de facto no sentido em que o praticante está convicto de que assim contribui para um bem maior. Claro que a caridade, cumprindo o seu papel milenar mais não é do que a forma de perpetuar o fenómeno sobre o qual age. No entanto, independentemente da orientação ideológica com que é construído o edifício mundial da caridade, reconhecemos que existem milhares e milhares de jovens, adultos e idosos que a praticam com a total ilusão de que estão a contribuir para o fim de um problema. Esse voluntariado tem um valor intrínseco na proporção do quão verdadeira é essa ilusão e pode ser transformado em verdadeiro trabalho revolucionário no momento em que o praticante tome consciência dos efeitos da caridade e da outra forma de agir: a solidariedade.

E há ainda um outro voluntariado: um mais recente e mais astuto. O dos acontecimentos de propaganda capitalista cobertos pelo manto da preocupação. Seja ambiental ou social, o que não falta são novos espaços de intervenção capitalista que promovem a ideia de que apresentam preocupações. Seja o Rock in Rio e o Ambiente, como verificamos este ano, seja vender shampoos para ajudar pobrezinhos. Este tipo de empresas recorre a mão de obra voluntária sob a desculpa de que é trabalho social, quando na verdade, mais não fazem senão arranjar um slogan publicitário que é afecto a uma determinada preocupação social e depois dedicar uma infíma percentagem dos lucros (rock in rio - 2% dos lucros) a uma qualquer entidade de caridade que controlem também. Assim, com este tipo de artimanhas publicitárias e propagandísticas, empresas vão encaixando milhões. Mais grave, mascarando-se de empresas humanas e preocupadas, recorrem ao voluntariado. O Rock in Rio, por exemplo, recorre a 601(!!!) jovens voluntários para os dias de "festival". Isto significa que o "festival" vai poupar uns bons milhares ou milhões de euros em salários, em recibos, em segurança social e vai ainda receber uma autêntica dádiva laboral de mais de meio milhar de jovens portugueses. Ora, não poderemos afirmar que todos os 601 jovens ali estão por não terem outra opção. Não sejamos ingénuos ao ponto de pensar que não existiriam mesmo muitos mais jovens dispostos a fazer esse lamentável papel de transportar barris de cerveja durante 3 dias e mais de 10 horas diárias e de lavar balcões e latrinas apenas para gozar da possibilidade de ouvir à distância, mas gratuitamente, o seu ídolo musical.

Tudo bem, são de facto voluntários então... em certa medida, sim. No entanto, são-no porque o festival não contrata, como devia, trabalhadores, jovens ou não, para desempenhar esses papéis. São-no porque o festival cria a ilusão de que esse trabalho voluntário não é trabalho, quando na verdade, até a formação é obrigatória. São-no porque julgam que estão de facto a participar numa iniciativa com preocupações sociais - o que, julgo ser inútil dizer, não é de todo.

Mas então, por que raio dedicar tantas linhas sobre o volunatriado a um famigerado festival de verão que até vai cá trazer três das bandas preferidas do autor (a saber: muse, metallica, machine head)? É que, vá lá... que o raio do festival promova o tal de "voluntariado" ainda damos de barato. Mas que o Estado português se aventure nestas andanças, anunciando o festival como um evento social, e esse "voluntariado" como actividade juvenil e participativa é que já é de todo inaceitável! É preciso estarmos completamente desfeitos enquanto Estado para que isto seja assim! Bolas, o Estado recruta, o Estado selecciona, o Estado propagandeia e publicita e o Rock in Rio fica com trabalho de borla sem nenhum investimento.

É a vergonha das vergonhas quando o Governo age como empresa de trabalho temporário não remunerado para as empresas e ainda se orgulha disso.

