Wednesday, April 02, 2008

a gestão como política

A glorificação do conceito de "gestão" é hoje uma das dimensões da ofensiva ideológica que vai entando encobrir as estratégias políticas da classe dominante. O esforço para iludir o carácter de classe das políticas que orientam os nossos governos é cada vez mais intenso e isso mesmo também se verifica na forma como se vai, na linguagem sitemática da ideologia burguesa, associando simbioticamente o conceito de "gestão" ao conceito de "política". Com isto, sucessivamente se justifica a submissão dos princípios políticos aos princípios do economicismo mercantil.

A gestão, por seu lado, é-nos apresentada como uma ciência, um objecto e um objectivo em si-mesma. A gestão enquanto instrumento social e económico ao serviço do bem comum é substituída por uma concepção de "gestão" cujo significado é objectiva, embora disfarçadamente, "gestão capitalista". Desta forma, os governos remetem para a esfera do inevitavel, do incontornavel e do facto consumado todas as políticas que entendem, limitando a dimensão da política a um estreito conceito de "gestão". Isto consolida a perspectiva do Governo-administração, funcionando como o Conselho de Administração. O Governo torna-se portanto um mero gestor, que gere consoante as orientações do mercado e as condições que o cenário em que se move lhe impõe. As opções de classe e a dimensão democrática e participativa que a "política" comporta são completamente arrasadas para dar lugar a uma prática empresarial.

Com isto, todo o país é sujeito às maiores injustiças em nome da "gestão" e para trás fica, cada vez mais distante, a democracia.

Mais "gestão" é hoje menos democracia.

4 comments:

Sérgio Ribeiro said...

Exactamente!
Um economista cá dos da minha colheita (e não desses, dos da "gestão" e aviário) não diria melhor.
Um abraço

Sal said...

Este post está excelente.
Estava a ler isto e a lembrar-me do modelo de gestão que querem implementar na escola pública. É esse o objectivo: "gerir" as escolas como empresas. O que abre caminho a uma série de consequências nefastas.
No limite esta medida traz para a esfera do ensino básico e secundário os pressupostos de Bolonha, e não tardará a que as empresas de uma determinada região imponham às escolas dessa mesma região determinadas condições, salientando as "necessidades" do mercado de trabalho, o que condicionará a liberdade de escolha das futuras profissões dos alunos. É o fim da democracia nas nossas escolas.

beijinhos

pedras contra canhões said...

obrigado pelas palavras.
também eu estava a escrevê-lo e a Escola Pública não me saía da cabeça. Mas o problema é, de facto, transversal.

João Aguiar said...

Coloquei este teu pertinente texto no meu blogue.

Um abraço