Friday, March 20, 2009

uma estória

é a primeira vez que conto por escrito esta estória. é verdadeira, mas como compreenderão não citarei nomes. passou-se em setúbal.

há alguns tempos atrás, o T tinha-me perguntado por que era eu comunista. frequentávamos juntos as aulas de religião e moral e ele sempre se assumira como cristão, católico. eu, pelo contrário, sempre frequentei aquelas aulas pelo mero gosto de saber e conhecer a doutrina que ali se ensina e pelo estímulo que a discussão com os católicos me oferecia. o T era bom rapaz, assim sempre pensei e mesmo hoje não o nego.

o T ficou sensibilizado com a minha explicação sobre a minha opção política. na sequência dessa conversa pediu-me livros e informação. era um rapaz capaz de reconhecer algo justo quando o via. depois de algumas conversas, de pontos de contacto e de discenso, lá o T se disponibilizou a visitar o espaço da JCP e a participar numa ou outra reunião. o que viu espantou-o pela positiva.

inscreveu-se na JCP. militou nessa organização juvenil durante uns meses, participou em algumas reuniões. parecia-me às vezes até entusiasmado e era patente que julgava justas as posições da JCP sobre as mais diversas matérias.

um dia, o T aproxima-se de mim e pede-me para falar. um certo incómodo atravessava-lhe a voz e o olhar baixo. diz-me que falaram com ele (a família e alguns amigos) e o desaconselharam quanto à sua participação política com comunistas. lembro-me bem da expressão "na JCP não vou a lado nenhum, por isso vou para a JS". dizia que na JS teria mais perspectivas de "subir" e ter carreira. confesso que fiquei triste.

mas também fiquei contente. e respondi-lhe: "se são essas as razões, fazes bem e apoio".
tínhamos 17 anos. aos 24 ou 25 o T fez parte das listas do PS para a assembleia municipal de setúbal. não foi eleito.

10 comments:

Maria said...

é (também) junto destes Ts que temos que trabalhar, muito... para que abram os olhos de uma vez por todas...

Anonymous said...

Certa vez, ouvi Álvaro Cunhal falar num pavilhão gimno-desportivo em Benfica, na Avenida Gomes Pereira. Alguém perguntou o que era necessário fazer para que mais gente votasse no partido comunista. Com muita calma, Álvaro Cunhal respondeu que o mais importante era fazer passar a mensagem, mas também era necessário saber usar as palavras.

Fernando Samuel said...

Há que reconhecer que, para quem quer tratar da sua vida, o T fez uma boa opção - fácil opção, aliás, já que, para esse efeito, qualquer outro partido lhe servia, à excepção do PCP...


Um abraço.

pedras contra canhões said...

Fernando,
exactamente por isso, apoiei a decisão dele.

filipe said...

Com grande infelicidade para o próprio - afinal rejeitou o justo caminho que ainda chegou a conhecer - é um lamentável exemplo dos muitos que pupulam pelos aparelhos e círculos institucionais ocupados pelos "quadros" dos partidos do sistema.
Um abraço.

Mania said...

O T quis sustentar-se no sistema... o sistema rejeitou-o! O T não tinha boas intenções, o sistema também não! Será que o T sabe disso?

Sal said...

Pois, o T fez a escolha certa.
Tal como tu.
(e em resposta a uma pergunta que me fizeste para aí há um mês atrás e que eu não respondi na altura, digo-te... não. Não me conheceste em Lisboa. Na única vez em que estive perto de te conhecer (e foi em Lisboa) cumprimentaste a pessoa ao meu lado, mas não me reconheceste!)
:)))

bjs

Anonymous said...
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pedras contra canhões said...
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Anonymous said...
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