Friday, May 09, 2008

condição: trabalhadora

Na relação de exploração que se estabelece entre a burguesia e o proletariado há uma constante disputa. A luta de classes não tem desenvolvimentos episódicos, como Marx e Engels sempre referiram. A história não se desenvolve por espasmos e mesmo os momentos de rupturas abruptas representam apenas o resultado de processos mais ou menos demorados e prolongados no tempo. Os passos e progressos da Humanidade são o fruto de uma densa e complexa rede de acontecimentos que se sucedem uns na interdependência de outros, contruindo a malha da História, tendo sempre por base e por eixo central a luta das classes que se vão sucedendo, substituindo, eliminando ou gerando.

Nesta relação de exploração actual, em que burguesia e proletariado se degladiam com grande intensidade no plano material, embora disfarçado pelas teses proto e criptofascistas do idealismo mais retrógrado, há uma linha flutuante que varia a sua posição de acordo com a correlação de forças. Essa linha é bem expressa nas taxas de exploração que a burguesia vai conseguindo, aumentando ou diminuindo a mais-valia extraída do trabalho, consoante o poder da luta dos trabalhadores em cada momento do tempo e em cada lugar do espaço.

Nesta luta que não se faz apenas através da posse objectiva do poder, nem de resultados isolados aqui ou ali porque há muitas posições intermédias e muitos sucessos e retrocessos, a linha da capacidade de exploração do trabalho pelo capital move-se para cima e para baixo. Para isso, tanto trabalhadores, como capital desenvolveram factores de poder e de força, como instrumentos para a alteração da correlação de forças em cada momento. Se a burguesia desenvolveu o salário, os trabalhadores desenvolveram a greve; se a burguesia criou e doutrinou a sua democracia, os trabalhadores criaram e conceberam o Estado Socialista; se a burguesia inventou o despedimento, os trabalhadores exigem contratos de trabalho; se a burguesia inventou a jornada, os trabalhadores exigiram o horário de trabalho e a compensação pelas horas extraordinárias. Mas também existe o inverso da medalha: se os trabalhadores criaram os sindicatos de classe, a burguesia criou os sindicatos trade-unionistas e amarelos; se os trabalhadores geraram unidade, a burguesia introduziu a divisão individualista; se os trabalhadores desenvolveram o materialismo dialéctico, a burguesia investiu mais ainda na lavagem idealista da relidade e estreitou os seus laços com a religião; se os trabalhadores criaram os partidos comunistas de classe, a burguesia proíbiu-os, esmagou e perseguiu.

Os factores de luta são imensos, os instrumentos de pressão também. E muitos são também os mecanismos de classe. De um e de outro lado da barricada.

Um dos mecanismos que o sistema capitalista tem vindo a desenvolver é o da ofensiva ideológica requintada, subliminar e com recurso à educação de massas e à comunicação social de massas. Mas outros mecanismos, tão ou mais antigos, persistem e até se agigantam. A marginalização de grupos sociais, a miséria e o crescimento do exército industrial de reserva (os desempregados), por exemplo.

Outro, de que queremos agora falar, é o da estratificação dos custos do trabalho, ou seja dos salários, dentre a mesma classe, as mesmas funções laborais, utilizando como factor decisivo a fragilidade e debilidade do movimento operário em cada uma dessas camadas estratificadas. A divisão internacional do trabalho é, também ela definida em parte com base nesse critério. A discriminação salarial das mulheres também.

O posicionamento que a burguesia actual faz das mulheres, enquanto parte da população mais frágil perante a exploração é um mecanismo de aumento generalizado da exploração de todos os trabalhadores. Da mesma forma que as diferenças dos custos do trabalho entre países é um factor, não de competitividade como lhe chamam, mas de diminuição dos custos do trabalho (salários) em todos os países. A situação de explorados dos trabalhadores coloca todo o proletariado mundial numa posição de solidariedade e não de competetividade. Onde perdem os trabalhadores num determinado ponto do globo, outros tantos perderão também em todo o resto do mundo.

