Quem não viu, não terá o privilégio de guardar aqueles momentos na memória, mas terá um outro ainda mais importante: o de viver no mesmo espaço que aqueles jovens, sabendo que eles, aquelas centenas quase milhar, representantes de muitos outros mil, estão firmemente comprometidos com a luta do seu povo, da juventude a que pertencem, a portuguesa.
Eram mares as bandeiras e os punhos, ondulando firmes e levantados. Eram imensos as mentes a procurar caminhos, imensos como intensos os rumos traçados. Seguros, aqueles jovens, de que a sua luta ao lado dos trabalhadores e mesmo enquanto trabalhadores, será vitoriosa. Não nos restam dúvidas de que sim!
Bom trabalho!
Tuesday, May 23, 2006
O complemento solidário de reforma para idosos - ou a fraude reaccionária contra idosos
Complemento solidário para idosos - Ora aqui está um nome pomposo para uma expressão que poderia ser melhor resumida na expressão: “os velhos que se danem”. O Governo, que já nos vai habituando às suas investidas contra os próprios que o elegeram, anunciou há pouco tempo a sua nova fórmula mágica para combater a pobreza nas camadas mais velhas da população. Quando, em campanha eleitoral, o actual Primeiro-Ministro sorria para os idosos prometendo-lhes que nenhum receberia valores de pensão abaixo dos 300€, todos, idosos e outros, pensávamos que o Engenheiro estava a prometer uma subida das pensões, uma medida positiva entre tantas, anunciadas nesse efusivo período de propaganda. Sinceramente, com tanto acumular de mentiras destes senhores, esperávamos já que esta fosse apenas mais uma patranha.
A visão da qual parte o Governo é a de que os idosos são uns gatunos, que importa controlar mais que os grandes grupos económicos. Além disso, o que era prometido começa a ser afinal uma promessa desfeita. Ao invés de fazer as pensões convergirem no sentido do salário mínimo nacional (ainda assim baixo), o governo mostra o respeito que não tem por quem trabalhou uma vida inteira e que vive agora em situações muito complicadas de miséria ou pobreza extrema. São centenas de milhar os idosos que precisam do Estado na garantia da sua subsistência. São muitos os que não têm dinheiro para aviar as receitas do médico.
Vai daí, em vez de aumentar, como dizia, as pensões, o governo decide implementar um complemento solidário, que mais é uma esmola caritária para idosos em situação de pobreza extrema. Curioso é o facto de que o PS propunha-se a tirar 300.000 idosos da pobreza e afinal só vai atribuir o complemento a 40.000 (cerca de 11% do prometido – num teste seria uma negativa medíocre e assustadora). Como se tal não bastasse, o governo decide, numa atitude a roçar tempos de outrora, bastante mais escuros e decadentes, contar com os rendimentos dos filhos destes idosos para fazer o cálculo e mesmo decidir do deferimento do complemento. Ora, a solidariedade a que o governo se refere é afinal um novo dever, não um novo direito, mas um novo dever: o dever dos trabalhadores passarem a ser responsáveis pelo seu próprio envelhecimento, mais pelo dos seus pais. Só disso não viria grande mal ao mundo… a questão central é que, no meio disto tudo o governo arranjou maneira de demitir o Estado dessa sua função central: a da protecção social.
Assim, o nosso magnífico executivo “socialista” vem introduzir mais um factor de desequilíbrio entre idosos: entre aqueles cujos filhos não se importam de divulgar os seus rendimentos e com esses ajudar os pais e entre aqueles, cujos filhos não querem sequer declarar os rendimentos e que, por isso, não poderão obter o tal complemento. Que divisão social é esta? Que diferença existe entre uns e outros idosos?
Outra questão que não deixa de me repugnar é a forma como o governo encara os idosos. Um pouco como parasitas ingratos e trapaceiros da sociedade portuguesa, o que é comprovado pelo vómito verbal de uma representante do governo na assembleia da república em reunião de comissão: “Vocês não fazem ideia dos esquemas e trapaças que os reformados do interior são capazes de fazer só para conseguir o complemento. As funcionárias da Seg. Social, como até sentem pena dos velhotes, ajudam-nos a obter a prestação.” Ora é esta concepção fascizante e anormal que os leva a impor um conjunto de documentos a apresentar mais uma multiplicidade de documentos e formulários a preencher para que um idoso possa requerer o complemento. Estamos todos convictos que, com a assustadora taxa de analfabetismo entre idosos, estas pessoas vão conseguir ultrapassar esta barreira burocrática com um sorriso. Aos trabalhadores o que é seu, seus gatunos!
“a solidariedade familiar não se impõe por decreto”
A visão da qual parte o Governo é a de que os idosos são uns gatunos, que importa controlar mais que os grandes grupos económicos. Além disso, o que era prometido começa a ser afinal uma promessa desfeita. Ao invés de fazer as pensões convergirem no sentido do salário mínimo nacional (ainda assim baixo), o governo mostra o respeito que não tem por quem trabalhou uma vida inteira e que vive agora em situações muito complicadas de miséria ou pobreza extrema. São centenas de milhar os idosos que precisam do Estado na garantia da sua subsistência. São muitos os que não têm dinheiro para aviar as receitas do médico.
Vai daí, em vez de aumentar, como dizia, as pensões, o governo decide implementar um complemento solidário, que mais é uma esmola caritária para idosos em situação de pobreza extrema. Curioso é o facto de que o PS propunha-se a tirar 300.000 idosos da pobreza e afinal só vai atribuir o complemento a 40.000 (cerca de 11% do prometido – num teste seria uma negativa medíocre e assustadora). Como se tal não bastasse, o governo decide, numa atitude a roçar tempos de outrora, bastante mais escuros e decadentes, contar com os rendimentos dos filhos destes idosos para fazer o cálculo e mesmo decidir do deferimento do complemento. Ora, a solidariedade a que o governo se refere é afinal um novo dever, não um novo direito, mas um novo dever: o dever dos trabalhadores passarem a ser responsáveis pelo seu próprio envelhecimento, mais pelo dos seus pais. Só disso não viria grande mal ao mundo… a questão central é que, no meio disto tudo o governo arranjou maneira de demitir o Estado dessa sua função central: a da protecção social.
Assim, o nosso magnífico executivo “socialista” vem introduzir mais um factor de desequilíbrio entre idosos: entre aqueles cujos filhos não se importam de divulgar os seus rendimentos e com esses ajudar os pais e entre aqueles, cujos filhos não querem sequer declarar os rendimentos e que, por isso, não poderão obter o tal complemento. Que divisão social é esta? Que diferença existe entre uns e outros idosos?
Outra questão que não deixa de me repugnar é a forma como o governo encara os idosos. Um pouco como parasitas ingratos e trapaceiros da sociedade portuguesa, o que é comprovado pelo vómito verbal de uma representante do governo na assembleia da república em reunião de comissão: “Vocês não fazem ideia dos esquemas e trapaças que os reformados do interior são capazes de fazer só para conseguir o complemento. As funcionárias da Seg. Social, como até sentem pena dos velhotes, ajudam-nos a obter a prestação.” Ora é esta concepção fascizante e anormal que os leva a impor um conjunto de documentos a apresentar mais uma multiplicidade de documentos e formulários a preencher para que um idoso possa requerer o complemento. Estamos todos convictos que, com a assustadora taxa de analfabetismo entre idosos, estas pessoas vão conseguir ultrapassar esta barreira burocrática com um sorriso. Aos trabalhadores o que é seu, seus gatunos!
“a solidariedade familiar não se impõe por decreto”
Tuesday, May 09, 2006
Suspensão de contributos
Estou em Atenas, a Helénica.
Por isso mesmo, os meus posts não aparecerão antes da próxima semana, provavelmente.
Desafio o mamute para tapar a lacuna provocada pela minha ausência involuntária.
Até breve.
A luta continua!
Por isso mesmo, os meus posts não aparecerão antes da próxima semana, provavelmente.
Desafio o mamute para tapar a lacuna provocada pela minha ausência involuntária.
Até breve.
A luta continua!
Wednesday, May 03, 2006
1 de Maio (sempre em tempo)
O mamutemorto atrasou-se na escrita sobre as comemorações da Revolução de Abril, mas esteve a tempo na participação e trabalho. Está, portanto, salvaguardado o atraso de tão oportuno texto.
Está agora em falta um não menos necessário texto sobre o dia do Trabalhador, dia em que Abril faz ainda mais sentido, dia aliás em que abril cresce até ser maio.
E neste primeiro dia de maio estiveram nas ruas os homens e as mulheres, comemorando aquilo que já não é só uma evocação de Haymarket, é a celebração da luta e a demonstração viva do confronto agudo de classes e da capacidade de evidenciar direitos dos trabalhadores. Direitos ofendidos, retirados, direitos esmagados, mas que não passam sem luta, mas que não ficarão para trás na construção do futuro.
Eram, segundo a polícia 30 mil. a polícia... outra polícia foi quem marcou este dia a sangue de operário em chicago, carregando sobre homens que queriam apenas um horário de trabalho digno de um ser humano. Mas eram, como dizia, segundo a polícia, 30 mil. 30 mil trabalhadores, homens, mulheres, jovens e até reformados. Eram mais, claro está. Eram os suficientes para encher a alameda universitária de lisboa enquanto ainda a marcha saía do estádio primeiro de maio. Mas eram mais. Eram mais uns quantos milhares por esse país a fora. Por onde houvesse um trabalhador. Foram muitas as marchas. os comícios. as votações. Foram muitos os jovens que participaram no seu primeiro primeiro de maio. muitos os trabalhadores que o voltaram a lembrar... em luta!
E a ofensiva não parará. Mas um dia cederá nas suas forças ilusoriamente e cairá às nossas mãos. Mas o que importa é que a resistência é mais forte, que a vida une cada vez mais trabalhadores. O que importa é saber que esta marcha não pára por um só dia, nem que seja feriado nacional. O que importa é saber que a direita, seja pelas trapaçarias do PS, seja pelas vergonhas do PSD, contará sempre com a resistência. Resistência da esquerda comunista. Mas acima de tudo, resistência dos que trabalham.
Está agora em falta um não menos necessário texto sobre o dia do Trabalhador, dia em que Abril faz ainda mais sentido, dia aliás em que abril cresce até ser maio.
E neste primeiro dia de maio estiveram nas ruas os homens e as mulheres, comemorando aquilo que já não é só uma evocação de Haymarket, é a celebração da luta e a demonstração viva do confronto agudo de classes e da capacidade de evidenciar direitos dos trabalhadores. Direitos ofendidos, retirados, direitos esmagados, mas que não passam sem luta, mas que não ficarão para trás na construção do futuro.
Eram, segundo a polícia 30 mil. a polícia... outra polícia foi quem marcou este dia a sangue de operário em chicago, carregando sobre homens que queriam apenas um horário de trabalho digno de um ser humano. Mas eram, como dizia, segundo a polícia, 30 mil. 30 mil trabalhadores, homens, mulheres, jovens e até reformados. Eram mais, claro está. Eram os suficientes para encher a alameda universitária de lisboa enquanto ainda a marcha saía do estádio primeiro de maio. Mas eram mais. Eram mais uns quantos milhares por esse país a fora. Por onde houvesse um trabalhador. Foram muitas as marchas. os comícios. as votações. Foram muitos os jovens que participaram no seu primeiro primeiro de maio. muitos os trabalhadores que o voltaram a lembrar... em luta!
E a ofensiva não parará. Mas um dia cederá nas suas forças ilusoriamente e cairá às nossas mãos. Mas o que importa é que a resistência é mais forte, que a vida une cada vez mais trabalhadores. O que importa é saber que esta marcha não pára por um só dia, nem que seja feriado nacional. O que importa é saber que a direita, seja pelas trapaçarias do PS, seja pelas vergonhas do PSD, contará sempre com a resistência. Resistência da esquerda comunista. Mas acima de tudo, resistência dos que trabalham.
Wednesday, April 26, 2006
Há flores que já brotaram, mas encherão ainda o mundo e nossas vidas
Na sua obra, O Capital, Marx apresenta um capítulo maravilhoso [Capítulo XI – nota do editor], o qual quero traduzir para a mais simples das linguagens, tão simples que possibilite até aos semi-letrados a sua compreensão, o capítulo sobre a cooperação, no qual Marx sustenta que o colectivo faz nascer uma nova força. Não é apenas o somatório de pessoas, nem tampouco o somatório das suas forças, mas uma completamente nova, muito mais poderosa força. No seu capítulo sobre cooperação, Marx escreve sobre a força material. Mas quando, partindo dessa análise, a unidade da consciência e da vontade florescerem, essa força torna-se ilimitada.
Nadezhda Krupskaya, em carta dirigida a A. M. Gorki de Setembro de 1932.
Nadezhda Krupskaya, em carta dirigida a A. M. Gorki de Setembro de 1932.
Friday, April 21, 2006
Os deputados a menos.
Desde que um conjunto de deputados da nação nos presentearam com um potenciado comportamento de displicência nas vésperas da Páscoa, abundam por aí doutores e outros papagaios que cavalgam a onda, exigindo a reforma do sistema político.
Claro que a ideia de que existem deputados a mais começa a ter cada vez mais eco na população, fortemente fomentada pela comunicação social dominante. A democracia representativa que temos em Portugal, ainda que burguesa, é minimamente próxima do cidadão e tem uma garantia de pluralidade significativa, tendo em conta que é capaz de reflectir, por uma lado as diversas regiões do país, por outro, as forças partidárias em um largo espectro.
O capital, a burguesia e os serviços de comunicação ao seu dispor têm vindo a promover, desde cedo, um ataque cerrado às conquistas de Abril. Ora, uma dessas conquistas é precisamente a democracia representativa. Todos os dias se ataca cada uma das conquistas de Abril, logo esta não escapa à fúria contra-revolucionária.
A ideia de que existem deputados a mais, de que não fazem nenhum, de que só querem encher o bolso e deter poder é disso forte expressão. Conquistar esta posição nas massas é meio caminho andado para que a população aplauda um forte e rude golpe contra o regime democrático burguês actual, provocando um retrocesso grave na reconstituição do poder político corporativista. A restauração dos monopólios económicos está garantida, resta garantir a restauração do monopólio político.
O Partido Socialista, com o apoio declarado do PSD já afirmaram que querem alterar a composição da democracia portuguesa. Utilizando as suas próprias falhas. São exactamente PS e PSD os partidos que mais faltam às reuniões plenárias e de Comissões parlamentares e os que mais deputados inactivos têm. São exactamente esses dois partidos os donos da alternância doentia que tem governado o país e que tem conduzido ao desbaratar da esperança popular. E, pasme-se, são precisamente eles que se arrogam na posse da seriedade ética para rever as leis que fazem a democracia que temos.
Vejamos, sob o pretexto de existirem deputados a mais, PS e PSD propõem uma solução de diminuição do número de deputados e da criação de círculos uninominais. Ou seja, só os partidos mais votados em cada região do país elegeriam deputados, um pouco à semelhança do que acontece nos EUA. Isto, obviamente, varreria do panorama os partidos menos votados. Boa solução, menos deputados, menos representatividade, menos pluralidade, mais concentração, mais facilidade em recompor o monopólio político.
Ao mesmo tempo que nos tentam convencer de que existem deputados a mais, escondem que existem deputados que efectivamente trabalham. Existem deputados que trabalham e estão, curiosamente nas forças políticas menos votadas. Deputados que não faltam, que dinamizam o trabalho e apresentam propostas sérias para o progresso social do país. E entre os deputados que trabalham, existem 12 que além de trabalhar ali dentro, trabalham no terreno, com as populações, numa íntima ligação com a luta de massas, com os anseios dos trabalhadores, das mulheres e dos jovens, deputados que não beneficiam do estatuto monetário, que têm como princípio não serem beneficiados pela tarefa que neste momento cumprem.
Existem, portanto, deputados a menos. Deputados comunistas. A questão não está no número de deputados, mas na política que preconizam. Com mais deputados comunistas, com mais deputados de esquerda, a Assembleia da República estaria à altura de satisfazer as principais necessidades da população e do país.
Diminuam-se os deputados da direita (PS, PSD e CDS) e veremos que o que existem é deputados sérios a menos.
Claro que a ideia de que existem deputados a mais começa a ter cada vez mais eco na população, fortemente fomentada pela comunicação social dominante. A democracia representativa que temos em Portugal, ainda que burguesa, é minimamente próxima do cidadão e tem uma garantia de pluralidade significativa, tendo em conta que é capaz de reflectir, por uma lado as diversas regiões do país, por outro, as forças partidárias em um largo espectro.
O capital, a burguesia e os serviços de comunicação ao seu dispor têm vindo a promover, desde cedo, um ataque cerrado às conquistas de Abril. Ora, uma dessas conquistas é precisamente a democracia representativa. Todos os dias se ataca cada uma das conquistas de Abril, logo esta não escapa à fúria contra-revolucionária.
A ideia de que existem deputados a mais, de que não fazem nenhum, de que só querem encher o bolso e deter poder é disso forte expressão. Conquistar esta posição nas massas é meio caminho andado para que a população aplauda um forte e rude golpe contra o regime democrático burguês actual, provocando um retrocesso grave na reconstituição do poder político corporativista. A restauração dos monopólios económicos está garantida, resta garantir a restauração do monopólio político.
O Partido Socialista, com o apoio declarado do PSD já afirmaram que querem alterar a composição da democracia portuguesa. Utilizando as suas próprias falhas. São exactamente PS e PSD os partidos que mais faltam às reuniões plenárias e de Comissões parlamentares e os que mais deputados inactivos têm. São exactamente esses dois partidos os donos da alternância doentia que tem governado o país e que tem conduzido ao desbaratar da esperança popular. E, pasme-se, são precisamente eles que se arrogam na posse da seriedade ética para rever as leis que fazem a democracia que temos.
Vejamos, sob o pretexto de existirem deputados a mais, PS e PSD propõem uma solução de diminuição do número de deputados e da criação de círculos uninominais. Ou seja, só os partidos mais votados em cada região do país elegeriam deputados, um pouco à semelhança do que acontece nos EUA. Isto, obviamente, varreria do panorama os partidos menos votados. Boa solução, menos deputados, menos representatividade, menos pluralidade, mais concentração, mais facilidade em recompor o monopólio político.
Ao mesmo tempo que nos tentam convencer de que existem deputados a mais, escondem que existem deputados que efectivamente trabalham. Existem deputados que trabalham e estão, curiosamente nas forças políticas menos votadas. Deputados que não faltam, que dinamizam o trabalho e apresentam propostas sérias para o progresso social do país. E entre os deputados que trabalham, existem 12 que além de trabalhar ali dentro, trabalham no terreno, com as populações, numa íntima ligação com a luta de massas, com os anseios dos trabalhadores, das mulheres e dos jovens, deputados que não beneficiam do estatuto monetário, que têm como princípio não serem beneficiados pela tarefa que neste momento cumprem.
Existem, portanto, deputados a menos. Deputados comunistas. A questão não está no número de deputados, mas na política que preconizam. Com mais deputados comunistas, com mais deputados de esquerda, a Assembleia da República estaria à altura de satisfazer as principais necessidades da população e do país.
Diminuam-se os deputados da direita (PS, PSD e CDS) e veremos que o que existem é deputados sérios a menos.
Onde pára a cultura XVII?
Em Junho de 2004, o Partido Socialista acusava o Governo, então PSD-CDS, de insensibilidade cultural, referindo que a decisão de fundir o Instituto Português de Arqueologia não tinha compatibilidade com a estrutura do Instituto Português do Património Arquitectónico. O Partido Socialista assumia, de diversas formas, o seu apoio à luta dos quadros do IPA pela manutenção do organismo, do seu organigrama e da sua autonomia e independência.
O Instituto Português de Arqueologia funciona, principalmente, em edifícios antigos e algo degradados na Avenida da Índia, em Lisboa. Quem por ali passar, olhando de fora, não diria o que lá dentro se passa e se constrói. Embora leve a cabo as suas tarefas em grandes pavilhões decrépitos, antigas instalações da Marinha, o IPA tem tido a capacidade de produzir ciência, cultura e conhecimento.
Desengane-se, no entanto, que o IPA é um instituto de biblioteca, desengane-se quem pensa que o IPA é um conjunto burocrático de funcionários do Estado que escrevem livros e artigos científicos. O IPA é responsável pela introdução do critério arqueológico no ordenamento do território de todo o país, dinamizando um tecido empresarial de mais de 50 empresas. É o IPA que, junto do Poder Local, garante a avaliação científica de sítios arqueológicos e a tomada das medidas necessárias para a conservação ou registo dos dados.
O IPA, nas suas variadas vertentes de trabalho, tem tido a capacidade para ser motor do desenvolvimento da Arqueologia em Portugal, para a qual acordámos tão tardiamente.
Mas o IPA também é um exemplo de boa gestão, o IPA funciona com um quadro reduzido de pessoas, tem crescido em capacidade de resposta ao que lhe é exigido e conseguiu, em poucos anos, angariar o estatuto de maior autoridade no campo da Arqueologia em Portugal. O IPA não apresenta défice estrutural, garante a gestão adequada dos dinheiros públicos e tem os salários em dia. O IPA funciona em condições de grande dificuldade e um dos espaços que se lhe têm mostrado bastante necessários aguarda uma verba de, pasme-se, 100.000€ (vinte mil contos!!!) para dinamizar um espaço fundamental, anexo à sua biblioteca.
