Monday, December 03, 2007

Empreendedorismo ou Individualismo – a doutrina da submissão

Um olhar aos últimos tempos e verificamos o aparecimento intensivo de novas palavras. São várias as que vão sendo atiradas para o léxico quotidiano de todos, através dos documentos oficiais da propaganda do sistema, através da escola de massas e através da comunicação social, principalmente.

A maior parte destas palavras não traz nenhum conceito novo, apenas vai mudando o vocábulo que o sistema atribui a um determinado conceito. Por exemplo, como fez no passado, eliminando a palavra “operário” e passando a utilizar a “colaborador”. No entanto, facilmente se verifica que não se alterou o conceito de “operário”, nem tampouco deixou de existir.

Hoje são várias as palavras que vão por aí aparecendo, sempre cobertas de uma inusitada novidade e sempre prontas a resolver todos os nossos problemas. Vem a modernidade e junta-se com a competitividade que não pode existir sem flexibilidade. Sem empreendedorismo, no entanto, não há empregabilidade o que destrói a nossa credibilidade e qualidade. Assim, é preciso recorrer à inovação para garantir o desenvolvimento sustentável, sem sacrificar nunca o mercado que determina a nossa felicidade. Assim vai sendo debitado o chorrilho cada vez mais caudaloso do disparate e da ilusão. A cortina de fumo que o sistema precisa criar tem de ser cada vez mais espessa para nos manter ignorantes.

Por hoje, vamos ao chamado “empreendedorismo”. Esta nova palavra aponta para algo que supostamente mistura “audácia” com “vontade” e “iniciativa”, o que, bem misturado redunda em “ambição”, conceito que aplicado ao indivíduo como princípio e fim de si mesmo, acaba por andar perigosamente próxima do conceito de “individualismo”. Ora, nem toda a ambição é individualista. Mas a utilização do conceito de “empreendedorismo” tal como se aplica hoje é incontornavelmente individualista. Vejamos: ser empreendedor passa por erguer o empreendimento. Neste caso concreto, o empreendimento em causa é uma empresa (passe a redundância dos sinónimos e entenda-se “empresa” como o conceito mais comum) – uma forma de obtenção de lucro e de auto-emprego como vem sendo promovido.

Já não são poucas as vezes em que o sistema e os seus partidos vão promovendo e exigindo mesmo a ambição e iniciativa individual. Claro está que o sistema não pretende com isto promover uma nova forma de iniciativa privada para os filhos do proletariado e para as camadas mais pobres da população. Estas palavras não se inserem em nenhuma mudança na orientação estratégica do capital, antes pelo contrário, são os normais e habituais instrumentos que o capital vai tendo de inventar e reinventar para manter exactamente a mesma fórmula de exploração de sempre.

Ou seja, estas novas palavras, estes vocábulos de encantar não são instrumentos materiais do capital, mas sim instrumentos ideológicos. São formas de dissimulação dos comportamentos que o sistema capitalista necessita promover a bem da sua própria sustentabilidade, ainda que inevitavelmente temporária.

Este “empreendedorismo” que aparentemente se vai exigindo não pretende de forma alguma que agora cada um faça uma empresa bem sucedida. Pelo contrário, isso colocaria o capitalismo numa situação deveras complicada. O que se pretende essencialmente é agir no plano ideológico sobre a população, particularmente a mais jovem, a quem vai sendo exigida cada vez maior “adaptabilidade” e “empreededorismo”. Com esta campanha, o sistema capitalista pretende essencialmente re-centrar a abstracção do indivíduo sobre si mesmo, desviando a atenção do papel que caberia ao estado e às regras sociais. Assim, responsabiliza-se o indivíduo pela sua própria situação. “Se há desemprego é porque não és suficientemente inovador”. “Criar emprego é uma responsabilidade de cada um”. “Não fiques à espera que te dêem um emprego”. São apenas algumas expressões associadas a esta ofensiva lexical. Ora, num sistema que dificulta cada vez mais a criação de pequenas e médias empresas, mesmo as com alto nível de inovação tecnológica, face a um presença esmagadora de corporações de envergadura mundial que constituem monopólios globais, este raciocínio individualista acaba por desaguar numa albufeira sem ligação para o mar. Este “empreendedorismo” perde a sua dimensão de objectiva criação de riqueza individual e aproxima-se da sua verdadeira intenção: instilar o individualismo e o desespero do trabalhador. A exigência de “adaptabilidade” torna-se numa brutal exigência de “flexibilidade”, o que significa que o indivíduo tem de estar preparado para trabalhar no que lhe for exigido, as horas que lhe forem exigidas, durante os meses que for considerado necessário e pelo salário que lhe for atribuído. O empreendedorismo transforma-se assim em mais uma forma de promoção do individualismo e de combate à acção colectiva, enquanto simultaneamente se desresponsabiliza o Estado dos seus papéis mais essenciais.

A ideia de que o desemprego é culpa do desempregado, e de que o mérito é condição suficiente para o emprego são desmentidas diariamente todos os dias pela própria realidade.

Com estas formulações encapotadas, o sistema capitalista vai ganhando novas formas de manipulação das consciências, sempre orientado para estruturar uma ideologia de submissão. O individualismo é o comportamento mais indicado para ser o esqueleto da doutrina da ilusão, porque sozinhos nunca desvendaremos o mundo. Mas eles sabem bem que unidos, os povos podem mudar o mundo.

1 comment:

João Aguiar said...

Gostei muito deste teu texto e por isso publiquei-o no meu blog. Espero que não leves a mal :-)

O individualismo radica a sua essência, por um lado, no conceito de cidadão conforme a burguesia e o liberalismo o entendem e,por outro lado, radica no isolamento e na fragmentação que o processo de produção capitalista provoca nos trabalhadores. A tese burguesa fundamental sobre o indivíduo é bem ilustrada na famosa frase da Margaret Thatcher quando esta diz que "não há tal coisa chamada de sociedade, apenas há indivíduos". Este é o cerne da análise burguesa do mundo. Aliás, todas as teorias sociais burguesas partilham este pressuposto.

Uma das batalhas que os comunistas tiveram desde sempre foi precisamente esta luta contra a concorrência entre os operários que o capitalismo fomenta. Por seu turno, como nós sabemos, só a luta permite aos trabalhadores quebrar este efeito da ideologia burguesa e lançar raizes de unidade e solidariedade de classe. Este é um dos maiores medos da burguesia: a unidade e a solidariedade entre os trabalhadores.

Penso que a crítica que temos de continuar a fazer ao individualismo deve seguir a linha que tu próprio fazes neste teu texto: ligando o fenómeno do individualismo à sua base material, isto é, às relações sociais capitalistas. Este é um ponto importante e que distingue os comunistas. Por exemplo, a igreja e outras correntes criticam o individualismo no que ele tem de perverso para essas instituições. "Criticam" sem nunca irem à raiz do problema e, evidentemente, sem colocarem em causa a base material do sistema que, por sua vez, alimenta essas mesmas instituições.

Um abraço