A divisão artificial dos trabalhadores com recurso ao conceito de nacionalismo burguês é um mecanismo comparável ao que a burguesia utiliza para a divisão dos trabalhadores com base no sexo. A tentativa de colocar uma linha divisória entre homens e mulheres pelas suas características biológicas, sexuais e mesmo psicológicas e comportamentais é por demais óbvia. A burguesia, ancorada no preconceito e na tradicional minimização do sexo feminino, utiliza as mulheres como um factor de diminuição dos custos da mão-de-obra e de diminuição dos direitos dos trabalhadores.

A posição social das mulheres não é supra-classista e não pode ser dissociada em momento algum da sua integração numa ou noutra classe social.

A posição social da mulher é indissociável, não do seu sexo, mas da sua condição de explorada ou exploradora.

A luta das mulheres é, portanto, uma luta solidária com os movimentos operários de todo o mundo. Não a luta da burguesia em torno da promoção do género feminino como algo etéreo e condição meramente fisiológica, mas a luta da mulher na esfera da melhoria da sua condição social enquanto elemento da camada trabalhadora em que se insere.

É por isso que não existe feminismo revolucionário. Porque ser revolucionário é perpsectivar uma transformação social de neutralização das actuais relações entre classes e não entre sexos. A luta das mulheres é componente indissociável da luta dos povos pela libertação da exploração. O socialismo não é nem patriarcal nem matriarcal, não é machista nem feminista porque, pura e simplesmente, o marxismo não assenta a sua análise social e política nas tendências comportamentais, nem nas características ou propriedades físicas das camadas trabalhadoras, mas sim na condição básica de explorado.

Os feminismos esquerdistas são tão ou mais responsáveis pela diversão intelectual das mulheres como a pseudo-preocupação "de género" da burguesia, mas isso, porque não pode ser agora detalhado, fica para o próximo episódio do império bárbaro. Não perca!

Falta pois aproveitar para anunciar que o PCP realiza amanhã, dia 10 de Maio, o seu Encontro Nacional sobre os Direitos das Mulheres, em Lisboa, pelas 10.00h. Um certo e poderoso contributo para o aprofundamento necessário da questão feminina e para a luta das mulheres!

Censura

O Partido Socialista, claramente sem saída do beco da censura em que o PCP o enfiou, tentou aplicar uns malabarismos de diversão. E, a cada momento, lá ia tentando transformar a moção de censura apresentada pelo PCP num momento de reles atoarda. O PS, quando em maus lençóis, disparata. Foi o caso.

Vá de ridicularizar os estatutos do PCP, onde o Partido se afirma como vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores, esquecendo o facto de o PCP o declarar frontalmente sem enganos ou camuflagens, enquanto que o PS não explica nos seus estatutos de quem é vanguarda ou retaguarda. Sério seria se lá colocasse logo nos primeiros artigos que "O Partido Socialista é a vanguarda do patronato e dos grandes interesses económicos".

É que esta censura é apenas uma expressão parlamentar e institucional da condenação popular que por aí vai crescendo a este Governo. O PCP mais não fez senão interpretar genuinamente esse sentimento.

O Partido Socialista vai aguentando estes ataques no plano institucional, vai suportando um governo com base apenas em dois apoios: o da maioria absoluta parlamentar e o do grande capital que continua a utilizar este partido como comissão delegada dos seus interesses. Mas o que o PS não pode em momento algum esquecer é que a democracia, mesmo quando o PS disso não gosta, não se limita a um parlamento enconchado, nem a senhores de gravata e senhoras de salto alto e colares mais vistosos que a torre eiffel. A democracia, mesmo quando o PS não quer, ultrapassa as concepções jurídicas, os limites burocráticos, as definições dos manuais, as barreiras legais. Voltando à democracia no sentido puro de laocracia, o povo expressar-se-à das mais diversas maneiras. O voto uma delas, poderosa sem dúvida, mas nunca a única.