E já que falámos da biblioteca do IPA, não seria justo não referir a sua importância. A biblioteca é de acesso público e está, inclusivamente, disponível on-line - http://www.ipa.min-cultura.pt/Biblioteca . A biblioteca é a maior do género no país e dispõe de um acervo único e de grande valor, herdado do Estado Alemão, ao abrigo de um protocolo entre Instituto Alemão de Arqueologia e o IPA. A biblioteca do IPA acolhe desde os estudantes aos profissionais de arqueologia ou áreas afins e associadas de todo o país.
Mas falar do Instituto Português de Arqueologia não deve deixar passar ao lado aquilo que a maioria de nós não sabe: o que o IPA produz. O IPA tem actualmente a maior colecção de ossos de aves da Península Ibérica, recolhidos pelos seus próprios profissionais, catalogando e identificando, dando um precioso contributo para o estudo do passado (arqueozoologia) mas também garantindo a existência de uma base de dados única que serve também para os trabalhos da biologia actual, para a identificação de espécies e compreensão das causas de morte.
O IPA realizou o único estudo polínico de alta-resolução do país, com um calendário pormenorizado ao dia e com centenas de espécies polinizadoras estudadas em Lisboa e Barreiro, dando um contributo essencial à medicina, principalmente para os estudos alergológicos e imunológicos. Também no departamento de arqueobotânica, o IPA dispõe de uma equipa que tem dado sérios contributos para a compreensão científica da paleo e arqueoclimatologia, através do estudo sistemático das deposições fósseis de grãos de pólen em sistemas lagunares do continente, do litoral ao interior.
O IPA tem o único centro de estudo do país em arqueotecnologia, capaz de identificar a evolução tecnológica dos utensílios do Homem em território nacional desde o paleolítico.
O IPA dispõe de uma equipa de estudo em arqueologia sub-aquática e marinha e tem demonstrado extrema capacidade e criatividade no que toca à identificação, recuperação e conservação de peças importantíssimas da arqueologia do país. O IPA desenvolveu mecanismos próprios de tratamento de madeiras e metais antigos, conseguindo conservar desde pirogas com mais de 2000 anos até canhões e peças de antigas embarcações do século XVI.
O IPA é um centro de criatividade e empenho, onde a ciência se respira a cada passo, onde os olhares dos profissionais são humanos e comprometidos com o trabalho. O IPA é um centro de produção científica, mas também de engenharia de soluções.
Num país em que a cultura, bem como a ciência, são utilizados exclusivamente para servir de atracção na feira da política nacional, em que os sucessivos governos têm tratado o trabalho dos nossos cientistas como um peso orçamental e não como uma mais-valia, a cultura é a primeira a pagar.
A cultura é essencial ao desenvolvimento do ser humano e, neste caso concreto, essencial à relação harmoniosa entre futuro e passado, garante do respeito pela história e indicador da humildade que terá de ter qualquer sociedade, no reconhecimento de que o futuro não se constrói sem aprender com o passado.
A direita, seja PS, PSD ou CDS, entende a cultura como uma mercadoria, necessariamente rentável e lucrativa, reservada às elites burguesas ou intelectuais. É nesse entendimento que o PS, agora governo, faz tábua rasa das suas próprias palavras de Junho de 2004 e cumpre o seu papel de vanguarda do patronato. Cultura nacional e popular, ciência pública e tudo quanto possa ser democrático não estão nos objectivos do Governo. Ceder espaços a empresas “culturais” para nos cobrarem bilhetes de valores astronómicos para ver os freak shows do capital é dinamizar cultura ou mesmo trancar em salas altivas e inacessíveis os melhores espectáculos e exposições do mundo, nisso sim, os nossos governos são exímios. Está feita a cultura.
O Instituto Português de Arqueologia funciona, principalmente, em edifícios antigos e algo degradados na Avenida da Índia, em Lisboa. Quem por ali passar, olhando de fora, não diria o que lá dentro se passa e se constrói. Embora leve a cabo as suas tarefas em grandes pavilhões decrépitos, antigas instalações da Marinha, o IPA tem tido a capacidade de produzir ciência, cultura e conhecimento.
Desengane-se, no entanto, que o IPA é um instituto de biblioteca, desengane-se quem pensa que o IPA é um conjunto burocrático de funcionários do Estado que escrevem livros e artigos científicos. O IPA é responsável pela introdução do critério arqueológico no ordenamento do território de todo o país, dinamizando um tecido empresarial de mais de 50 empresas. É o IPA que, junto do Poder Local, garante a avaliação científica de sítios arqueológicos e a tomada das medidas necessárias para a conservação ou registo dos dados.
O IPA, nas suas variadas vertentes de trabalho, tem tido a capacidade para ser motor do desenvolvimento da Arqueologia em Portugal, para a qual acordámos tão tardiamente.
Mas o IPA também é um exemplo de boa gestão, o IPA funciona com um quadro reduzido de pessoas, tem crescido em capacidade de resposta ao que lhe é exigido e conseguiu, em poucos anos, angariar o estatuto de maior autoridade no campo da Arqueologia em Portugal. O IPA não apresenta défice estrutural, garante a gestão adequada dos dinheiros públicos e tem os salários em dia. O IPA funciona em condições de grande dificuldade e um dos espaços que se lhe têm mostrado bastante necessários aguarda uma verba de, pasme-se, 100.000€ (vinte mil contos!!!) para dinamizar um espaço fundamental, anexo à sua biblioteca.
E já que falámos da biblioteca do IPA, não seria justo não referir a sua importância. A biblioteca é de acesso público e está, inclusivamente, disponível on-line - http://www.ipa.min-cultura.pt/Biblioteca . A biblioteca é a maior do género no país e dispõe de um acervo único e de grande valor, herdado do Estado Alemão, ao abrigo de um protocolo entre Instituto Alemão de Arqueologia e o IPA. A biblioteca do IPA acolhe desde os estudantes aos profissionais de arqueologia ou áreas afins e associadas de todo o país.
Mas falar do Instituto Português de Arqueologia não deve deixar passar ao lado aquilo que a maioria de nós não sabe: o que o IPA produz. O IPA tem actualmente a maior colecção de ossos de aves da Península Ibérica, recolhidos pelos seus próprios profissionais, catalogando e identificando, dando um precioso contributo para o estudo do passado (arqueozoologia) mas também garantindo a existência de uma base de dados única que serve também para os trabalhos da biologia actual, para a identificação de espécies e compreensão das causas de morte.
O IPA realizou o único estudo polínico de alta-resolução do país, com um calendário pormenorizado ao dia e com centenas de espécies polinizadoras estudadas em Lisboa e Barreiro, dando um contributo essencial à medicina, principalmente para os estudos alergológicos e imunológicos. Também no departamento de arqueobotânica, o IPA dispõe de uma equipa que tem dado sérios contributos para a compreensão científica da paleo e arqueoclimatologia, através do estudo sistemático das deposições fósseis de grãos de pólen em sistemas lagunares do continente, do litoral ao interior.
O IPA tem o único centro de estudo do país em arqueotecnologia, capaz de identificar a evolução tecnológica dos utensílios do Homem em território nacional desde o paleolítico.
O IPA dispõe de uma equipa de estudo em arqueologia sub-aquática e marinha e tem demonstrado extrema capacidade e criatividade no que toca à identificação, recuperação e conservação de peças importantíssimas da arqueologia do país. O IPA desenvolveu mecanismos próprios de tratamento de madeiras e metais antigos, conseguindo conservar desde pirogas com mais de 2000 anos até canhões e peças de antigas embarcações do século XVI.
O IPA é um centro de criatividade e empenho, onde a ciência se respira a cada passo, onde os olhares dos profissionais são humanos e comprometidos com o trabalho. O IPA é um centro de produção científica, mas também de engenharia de soluções.
Num país em que a cultura, bem como a ciência, são utilizados exclusivamente para servir de atracção na feira da política nacional, em que os sucessivos governos têm tratado o trabalho dos nossos cientistas como um peso orçamental e não como uma mais-valia, a cultura é a primeira a pagar.
A cultura é essencial ao desenvolvimento do ser humano e, neste caso concreto, essencial à relação harmoniosa entre futuro e passado, garante do respeito pela história e indicador da humildade que terá de ter qualquer sociedade, no reconhecimento de que o futuro não se constrói sem aprender com o passado.
A direita, seja PS, PSD ou CDS, entende a cultura como uma mercadoria, necessariamente rentável e lucrativa, reservada às elites burguesas ou intelectuais. É nesse entendimento que o PS, agora governo, faz tábua rasa das suas próprias palavras de Junho de 2004 e cumpre o seu papel de vanguarda do patronato. Cultura nacional e popular, ciência pública e tudo quanto possa ser democrático não estão nos objectivos do Governo. Ceder espaços a empresas “culturais” para nos cobrarem bilhetes de valores astronómicos para ver os freak shows do capital é dinamizar cultura ou mesmo trancar em salas altivas e inacessíveis os melhores espectáculos e exposições do mundo, nisso sim, os nossos governos são exímios. Está feita a cultura.
Thursday, April 13, 2006
não aos insultos no futebol??? então para que serviria o jogo?
ontem houve uma manifestação sobre questões do desporto em frente à Assembleia da República.
1 (um) manifestante com 1 (um) cachecol (cachecol) a dizer fairplay e que gritava a plenos pulmões:
"- NINGUÉM PÁRA O FAIRPLAY!!!"
"-NENHUM GOVERNO PÁRA O FAIRPLAY!!!"
"-NÃO AO RACISMO NO FUTEBOL!!!"
"-NÃO AOS INSULTOS (sim, insultos...) NO FUTEBOL!!!"
e esta?!?!
passado algum tempo, a manifestação foi reprimida por 1 (um) polícia (polícia) que desmobilizou o manifestante.
1 (um) manifestante com 1 (um) cachecol (cachecol) a dizer fairplay e que gritava a plenos pulmões:
"- NINGUÉM PÁRA O FAIRPLAY!!!"
"-NENHUM GOVERNO PÁRA O FAIRPLAY!!!"
"-NÃO AO RACISMO NO FUTEBOL!!!"
"-NÃO AOS INSULTOS (sim, insultos...) NO FUTEBOL!!!"
e esta?!?!
passado algum tempo, a manifestação foi reprimida por 1 (um) polícia (polícia) que desmobilizou o manifestante.
Friday, March 31, 2006
palavras para quê?
"a sua situação só se complicará se procurarem salário, não emprego"
Belmiro de Azevedo - Escola Superior de Educação de Coimbra - referindo-se à dificuldade de um jovem encontrar o primeiro emprego.
Belmiro de Azevedo - Escola Superior de Educação de Coimbra - referindo-se à dificuldade de um jovem encontrar o primeiro emprego.
O papel do acaso e o Ocaso das ideologias – parte II
É pois, desde os primeiros anúncios do materialismo histórico, que o capitalismo mais se empenha no aperfeiçoamento das suas armas de extinção ideológica. O capitalismo entende agora que o avanço prático da sua concepção ideológica depende do ocaso da ideologia nas massas, particularmente junto dos trabalhadores. A elitização da ideologia é o objectivo fulcral desta estratégia.
Os intelectuais do capital e a vanguarda económica da sociedade aprofundam e estudam a ideologia do capital, avança novas formas de exploração e sustentação do sistema capitalista. A concentração do estudo ideológico nas elites do capital, simultaneamente eliminando as bases filosóficas necessárias à compreensão das ideologias é a nova táctica do capitalismo. Ao eliminar a concepção de ideologia, o sistema acaba por conseguir um melhor controlo de massas, uma espécie de ilusão colectiva de que o acaso, a sorte e a competência de gestão de cada líder determinam o curso da história. A eliminação do conceito de ideologia, acaba com uma dualidade essencial: a do antagonismo de classe, a do antagonismo ideológico. De algum modo, pode dizer-se que o capital tem duas ideologias: a ideologia capitalista neo-liberal concentrada nas suas elites e a ideologia da ignorância que postula o ocaso de todas as ideologias que dirige às massas.
A ideia de que não mais existem ideologias é a mãe da doutrina da conciliação de interesses entre classes antagónicas, típica forma da mística impossibilidade histórica. O papel do acaso é, pois, evidenciado pela doutrina burguesa, desvalorizando o papel das leis e dos mecanismos naturais da sociedade humana.
O acaso, embora existente e com expressão importante numa abordagem micro-histórica[1] não determina a história da Humanidade. Esta é desenvolvida com base em leis básicas, em leis eminentemente materiais em oposição ao papel das leis do espírito.
A luta de classes é regida por leis e não pelo acaso. E a luta de classes rege a história do Homem.
É a negação do parágrafo anterior que serve de pilar à ideologia burguesa irradiada junto das massas. Julgo, no entanto, que as elites do capital baseiam a sua análise no mais puro do materialismo dialéctico e que é exactamente a abordagem materialista e científica que lhes permite aperfeiçoar de tal forma os mecanismos de exploração e opressão. É partindo da concepção marxista da divisão da sociedade em classes, bem como da perfeita consciência de que é a luta e o antagonismo permanente entre as classes que move a história que o capitalismo dinamiza as diversas ofensivas.
Um pequeno modelo do que foi escrito acima seria a hipotética situação:
“duas facções em guerra – uma poderosa e rica e outra pobre e apenas mais numerosa, sendo que a primeira explora ou escraviza a segunda – mas só a mais poderosa sabe que está em guerra porque mata no escuro”. É esta a jogada mais desenvolvida do capital no plano ideológico: garantir que só a burguesia sabe que existe uma luta de classes, garantindo que o proletariado acredita na conciliação de interesses.
[1] Pedimos desculpa pela invenção de termos, mas é que não há aqui entendidos nesta coisa das ciências sociais como dadas nas escolas– micro-história: história de um episódio numa vida, cingida a pequenos acontecimentos; contra macro-história: história da humanidade ou de uma sociedade, contendo a relação entre seres humanos, entre classes, entre homem e natureza, etc..
Os intelectuais do capital e a vanguarda económica da sociedade aprofundam e estudam a ideologia do capital, avança novas formas de exploração e sustentação do sistema capitalista. A concentração do estudo ideológico nas elites do capital, simultaneamente eliminando as bases filosóficas necessárias à compreensão das ideologias é a nova táctica do capitalismo. Ao eliminar a concepção de ideologia, o sistema acaba por conseguir um melhor controlo de massas, uma espécie de ilusão colectiva de que o acaso, a sorte e a competência de gestão de cada líder determinam o curso da história. A eliminação do conceito de ideologia, acaba com uma dualidade essencial: a do antagonismo de classe, a do antagonismo ideológico. De algum modo, pode dizer-se que o capital tem duas ideologias: a ideologia capitalista neo-liberal concentrada nas suas elites e a ideologia da ignorância que postula o ocaso de todas as ideologias que dirige às massas.
A ideia de que não mais existem ideologias é a mãe da doutrina da conciliação de interesses entre classes antagónicas, típica forma da mística impossibilidade histórica. O papel do acaso é, pois, evidenciado pela doutrina burguesa, desvalorizando o papel das leis e dos mecanismos naturais da sociedade humana.
O acaso, embora existente e com expressão importante numa abordagem micro-histórica[1] não determina a história da Humanidade. Esta é desenvolvida com base em leis básicas, em leis eminentemente materiais em oposição ao papel das leis do espírito.
A luta de classes é regida por leis e não pelo acaso. E a luta de classes rege a história do Homem.
É a negação do parágrafo anterior que serve de pilar à ideologia burguesa irradiada junto das massas. Julgo, no entanto, que as elites do capital baseiam a sua análise no mais puro do materialismo dialéctico e que é exactamente a abordagem materialista e científica que lhes permite aperfeiçoar de tal forma os mecanismos de exploração e opressão. É partindo da concepção marxista da divisão da sociedade em classes, bem como da perfeita consciência de que é a luta e o antagonismo permanente entre as classes que move a história que o capitalismo dinamiza as diversas ofensivas.
Um pequeno modelo do que foi escrito acima seria a hipotética situação:
“duas facções em guerra – uma poderosa e rica e outra pobre e apenas mais numerosa, sendo que a primeira explora ou escraviza a segunda – mas só a mais poderosa sabe que está em guerra porque mata no escuro”. É esta a jogada mais desenvolvida do capital no plano ideológico: garantir que só a burguesia sabe que existe uma luta de classes, garantindo que o proletariado acredita na conciliação de interesses.
[1] Pedimos desculpa pela invenção de termos, mas é que não há aqui entendidos nesta coisa das ciências sociais como dadas nas escolas– micro-história: história de um episódio numa vida, cingida a pequenos acontecimentos; contra macro-história: história da humanidade ou de uma sociedade, contendo a relação entre seres humanos, entre classes, entre homem e natureza, etc..
Thursday, March 30, 2006
O papel do acaso e o Ocaso das ideologias - parte I
O sistema capitalista, com quase 250 anos de construção não tem conseguido ultrapassar os problemas que desde logo se lhe colocaram. Sempre os marxistas acusaram o capitalismo de conter em si o gene da desumanidade, por centrar a organização da sociedade humana, não no Homem, mas na acumulação de capital.
A produção mundial conheceu avanços magníficos no quadro inegável da evolução do capitalismo, avanços esses fortemente relacionados com o funcionamento do próprio mercado capitalista e com as dinâmicas criadas pela concorrência entre empresas que acabou por favorecer a evolução tecnológica nos sistemas de produção.
Hoje, a produção é maior do que a necessária para que todos os seres humanos pudessem viver em condições de dignidade e a mão-de-obra envolvida na produção poderia empregar todos desde que diminuída a carga sobre cada indivíduo. A tecnologia dos sistemas de produção e os custos de produção também já permitem que os salários dos trabalhadores vão ganhando aproximação ao valor da produção.
No entanto, nenhuma destas potencialidades da humanidade e da sua sociedade mundial se verifica. Pelo contrário, a concentração de capital é cada vez mais acentuada, a produção e a riqueza são cada vez mais mal distribuídas entre as classes e entre os diferentes povos do mundo.
As ideologias, os sistemas de modelos conceptuais e bases teóricas para a acção, fazem hoje, cada vez mais sentido. Numa altura em que os povos se encontram numa encruzilhada histórica, urge construir um rumo alternativo para a história colectiva da humanidade. Tal não acontecerá por acaso.
Ao longo da história, as classes dominantes foram sempre utilizando diversas metodologias de ofensiva ideológica e de controlo, para a manutenção das relações inter-classistas. A repressão, a ignorância de massas, o controlo religioso, a fome, o desemprego e outras formas de opressão física, psicológica ou ideológica sempre foram os recursos mais utilizados pelas classes dominantes.
O capitalismo, no entanto, tem vindo a aperfeiçoar todos esses mecanismos, não abandonando nenhum deles, refinando cada um, aperfeiçoando-os enquanto metodologias. O capitalismo e os sistemas que representam os pólos opressores e exploradores têm levado a tortura, a guerra e outras formas de repressão a novos patamares de desumanidade, mas também encobertos pela arma de ponta do imperialismo e do capitalismo – a ideologia. E é aqui que o sistema capitalista tem desenvolvido as mais brilhantes testes (não menos erradas) ideológicas que lhe possibilitam de certa forma o controlo de massas.
Uma das questões centrais que se coloca é a que se relaciona com as novas formas de misticismos e idealismos baseados na ignorância que o capitalismo tem conseguido criar e espalhar, utilizando mesmo os recursos dos Estados como os sistemas educativos de massas. O ocaso das ideologias tão anunciado pelos professores da política neo-liberal e destacados quadros intelectuais do capitalismo é a mais refinada das evoluções da ofensiva dirigida contra os povos e contra os trabalhadores de todo o mundo. A ausência da perspectiva materialista que é infundida nas massas conduz à aceitação passiva de conceitos paralelos à realidade, um dos principais e cada vez mais sustentado pela rede ideológica do capitalismo é o do acaso, aliás já promovido desde que o marxismo sistematiza as leis da história.
A produção mundial conheceu avanços magníficos no quadro inegável da evolução do capitalismo, avanços esses fortemente relacionados com o funcionamento do próprio mercado capitalista e com as dinâmicas criadas pela concorrência entre empresas que acabou por favorecer a evolução tecnológica nos sistemas de produção.
Hoje, a produção é maior do que a necessária para que todos os seres humanos pudessem viver em condições de dignidade e a mão-de-obra envolvida na produção poderia empregar todos desde que diminuída a carga sobre cada indivíduo. A tecnologia dos sistemas de produção e os custos de produção também já permitem que os salários dos trabalhadores vão ganhando aproximação ao valor da produção.
No entanto, nenhuma destas potencialidades da humanidade e da sua sociedade mundial se verifica. Pelo contrário, a concentração de capital é cada vez mais acentuada, a produção e a riqueza são cada vez mais mal distribuídas entre as classes e entre os diferentes povos do mundo.
As ideologias, os sistemas de modelos conceptuais e bases teóricas para a acção, fazem hoje, cada vez mais sentido. Numa altura em que os povos se encontram numa encruzilhada histórica, urge construir um rumo alternativo para a história colectiva da humanidade. Tal não acontecerá por acaso.
Ao longo da história, as classes dominantes foram sempre utilizando diversas metodologias de ofensiva ideológica e de controlo, para a manutenção das relações inter-classistas. A repressão, a ignorância de massas, o controlo religioso, a fome, o desemprego e outras formas de opressão física, psicológica ou ideológica sempre foram os recursos mais utilizados pelas classes dominantes.
O capitalismo, no entanto, tem vindo a aperfeiçoar todos esses mecanismos, não abandonando nenhum deles, refinando cada um, aperfeiçoando-os enquanto metodologias. O capitalismo e os sistemas que representam os pólos opressores e exploradores têm levado a tortura, a guerra e outras formas de repressão a novos patamares de desumanidade, mas também encobertos pela arma de ponta do imperialismo e do capitalismo – a ideologia. E é aqui que o sistema capitalista tem desenvolvido as mais brilhantes testes (não menos erradas) ideológicas que lhe possibilitam de certa forma o controlo de massas.
Uma das questões centrais que se coloca é a que se relaciona com as novas formas de misticismos e idealismos baseados na ignorância que o capitalismo tem conseguido criar e espalhar, utilizando mesmo os recursos dos Estados como os sistemas educativos de massas. O ocaso das ideologias tão anunciado pelos professores da política neo-liberal e destacados quadros intelectuais do capitalismo é a mais refinada das evoluções da ofensiva dirigida contra os povos e contra os trabalhadores de todo o mundo. A ausência da perspectiva materialista que é infundida nas massas conduz à aceitação passiva de conceitos paralelos à realidade, um dos principais e cada vez mais sustentado pela rede ideológica do capitalismo é o do acaso, aliás já promovido desde que o marxismo sistematiza as leis da história.
Monday, March 20, 2006
Invasão continuada, ocupação por consolidar
A ocupação continua, ainda que na TV não abra telejornais, nem se ouça nas rádios nem leia nos jornais. O exército mais poderoso do mundo, com a ajuda dos lacaios do imperialismo e com a cobertura da comunicação lá vai asfixiando um país, um povo e uma milenar cultura.
Nos jornais, no televisor, o Iraque é apenas um deserto, árido e vazio, sem sangue, sem vida. Nos jornais, o Iraque foi o país das armas de destruição maciça, das armas biológicas, da tirania, sempre um país de bárbaros terroristas que ali emergiam contra o mundo civilizado. Nos jornais e na tv, o Iraque sempre foi aquilo que o imperialismo quis que fosse. E mesmo agora, provadas que estão as mentiras alvitradas pela demência prepotente do capitalismo, o Iraque continua a ser um deserto por onde marcham, qual cruzados, os civilizados soldados do império.
O Iraque, a sua vida, as suas vidas, a sua resistência e o seu sangue derramado nas suas próprias ruas, não existe para as câmeras da Tv, nem para as objectivas dos jornais. Quanto muito pode existir um amputado de guerra em estado aflitivo para ganhar um prémio foto-jornalístico, mas a dor, essa, não existe nem nunca existiu porque, aliás, os terroristas não sentem dor.
O Iraque, afinal de contas, não tinha armas de destruição maciçaa. Nem tampouco se provaram quaisquer ligações a organizações terroristas internacionais. O Iraque, afinal, não dominava a arte das armas biológicas, nem tinha planos de promover uma Jihad contra o ocidente cristão. Afinal, o Iraque tinha era petróleo. Afinal o Iraque tinha rios de petróleo.
Afinal o Iraque tinha gente, gente sofrida de décadas de repressão. Afinal o Iraque tinha casas, prédios, afinal o Iraque não era apenas um deserto com terroristas, lá viviam crianças, mulheres e homens, trabalhadores e trabalhadoras. Afinal no Iraque também existiam árvores, jardins, escolas e hospitais.
Afinal os satélites da guerra dos senhores do petróleo, com a sua magnífica resolução xpto não apanharam o panorama iraquiano completo pior, só detectaram o que lá não estava. E hoje? quem lhes pede contas? Os mesmos de sempre: os povos e os trabalhadores. Anunciar o reconhecimento da mentira não é tarefa para as TV's, jornais ou rádios. Denunciar o genocídio não é desígnio dos que promoveram a guerra. Julgar os criminosos de mãos sangrentas não é típico da justiça capitalista. E hoje, promovem-se os assassinos. Barroso é senhor presidente (vómito), Bush é lorde da guerra e do petróleo, Blair é dama-de-ferro reciclada e não consta que Aznar apodreça numa prisão longe de sua casa.
Mas são os mesmos que, em todo o mundo souberam a mentira, que hoje lutam como antes. É o povo iraquiano em armas na defesa da sua pátria, soberania e independência que já deu milhares de filhos à sua terra, é o povo iraquiano sofrido e empobrecido que mastiga urânio na sua comida e o engole na sua água por mais milhões e milhões de anos no futuro. Mas são também muitos pelo mundo, os explorados que nasceram fora do Iraque. E podia ter tudo acontecido com eles. Não com a burguesia pseudo-socialista a quem o Iraque pouco importa. A esses não acontecem desgraças, porque a solidariedade burguesa passa fronteiras com aviões, enquanto a proletária voa o mundo apenas com a forçaa da razão e, por vezes, um pedaço de pão. Para esses o Iraque é história do passado, que lhes colocou fronhas no jornal quando era moda, para esses já só interessa o pós-Iraque. E o povo do Iraque que é hoje vanguarda do heroísmo anti-imperialista e que resiste com as armas que não tem contra a máquina esmagadora dos tanques de guerra e contra binóculos de infra-vermelhos, satélites de precisão, espingardas metralhadoras e canhões, contra o urânio cancerígeno e as armas dos patrões, ali continua de pé. E um dia ele escreverá a história do seu país, com novos jornais, rádios e Tv's.
Nos jornais, no televisor, o Iraque é apenas um deserto, árido e vazio, sem sangue, sem vida. Nos jornais, o Iraque foi o país das armas de destruição maciça, das armas biológicas, da tirania, sempre um país de bárbaros terroristas que ali emergiam contra o mundo civilizado. Nos jornais e na tv, o Iraque sempre foi aquilo que o imperialismo quis que fosse. E mesmo agora, provadas que estão as mentiras alvitradas pela demência prepotente do capitalismo, o Iraque continua a ser um deserto por onde marcham, qual cruzados, os civilizados soldados do império.
O Iraque, a sua vida, as suas vidas, a sua resistência e o seu sangue derramado nas suas próprias ruas, não existe para as câmeras da Tv, nem para as objectivas dos jornais. Quanto muito pode existir um amputado de guerra em estado aflitivo para ganhar um prémio foto-jornalístico, mas a dor, essa, não existe nem nunca existiu porque, aliás, os terroristas não sentem dor.
O Iraque, afinal de contas, não tinha armas de destruição maciçaa. Nem tampouco se provaram quaisquer ligações a organizações terroristas internacionais. O Iraque, afinal, não dominava a arte das armas biológicas, nem tinha planos de promover uma Jihad contra o ocidente cristão. Afinal, o Iraque tinha era petróleo. Afinal o Iraque tinha rios de petróleo.
Afinal o Iraque tinha gente, gente sofrida de décadas de repressão. Afinal o Iraque tinha casas, prédios, afinal o Iraque não era apenas um deserto com terroristas, lá viviam crianças, mulheres e homens, trabalhadores e trabalhadoras. Afinal no Iraque também existiam árvores, jardins, escolas e hospitais.
Afinal os satélites da guerra dos senhores do petróleo, com a sua magnífica resolução xpto não apanharam o panorama iraquiano completo pior, só detectaram o que lá não estava. E hoje? quem lhes pede contas? Os mesmos de sempre: os povos e os trabalhadores. Anunciar o reconhecimento da mentira não é tarefa para as TV's, jornais ou rádios. Denunciar o genocídio não é desígnio dos que promoveram a guerra. Julgar os criminosos de mãos sangrentas não é típico da justiça capitalista. E hoje, promovem-se os assassinos. Barroso é senhor presidente (vómito), Bush é lorde da guerra e do petróleo, Blair é dama-de-ferro reciclada e não consta que Aznar apodreça numa prisão longe de sua casa.
Mas são os mesmos que, em todo o mundo souberam a mentira, que hoje lutam como antes. É o povo iraquiano em armas na defesa da sua pátria, soberania e independência que já deu milhares de filhos à sua terra, é o povo iraquiano sofrido e empobrecido que mastiga urânio na sua comida e o engole na sua água por mais milhões e milhões de anos no futuro. Mas são também muitos pelo mundo, os explorados que nasceram fora do Iraque. E podia ter tudo acontecido com eles. Não com a burguesia pseudo-socialista a quem o Iraque pouco importa. A esses não acontecem desgraças, porque a solidariedade burguesa passa fronteiras com aviões, enquanto a proletária voa o mundo apenas com a forçaa da razão e, por vezes, um pedaço de pão. Para esses o Iraque é história do passado, que lhes colocou fronhas no jornal quando era moda, para esses já só interessa o pós-Iraque. E o povo do Iraque que é hoje vanguarda do heroísmo anti-imperialista e que resiste com as armas que não tem contra a máquina esmagadora dos tanques de guerra e contra binóculos de infra-vermelhos, satélites de precisão, espingardas metralhadoras e canhões, contra o urânio cancerígeno e as armas dos patrões, ali continua de pé. E um dia ele escreverá a história do seu país, com novos jornais, rádios e Tv's.
Wednesday, March 08, 2006
Paridade concertada
O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda entendem que a defesa dos direitos das mulheres tem expressão máxima naquilo a que chamam a paridade, por sua vez inserido no tema por si próprios fabricado igualdade de género.
A paridade em si não é um estado necessariamente negativo nem positivo. A participação da mulher e do homem em igualdade não significa directamente a igualdade numérica. A paridade, enquanto estado de participação em determinada etapa da vida política, social ou económica, deve ser atingida com naturalidade e não com obrigatoriedade. A própria concepção de atribuir à construção da paridade o carácter limitativo e obrigatório encerra a indisfarçável tendência patriarcal da sociedade em que vivemos, ou, num outro extremo pode transportar a visão individualista do feminismo frígido e tão abominável quanto o machismo.
A grande questão que se coloca quando falamos de participação da mulher na sociedade é exactamente a mesma que deve ser ponto de partida para tantas outras análises. O que define o papel de cada ser humano na sociedade? O seu sexo? A sua cor? O seu credo? A sua orientação sexual? Julgo que não. O que determina o papel de cada um de nós na sociedade é a nossa intervenção no processo produtivo, a detenção ou não dos meios de produção, a acumulação e apropriação ou não das mais-valias e a existência ou não de um compromisso de classe prático.
Não entendo como podem ser considerados garantidos quaisquer direitos das mulheres pela simples obrigatoriedade de participarem em igual número nas diversas esferas da vida. A grande questão consiste na garantia das condições que possibilitem um relação entre a sociedade e a mulher nas mesmas condições com que esta se relaciona com o homem, condições essas que devem ser, paralela e simultaneamente mais abrangentes e mais dignas.
A libertação da mulher é a libertação do homem e do Homem.
A obrigatoriedade de medidas que garantam a paridade, a imposição de quotas por género, acarretam falácias, enganos e retrocessos no entendimento colectivo necessário à verdadeira emancipação da mulher.
1. A imposição, por ser isso mesmo, implica que existirá uma ingerência na vida das organizações, obrigando cada partido, associação ou estrutura democrática a limitar-se na construção das suas próprias opções.
2. A existência de igualdade numérica entre homens e mulheres não garante de forma alguma a igualdade de tratamento político entre géneros, isto porque a definição da génese política de cada pessoa depende exclusivamente da sua origem de classe e do seu compromisso ou integração de classe.
3. Partir do princípio que a paridade numérica é sinónimo de garantia de igualdade política e social entre géneros é assumir que todas as mulheres defendem os direitos das mulheres, o que me escuso a rebater.
4. Aceitar a paridade numérica, bem como defendê-la é fazer divergir das questões centrais, ludibriando homens e mulheres a resolução de um problema que tem principal raiz nas discriminações de base que sofrem homens e mulheres, principalmente nos locais de trabalho, com principal expressão como sabemos para o sexo feminino.
A paridade em si não é um estado necessariamente negativo nem positivo. A participação da mulher e do homem em igualdade não significa directamente a igualdade numérica. A paridade, enquanto estado de participação em determinada etapa da vida política, social ou económica, deve ser atingida com naturalidade e não com obrigatoriedade. A própria concepção de atribuir à construção da paridade o carácter limitativo e obrigatório encerra a indisfarçável tendência patriarcal da sociedade em que vivemos, ou, num outro extremo pode transportar a visão individualista do feminismo frígido e tão abominável quanto o machismo.
A grande questão que se coloca quando falamos de participação da mulher na sociedade é exactamente a mesma que deve ser ponto de partida para tantas outras análises. O que define o papel de cada ser humano na sociedade? O seu sexo? A sua cor? O seu credo? A sua orientação sexual? Julgo que não. O que determina o papel de cada um de nós na sociedade é a nossa intervenção no processo produtivo, a detenção ou não dos meios de produção, a acumulação e apropriação ou não das mais-valias e a existência ou não de um compromisso de classe prático.
Não entendo como podem ser considerados garantidos quaisquer direitos das mulheres pela simples obrigatoriedade de participarem em igual número nas diversas esferas da vida. A grande questão consiste na garantia das condições que possibilitem um relação entre a sociedade e a mulher nas mesmas condições com que esta se relaciona com o homem, condições essas que devem ser, paralela e simultaneamente mais abrangentes e mais dignas.
A libertação da mulher é a libertação do homem e do Homem.
A obrigatoriedade de medidas que garantam a paridade, a imposição de quotas por género, acarretam falácias, enganos e retrocessos no entendimento colectivo necessário à verdadeira emancipação da mulher.
1. A imposição, por ser isso mesmo, implica que existirá uma ingerência na vida das organizações, obrigando cada partido, associação ou estrutura democrática a limitar-se na construção das suas próprias opções.
2. A existência de igualdade numérica entre homens e mulheres não garante de forma alguma a igualdade de tratamento político entre géneros, isto porque a definição da génese política de cada pessoa depende exclusivamente da sua origem de classe e do seu compromisso ou integração de classe.
3. Partir do princípio que a paridade numérica é sinónimo de garantia de igualdade política e social entre géneros é assumir que todas as mulheres defendem os direitos das mulheres, o que me escuso a rebater.
4. Aceitar a paridade numérica, bem como defendê-la é fazer divergir das questões centrais, ludibriando homens e mulheres a resolução de um problema que tem principal raiz nas discriminações de base que sofrem homens e mulheres, principalmente nos locais de trabalho, com principal expressão como sabemos para o sexo feminino.
Monday, February 20, 2006
Fascismo revisitado
O espaço da extrema-direita
Um olhar sobre a história recente da humanidade denuncia as tendências do capitalismo, por ter sido também este a dominá-la. Analisar a história do século XX é, em grande parte, olhar o capitalismo, da sua fase infantil após as embrionárias da revolução industrial, à sua fase mais avançada que hoje ainda tem expressão. Claro que a história do século XX é marcada pela maior insurreição dos trabalhadores que o mundo já conheceu, uma insurreição que daria origem a um Estado Proletário, no rumo do socialismo e do comunismo.
No entanto, é inegável que também merece bastante destaque o avanço do capitalismo, a sua consolidação, contando claro, com as adversidades com que sempre se deparou no quadro da luta de classes, e dos obstáculos anti-capitalistas e anti-imperialistas com que se foi cruzando.
Claro que o que mais marca a história, ainda hoje, é exactamente o confronto incontornável entre as classes de interesses antagónicos, entre os dois pólos das relações de produção, trabalhadores e os detentores de capital. Mas as grandes experiências socialistas fracassaram perante a dimensão titânica que os estados do capital conseguiram alcançar e perante, claro, outros mecanismos que conseguiram criar.
A luta de classes continua a ser o eixo fundamental da história, quer durante os avanços, quer durante os recuos ou crises do capitalismo. Se atentarmos às mais graves crises do capitalismo, veremos que o sistema está disposto a procurar e utilizar formas de organização e exercício políticas que, não sendo as suas opções primárias, constituem os seus braços fortes em ocasiões de desequilíbrio.
O capitalismo, na senda da sua perpetuação enquanto sistema dominante e no aprofundamento da sua capacidade predatória não hesita em recorrer a métodos de ofensiva aberta, deixando a sua posição mais típica em que aplica uma ofensiva mais encapotada.
Perante os graves desequilíbrios dos anos 30, por exemplo, o capitalismo viu-se forçado a criar e a promover forças políticas fascistas, que foram em muitos casos o garante da sobrevivência do próprio sistema. O Capitalismo poderia ter enfrentado uma derrota irrecuperável caso não tivesse existido o contrabalanço do nazi-fascismo, que veio repor privilégios perdidos do capital e das classes que o sustentam, com ramificações por toda a Europa.
O capitalismo, após essa sua fase de promoção da extrema-direita de forma acentuada, preferiu recorrer a métodos menos claros, utilizando, em muitos casos, o próprio sistema democrático, apoiando ditadores, como foi hábito em países espalhados por todo o mundo. Um outro recurso foi a intervenção militar e a agressão, garantindo que o sistema capitalista se podia apoderar de recursos e riquezas naturais dos países mais fracos.
No entanto, só precedendo grandes crises do capitalismo, o próprio sistema decide atribuir importância à extrema-direita, ou melhor, decide deixar-lhe espaço para proliferar e para crescer. No geral, o sistema capitalista consegue sustentar-se na base das falsas democracias, das chamadas democracias ocidentais. Nestes espaços, o poder capitalista consegue, no essencial, promover a sua política, simultaneamente, alimentando a necessidade de qualidade de vida das burguesias em que assenta e aumentando a sua influência sobre outros países que se situam fora da esfera dos ditos civilizados.
No entanto, em períodos de grande crise, as democracias burguesas podem não ser suficientes para garantir o controlo de massas que o capitalismo exige em determinados momentos de maior desequilíbrio no seu próprio sistema. Nesses casos, o leque de recursos do capitalismo abre-se significativamente. A violência, a repressão, a opressão, a censura, a tortura, a eliminação tornam-se instrumentos comuns. Por outras palavras, quando a guerra, as invasões, o saque e a predação não são suficientes para restabelecer o equilíbrio no sistema capitalista, o fascismo e o nazismo servem bastante bem esse desígnio.
O que presenciamos neste momento, na “terra dos valores novos e humanos” – Europa – é exactamente o recrudescer do mais intolerante fascismo. O capital está, de certo modo, a conseguir incutir uma moral como raramente conseguirá ter feito. São muitos aqueles que já alimentam a guerra entre Ocidente e Oriente, Cristo e Maomé, Deus e Alá, Bíblia e Corão nas suas próprias cabeças. E é isso que representa um avanço da extrema-direita. A forma irascível como este assunto tem vindo a ser tratado na comunicação social, pelos próprios governos, pelos clarividentes de algibeira, oops perdão, comentadores políticos, revela exactamente que se tem tentado por todos os meios, exaltar os ódios de ambos os lados.
A extrema-direita, frente de batalha do imperialismo nos momentos mais duros, aí está em força a cumprir o seu papel. Espalhar o ódio e o fundamentalismo. Aqui e lá. É que aqui também existe fundamentalismo e fanatismo, não é só no médio-oriente.
Basta atentar à forma como nos consideramos socialmente superiores aos países do Islão, para detectar fundamentalismo. Basta olhar as páginas dos jornais e ver homens e mulheres chorando e rastejando pelo chão pedindo milagres a nossa senhora em fátima… que pensariam estes se um qualquer cartoonista espetasse com a irmã Lúcia a torturar prisioneiros em Guantanamo?
Um olhar sobre a história recente da humanidade denuncia as tendências do capitalismo, por ter sido também este a dominá-la. Analisar a história do século XX é, em grande parte, olhar o capitalismo, da sua fase infantil após as embrionárias da revolução industrial, à sua fase mais avançada que hoje ainda tem expressão. Claro que a história do século XX é marcada pela maior insurreição dos trabalhadores que o mundo já conheceu, uma insurreição que daria origem a um Estado Proletário, no rumo do socialismo e do comunismo.
No entanto, é inegável que também merece bastante destaque o avanço do capitalismo, a sua consolidação, contando claro, com as adversidades com que sempre se deparou no quadro da luta de classes, e dos obstáculos anti-capitalistas e anti-imperialistas com que se foi cruzando.
Claro que o que mais marca a história, ainda hoje, é exactamente o confronto incontornável entre as classes de interesses antagónicos, entre os dois pólos das relações de produção, trabalhadores e os detentores de capital. Mas as grandes experiências socialistas fracassaram perante a dimensão titânica que os estados do capital conseguiram alcançar e perante, claro, outros mecanismos que conseguiram criar.
A luta de classes continua a ser o eixo fundamental da história, quer durante os avanços, quer durante os recuos ou crises do capitalismo. Se atentarmos às mais graves crises do capitalismo, veremos que o sistema está disposto a procurar e utilizar formas de organização e exercício políticas que, não sendo as suas opções primárias, constituem os seus braços fortes em ocasiões de desequilíbrio.
O capitalismo, na senda da sua perpetuação enquanto sistema dominante e no aprofundamento da sua capacidade predatória não hesita em recorrer a métodos de ofensiva aberta, deixando a sua posição mais típica em que aplica uma ofensiva mais encapotada.
Perante os graves desequilíbrios dos anos 30, por exemplo, o capitalismo viu-se forçado a criar e a promover forças políticas fascistas, que foram em muitos casos o garante da sobrevivência do próprio sistema. O Capitalismo poderia ter enfrentado uma derrota irrecuperável caso não tivesse existido o contrabalanço do nazi-fascismo, que veio repor privilégios perdidos do capital e das classes que o sustentam, com ramificações por toda a Europa.
O capitalismo, após essa sua fase de promoção da extrema-direita de forma acentuada, preferiu recorrer a métodos menos claros, utilizando, em muitos casos, o próprio sistema democrático, apoiando ditadores, como foi hábito em países espalhados por todo o mundo. Um outro recurso foi a intervenção militar e a agressão, garantindo que o sistema capitalista se podia apoderar de recursos e riquezas naturais dos países mais fracos.
No entanto, só precedendo grandes crises do capitalismo, o próprio sistema decide atribuir importância à extrema-direita, ou melhor, decide deixar-lhe espaço para proliferar e para crescer. No geral, o sistema capitalista consegue sustentar-se na base das falsas democracias, das chamadas democracias ocidentais. Nestes espaços, o poder capitalista consegue, no essencial, promover a sua política, simultaneamente, alimentando a necessidade de qualidade de vida das burguesias em que assenta e aumentando a sua influência sobre outros países que se situam fora da esfera dos ditos civilizados.
No entanto, em períodos de grande crise, as democracias burguesas podem não ser suficientes para garantir o controlo de massas que o capitalismo exige em determinados momentos de maior desequilíbrio no seu próprio sistema. Nesses casos, o leque de recursos do capitalismo abre-se significativamente. A violência, a repressão, a opressão, a censura, a tortura, a eliminação tornam-se instrumentos comuns. Por outras palavras, quando a guerra, as invasões, o saque e a predação não são suficientes para restabelecer o equilíbrio no sistema capitalista, o fascismo e o nazismo servem bastante bem esse desígnio.
O que presenciamos neste momento, na “terra dos valores novos e humanos” – Europa – é exactamente o recrudescer do mais intolerante fascismo. O capital está, de certo modo, a conseguir incutir uma moral como raramente conseguirá ter feito. São muitos aqueles que já alimentam a guerra entre Ocidente e Oriente, Cristo e Maomé, Deus e Alá, Bíblia e Corão nas suas próprias cabeças. E é isso que representa um avanço da extrema-direita. A forma irascível como este assunto tem vindo a ser tratado na comunicação social, pelos próprios governos, pelos clarividentes de algibeira, oops perdão, comentadores políticos, revela exactamente que se tem tentado por todos os meios, exaltar os ódios de ambos os lados.
A extrema-direita, frente de batalha do imperialismo nos momentos mais duros, aí está em força a cumprir o seu papel. Espalhar o ódio e o fundamentalismo. Aqui e lá. É que aqui também existe fundamentalismo e fanatismo, não é só no médio-oriente.
Basta atentar à forma como nos consideramos socialmente superiores aos países do Islão, para detectar fundamentalismo. Basta olhar as páginas dos jornais e ver homens e mulheres chorando e rastejando pelo chão pedindo milagres a nossa senhora em fátima… que pensariam estes se um qualquer cartoonista espetasse com a irmã Lúcia a torturar prisioneiros em Guantanamo?
Friday, February 10, 2006
liberdade de imprensa...
Deixo já claro que não sou particular estudioso das questões políticas e sociais do médio-oriente; não sou nem tenho qualquer qualificação que me permita ter o rigor necessário para estabelecer verdades sobre essa matéria; não pretendo no entanto, como outros, fazer crer que possuo tais credenciais. Prefiro que fique já o registo desta advertência. E digo isto porque recorrentemente a televisão e os jornais trazem aos seus programas ou colunas os mesmo do costume, com as opiniões do costume revestidos da esplêndida capa de especialistas disto e daquilo, sem, na verdade, mais não fazerem que veicular as posições oficiais do imperialismo e dos seus directores nevrálgicos.
As questões que se têm vindo a colocar de forma gradativamente mais preocupante em torno de países e povos do médio-oriente, particularmente no que toca ao dito choque ou confronto cultural e religioso com os países ocidentais não têm deixado de nos preocupar sobremaneira. Todos os dias, a cada minuto nos entra de rajada uma notícia, um artigo de opinião, uma foto sobre o que supostamente se passa nesses países árabes. Com a velocidade da modernidade, já nem paramos, muitas vezes, para questionar o lado de cá desta história.
1. Desde há décadas que se tem vindo a criar junto das sociedades ocidentais que o conceito de civilização é-lhes exclusivo, remetendo, implicitamente, todos os países que não reproduzam os seus métodos de organização ou religião para o estatuto de incivilizados ou, à velha moda romana, de bárbaros.
As questões que se têm vindo a colocar de forma gradativamente mais preocupante em torno de países e povos do médio-oriente, particularmente no que toca ao dito choque ou confronto cultural e religioso com os países ocidentais não têm deixado de nos preocupar sobremaneira. Todos os dias, a cada minuto nos entra de rajada uma notícia, um artigo de opinião, uma foto sobre o que supostamente se passa nesses países árabes. Com a velocidade da modernidade, já nem paramos, muitas vezes, para questionar o lado de cá desta história.
1. Desde há décadas que se tem vindo a criar junto das sociedades ocidentais que o conceito de civilização é-lhes exclusivo, remetendo, implicitamente, todos os países que não reproduzam os seus métodos de organização ou religião para o estatuto de incivilizados ou, à velha moda romana, de bárbaros.
2. A cada notícia que passa consolida-se a linguagem ofensiva aos povos que, diferentemente dos da maioria da Europa e da América, não sustentam a sua visão do mundo nas dicotomias do cristianismo, e também àqueles que não partilham da sua mecânica económica capitalista.
3. O conceito de terrorismo começa a alargar-se e a estender-se a movimentos de defesa patriótica, a movimentos revolucionários e a lutas populares de libertação e conquista.
O terrorismo serviu sempre ao longo da História para justificar as incursões agressivas dos mais fortes, tipicamente transformados em mártires.
O terrorismo serviu sempre ao longo da História para justificar as incursões agressivas dos mais fortes, tipicamente transformados em mártires.
4. Conceitos como o de “fanatismo” e “terrorismo”, aludindo a uma inexplicável demência colectiva circunscrita ao islamismo, são cada vez mais irradiados e, sem darmos por isso, começamos a relacionar a tez escurecida, a barba e o turbante com bombas. É curioso, no entanto, que não o façamos quando imaginamos as estrelas e as riscas da bandeira dos EUA que, sozinhos já mataram, por via também do terrorismo organizado, muitos mais seres humanos que todos árabes juntos.
5. A última ofensiva ideológica que nos tem sido dirigida (a dos Cartoons) não tem outro objectivo senão o de criar o caldo cultural e de opinião que permita a caracterização ocidental do Islão como um cancro planetário que urge erradicar. De alguma forma faz-se parecer de todo incompreensível que povos muçulmanos não saibam brincar… Souberam os católicos reagir decentemente quando espetaram, num cartoon português, com um preservativo no nariz do papa? Souberam os católicos manter a dignidade democrática quando passou “a última tentação de Cristo” nas salas de cinema de Roma? E souberam esses ditos civilizados acolher a liberdade de expressão quando Saramago publica um livro que ficciona mordazmente em torno da vida do seu profeta?
6. A liberdade de expressão e de imprensa é um direito inalienável nos países ocidentais é-o porque se enquadra no modelo de sociedade que aqui se tem vindo a construir. Isso não significa que se exija igual aplicação ou compreensão do princípio em países, culturas e povos radicalmente diferentes. Essa liberdade tem vindo a ser o estandarte ocidental deste novo confronto. Aqui. Lá existirá outro.
7. O que importa neste momento ao imperialismo é criar as condições subjectivas que sirvam de pano de fundo a novas agressões, liquidando o direito á diferença, partindo contra os povos que não mostram total submissão. Daí, na Europa nos dizerem que estamos perante um ataque inadmissível à liberdade de imprensa. Daí também os líderes religiosos e políticos árabes utilizaram a raiva à nossa intolerância para justificar a sua.
8. Aqueles que participam nos ataques às embaixadas dinamarquesas e que acalentam a raiva, o ódio, a xenofobia e o confronto titânico dos deuses de uns contra os deuses de outros são tão criminosos quanto aqueles que provocaram os desequilíbrios. O capitalismo é global e a sua influência no ocidente não é diferente daquela que tem no médio-oriente, ainda que, obviamente, com expressões e interesses concretos diferentes.
No entanto, todos os que promovem este caldo de ódio são directa ou indirectamente lacaios do grande e poderoso polvo do capital e do imperialismo norte-americano que, com tudo isto, já se posiciona ávido de arrancar para a sua nova cruzada, babando qual predador perante a presa.
Com isto, lucram os senhores do petróleo de todo o mundo. Lucram os governos corruptos, islâmicos e ocidentais. Lucram as grandes corporações. Com isto, derrama-se o sangue dos povos, manipulados ou não. Perdem-se vidas necessárias para construir um futuro novo.
No entanto, todos os que promovem este caldo de ódio são directa ou indirectamente lacaios do grande e poderoso polvo do capital e do imperialismo norte-americano que, com tudo isto, já se posiciona ávido de arrancar para a sua nova cruzada, babando qual predador perante a presa.
Com isto, lucram os senhores do petróleo de todo o mundo. Lucram os governos corruptos, islâmicos e ocidentais. Lucram as grandes corporações. Com isto, derrama-se o sangue dos povos, manipulados ou não. Perdem-se vidas necessárias para construir um futuro novo.
Friday, January 27, 2006
um terrorista... foi você que pediu?
“Bush diz que os palestinianos têm que arcar com as consequências dos seus actos.” – Sic Notícias – Jornal de síntese
“We do not deal with Hamas. Hamas is a terrorist organization.” Scott Mclellan – Porta-voz da Casa Branca
Ambas as frases foram produzidas no dia 25 de Janeiro de 2006, ou seja, poucas horas após a divulgação do resultado oficial das eleições que tomaram lugar na Palestina, para a escolha do novo governo. Após mais de dez anos de governo sustentado numa maioria parlamentar pelo partido social-democrata e conciliador Fatah, os extremistas do Hamas acabam por vencer as eleições com uma folgada maioria absoluta. A questão que se coloca é: quem ganha com este resultado?
Os desenvolvimentos que advirão desta vitória começam a tornar-se óbvios.
A resposta à pergunta não pode passar sem dois considerandos essenciais:
A Fatah, pelo seu papel de contenção da luta popular, pelo seu carácter submisso às ordens imperialistas e pela governação tipicamente social-democrata por que enveredeou, lançou o povo palestiniano na desilusão perante qualquer tipo de negociação. Na verdade, o caminho da negociação submissa tem conduzido a situação para o acentuar do conflito, para a tomada de localizações estratégicas em terreno palestiniano, para o constante crescimento da tese sionista, enquanto não resolveu os essenciais problemas do povo palestiniano no plano nacional e vendendo, no plano internacional, a dignidade e a soberania da pátria palestiniana.
o papel das organizações que optam, em determinados momentos da história, pelo recurso à violência contra civis, arriscam sempre o desvirtuamento da causa pela qual dizem combater. Daí o facto de muitas destas organizações serem criadas e apoiadas pelos Estados imperialistas, como o flagrante caso da Al-Qaeda, nascida nas fileiras dos Mujaheedeen e dos Taliban, ambas criadas com o investimento dos Estados Unidos da América. O desvirtuamento da causa popular e a sua transformação em violência não é sua característica própria, é antes o primeiro sinal da manipulação da causa pelo seu próprio adversário.
Quem ganha com este resultado é o estado sionista de Israel e seu aliado americano, os EUA. A política de expansão e geodominância característica do imperialismo tem vindo a ser a verdadeira causa do agravamento da tensão e da violência no médio-oriente. Quer os EUA, quer Israel já anunciaram não estar dispostos a continuar a farsa das negociações com uma organização como o Hamas. O caminho está livre, portanto, para a utilização da violência e da destruição em massa da pátria palestiniana. As incursões tenderão a aumentar, com o Hamas fazendo o papel que lhe cabe: o da justificação da agressão.
Naturalmente, as populações do mundo, ainda que manipuladas seriamente pela comunicação social dominante, não toleram a agressão injustificada, nem a violência unilateral que se traduz em invasões ao estilo colonial e na apropriação dos recursos de um povo por um estado que lhe é alheio. No entanto, uma justificação de recurso para essas incursões agressivas, é exactamente o argumento de que o invasor se está simplesmente a defender.
Os EUA e seus cães de fila (Inglaterra, Espanha, Portugal) utilizaram esse pobre argumento após o 11 de Setembro. Utilizaram-no para justificar a invasão do Afeganistão e, de forma contínua para desculpar todos os erros cometidos na invasão do Iraque. De certa forma, o alcance dessa justificação é tal, que ainda hoje serve de pretexto para planificar invasões a Cuba, Venezuela, República Popular Democrática da Coreia, Síria e uns tantos outros incómodos países. Incómodos por terem reservas petrolíferas maiores do que as que deviam, ou, pura e simplesmente, por não acatarem cada ordem mesquinha dos senhores do dinheiro.
A vitória do Hamas é a vitória da política de agressão de Israel e dos EUA. É a vitória do sionismo e do ódio. Com o Hamas no poder, o agressor passa a vítima constante. Os coitadinhos dos judeus, eternos mártires da História, serão agora alvos de intenso terror, fruto do fanatismo inexplicável de uns tantos milhões de muçulmanos passados da cabeça. Está montado palco para a morte vir abraçar mais uns milhares de palestinianos. Está livre o caminho do estado fascista de Israel. O holocausto continua, em chamas fora de fornos, sem calcinações conhecidas. Mas o sacrifício está à vista.
Esperemos nós que deus se retire humildemente desta batalha e deixe expostas as verdadeiras razões daquele sangue.
“We do not deal with Hamas. Hamas is a terrorist organization.” Scott Mclellan – Porta-voz da Casa Branca
Ambas as frases foram produzidas no dia 25 de Janeiro de 2006, ou seja, poucas horas após a divulgação do resultado oficial das eleições que tomaram lugar na Palestina, para a escolha do novo governo. Após mais de dez anos de governo sustentado numa maioria parlamentar pelo partido social-democrata e conciliador Fatah, os extremistas do Hamas acabam por vencer as eleições com uma folgada maioria absoluta. A questão que se coloca é: quem ganha com este resultado?
Os desenvolvimentos que advirão desta vitória começam a tornar-se óbvios.
A resposta à pergunta não pode passar sem dois considerandos essenciais:
A Fatah, pelo seu papel de contenção da luta popular, pelo seu carácter submisso às ordens imperialistas e pela governação tipicamente social-democrata por que enveredeou, lançou o povo palestiniano na desilusão perante qualquer tipo de negociação. Na verdade, o caminho da negociação submissa tem conduzido a situação para o acentuar do conflito, para a tomada de localizações estratégicas em terreno palestiniano, para o constante crescimento da tese sionista, enquanto não resolveu os essenciais problemas do povo palestiniano no plano nacional e vendendo, no plano internacional, a dignidade e a soberania da pátria palestiniana.
o papel das organizações que optam, em determinados momentos da história, pelo recurso à violência contra civis, arriscam sempre o desvirtuamento da causa pela qual dizem combater. Daí o facto de muitas destas organizações serem criadas e apoiadas pelos Estados imperialistas, como o flagrante caso da Al-Qaeda, nascida nas fileiras dos Mujaheedeen e dos Taliban, ambas criadas com o investimento dos Estados Unidos da América. O desvirtuamento da causa popular e a sua transformação em violência não é sua característica própria, é antes o primeiro sinal da manipulação da causa pelo seu próprio adversário.
Quem ganha com este resultado é o estado sionista de Israel e seu aliado americano, os EUA. A política de expansão e geodominância característica do imperialismo tem vindo a ser a verdadeira causa do agravamento da tensão e da violência no médio-oriente. Quer os EUA, quer Israel já anunciaram não estar dispostos a continuar a farsa das negociações com uma organização como o Hamas. O caminho está livre, portanto, para a utilização da violência e da destruição em massa da pátria palestiniana. As incursões tenderão a aumentar, com o Hamas fazendo o papel que lhe cabe: o da justificação da agressão.
Naturalmente, as populações do mundo, ainda que manipuladas seriamente pela comunicação social dominante, não toleram a agressão injustificada, nem a violência unilateral que se traduz em invasões ao estilo colonial e na apropriação dos recursos de um povo por um estado que lhe é alheio. No entanto, uma justificação de recurso para essas incursões agressivas, é exactamente o argumento de que o invasor se está simplesmente a defender.
Os EUA e seus cães de fila (Inglaterra, Espanha, Portugal) utilizaram esse pobre argumento após o 11 de Setembro. Utilizaram-no para justificar a invasão do Afeganistão e, de forma contínua para desculpar todos os erros cometidos na invasão do Iraque. De certa forma, o alcance dessa justificação é tal, que ainda hoje serve de pretexto para planificar invasões a Cuba, Venezuela, República Popular Democrática da Coreia, Síria e uns tantos outros incómodos países. Incómodos por terem reservas petrolíferas maiores do que as que deviam, ou, pura e simplesmente, por não acatarem cada ordem mesquinha dos senhores do dinheiro.
A vitória do Hamas é a vitória da política de agressão de Israel e dos EUA. É a vitória do sionismo e do ódio. Com o Hamas no poder, o agressor passa a vítima constante. Os coitadinhos dos judeus, eternos mártires da História, serão agora alvos de intenso terror, fruto do fanatismo inexplicável de uns tantos milhões de muçulmanos passados da cabeça. Está montado palco para a morte vir abraçar mais uns milhares de palestinianos. Está livre o caminho do estado fascista de Israel. O holocausto continua, em chamas fora de fornos, sem calcinações conhecidas. Mas o sacrifício está à vista.
Esperemos nós que deus se retire humildemente desta batalha e deixe expostas as verdadeiras razões daquele sangue.
Monday, January 23, 2006
um bárbaro para o império
e o capital pariu um presidente da república. fabricado e eleito nos pasquins da famigerada imprensa escrita, entronado pelas cores sensacionalistas e vozes sábias na nossa tv.
perde portugal, perdem os jovens, os trabalhadores, perdemos nós. ganha a direita sedenta dos nossos bolsos e das nossas mentes. ganha o pior que, nós portugueses, temos para mostrar.
ganham os sorrisos de um primeiro-ministro mentiroso e dos seus amigos balofos.
estaremos cá para resistir, para nos plantarmos firmes onde for preciso, para nos movermos erguidos contra os ventos reaccionários. a luta ganha a força que o povo quiser. nós teremos a força que nos for exigida. agora... temos mais um facho com que nos preocupar.
perde portugal, perdem os jovens, os trabalhadores, perdemos nós. ganha a direita sedenta dos nossos bolsos e das nossas mentes. ganha o pior que, nós portugueses, temos para mostrar.
ganham os sorrisos de um primeiro-ministro mentiroso e dos seus amigos balofos.
estaremos cá para resistir, para nos plantarmos firmes onde for preciso, para nos movermos erguidos contra os ventos reaccionários. a luta ganha a força que o povo quiser. nós teremos a força que nos for exigida. agora... temos mais um facho com que nos preocupar.
Friday, January 13, 2006
The constant gardener
The constant gardener… título ainda assim melhor que o português. Não é costume tecer aqui no império, críticas quanto aos filmes que vejo ou não vejo. No entanto, tendo em conta que este levanta aspectos vastos da política e que são dezenas as pessoas que conheço e que falam do filme quase com uma lágrima no olho, decidi deixar aqui o que acho deste filme e deste tipo de filmes.
Do ponto de vista da execução, quer da fotografia, realização ou interpretação, o filme é praticamente imaculado. As cenas tétricas estão conseguidas ao ponto de nos arrancar a lágrima piedosa. A banda sonora é, pura e simplesmente, soberba. Respira-se um mundo diferente a cada plano, cada cena. O argumento, por seu lado, não sendo medíocre, é comum.
Feitas as considerações tecnicistas, para as quais, importará dizer, não sou qualificado, importa ir ao motivo de fundo do filme, o mesmo que me faz escrever. O filme é uma história de amor, ponto. Ainda assim, vários são os jovens adultos que saem do cinema com uma cara de admiração que só lhes fica bem, mas cuja carga de snobismo é indisfarçável. Ao fim daquele filme, fica-nos bem a todos dizer que o filme é excelente, que aquela farmacêutica é muito má e tal.
O filme caracteriza, embrenhado numa história de amor, as operações desumanas de uma farmacêutica no Quénia, dando a entender que estas operações afectam mais países africanos. O filme trata a vida de um conjunto de ditos activistas que tentam desmascarar a dita empresa e o estado britânico que encobre a realização de testes em seres humanos no continente africano.
O que está mal no filme, então? O filme transporta a visão imposta exactamente pelos mesmos que tenta acusar. O filme engrandece o papel de organizações como a Amnistia Internacional e outras ONG´s semelhantes e o dos activistas burgueses da caridade, reduzindo os povos africanos a insignificantes peões no tabuleiro. Insinua-se recorrentemente, através desta visão burguesa, que a emancipação do continente africano é dependente da boa-vontade dos meninos ricos que vestem uma bata e vão 10 anos para África ajudar os coitadinhos. Ninguém, nestes filmes, fala das verdadeiras causas que conduziram África ao estado em que está. Da mesma forma que encobrem o papel ancião dos europeus e o mais recente papel dos Estados Unidos da América no que toca à destruição de África, ensinam-nos agora a magistral tese de que só o homem branco pode salvar o continente negro.
Além disso, de fazer depender a emancipação popular de toda a África da boa-vontade activista, dita humanitária, este filme personifica, numa visão particularmente maniqueísta, a estratégia empresarial das farmacêuticas. Ou seja, a farmacêutica em causa no filme faz o que faz (testes em seres humanos das populações miseráveis do Quénia à revelia do seu conhecimento), porque é dirigida por pessoas sem escrúpulos e de mau carácter. O próprio estado britânico é, de alguma forma, ilibado, porque também aqui, a cobertura que dá às operações da farmacêutica está exclusivamente relacionada com o facto de um senhor sem carácter da diplomacia britânica favorecer a dita empresa em troca de empregos criados em solo britânico.
Ou seja, a engrenagem do sistema capitalista, verdadeiro gerador desta e outras atrocidades diariamente cometidas há mais de uma centena de anos, não é, em momento algum, posta em causa pelo filme. A burguesia abandona a sala de cinema, com a sua lágrima pendendo do olho, com a mesma sensação de quem observa as fotos de meninos negros que morrem de fome como contemplando arte, com a mesma sensação que tem a beata quando deixa duas moedas ao senhor sem pernas à porta da igreja.
Podem esperar os quenianos, os sudaneses, os somalis, os etíopes, os eritreus, os djibutianos e os outros coitadinhos que a boa-vontade dos brancos lhes dê para sarar as feridas de outros países que não os seus. O colonialismo britânico, italiano, francês, as incursões militares dos Estados Unidos durante os anos 80 e 90 na maioria destes países, a destruição da revolução socialista da Etiópia, as guerras civis a mando das potências colonialistas e alimentadas pela indústria do armamento, o saque dos poucos recursos naturais do corno de África e a implantação geoestratégica e militar da grande potência imperialista são tudo factores desprezados por estes filmes e por esta visão do mundo. A distribuição da riqueza desequilibrada, o desmantelamento do sistema social dos povos, a exploração desenfreada destas populações como seres humanos descartáveis por parte das multinacionais, o abandono do investimento após a destruição dos países e o usufruto dos benefícios geoestratégicos, a imposição de modelos políticos desadequados, a divisão artificial dos povos, tudo isto, imposições estrangeiras, nunca são referidas nem acusadas.
O episódio retratado pelo filme “the constant gardener” não é um episódio… é uma característica natural do sistema capitalista. Não encontra a sua solução no activismo voluntarista da burguesia. Não a encontrará no preenchimento de cargos de direcção das multinacionais por pessoas de bom coração, escrupulosas ou bondosas. Não a encontrará na evangelização dos povos muçulmanos do Corno de África, nem na intervenção dos senhores doutores dos médicos sem fronteiras, nem aterragem de farinhas recolhidas nos supermercados dos brancos.
É tudo isto que faltava mostrar, para que esta história de amor passasse disso mesmo. Para que o filme deixasse de ser uma mera estetização da miséria com o aproveitamento comercial do sofrimento da criança africana, faltava-lhe dizer a verdade.
O filme é, um thriller com uma história de amor, ao estilo de um Alfaiate do Panamá, nem mais, nem menos.
Do ponto de vista da execução, quer da fotografia, realização ou interpretação, o filme é praticamente imaculado. As cenas tétricas estão conseguidas ao ponto de nos arrancar a lágrima piedosa. A banda sonora é, pura e simplesmente, soberba. Respira-se um mundo diferente a cada plano, cada cena. O argumento, por seu lado, não sendo medíocre, é comum.
Feitas as considerações tecnicistas, para as quais, importará dizer, não sou qualificado, importa ir ao motivo de fundo do filme, o mesmo que me faz escrever. O filme é uma história de amor, ponto. Ainda assim, vários são os jovens adultos que saem do cinema com uma cara de admiração que só lhes fica bem, mas cuja carga de snobismo é indisfarçável. Ao fim daquele filme, fica-nos bem a todos dizer que o filme é excelente, que aquela farmacêutica é muito má e tal.
O filme caracteriza, embrenhado numa história de amor, as operações desumanas de uma farmacêutica no Quénia, dando a entender que estas operações afectam mais países africanos. O filme trata a vida de um conjunto de ditos activistas que tentam desmascarar a dita empresa e o estado britânico que encobre a realização de testes em seres humanos no continente africano.
O que está mal no filme, então? O filme transporta a visão imposta exactamente pelos mesmos que tenta acusar. O filme engrandece o papel de organizações como a Amnistia Internacional e outras ONG´s semelhantes e o dos activistas burgueses da caridade, reduzindo os povos africanos a insignificantes peões no tabuleiro. Insinua-se recorrentemente, através desta visão burguesa, que a emancipação do continente africano é dependente da boa-vontade dos meninos ricos que vestem uma bata e vão 10 anos para África ajudar os coitadinhos. Ninguém, nestes filmes, fala das verdadeiras causas que conduziram África ao estado em que está. Da mesma forma que encobrem o papel ancião dos europeus e o mais recente papel dos Estados Unidos da América no que toca à destruição de África, ensinam-nos agora a magistral tese de que só o homem branco pode salvar o continente negro.
Além disso, de fazer depender a emancipação popular de toda a África da boa-vontade activista, dita humanitária, este filme personifica, numa visão particularmente maniqueísta, a estratégia empresarial das farmacêuticas. Ou seja, a farmacêutica em causa no filme faz o que faz (testes em seres humanos das populações miseráveis do Quénia à revelia do seu conhecimento), porque é dirigida por pessoas sem escrúpulos e de mau carácter. O próprio estado britânico é, de alguma forma, ilibado, porque também aqui, a cobertura que dá às operações da farmacêutica está exclusivamente relacionada com o facto de um senhor sem carácter da diplomacia britânica favorecer a dita empresa em troca de empregos criados em solo britânico.
Ou seja, a engrenagem do sistema capitalista, verdadeiro gerador desta e outras atrocidades diariamente cometidas há mais de uma centena de anos, não é, em momento algum, posta em causa pelo filme. A burguesia abandona a sala de cinema, com a sua lágrima pendendo do olho, com a mesma sensação de quem observa as fotos de meninos negros que morrem de fome como contemplando arte, com a mesma sensação que tem a beata quando deixa duas moedas ao senhor sem pernas à porta da igreja.
Podem esperar os quenianos, os sudaneses, os somalis, os etíopes, os eritreus, os djibutianos e os outros coitadinhos que a boa-vontade dos brancos lhes dê para sarar as feridas de outros países que não os seus. O colonialismo britânico, italiano, francês, as incursões militares dos Estados Unidos durante os anos 80 e 90 na maioria destes países, a destruição da revolução socialista da Etiópia, as guerras civis a mando das potências colonialistas e alimentadas pela indústria do armamento, o saque dos poucos recursos naturais do corno de África e a implantação geoestratégica e militar da grande potência imperialista são tudo factores desprezados por estes filmes e por esta visão do mundo. A distribuição da riqueza desequilibrada, o desmantelamento do sistema social dos povos, a exploração desenfreada destas populações como seres humanos descartáveis por parte das multinacionais, o abandono do investimento após a destruição dos países e o usufruto dos benefícios geoestratégicos, a imposição de modelos políticos desadequados, a divisão artificial dos povos, tudo isto, imposições estrangeiras, nunca são referidas nem acusadas.
O episódio retratado pelo filme “the constant gardener” não é um episódio… é uma característica natural do sistema capitalista. Não encontra a sua solução no activismo voluntarista da burguesia. Não a encontrará no preenchimento de cargos de direcção das multinacionais por pessoas de bom coração, escrupulosas ou bondosas. Não a encontrará na evangelização dos povos muçulmanos do Corno de África, nem na intervenção dos senhores doutores dos médicos sem fronteiras, nem aterragem de farinhas recolhidas nos supermercados dos brancos.
É tudo isto que faltava mostrar, para que esta história de amor passasse disso mesmo. Para que o filme deixasse de ser uma mera estetização da miséria com o aproveitamento comercial do sofrimento da criança africana, faltava-lhe dizer a verdade.
O filme é, um thriller com uma história de amor, ao estilo de um Alfaiate do Panamá, nem mais, nem menos.
Friday, January 06, 2006
O simbionte parasita
Cerca de 200 anos de consolidação prática de um dos ideais mais predatórios da história da humanidade, fizeram também dele, um edifício social e orgânico permanentemente mutável e adaptável, deram-lhe capacidades de inteligência até hoje imbatíveis, mas não lhe retiraram o carácter autofágico e suicida que lhe é inerente e indissociável.
O capitalismo, tal como o conhecemos agora e mesmo nesta sua expressão imperialista, tem longa prática, longos anos de experiência, absorvendo na maioria das situações as maiores criações da humanidade para a satisfação das necessidades desse sistema, colocando a ciência e a economia ao serviço da sua sustentação e, sempre que possível, do seu próprio avanço político e estratégico.
A ofensiva ideológica é de tal forma brutal que a propaganda atinge graus de requinte nunca antes vistos. Num momento histórico em que, supostamente, a humanidade no geral devia estar mais capaz de analisar o meio, de interpretar a realidade e as formas de agir sobre ela, o capitalismo utiliza os mecanismos mais contraditórios de propaganda, assentes em raciocínios deveras elementares, mas ainda assim, muitas vezes praticamente indecifráveis. Os sinais são-nos dados diariamente, a cada segundo, em cada noticiário, em cada aula na escola, em cada dia de trabalho, em cada jornal. Mas tudo se torna bastante mais grave quando o capital detém inteiramente as forças governantes. Claro que isso acontece praticamente desde que existe capitalismo. Rapidamente o capital entendeu que, mesmo o parlamentarismo e as democracias representativas o podiam servir na perfeição, quem sabe, melhor até que uma assumida ditadura. A ilusão é a mais poderosa arma do capitalismo e do patronato. Numa altura em que a repressão não pode atingir os contornos que já atingiu – o que não quer dizer que não torne o capital a utilizá-la de forma massificada, caso entenda que é esse o recurso que mais o serve num futuro – o capital desenvolve novas formas de opressão.
A ofensiva ideológica que presenciamos actualmente é global e, obviamente, toma expressões diversas. Mas uma das suas formas mais preocupantes é a manipulação directa do raciocínio do indivíduo e dos colectivos, por via, quer de um controlo dos conteúdos educacionais, quer do recurso constante aos instrumentos de pressão social de que dispõe um estado. A utilização do Estado para servir o capital, no quadro da sua influência propagandística é um meio típico e habitual do capitalismo, complementado por uma forma de acção semelhante por parte dos partidos burgueses que disputam o poder executivo de um estado capitalista.
Indirectamente já nos remetemos a este assunto noutros posts. Hoje, quando subia um qualquer lance de escadas, revoltei-me com uma artimanha do capital admirável: fazer crer às massas trabalhadoras que o seu bem-estar depende do bem-estar e avanço do próprio capital. Curiosamente, esta relação é unívoca. O capital não assume, pelo contrário, combate a ideia de que o bem-estar das empresas depende do aumento do bem-estar dos trabalhadores.
Incontornavelmente, os interesses destes dois pólos (porque o capital não é propriamente uma classe, sendo representado por várias) são inconciliáveis. Existe um antagonismo insanável. Os trabalhadores anseiam a melhoria das suas condições de vida, dependente do valor dos seus salários e dos serviços públicos capazes de serem prestado pelo Estado. O capital aspira à maior arrecadação de lucro possível, extraído directamente do produto do trabalho dos outros. Ou seja, a razão lucro/salário deve ser sempre a maior possível para satisfazer o capital, verificando-se o inverso para os trabalhadores. À medida que essa taxa diminui o capital perde terreno. E é da diminuição dessa taxa que depende a qualidade de vida dos trabalhadores, bem como a capacidade de qualquer Estado de garantir os serviços básicos à sua população.
Não é raro, antes recorrente, ouvir o governo e os partidos burgueses, argumentarem constantemente com este postulado. A diminuição dos salários reais, por exemplo, ilustra perfeitamente esta concepção. Quanto menores forem os salários, mais vontade de investimento terá o capital privado, sabendo à partida que retirará mais lucros da sua actividade, ou seja, sabe de antemão que disporá de uma razão lucro/salário elevada. Ora, só por si, isto contraria a tese de que existe uma relação simbiótica entre trabalho e capital. Existe sim, uma relação parasitária entre estas duas forças.
Desiludam-se portanto aqueles que descansam ao ouvirem falar de grandes lucros, ou aqueles que suspiram de alívio quando ouvem dizer que tudo será privado porque os serviços públicos não prestam. Desiludam-se aqueles que esperam da florescência do mercado de capitais e do crescimento dos lucros advenientes da especulação uma melhoria concreta nas suas condições de vida. O capital, enquanto dominar, proporcionará aos trabalhadores exactamente o grau de qualidade de vida que julgar essencial para o cumprimento efectivo das tarefas que cabem aos trabalhadores. O capitalismo não anseia a sua própria ruptura e vem tratando a suas feridas provisoriamente e de forma remediada há muito, o que conduzirá a uma exposição cada vez maior das suas contradições internas, bem como das suas consequências junto dos povos.
O capitalismo, tal como o conhecemos agora e mesmo nesta sua expressão imperialista, tem longa prática, longos anos de experiência, absorvendo na maioria das situações as maiores criações da humanidade para a satisfação das necessidades desse sistema, colocando a ciência e a economia ao serviço da sua sustentação e, sempre que possível, do seu próprio avanço político e estratégico.
A ofensiva ideológica é de tal forma brutal que a propaganda atinge graus de requinte nunca antes vistos. Num momento histórico em que, supostamente, a humanidade no geral devia estar mais capaz de analisar o meio, de interpretar a realidade e as formas de agir sobre ela, o capitalismo utiliza os mecanismos mais contraditórios de propaganda, assentes em raciocínios deveras elementares, mas ainda assim, muitas vezes praticamente indecifráveis. Os sinais são-nos dados diariamente, a cada segundo, em cada noticiário, em cada aula na escola, em cada dia de trabalho, em cada jornal. Mas tudo se torna bastante mais grave quando o capital detém inteiramente as forças governantes. Claro que isso acontece praticamente desde que existe capitalismo. Rapidamente o capital entendeu que, mesmo o parlamentarismo e as democracias representativas o podiam servir na perfeição, quem sabe, melhor até que uma assumida ditadura. A ilusão é a mais poderosa arma do capitalismo e do patronato. Numa altura em que a repressão não pode atingir os contornos que já atingiu – o que não quer dizer que não torne o capital a utilizá-la de forma massificada, caso entenda que é esse o recurso que mais o serve num futuro – o capital desenvolve novas formas de opressão.
A ofensiva ideológica que presenciamos actualmente é global e, obviamente, toma expressões diversas. Mas uma das suas formas mais preocupantes é a manipulação directa do raciocínio do indivíduo e dos colectivos, por via, quer de um controlo dos conteúdos educacionais, quer do recurso constante aos instrumentos de pressão social de que dispõe um estado. A utilização do Estado para servir o capital, no quadro da sua influência propagandística é um meio típico e habitual do capitalismo, complementado por uma forma de acção semelhante por parte dos partidos burgueses que disputam o poder executivo de um estado capitalista.
Indirectamente já nos remetemos a este assunto noutros posts. Hoje, quando subia um qualquer lance de escadas, revoltei-me com uma artimanha do capital admirável: fazer crer às massas trabalhadoras que o seu bem-estar depende do bem-estar e avanço do próprio capital. Curiosamente, esta relação é unívoca. O capital não assume, pelo contrário, combate a ideia de que o bem-estar das empresas depende do aumento do bem-estar dos trabalhadores.
Incontornavelmente, os interesses destes dois pólos (porque o capital não é propriamente uma classe, sendo representado por várias) são inconciliáveis. Existe um antagonismo insanável. Os trabalhadores anseiam a melhoria das suas condições de vida, dependente do valor dos seus salários e dos serviços públicos capazes de serem prestado pelo Estado. O capital aspira à maior arrecadação de lucro possível, extraído directamente do produto do trabalho dos outros. Ou seja, a razão lucro/salário deve ser sempre a maior possível para satisfazer o capital, verificando-se o inverso para os trabalhadores. À medida que essa taxa diminui o capital perde terreno. E é da diminuição dessa taxa que depende a qualidade de vida dos trabalhadores, bem como a capacidade de qualquer Estado de garantir os serviços básicos à sua população.
Não é raro, antes recorrente, ouvir o governo e os partidos burgueses, argumentarem constantemente com este postulado. A diminuição dos salários reais, por exemplo, ilustra perfeitamente esta concepção. Quanto menores forem os salários, mais vontade de investimento terá o capital privado, sabendo à partida que retirará mais lucros da sua actividade, ou seja, sabe de antemão que disporá de uma razão lucro/salário elevada. Ora, só por si, isto contraria a tese de que existe uma relação simbiótica entre trabalho e capital. Existe sim, uma relação parasitária entre estas duas forças.
Desiludam-se portanto aqueles que descansam ao ouvirem falar de grandes lucros, ou aqueles que suspiram de alívio quando ouvem dizer que tudo será privado porque os serviços públicos não prestam. Desiludam-se aqueles que esperam da florescência do mercado de capitais e do crescimento dos lucros advenientes da especulação uma melhoria concreta nas suas condições de vida. O capital, enquanto dominar, proporcionará aos trabalhadores exactamente o grau de qualidade de vida que julgar essencial para o cumprimento efectivo das tarefas que cabem aos trabalhadores. O capitalismo não anseia a sua própria ruptura e vem tratando a suas feridas provisoriamente e de forma remediada há muito, o que conduzirá a uma exposição cada vez maior das suas contradições internas, bem como das suas consequências junto dos povos.
Queres saudinha? Paga!
Hoje foi discutido na Assembleia da República um Projecto de Lei do PCP que sustentava a revogação das taxas revogadoras praticadas no serviço nacional de saúde. A direita uniu-se, com a mãozinha do Partido Socialista, também ele cada vez mais posicionado à direita e mais uma vez manifestou a sua visão retrógrada perante os serviços públicos.
A verdade é que a política deste governo tem estado apostada no desmantelamento dos serviços públicos, não fazendo excepção do Serviço Nacional de Saúde, conquista irrevogável da Revolução Democrática de Abril. Das bancadas da direita, contando sempre a partir do corredor que divide as bancadas do PS e do PCP, sentiu-se o maior repúdio pela população. Acusou de tudo os portugueses que recorrem às urgências dos hospitais. Acusou-os de despesistas, alarmistas, abusadores, hipocondríacos, enfim… PS, PSD e CDS foram tão unânimes quanto reaccionários, sustentando que as pessoas vão às urgências porque este serviço é barato. Para estes partidos, o pessoal, os velhotes e tudo, vão às urgências porque curtem a cena de passar 5 a 6 horas num hall mal-cheiroso, onde se vê de tudo, desde o toxicodependente a vomitar ao nosso lado, ao velhote cadavérico que morre ali mesmo no corredor ao lado sem sequer um familiar que o abrace no último fôlego.
É isto mesmo. Eu, que me dirijo sempre que necessário às urgências dos hospitais públicos, gosto tanto de lá ir como de passear junto ao rio numa tarde soalheira. Aliás, como aquilo até me sai mais barato que umas bjecas na cervejaria mais próxima, vou ali desbundar uma beca as urgências do hospital, às vezes até convido os meus amigos e fazemos lá grandes festas.
E é muita giro! Mesmo ao nosso lado costuma estar sempre a acontecer uma rave da terceira idade reumática e hipertensa. São um clube muito restrito, porque não basta ser velho, tem de se ser também reumático e hipertenso.
Ora bem, para estes partidos, a desculpa é a seguinte: “Se houver taxas moderadoras, o pessoal não abusa dos hospitais.” Na verdade escondem a real intenção – fazer pagar pelo serviço público, pois é esse o primeiro passo para acabar com ele. Aquilo que é pago não é público, é híbrido… está na fronteira entre o público e o que em breve será privado. Utilizarei como ilustração a Educação. A educação pública era gratuita logo após o vinte e cinco de Abril. O governo de Cavaco Silva introduziu novamente o pagamento da taxa, vulgo propina, e daí até essa taxa atingir valores completamente descabidos foi espaço curtíssimo de tempo. Os estudantes permitiram a introdução da propina… o que estava em causa não era tanto o seu valor, mas a sua carga ideológica, o seu significado político e social.
Acontece que hoje, muito pouco tempo depois (cerca de 15-20 anos) as propinas já estão em 900€ e já impedem muita gente de estudar. Isto veio sem dúvida constituir o grande passo em frente do Ensino Superior Privado. Cada vez é mais semelhante o valor da propina no público e no privado. Quem ganha? A rede privada de educação que, curiosamente, consegue cobrir todo o território nacional, proeza que não consegue a rede pública universitária.
Ora, com a saúde está a passar-se o mesmo. A introdução da taxa moderadora, escudada num conjunto demagógico de pretextos, não é mais do que o início da mercantilização da saúde. Quem não quer uma saúde pública gratuita são as grandes empresas que exploram agora hospitais. A saúde pode ser uma autêntica máquina de fazer dinheiro, porque é algo a que não podemos escapar, se estamos doentes, temos de ir…
As taxas moderadoras continuam a existir… barbaramente. Irão aumentar, barbara e desproporcionadamente. Quem ganha? Ganha o neo-liberalismo e os hospitais e clínicas privadas. Quando for impossível recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, quer pelos exagerados preços, quer pela fraca prestação de um serviço que tem vindo a ser desmantelado, então os utentes serão obrigados a ir ao privado. Quando não restar um centro de saúde para escoar doenças menos urgentes, quando no hospital público, ao invés de esperarmos as 5 horas habituais pelo atendimento, esperarmos 10 por não existirem médicos no sector público, então, serão os privados a solução. Tudo bem… para quem? Para quem tiver dinheiro para pagar… quem não tiver… morra longe.
Isto está cada vez mais uma América. Acabe-se com a hipocrisia. É tempo de ir aos bolsos de quem tem dinheiro. Porque é que a banca e o sector financeiro pagam quantias miseráveis de impostos, quando são os sectores que mais lucram? Porque é que as transacções bolsistas não pagam impostos sobre as suas mais-valias? Para não ir a estes bolsos gigantescos buscar dinheiro e, pelo contrário, para os enriquecer cada vez vez mais temos cá o PS, o PSD e o CDS, paladinos do lucro, da desumanização e da exploração, sob a capa da hipocrisia e das lágrimas nos olhos pelos pobrezinhos.
A verdade é que a política deste governo tem estado apostada no desmantelamento dos serviços públicos, não fazendo excepção do Serviço Nacional de Saúde, conquista irrevogável da Revolução Democrática de Abril. Das bancadas da direita, contando sempre a partir do corredor que divide as bancadas do PS e do PCP, sentiu-se o maior repúdio pela população. Acusou de tudo os portugueses que recorrem às urgências dos hospitais. Acusou-os de despesistas, alarmistas, abusadores, hipocondríacos, enfim… PS, PSD e CDS foram tão unânimes quanto reaccionários, sustentando que as pessoas vão às urgências porque este serviço é barato. Para estes partidos, o pessoal, os velhotes e tudo, vão às urgências porque curtem a cena de passar 5 a 6 horas num hall mal-cheiroso, onde se vê de tudo, desde o toxicodependente a vomitar ao nosso lado, ao velhote cadavérico que morre ali mesmo no corredor ao lado sem sequer um familiar que o abrace no último fôlego.
É isto mesmo. Eu, que me dirijo sempre que necessário às urgências dos hospitais públicos, gosto tanto de lá ir como de passear junto ao rio numa tarde soalheira. Aliás, como aquilo até me sai mais barato que umas bjecas na cervejaria mais próxima, vou ali desbundar uma beca as urgências do hospital, às vezes até convido os meus amigos e fazemos lá grandes festas.
E é muita giro! Mesmo ao nosso lado costuma estar sempre a acontecer uma rave da terceira idade reumática e hipertensa. São um clube muito restrito, porque não basta ser velho, tem de se ser também reumático e hipertenso.
Ora bem, para estes partidos, a desculpa é a seguinte: “Se houver taxas moderadoras, o pessoal não abusa dos hospitais.” Na verdade escondem a real intenção – fazer pagar pelo serviço público, pois é esse o primeiro passo para acabar com ele. Aquilo que é pago não é público, é híbrido… está na fronteira entre o público e o que em breve será privado. Utilizarei como ilustração a Educação. A educação pública era gratuita logo após o vinte e cinco de Abril. O governo de Cavaco Silva introduziu novamente o pagamento da taxa, vulgo propina, e daí até essa taxa atingir valores completamente descabidos foi espaço curtíssimo de tempo. Os estudantes permitiram a introdução da propina… o que estava em causa não era tanto o seu valor, mas a sua carga ideológica, o seu significado político e social.
Acontece que hoje, muito pouco tempo depois (cerca de 15-20 anos) as propinas já estão em 900€ e já impedem muita gente de estudar. Isto veio sem dúvida constituir o grande passo em frente do Ensino Superior Privado. Cada vez é mais semelhante o valor da propina no público e no privado. Quem ganha? A rede privada de educação que, curiosamente, consegue cobrir todo o território nacional, proeza que não consegue a rede pública universitária.
Ora, com a saúde está a passar-se o mesmo. A introdução da taxa moderadora, escudada num conjunto demagógico de pretextos, não é mais do que o início da mercantilização da saúde. Quem não quer uma saúde pública gratuita são as grandes empresas que exploram agora hospitais. A saúde pode ser uma autêntica máquina de fazer dinheiro, porque é algo a que não podemos escapar, se estamos doentes, temos de ir…
As taxas moderadoras continuam a existir… barbaramente. Irão aumentar, barbara e desproporcionadamente. Quem ganha? Ganha o neo-liberalismo e os hospitais e clínicas privadas. Quando for impossível recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, quer pelos exagerados preços, quer pela fraca prestação de um serviço que tem vindo a ser desmantelado, então os utentes serão obrigados a ir ao privado. Quando não restar um centro de saúde para escoar doenças menos urgentes, quando no hospital público, ao invés de esperarmos as 5 horas habituais pelo atendimento, esperarmos 10 por não existirem médicos no sector público, então, serão os privados a solução. Tudo bem… para quem? Para quem tiver dinheiro para pagar… quem não tiver… morra longe.
Isto está cada vez mais uma América. Acabe-se com a hipocrisia. É tempo de ir aos bolsos de quem tem dinheiro. Porque é que a banca e o sector financeiro pagam quantias miseráveis de impostos, quando são os sectores que mais lucram? Porque é que as transacções bolsistas não pagam impostos sobre as suas mais-valias? Para não ir a estes bolsos gigantescos buscar dinheiro e, pelo contrário, para os enriquecer cada vez vez mais temos cá o PS, o PSD e o CDS, paladinos do lucro, da desumanização e da exploração, sob a capa da hipocrisia e das lágrimas nos olhos pelos pobrezinhos.
Sunday, January 01, 2006
Thursday, December 15, 2005
Valha-nos a razão que não temos
Não encontrei texto épico que pudesse ser base de sustento para o episódio que vivemos actualmente. Não há lusíadas, ilíada, odisseia, eneída nem outra qualquer composição heróica que ilustre as peripécias com que se cruza o colectivo português nesta sua fase, que de histórica só tem a tristeza, a desilusão e a vergonha.
Refiro-me, claro, à vergonha a que estamos sujeitos, como joguetes nas mãos das entidades do Olimpo, dos céus ou dos infernos. Claro, que, inevitavelmente (esperamos nós), o circo tem de se repetir em torno da escolha do presidente da república, pelo menos de 5 em 5 anos.
Mas o que já não era tão necessário, era a forma crescentemente decadente com que se tratam estas eleições nacionais. A desvalorização permanente em torno da figura do Presidente da República, a ascensão mítica da necessidade de reforçar o papel do presidente e da criação de um regime presidencialista à boa maneira norte-americana, são dois dos argumentos bafientos que, gradualmente e entre outros, nos impingem.
Cinco candidatos. Caso curioso. Em que diferem? O que está em jogo?
Para variar, a imprensa, a rádio e a Televisão fazem tudo para circunscrever a batalha eleitoral a este ou aquele candidato que melhor serve os interesses que manipulam esses mesmos órgãos de comunicação social. Ora, se os donos dos jornais, das rádios e das televisões apoiam determinado candidato, seríamos todos ingénuos, senão otários, em crer que os seus tentáculos comunicativos pudessem ser, efectivamente e como se afirmam, isentos. Na forma como se encara a realidade, particularmente na forma como se a interpreta, não há lugar a isenções. Eu não posso, não consigo, nem quero, ser imparcial… mas assumo-o. Quem ler isto, está desde o cabeçalho da página, avisado de que está sujeito a levar com uma opinião parcial, sinistra.
No entanto, abundam os jornais nacionais, regionais e locais, pejados de imparcialidade falsa, como abundam noticiários por rádio e televisão que se afirmam responsáveis e isentos, sem que na verdade o sejam.
Podemos ser acusados de tudo, mas não nos acusem de falsidade. Está assumida a nossa parcialidade. Parcialidade essa que é, simultaneamente, um apelo à inteligência. Não vendemos nada. Não apoiamos Jerónimo de Sousa só porque é quem fala melhor, mas porque é aquele único candidato que está do mesmo lado que nós. Assumimo-lo, sem qualquer espécie de prurido. O mesmo não são capazes de fazer os senhores que apoiam Cavaco. Escondem-se por detrás da capa da isenção, da seriedade…
Ainda há dois ou três dias atrás, num debate transmitido pela TV, confrontaram ideias Jerónimo de Sousa, candidato que se compromete com os trabalhadores, e Cavaco, candidato comprometido com o dinheiro dos seus patrões. E, pasme-se, vi o debate de fio a pavio e achei que o Cavaco foi muito pobre… Já o sabia miserável, mas nunca ao ponto de chamar a sua própria Maria para o debate, para justificar o quanto gosta de mulheres – “Lá em casa a minha mulher ri-se muito” – só visto. Cavaco insistiu nas concepções vagas de desenvolvimento económico, competitividade, inovação… mas não disse uma palavra sobre o desmantelamento do aparelho produtivo. Justificou novamente os seus actos de prepotência quando investiu contra manifestantes recorrendo às forças de segurança nacionais. Fingiu uma preocupação social que nunca soube sequer o que significa. Falou a custo sobre racismo e imigração, engolindo as palavras que proferia como se fossem pedras insolúveis na saliva do seu pensamento. “Eu rejeito o racismo” dizia, com o ar de quem engole fel e sorri para não ser mal-educado. Hoje lia-se no Diário de Notícias, pela pena do mais ordinário dos ordinários que teria sido genial a tirada: “Olhe que não… olhe que não”… Genial!? O Cavaco vinha com a piada preparada de casa, provavelmente enfiada na sua parca cabecinha por um dos seus bem pagos assessores de campanha, ou managers, ou que raio são. Além disso, reconhecê-la como genial é, no mínimo, depreciativo do sujeito e da sua fasquia para o “genial”.
Jerónimo de Sousa, por seu lado, não foi excepcional, não foi genial, não é diferente de si próprio. Coloca-se, verdadeiramente, num discurso que ele moldou, mas que também o moldou a ele. Defende o que diz e diz o que defende, ao contrário de Cavaco Silva que, manifestamente, adapta o discurso à circunstância, não preenchendo nunca as lacunas. No discurso do Cavaco estão todas as palavras sonoras, mas não assume verbalmente, nem por uma vez, o carácter ideológico da sua candidatura. Salvo quando lhe foge o pobre raciocínio para a boca.
Naquele debate, independentemente da nossa parcialidade inevitável, Jerónimo foi mais sincero, mais frontal, menos esguio, menos falso. Naquele debate ou tempo de antena partilhado – porque de debate tem muito pouco este novo modelo americanóide, feito á imagem do que convém ao Cavaco – Naquele debate, Jerónimo mostrou que, independentemente do que não diga agora o candidato da direita, ele está incontornavelmente apostado na escalada reaccionária contra a essência da Constituição da República Portuguesa. Mostrou que, na sua simplicidade, é Homem para assumir a defesa dos trabalhadores, porque defendê-los é defender exactamente a constituição. É uma simplicidade determinada, de quem está inteiramente ao lado dos que trabalham e dos que são explorados. Um Jerónimo que se mostrou como o único, juntando outros elementos ao debate, capaz de promover uma ruptura democrática com a entrega do nosso país ao capital e ao capital transnacional.
Mas para o génio miserável do Diário de Notícias, triste traste da direita portuguesa, comprometido com a isenção. Ali escarrou um texto vergonhoso, provavelmente escrito à última da hora, só para fazer o frete para que foi pago.
Para ele, pouco importa que Cavaco tenha vendido Portugal ao desbarato, garantido um défice das contas públicas historicamente alto, para ele pouco importa que Cavaco tenha voltado a justificar todas as medidas que tomou no passado. Para ele pouco importa que Cavaco tenha sido um pobre exemplo da pose de Estado, desde o seu aspecto físico ao seu timbre bolorento de voz, passando essencialmente pela sua pobreza ideológica e argumentativa.
Refiro-me, claro, à vergonha a que estamos sujeitos, como joguetes nas mãos das entidades do Olimpo, dos céus ou dos infernos. Claro, que, inevitavelmente (esperamos nós), o circo tem de se repetir em torno da escolha do presidente da república, pelo menos de 5 em 5 anos.
Mas o que já não era tão necessário, era a forma crescentemente decadente com que se tratam estas eleições nacionais. A desvalorização permanente em torno da figura do Presidente da República, a ascensão mítica da necessidade de reforçar o papel do presidente e da criação de um regime presidencialista à boa maneira norte-americana, são dois dos argumentos bafientos que, gradualmente e entre outros, nos impingem.
Cinco candidatos. Caso curioso. Em que diferem? O que está em jogo?
Para variar, a imprensa, a rádio e a Televisão fazem tudo para circunscrever a batalha eleitoral a este ou aquele candidato que melhor serve os interesses que manipulam esses mesmos órgãos de comunicação social. Ora, se os donos dos jornais, das rádios e das televisões apoiam determinado candidato, seríamos todos ingénuos, senão otários, em crer que os seus tentáculos comunicativos pudessem ser, efectivamente e como se afirmam, isentos. Na forma como se encara a realidade, particularmente na forma como se a interpreta, não há lugar a isenções. Eu não posso, não consigo, nem quero, ser imparcial… mas assumo-o. Quem ler isto, está desde o cabeçalho da página, avisado de que está sujeito a levar com uma opinião parcial, sinistra.
No entanto, abundam os jornais nacionais, regionais e locais, pejados de imparcialidade falsa, como abundam noticiários por rádio e televisão que se afirmam responsáveis e isentos, sem que na verdade o sejam.
Podemos ser acusados de tudo, mas não nos acusem de falsidade. Está assumida a nossa parcialidade. Parcialidade essa que é, simultaneamente, um apelo à inteligência. Não vendemos nada. Não apoiamos Jerónimo de Sousa só porque é quem fala melhor, mas porque é aquele único candidato que está do mesmo lado que nós. Assumimo-lo, sem qualquer espécie de prurido. O mesmo não são capazes de fazer os senhores que apoiam Cavaco. Escondem-se por detrás da capa da isenção, da seriedade…
Ainda há dois ou três dias atrás, num debate transmitido pela TV, confrontaram ideias Jerónimo de Sousa, candidato que se compromete com os trabalhadores, e Cavaco, candidato comprometido com o dinheiro dos seus patrões. E, pasme-se, vi o debate de fio a pavio e achei que o Cavaco foi muito pobre… Já o sabia miserável, mas nunca ao ponto de chamar a sua própria Maria para o debate, para justificar o quanto gosta de mulheres – “Lá em casa a minha mulher ri-se muito” – só visto. Cavaco insistiu nas concepções vagas de desenvolvimento económico, competitividade, inovação… mas não disse uma palavra sobre o desmantelamento do aparelho produtivo. Justificou novamente os seus actos de prepotência quando investiu contra manifestantes recorrendo às forças de segurança nacionais. Fingiu uma preocupação social que nunca soube sequer o que significa. Falou a custo sobre racismo e imigração, engolindo as palavras que proferia como se fossem pedras insolúveis na saliva do seu pensamento. “Eu rejeito o racismo” dizia, com o ar de quem engole fel e sorri para não ser mal-educado. Hoje lia-se no Diário de Notícias, pela pena do mais ordinário dos ordinários que teria sido genial a tirada: “Olhe que não… olhe que não”… Genial!? O Cavaco vinha com a piada preparada de casa, provavelmente enfiada na sua parca cabecinha por um dos seus bem pagos assessores de campanha, ou managers, ou que raio são. Além disso, reconhecê-la como genial é, no mínimo, depreciativo do sujeito e da sua fasquia para o “genial”.
Jerónimo de Sousa, por seu lado, não foi excepcional, não foi genial, não é diferente de si próprio. Coloca-se, verdadeiramente, num discurso que ele moldou, mas que também o moldou a ele. Defende o que diz e diz o que defende, ao contrário de Cavaco Silva que, manifestamente, adapta o discurso à circunstância, não preenchendo nunca as lacunas. No discurso do Cavaco estão todas as palavras sonoras, mas não assume verbalmente, nem por uma vez, o carácter ideológico da sua candidatura. Salvo quando lhe foge o pobre raciocínio para a boca.
Naquele debate, independentemente da nossa parcialidade inevitável, Jerónimo foi mais sincero, mais frontal, menos esguio, menos falso. Naquele debate ou tempo de antena partilhado – porque de debate tem muito pouco este novo modelo americanóide, feito á imagem do que convém ao Cavaco – Naquele debate, Jerónimo mostrou que, independentemente do que não diga agora o candidato da direita, ele está incontornavelmente apostado na escalada reaccionária contra a essência da Constituição da República Portuguesa. Mostrou que, na sua simplicidade, é Homem para assumir a defesa dos trabalhadores, porque defendê-los é defender exactamente a constituição. É uma simplicidade determinada, de quem está inteiramente ao lado dos que trabalham e dos que são explorados. Um Jerónimo que se mostrou como o único, juntando outros elementos ao debate, capaz de promover uma ruptura democrática com a entrega do nosso país ao capital e ao capital transnacional.
Mas para o génio miserável do Diário de Notícias, triste traste da direita portuguesa, comprometido com a isenção. Ali escarrou um texto vergonhoso, provavelmente escrito à última da hora, só para fazer o frete para que foi pago.
Para ele, pouco importa que Cavaco tenha vendido Portugal ao desbarato, garantido um défice das contas públicas historicamente alto, para ele pouco importa que Cavaco tenha voltado a justificar todas as medidas que tomou no passado. Para ele pouco importa que Cavaco tenha sido um pobre exemplo da pose de Estado, desde o seu aspecto físico ao seu timbre bolorento de voz, passando essencialmente pela sua pobreza ideológica e argumentativa.
Acesa contenda (O império toma partido)
Após acesa contenda argumentativa, a Assembleia do Império Bárbaro decidiu, por unanimidade, o apoio a um candidato à Presidência da República.
Como blog que pugna, irremediavelmente, pela transformação do mundo e da ordem das coisas, esta era apenas mais uma fase que nos exigia tomar uma decisão. Ora, analisando as opções, a Assembleia, reunida numa viela de Lisboa onde cheirava a ginja e cidra, teceu a seguinte resolução.
1. Os candidatos à Presidência da República não surgiram agora, já existiam antes da marcação da data das eleições. Todos, sem excepção, também já existiam antes do anúncio das suas candidaturas a este órgão de soberania.
2. O Mário Soares é um traidor da classe operária, reciclada velharia do baú do desespero, contribuindo com a sua candidatura para a desacreditação do sistema democrático e da sua capacidade de auto-regeneração. Ao assumir-se como candidato, retira a confiança à própria população portuguesa, achando que é o único homem do país capaz de ser Presidente. O PS apoia este, porque se está borrifando para quem ganha as eleições, desde que seja o Cavaco, tolerando ainda o Soares e o Manuel. Aliás, para o actual governo do PS, o candidato que melhor garante a estabilidade dos trabalhos de desmantelamento nacional e atentados contra a pátria é o Cavaco. O Soares é um mito. Custa-me crer que ainda posso ter de vir a votar nele. Anima-me a ideia de que, caso isso tenha de acontecer, esta será provavelmente, a última vez.
3. O Manuel Alegre é um poeta fingidor no verdadeiro sentido da palavra. Ainda que fosse um poeta real e sincero, não faria dele automaticamente um humanista e um bom Presidente. No entanto, ele é mesmo falso. É resquício da aristocracia arrogante, do nariz empinado típico dos olhem-para-mim-que-sei-escrever-coisas-bonitas-mesmo-que-sejam-sobre-o-25-de-abril-revolução-que-em-vez-de-esperança-me-dá-comichão. É pois, este, um senhor que utilizou sempre a esquerda como o garante de poleiro. Um homem acima dos partidos mas a quem só faltou rastejar no esterco dos porcos do Montijo para implorar mais do que implorou ao PS o seu apoio partidário. Um caçador nato, não só de patos, mas de ingenuidades.
4. O Francisco Louçã é um candidato de ressabianço. O berloque não podia deixar passar esta oportunidade para relembrar todos que ainda existe. Principalmente depois da talhada que levaram nas autárquicas, impunha-se dizer ao povo que continuam cá. Com esta candidatura até garantem mais umas colocações acima do PCP nas sondagens. Mesmo que depois isso não se reflicta sequer num amendoim. O que importa são os jornais e os comentadores. Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade… pelo menos na cabecinha mimada do senhor Francisco Louçã (passe a citação de Goebbels).
5. O Cavaco é o candidato dos interesses do capital. É o candidato que preferia matar a Constituição à facada que jurar ter de a cumprir e fazer cumprir. Mas… ele está disposto a fazer esse esforço: jurar defendê-la e depois assassiná-la com desdém. Cavaco tem um brilho horrível na testa que insiste em não limpar… nós achamos que é suor. Cavaco é de direita. Cavaco fingiu que já não gosta do PSD só porque ninguém gosta do PSD. Cavaco não quer o apoio público da mula da cooperativa, mas a mula é a sombra do Cavaco. O Cavaco diz que lá em casa, a sua mulher se farta de rir e que gosta muito dela. O Cavaco não sabe falar como deve de ser. O Cavaco gosta do Sócrates e o Sócrates gosta do Cavaco. Nós não gostamos do Sócrates. O Cavaco acha bem vender o país ao capital nacional e finge não saber que o capital nacional vende o país ao capital estrangeiro, que depois compra o Cavaco. O Cavaco é um ser do passado, um cogumelo das caves escuras da história do país, um ser que ainda cheira aos bolores do fascimo, do corporativismo e do chauvinismo. Cavaco é contra a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, defendendo que as mulheres portuguesas devem continuar a ser presas, julgadas e humilhadas por terem tomado a decisão mais difícil das suas vidas, confrontadas com a ausência de meios para sustentar o seu filho. Cavaco está-se nas tintas para a IVG porque as mulheres dos seus patrocinadores vão abortar ao estrangeiro. O Cavaco é o candidato anti-Portugal.
6. O Jerónimo é o único que assume a sua parcialidade. É o único que fala contra as últimas revisões constitucionais descaracterizadoras. É o único que fala de desenvolvimento, justificando simultaneamente, com a defesa e fortalecimento do aparelho de produção nacional. É o único que não fala por palavras fáceis, preferindo explicar o que diz, mesmo que isso não mereça capas de jornal, nem soe tão bem aos ouvidos dos mais distraídos. É o único que não molda o discurso conforme a plateia. É o único capaz de defender a Constituição e os seus princípios, não por palavras, mas por ideais. Além disso, o Jerónimo é sincero, afável e simpático. Não é doutor, não é poeta, mas é construtor. Construtor empenhado do mundo do futuro.
7. Não descansamos à sombra das barbaridades que nos dizem que o Cavaco é o imaculado salvador da pátria, o messias esperado. Relembramos o passado e o papel histórico de cada um dos candidatos, fazendo jus ao ponto 1. O Império bárbaro apoia a candidatura de Jerónimo de Sousa à Presidência da República Portuguesa.
Como blog que pugna, irremediavelmente, pela transformação do mundo e da ordem das coisas, esta era apenas mais uma fase que nos exigia tomar uma decisão. Ora, analisando as opções, a Assembleia, reunida numa viela de Lisboa onde cheirava a ginja e cidra, teceu a seguinte resolução.
1. Os candidatos à Presidência da República não surgiram agora, já existiam antes da marcação da data das eleições. Todos, sem excepção, também já existiam antes do anúncio das suas candidaturas a este órgão de soberania.
2. O Mário Soares é um traidor da classe operária, reciclada velharia do baú do desespero, contribuindo com a sua candidatura para a desacreditação do sistema democrático e da sua capacidade de auto-regeneração. Ao assumir-se como candidato, retira a confiança à própria população portuguesa, achando que é o único homem do país capaz de ser Presidente. O PS apoia este, porque se está borrifando para quem ganha as eleições, desde que seja o Cavaco, tolerando ainda o Soares e o Manuel. Aliás, para o actual governo do PS, o candidato que melhor garante a estabilidade dos trabalhos de desmantelamento nacional e atentados contra a pátria é o Cavaco. O Soares é um mito. Custa-me crer que ainda posso ter de vir a votar nele. Anima-me a ideia de que, caso isso tenha de acontecer, esta será provavelmente, a última vez.
3. O Manuel Alegre é um poeta fingidor no verdadeiro sentido da palavra. Ainda que fosse um poeta real e sincero, não faria dele automaticamente um humanista e um bom Presidente. No entanto, ele é mesmo falso. É resquício da aristocracia arrogante, do nariz empinado típico dos olhem-para-mim-que-sei-escrever-coisas-bonitas-mesmo-que-sejam-sobre-o-25-de-abril-revolução-que-em-vez-de-esperança-me-dá-comichão. É pois, este, um senhor que utilizou sempre a esquerda como o garante de poleiro. Um homem acima dos partidos mas a quem só faltou rastejar no esterco dos porcos do Montijo para implorar mais do que implorou ao PS o seu apoio partidário. Um caçador nato, não só de patos, mas de ingenuidades.
4. O Francisco Louçã é um candidato de ressabianço. O berloque não podia deixar passar esta oportunidade para relembrar todos que ainda existe. Principalmente depois da talhada que levaram nas autárquicas, impunha-se dizer ao povo que continuam cá. Com esta candidatura até garantem mais umas colocações acima do PCP nas sondagens. Mesmo que depois isso não se reflicta sequer num amendoim. O que importa são os jornais e os comentadores. Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade… pelo menos na cabecinha mimada do senhor Francisco Louçã (passe a citação de Goebbels).
5. O Cavaco é o candidato dos interesses do capital. É o candidato que preferia matar a Constituição à facada que jurar ter de a cumprir e fazer cumprir. Mas… ele está disposto a fazer esse esforço: jurar defendê-la e depois assassiná-la com desdém. Cavaco tem um brilho horrível na testa que insiste em não limpar… nós achamos que é suor. Cavaco é de direita. Cavaco fingiu que já não gosta do PSD só porque ninguém gosta do PSD. Cavaco não quer o apoio público da mula da cooperativa, mas a mula é a sombra do Cavaco. O Cavaco diz que lá em casa, a sua mulher se farta de rir e que gosta muito dela. O Cavaco não sabe falar como deve de ser. O Cavaco gosta do Sócrates e o Sócrates gosta do Cavaco. Nós não gostamos do Sócrates. O Cavaco acha bem vender o país ao capital nacional e finge não saber que o capital nacional vende o país ao capital estrangeiro, que depois compra o Cavaco. O Cavaco é um ser do passado, um cogumelo das caves escuras da história do país, um ser que ainda cheira aos bolores do fascimo, do corporativismo e do chauvinismo. Cavaco é contra a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, defendendo que as mulheres portuguesas devem continuar a ser presas, julgadas e humilhadas por terem tomado a decisão mais difícil das suas vidas, confrontadas com a ausência de meios para sustentar o seu filho. Cavaco está-se nas tintas para a IVG porque as mulheres dos seus patrocinadores vão abortar ao estrangeiro. O Cavaco é o candidato anti-Portugal.
6. O Jerónimo é o único que assume a sua parcialidade. É o único que fala contra as últimas revisões constitucionais descaracterizadoras. É o único que fala de desenvolvimento, justificando simultaneamente, com a defesa e fortalecimento do aparelho de produção nacional. É o único que não fala por palavras fáceis, preferindo explicar o que diz, mesmo que isso não mereça capas de jornal, nem soe tão bem aos ouvidos dos mais distraídos. É o único que não molda o discurso conforme a plateia. É o único capaz de defender a Constituição e os seus princípios, não por palavras, mas por ideais. Além disso, o Jerónimo é sincero, afável e simpático. Não é doutor, não é poeta, mas é construtor. Construtor empenhado do mundo do futuro.
7. Não descansamos à sombra das barbaridades que nos dizem que o Cavaco é o imaculado salvador da pátria, o messias esperado. Relembramos o passado e o papel histórico de cada um dos candidatos, fazendo jus ao ponto 1. O Império bárbaro apoia a candidatura de Jerónimo de Sousa à Presidência da República Portuguesa.
Wednesday, November 30, 2005
Thursday, November 17, 2005
Custas judiciais, Thatcher, Sócrates e sindicatos
Pois é. Um relação bárbara esta. E só mesmo um sistema tão aprimorado como o capital para se ir lembrar de uma destas.
Já nos anos oitenta uma daquelas digníssimas figuras de estado se havia lembrado de estratégia tão apurada e eficiente. Uma daquelas figuras que não merecerá mais no futuro que não o desdém do mundo. Ainda que no presente seja uma daquelas que, como alguns da nossa pátria, ressuscita tal Fénix em todo o seu esplendor. Desses salvadores messiânicos, contará o futuro apenas a verdade. Ficarão apenas as bocas famintas que deixaram em nome de chorudas contas bancárias e o rasto de destruição em nome de autoridade e moral.
E que nome de alta figura de Estado é aqui invocado? Thatcher. A “Dama de Ferro”. Responsável por utilizar uma política que tanto tem de maquiavélica como de predatória da classe trabalhadora. Os métodos do capital começam a perder a criatividade. Recorreu tão ilustre senhora ao aumento escabroso das custas judiciais e à diminuição da ajuda estatal. Com isto, apaziguou, tal como em Portugal agora se faz, muitos pilares da burguesia. Para isto, desculpou-se com a justiça social. Aumentou as custas. Diminuiu o apoio do Estado. Quem ficou a perder?
Não precisarás de mais que uma linha para adivinhar, certamente.
Ficaram a perder aqueles que, só com muita dificuldade as poderiam pagar, os trabalhadores. Com isto, com a incapacidade de recorrer ao apoio judicial, os trabalhadores deixaram também de ter o acesso à justiça. O acesso à justiça passou a ser também ele, reservado a uma elite. Por diversos motivos.
Um: o facto de um trabalhador não ter suficiente dinheiro para suportar as custas judiciais, afasta-o do recurso à justiça. Mesmo que tenha razão, por exemplo…. Num processo de despedimento sem justa causa.
Dois: ao acabar com os processos dos trabalhadores pobres a “entupirem” os tribunais, fica a costa livre para as grandes empresas e seus já habituais processos de dívidas e outros semelhantes banditismos. Aceleram-se os processos que beneficiam o grande capital.
As consequências imediatas de tão vil estratégia estão já à vista. As de médio-prazo? Sócrates acaba de as mostrar em Portugal. Com as dificuldades dos trabalhadores surgem as das suas estruturas sindicais. Com isso perde a capacidade reivindicativa das classes exploradas, favorecendo obviamente os do costume. Com sindicatos incapazes de sustentar as custas judiciais dos seus membros, cresce um descontentamento difícil de contrariar junto dos trabalhadores. Cresce a incapacidade de organizar a defesa. Diminui a capacidade financeira do sindicato. Fim.
NÃO! Também sobre isto o futuro reservará apenas uma negra página, lembrando as artimanhas do capitalismo, para que não venhamos a sofrer do mesmo num amanhã qualquer.
Já nos anos oitenta uma daquelas digníssimas figuras de estado se havia lembrado de estratégia tão apurada e eficiente. Uma daquelas figuras que não merecerá mais no futuro que não o desdém do mundo. Ainda que no presente seja uma daquelas que, como alguns da nossa pátria, ressuscita tal Fénix em todo o seu esplendor. Desses salvadores messiânicos, contará o futuro apenas a verdade. Ficarão apenas as bocas famintas que deixaram em nome de chorudas contas bancárias e o rasto de destruição em nome de autoridade e moral.
E que nome de alta figura de Estado é aqui invocado? Thatcher. A “Dama de Ferro”. Responsável por utilizar uma política que tanto tem de maquiavélica como de predatória da classe trabalhadora. Os métodos do capital começam a perder a criatividade. Recorreu tão ilustre senhora ao aumento escabroso das custas judiciais e à diminuição da ajuda estatal. Com isto, apaziguou, tal como em Portugal agora se faz, muitos pilares da burguesia. Para isto, desculpou-se com a justiça social. Aumentou as custas. Diminuiu o apoio do Estado. Quem ficou a perder?
Não precisarás de mais que uma linha para adivinhar, certamente.
Ficaram a perder aqueles que, só com muita dificuldade as poderiam pagar, os trabalhadores. Com isto, com a incapacidade de recorrer ao apoio judicial, os trabalhadores deixaram também de ter o acesso à justiça. O acesso à justiça passou a ser também ele, reservado a uma elite. Por diversos motivos.
Um: o facto de um trabalhador não ter suficiente dinheiro para suportar as custas judiciais, afasta-o do recurso à justiça. Mesmo que tenha razão, por exemplo…. Num processo de despedimento sem justa causa.
Dois: ao acabar com os processos dos trabalhadores pobres a “entupirem” os tribunais, fica a costa livre para as grandes empresas e seus já habituais processos de dívidas e outros semelhantes banditismos. Aceleram-se os processos que beneficiam o grande capital.
As consequências imediatas de tão vil estratégia estão já à vista. As de médio-prazo? Sócrates acaba de as mostrar em Portugal. Com as dificuldades dos trabalhadores surgem as das suas estruturas sindicais. Com isso perde a capacidade reivindicativa das classes exploradas, favorecendo obviamente os do costume. Com sindicatos incapazes de sustentar as custas judiciais dos seus membros, cresce um descontentamento difícil de contrariar junto dos trabalhadores. Cresce a incapacidade de organizar a defesa. Diminui a capacidade financeira do sindicato. Fim.
NÃO! Também sobre isto o futuro reservará apenas uma negra página, lembrando as artimanhas do capitalismo, para que não venhamos a sofrer do mesmo num amanhã qualquer.
Thursday, November 10, 2005
Marxismo e Ambiente
Há alguns anos atrás li um livro, cujo autor e editora não recordo os nomes, com o título “Marxismo e Ambiente”. Aquele livro despertou-me, na altura, para uma temática deveras importante. Tão importante quanto nova para o meu raciocínio, na altura, o de um marxista incipiente.
O ambiente, em senso lato, é toda o meio envolvente ao Ser Humano. No tratamento que aqui lhe vamos dar, o ambiente é apenas toda a
Natureza que nos rodeia, por nós influenciada e que sobre nós influi, mas que existe sem ter sido concebida pelo Ser Humano. Num entendimento mais estrito, trataremos o Ambiente essencialmente enquanto o conjunto dos recursos naturais que servem de sustento ao desenvolvimento das espécies vivas que habitam em regimes ecológicos interdependentes o planeta.
O marxismo e a prática económica que lhe subjaz são caracterizados, entre outros, por dois vectores paralelos:
1. o da utilização da economia ao serviço do conjunto dos Seres Humanos que intervêm na produção;
2. o da justa distribuição da riqueza ao invés da concentração e cumulação do lucro.
Quando nos defrontamos com a grande maioria dos casos de delapidação ou destruição ambiental actual, encontramos em larga escala uma relação directa entre eles e a exploração dos recursos naturais. Os grandes responsáveis pela degradação ambiental não são as populações, mas sim as grandes indústrias, quer sejam as extractivas, quer sejam as transformadoras e mesmo à agricultura intensiva. As grandes questões ambientais, desde o aquecimento global, à destruição das florestas tropicais sul-americanas, africanas e asiáticas estão intimamente ligadas à actividade do capital, na sua senda de auto-reprodução capitalista por via da exploração do Homem e da Natureza.
Muitas vezes, não relacionamos directamente o marxismo com a defesa do ambiente. Tendências políticas ditas ecologistas vieram fazer crer que existe uma política ecologista que não é necessariamente marxista. No entanto, esperamos que, com este post sejam dados passos para que o leitor passe a relacionar política e economia com ecologia e defesa do ambiente.
O objectivo essencial do marxismo não é, claro, a defesa do meio ambiente. Todavia, um breve raciocínio que leve em conta os dados que podemos tirar das observações do dia-a-dia capitalista, levar-nos-á à conclusão irremediável de que não existe protecção dos recursos naturais sem o socialismo, tal como não existirá humanismo no regime capitalista.
O humanismo está, ainda que muitas vezes o não vejamos, intimamente ligado com a defesa dos recursos naturais. O Homem não pode viver independentemente da abundância de recursos naturais. Principalmente, não pode viver em sociedade rumo ao progresso, nem tampouco manter as actuais condições sociais dos povos sem que existam recursos naturais que o sustentem. A abundância dos recursos naturais influencia, não só a economia capitalista, como também determina a continuidade da espécie e, em última análise, das espécies.
A visão dialéctica dos marxistas é a única abordagem humanista em torno das matérias do ambiente.
Para melhor ilustrar, destacarei dois tipos de políticas ditas ecologistas de diferentes matrizes e aquela a que se chama ecossocialismo:
a social-democrata, que encara o ambientalismo como um tema necessário mas incómodo. A protecção da natureza serve aqui o principal propósito de ser agente cosmético. O capitalismo e a exploração desenfreada dos recursos naturais não são postos em causa. Os Verdes da Alemanha são o típico paradigma de um partido de direita, sustentáculo do capitalismo e do reaccionarismo que afirma defender o ambiente. Na verdade, sob as políticas de direita, o ambiente é dogma exclusivo para limitar a actividade popular dele dependente. O grande capital continua a gerir e a explorar o ambiente em função da maximização do lucro. Para os interesses capitalistas, se for mais lucrativo produzir poluindo, eles assim o farão. Pensar o contrário é pura ingenuidade.
a radicalista, que encara o ambiente como algo superior à própria existência e subsistência da Humanidade, sem que aplique uma visão integrada. O fundamentalismo caracteriza esta corrente política, que mais não é senão uma forma enviesada de esquerdismo ou radicalismo pequeno-burguês. A defesa da natureza por si só, sem uma visão de desenvolvimento da sociedade não serve outros interesses senão os do capital. Estes movimentos não põem em causa os processos de produção capitalistas e fazem crer que toda a delapidação ambiental é fruto da má-vontade das grandes corporações. A defesa da natureza é o fim da ideologia destes grupelhos políticos.
o ecossocialismo é o socialismo, na medida em que o socialismo, para o ser, aplica a economia para o desenvolvimento horizontal da população, dos trabalhadores e do povo. Para o socialismo, a preservação da espécie humana, num rumo de constante diminuição do fosso entre ricos e pobres é o objectivo de médio-prazo. A eliminação das classes, a existência solidária e pacífica dos povos e a distribuição justa da riqueza é o objectivo final. Ambos estão inevitavelmente dependentes da preservação e boa gestão dos recursos naturais.
Assim, é idílico julgar que existe a possibilidade de que o sistema capitalista se venha a auto-controlar na exploração de recursos e na produção de poluentes. Actualmente, existe já tecnologia que permite o avanço das energias alternativas. E, tivesse o esforço de investigação e desenvolvimento sido iniciado antes, já essas energias teriam hoje utilização democrática. Caso a utilização dos combustíveis fósseis não fosse lucrativa, já o capital teria optado há muito por outras fontes de energia e teria investido os milhares de milhões necessários para a sua colocação no mercado. A grande questão é que não convém, obviamente, ao capital, possibilitar a independência energética dos cidadãos. A energia fotovoltaica, por exemplo, possibilita essa independência. A fusão nuclear, poderia também proporcionar energia limpa e barata para toda a população. No entanto, estas tecnologias não estão suficientemente desenvolvidas porque… não dão lucro e porque ainda há muito petróleo por vender.
Para melhor ilustrar: relembro o tamanho médio de uma bateria de telemóvel há dez anos atrás. Desafio-vos a lembrar quanto tempo durou até que diminuíssem para tamanhos centimétricos. Porquê? Se repararmos, foi uma questão de meses. De um momento para o outro as baterias de celulares passaram de autênticos tijolos para pequenos e leves paralelipípedos, curiosamente, com maiores períodos de autonomia e mais amperagem. Daí às baterias de lítio foi um pequeno salto. Porquê? simples… é que começou a dar lucro desmesurado a venda de telemóveis e serviços de telecomunicações através deles. Os motores dos automóveis têm sofrido grandes avanços tecnológicos, mas mantém-se a dependência dos derivados do petróleo. Porquê? porque ainda se obtém significativo lucro através da sua venda. A poluição daí resultante é apenas um dano colateral que o capitalismo desdenha. A poluição não tem reflexos negativos no lucro, por mais campanhas que a greenpeace faça para deixarmos de comprar em determinada petrolífera.
A superação do sistema de produção capitalista e a construção do socialismo é a única via política que preconiza indirectamente a preservação do ambiente. Fazer prevalecer a justa distribuição da riqueza e a própria existência da espécie e civilização humanas é indissociável da boa gestão dos recursos naturais, permitindo a racionalização do consumo dos recursos não vivos e permitindo o desenvolvimento do ciclo reprodutivo dos seres vivos. O exemplo já dado noutro post sobre o vegetarianismo e veganismo ilustram bem o quão incapazes de resolver os problemas ambientais são essas correntes inócuas.
O socialismo e a subversão dos métodos de produção capitalistas, a produção sustentada pelas necessidades do Homem em vez da obtenção de lucro, levam gradualmente a um maior respeito pela Natureza enquanto fonte, não do lucro, mas do nosso sustento. O socialismo, além de ser a única forma de organização das sociedades que pode garantir a sustentabilidade do Ser Humano, mostra-se também a única que coloca o bem-estar antes do lucro. Ora, como para o bem-estar se configura como requisito a abundância de recursos naturais e de elementos naturais sem degradação antrópica, o socialismo mostra-se também como a doutrina que coloca o ambiente frente ao lucro.
Lutar pelo Homem e pela sua emancipação é lutar pela sustentabilidade do ambiente.
Lutar pela consciência plena de cada um é lutar contra o poder do capital sobre a ignorância. Organizar a luta pela libertação dos trabalhadores é defender a natureza. Constituir o poder dos trabalhadores é eliminar a relação Capital – Natureza (predatória) e substitui-la pela relação Homem-natureza (simbiótica).
O ambiente, em senso lato, é toda o meio envolvente ao Ser Humano. No tratamento que aqui lhe vamos dar, o ambiente é apenas toda a
Natureza que nos rodeia, por nós influenciada e que sobre nós influi, mas que existe sem ter sido concebida pelo Ser Humano. Num entendimento mais estrito, trataremos o Ambiente essencialmente enquanto o conjunto dos recursos naturais que servem de sustento ao desenvolvimento das espécies vivas que habitam em regimes ecológicos interdependentes o planeta.O marxismo e a prática económica que lhe subjaz são caracterizados, entre outros, por dois vectores paralelos:
1. o da utilização da economia ao serviço do conjunto dos Seres Humanos que intervêm na produção;
2. o da justa distribuição da riqueza ao invés da concentração e cumulação do lucro.
Quando nos defrontamos com a grande maioria dos casos de delapidação ou destruição ambiental actual, encontramos em larga escala uma relação directa entre eles e a exploração dos recursos naturais. Os grandes responsáveis pela degradação ambiental não são as populações, mas sim as grandes indústrias, quer sejam as extractivas, quer sejam as transformadoras e mesmo à agricultura intensiva. As grandes questões ambientais, desde o aquecimento global, à destruição das florestas tropicais sul-americanas, africanas e asiáticas estão intimamente ligadas à actividade do capital, na sua senda de auto-reprodução capitalista por via da exploração do Homem e da Natureza.
Muitas vezes, não relacionamos directamente o marxismo com a defesa do ambiente. Tendências políticas ditas ecologistas vieram fazer crer que existe uma política ecologista que não é necessariamente marxista. No entanto, esperamos que, com este post sejam dados passos para que o leitor passe a relacionar política e economia com ecologia e defesa do ambiente.
O objectivo essencial do marxismo não é, claro, a defesa do meio ambiente. Todavia, um breve raciocínio que leve em conta os dados que podemos tirar das observações do dia-a-dia capitalista, levar-nos-á à conclusão irremediável de que não existe protecção dos recursos naturais sem o socialismo, tal como não existirá humanismo no regime capitalista.
O humanismo está, ainda que muitas vezes o não vejamos, intimamente ligado com a defesa dos recursos naturais. O Homem não pode viver independentemente da abundância de recursos naturais. Principalmente, não pode viver em sociedade rumo ao progresso, nem tampouco manter as actuais condições sociais dos povos sem que existam recursos naturais que o sustentem. A abundância dos recursos naturais influencia, não só a economia capitalista, como também determina a continuidade da espécie e, em última análise, das espécies.
A visão dialéctica dos marxistas é a única abordagem humanista em torno das matérias do ambiente.
Para melhor ilustrar, destacarei dois tipos de políticas ditas ecologistas de diferentes matrizes e aquela a que se chama ecossocialismo:
a social-democrata, que encara o ambientalismo como um tema necessário mas incómodo. A protecção da natureza serve aqui o principal propósito de ser agente cosmético. O capitalismo e a exploração desenfreada dos recursos naturais não são postos em causa. Os Verdes da Alemanha são o típico paradigma de um partido de direita, sustentáculo do capitalismo e do reaccionarismo que afirma defender o ambiente. Na verdade, sob as políticas de direita, o ambiente é dogma exclusivo para limitar a actividade popular dele dependente. O grande capital continua a gerir e a explorar o ambiente em função da maximização do lucro. Para os interesses capitalistas, se for mais lucrativo produzir poluindo, eles assim o farão. Pensar o contrário é pura ingenuidade.
a radicalista, que encara o ambiente como algo superior à própria existência e subsistência da Humanidade, sem que aplique uma visão integrada. O fundamentalismo caracteriza esta corrente política, que mais não é senão uma forma enviesada de esquerdismo ou radicalismo pequeno-burguês. A defesa da natureza por si só, sem uma visão de desenvolvimento da sociedade não serve outros interesses senão os do capital. Estes movimentos não põem em causa os processos de produção capitalistas e fazem crer que toda a delapidação ambiental é fruto da má-vontade das grandes corporações. A defesa da natureza é o fim da ideologia destes grupelhos políticos.
o ecossocialismo é o socialismo, na medida em que o socialismo, para o ser, aplica a economia para o desenvolvimento horizontal da população, dos trabalhadores e do povo. Para o socialismo, a preservação da espécie humana, num rumo de constante diminuição do fosso entre ricos e pobres é o objectivo de médio-prazo. A eliminação das classes, a existência solidária e pacífica dos povos e a distribuição justa da riqueza é o objectivo final. Ambos estão inevitavelmente dependentes da preservação e boa gestão dos recursos naturais.
Assim, é idílico julgar que existe a possibilidade de que o sistema capitalista se venha a auto-controlar na exploração de recursos e na produção de poluentes. Actualmente, existe já tecnologia que permite o avanço das energias alternativas. E, tivesse o esforço de investigação e desenvolvimento sido iniciado antes, já essas energias teriam hoje utilização democrática. Caso a utilização dos combustíveis fósseis não fosse lucrativa, já o capital teria optado há muito por outras fontes de energia e teria investido os milhares de milhões necessários para a sua colocação no mercado. A grande questão é que não convém, obviamente, ao capital, possibilitar a independência energética dos cidadãos. A energia fotovoltaica, por exemplo, possibilita essa independência. A fusão nuclear, poderia também proporcionar energia limpa e barata para toda a população. No entanto, estas tecnologias não estão suficientemente desenvolvidas porque… não dão lucro e porque ainda há muito petróleo por vender.
Para melhor ilustrar: relembro o tamanho médio de uma bateria de telemóvel há dez anos atrás. Desafio-vos a lembrar quanto tempo durou até que diminuíssem para tamanhos centimétricos. Porquê? Se repararmos, foi uma questão de meses. De um momento para o outro as baterias de celulares passaram de autênticos tijolos para pequenos e leves paralelipípedos, curiosamente, com maiores períodos de autonomia e mais amperagem. Daí às baterias de lítio foi um pequeno salto. Porquê? simples… é que começou a dar lucro desmesurado a venda de telemóveis e serviços de telecomunicações através deles. Os motores dos automóveis têm sofrido grandes avanços tecnológicos, mas mantém-se a dependência dos derivados do petróleo. Porquê? porque ainda se obtém significativo lucro através da sua venda. A poluição daí resultante é apenas um dano colateral que o capitalismo desdenha. A poluição não tem reflexos negativos no lucro, por mais campanhas que a greenpeace faça para deixarmos de comprar em determinada petrolífera.
A superação do sistema de produção capitalista e a construção do socialismo é a única via política que preconiza indirectamente a preservação do ambiente. Fazer prevalecer a justa distribuição da riqueza e a própria existência da espécie e civilização humanas é indissociável da boa gestão dos recursos naturais, permitindo a racionalização do consumo dos recursos não vivos e permitindo o desenvolvimento do ciclo reprodutivo dos seres vivos. O exemplo já dado noutro post sobre o vegetarianismo e veganismo ilustram bem o quão incapazes de resolver os problemas ambientais são essas correntes inócuas.

O socialismo e a subversão dos métodos de produção capitalistas, a produção sustentada pelas necessidades do Homem em vez da obtenção de lucro, levam gradualmente a um maior respeito pela Natureza enquanto fonte, não do lucro, mas do nosso sustento. O socialismo, além de ser a única forma de organização das sociedades que pode garantir a sustentabilidade do Ser Humano, mostra-se também a única que coloca o bem-estar antes do lucro. Ora, como para o bem-estar se configura como requisito a abundância de recursos naturais e de elementos naturais sem degradação antrópica, o socialismo mostra-se também como a doutrina que coloca o ambiente frente ao lucro.
Lutar pelo Homem e pela sua emancipação é lutar pela sustentabilidade do ambiente.
Lutar pela consciência plena de cada um é lutar contra o poder do capital sobre a ignorância. Organizar a luta pela libertação dos trabalhadores é defender a natureza. Constituir o poder dos trabalhadores é eliminar a relação Capital – Natureza (predatória) e substitui-la pela relação Homem-natureza (simbiótica).
Monday, November 07, 2005
Parlamentarismo, vanguarda legislativa do patronato – Vol II
No volume I desta pequena tese sobre o papel actual do parlamentarismo tentou, de alguma forma, recolocar na mesa e no meu raciocínio uma questão que não é suficientemente abordada, talvez desde o abrandamento da produção teórica do movimento operário e do movimento comunista internacional. Os grandes debates em torno desta matéria tomaram lugar nas Assembleias da Internacional Comunista, promovendo uma fértil troca de ideias entre os diversos representantes dos Partidos que a compunham.
A participação de comunistas no parlamentarismo encerra demasiados riscos e, portanto, a sua ponderação nunca será demasiada. O papel do parlamentarismo sustentado na chamada democracia representativa não é senão o de conciliação entre os interesses das classes. Claro que, do ponto de vista do keynesianismo, isso é o garante da sustentabilidade humanista do sistema capitalista. Não podemos, porém, esquecer que a representatividade partidária, logo de cada classe, pode não reflectir a verdadeira proporção social, económica e demográfica da dimensão de cada classe. O que, aliás, acontece na esmagadora maioria da vezes, já que este sistema é baseado na apresentação de candidaturas partidárias, cada uma movida pela força económica de que dispõe. Claro que essa força pode não ser exclusivamente sua. Por exemplo, um partido operário dispõe exclusivamente do trabalho militante e do contributo financeiro dos seus membros, enquanto que um partido burguês conta com o apoio dos grandes grupos económicos, com as pressões ideológicas do patronato e com o apoio da comunicação social dominante.
A negação do carácter de classe dos partidos burgueses foi apenas mais um ardil do capitalismo, inserido na campanha de camuflagem ideológica que tem sustentado o próprio sistema. A adaptação constante do capitalismo às condições de uma sociedade em evolução acelerada é admirável e o parlamentarismo, bem como as suas ramificações são uma expressão importante dessa adaptação. Facilmente constatamos que o capital apoia diferentes regimes em diferentes partes do globo. Essa é uma questão central.
Porque será o parlamentarismo burguês a vanguarda legislativa do patronato, se em muitos outros países não se verifica esse tipo de organização, não deixando, no entanto, de serem capitalistas ou base de apoio do capitalismo?
O capitalismo caracteriza-se, desde o cálculo do valor salarial até à forma de organização da sociedade, por uma economia de direitos populares notável, por uma absurda mas genial capacidade e vontade de obter lucro a partir do lucro, minimizando o custo do trabalho.
O nível de capacidade organizativa de um povo, principalmente das classes trabalhadoras está ligado às possibilidades de liberdade política desse povo. A tomada de consciência social e política estará ligada ao nível cultural e científico que esse povo adquiriu. O nível de reivindicação e de luta está ligado a ambas as premissas anteriores.
Em países capitalistas ou dominados por esse sistema económico que não se verifica a existência de um regime parlamentar, podem encontrar-se ditaduras militares, ditaduras religiosas, sultanatos, monarquias, oligarquias, regimes presidenciais e outras formas de exercício do poder político que não consistem na suposta conciliação de interesses. Claro que esse tipo de organização se observa essencialmente em países depauperados, com reduzida história revolucionária, com fracos movimentos comunistas ou sindicais de classe, com baixos níveis de escolaridade, cultura e ciência. Existem ainda os países em guerra, motivada essencialmente pela disputa do poder, muitas vezes entre diferentes facções do capitalismo.
Nesses países, o capitalismo com a sua testa de ferro imperial pode efectivamente ir quase tão longe quanto gostaria.
No entanto, o capital necessita também de diferenciar positivamente porções da população, para que exista escoamento do produto que produz a baixo-custo nos países chamados “em vias de desenvolvimento” ou “terceiro mundo”. Esses países, ainda que mantendo uma economia baseada na obtenção do lucro, podem garantir a parte da sua população, um nível de vida bastante superior e satisfatório. Aí entra o papel do parlamentarismo. Um povo mais consciente, mais capaz de se organizar, mais culto, com mais história revolucionária não pode viver muito tempo sob uma ditadura. Cabe então ao capitalismo fazer face a essa exigência popular, quase sempre motivada pela evolução dos movimentos populares e operários progressistas. A resposta é simples: ditadura política e corporativismo disfarçados – parlamentarismo.
Importa aqui clarificar o conceito de ditadura política. Quando ouvimos ou lemos esta palavra somos recorrentemente assaltados pelo conceito de violência humana, física até, repressão e ausência de liberdade de expressão. No entanto, o conceito de ditadura política é mais lato. Claro que um regime em que se verifiquem tais características pode ser apelidado de ditadura, mas o conceito é mais simples: a ditadura política é o exercício de poder de uma porção da humanidade sobre outra. A ditadura pode ser imposta por uma minoria ou por uma maioria. O parlamentarismo disfarça uma ditadura minoritária sobre a maioria. O poder é exercido em função dos interesses de uma minoria que detém o poder económico sobre aqueles que não o detêm. Portanto, exercido pelo capital sobre o trabalho. A pirâmide está invertida. O capital deve servir o desenvolvimento do trabalho, das condições de vida dos trabalhadores e não a concentração e acumulação de riqueza num punhado de entidades invisíveis.

O parlamentarismo garante esta ilusão. A representatividade aparenta ser escolhida livremente. A discussão parlamentar tem lugar e o resultado é democrático. Tudo isto é aceite como verdade indesmentível. A comunicação social não questiona nunca a legitimidade destes sistemas porque serve exactamente os mesmo interesses que eles.
O parlamentarismo é, portanto, uma vitória burguesa. Ainda que constitua um avanço popular face a outras formas de organização que sustentam o capitalismo. É um passo que tem de ser dado, como aliás o prova a própria história. É uma fase da emancipação dos povos e do Homem. É uma cedência do capitalismo. No entanto, o capitalismo aprendeu rapidamente a gerir muito bem essa sua cedência. Aprendeu a adaptá-la aos seus interesses e a servir-se dos satélites oportunistas que orbitam em torno do parlamentarismo. O capital não o combate salvo se os resultados eleitorais construírem, em determinado momento, uma maioria inesperada.
O papel dos comunistas, em cada etapa da História da Humanidade, é o da organização e criação de condições para a luta, promovendo a capacidade de obter vitórias em todas as frentes para o proletariado e derrotas para o capital e a burguesia. É por isso que se coloca, não indiferentemente, a questão da participação no regime parlamentar.
Se, por um lado, o parlamentarismo é um dos pilares de sustento do capitalismo, acabando por decidir sempre em consonância com as orientações do imperialismo; por outro, o parlamentarismo é mais um campo de batalha para alcançar vitórias para o proletariado e seus aliados. Virar as costas a essa batalha seria virá-las, em muitos casos, aos próprios trabalhadores. Assumir esta batalha acarreta o risco de aumentar a confiança popular no falso equilíbrio parlamentar.
Levanta-se ainda um conjunto muito vasto de outros problemas e riscos em torno da participação dos comunistas nos parlamentos.
Para o próximo volume: risco de contribuição para a correcção do capitalismo, risco de desagregação da unidade na acção dos comunistas, risco de promoção do oportunismo, risco de diminuição do alcance revolucionário das propostas comunistas – reformismo.
A participação de comunistas no parlamentarismo encerra demasiados riscos e, portanto, a sua ponderação nunca será demasiada. O papel do parlamentarismo sustentado na chamada democracia representativa não é senão o de conciliação entre os interesses das classes. Claro que, do ponto de vista do keynesianismo, isso é o garante da sustentabilidade humanista do sistema capitalista. Não podemos, porém, esquecer que a representatividade partidária, logo de cada classe, pode não reflectir a verdadeira proporção social, económica e demográfica da dimensão de cada classe. O que, aliás, acontece na esmagadora maioria da vezes, já que este sistema é baseado na apresentação de candidaturas partidárias, cada uma movida pela força económica de que dispõe. Claro que essa força pode não ser exclusivamente sua. Por exemplo, um partido operário dispõe exclusivamente do trabalho militante e do contributo financeiro dos seus membros, enquanto que um partido burguês conta com o apoio dos grandes grupos económicos, com as pressões ideológicas do patronato e com o apoio da comunicação social dominante.
A negação do carácter de classe dos partidos burgueses foi apenas mais um ardil do capitalismo, inserido na campanha de camuflagem ideológica que tem sustentado o próprio sistema. A adaptação constante do capitalismo às condições de uma sociedade em evolução acelerada é admirável e o parlamentarismo, bem como as suas ramificações são uma expressão importante dessa adaptação. Facilmente constatamos que o capital apoia diferentes regimes em diferentes partes do globo. Essa é uma questão central.
Porque será o parlamentarismo burguês a vanguarda legislativa do patronato, se em muitos outros países não se verifica esse tipo de organização, não deixando, no entanto, de serem capitalistas ou base de apoio do capitalismo?
O capitalismo caracteriza-se, desde o cálculo do valor salarial até à forma de organização da sociedade, por uma economia de direitos populares notável, por uma absurda mas genial capacidade e vontade de obter lucro a partir do lucro, minimizando o custo do trabalho.
O nível de capacidade organizativa de um povo, principalmente das classes trabalhadoras está ligado às possibilidades de liberdade política desse povo. A tomada de consciência social e política estará ligada ao nível cultural e científico que esse povo adquiriu. O nível de reivindicação e de luta está ligado a ambas as premissas anteriores.
Em países capitalistas ou dominados por esse sistema económico que não se verifica a existência de um regime parlamentar, podem encontrar-se ditaduras militares, ditaduras religiosas, sultanatos, monarquias, oligarquias, regimes presidenciais e outras formas de exercício do poder político que não consistem na suposta conciliação de interesses. Claro que esse tipo de organização se observa essencialmente em países depauperados, com reduzida história revolucionária, com fracos movimentos comunistas ou sindicais de classe, com baixos níveis de escolaridade, cultura e ciência. Existem ainda os países em guerra, motivada essencialmente pela disputa do poder, muitas vezes entre diferentes facções do capitalismo.
Nesses países, o capitalismo com a sua testa de ferro imperial pode efectivamente ir quase tão longe quanto gostaria.
No entanto, o capital necessita também de diferenciar positivamente porções da população, para que exista escoamento do produto que produz a baixo-custo nos países chamados “em vias de desenvolvimento” ou “terceiro mundo”. Esses países, ainda que mantendo uma economia baseada na obtenção do lucro, podem garantir a parte da sua população, um nível de vida bastante superior e satisfatório. Aí entra o papel do parlamentarismo. Um povo mais consciente, mais capaz de se organizar, mais culto, com mais história revolucionária não pode viver muito tempo sob uma ditadura. Cabe então ao capitalismo fazer face a essa exigência popular, quase sempre motivada pela evolução dos movimentos populares e operários progressistas. A resposta é simples: ditadura política e corporativismo disfarçados – parlamentarismo.
Importa aqui clarificar o conceito de ditadura política. Quando ouvimos ou lemos esta palavra somos recorrentemente assaltados pelo conceito de violência humana, física até, repressão e ausência de liberdade de expressão. No entanto, o conceito de ditadura política é mais lato. Claro que um regime em que se verifiquem tais características pode ser apelidado de ditadura, mas o conceito é mais simples: a ditadura política é o exercício de poder de uma porção da humanidade sobre outra. A ditadura pode ser imposta por uma minoria ou por uma maioria. O parlamentarismo disfarça uma ditadura minoritária sobre a maioria. O poder é exercido em função dos interesses de uma minoria que detém o poder económico sobre aqueles que não o detêm. Portanto, exercido pelo capital sobre o trabalho. A pirâmide está invertida. O capital deve servir o desenvolvimento do trabalho, das condições de vida dos trabalhadores e não a concentração e acumulação de riqueza num punhado de entidades invisíveis.

O parlamentarismo garante esta ilusão. A representatividade aparenta ser escolhida livremente. A discussão parlamentar tem lugar e o resultado é democrático. Tudo isto é aceite como verdade indesmentível. A comunicação social não questiona nunca a legitimidade destes sistemas porque serve exactamente os mesmo interesses que eles.
O parlamentarismo é, portanto, uma vitória burguesa. Ainda que constitua um avanço popular face a outras formas de organização que sustentam o capitalismo. É um passo que tem de ser dado, como aliás o prova a própria história. É uma fase da emancipação dos povos e do Homem. É uma cedência do capitalismo. No entanto, o capitalismo aprendeu rapidamente a gerir muito bem essa sua cedência. Aprendeu a adaptá-la aos seus interesses e a servir-se dos satélites oportunistas que orbitam em torno do parlamentarismo. O capital não o combate salvo se os resultados eleitorais construírem, em determinado momento, uma maioria inesperada.
O papel dos comunistas, em cada etapa da História da Humanidade, é o da organização e criação de condições para a luta, promovendo a capacidade de obter vitórias em todas as frentes para o proletariado e derrotas para o capital e a burguesia. É por isso que se coloca, não indiferentemente, a questão da participação no regime parlamentar.
Se, por um lado, o parlamentarismo é um dos pilares de sustento do capitalismo, acabando por decidir sempre em consonância com as orientações do imperialismo; por outro, o parlamentarismo é mais um campo de batalha para alcançar vitórias para o proletariado e seus aliados. Virar as costas a essa batalha seria virá-las, em muitos casos, aos próprios trabalhadores. Assumir esta batalha acarreta o risco de aumentar a confiança popular no falso equilíbrio parlamentar.Levanta-se ainda um conjunto muito vasto de outros problemas e riscos em torno da participação dos comunistas nos parlamentos.
Para o próximo volume: risco de contribuição para a correcção do capitalismo, risco de desagregação da unidade na acção dos comunistas, risco de promoção do oportunismo, risco de diminuição do alcance revolucionário das propostas comunistas – reformismo.
Sunday, November 06, 2005
Se um dia ouvires dizer...

Se um dia ouvires alguém dizer que ainda morre gente, que ainda vagueam moscas pelas bocas de crianças que transportam nos olhos a sua própria morte por serem tão vivos;
Se um dia ouvires alguém dizer que ainda há homens espancados, amordaçados e torturados e que ainda se apedrejam mulheres enterradas no chão;
Se um qualquer dia ouvires dizer que há quem morra por levantar a face da lama, quem seja acorrentado por fazer o futuro com suas próprias mãos;
Se, por acaso, um dia ouvires que ainda há bombas que esventram países e expõem a carne dos homens, das mulheres e das crianças;
Se ouvires um dia falar-se da fome, das árvores caídas, das águas poluídas, se ouvires falar de morte;
Se ouvires os rugidos dos vulcões como o choro da tua terra, e olhares os oceanos como as lágrimas dos que lutaram;
Se um dia ouvires... desliga a televisão, abre as páginas do teu pensamento.
se ouvires... junta-te a alguém que te tenha falado de quem trabalha e não tem pão.
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