Monday, June 05, 2006

A destruição do Ser na Educação de massas - parte I

A educação preenche um lugar insubstituível nas sociedades humanas, na construção da sua história e na estruturação das relações entre os homens. A educação de massas é, por isso, talvez o mais potente instrumento de controlo de massas, como pode ser o mais poderoso dos instrumentos para a libertação.

A edificação de uma consciência humana está profundamente interligada com a educação e com a forma como se aprende e com o que se aprende. Daí que dominar os sistemas educativos de Estado e de Massas (desde as escolas de todos os graus, à produção literária, passando pelos meios de comunicação social) seja um passo determinante para a consolidação do poder do imperialismo e do capitalismo.

Condicionar a mente dos homens e das mulheres entre determinados parâmetros, reservando o conhecimento apenas a quem está intmamente ligado à subsistência do sistema é um passo primordial.

Vem isto a propósito do novo chavão da direita para justificar todo o ataque dirigido ao sistema educativo português: "deixar de basear a educação na transmissão de conhecimentos e passar a desenvolvê-la com o objectivo da aquisição de competências".

Importa desmontar esta frase aparentemente inócua.

A superação colectiva do actual estado social passa pela construção progressiva de um Homem livre, consciente, pleno; numa relação paralela à evolução da sociedade. O Homem não será totalmente livre da exploração, enquanto não for capaz de basear o seu olhar numa análise científica, objectiva, mas também humanista e sensível. No entanto, o Homem não terá condições de criar um sistema que o forme nessas condições antes de suplantar o capitalismo e iniciar a construção de uma sociedade mais justa, socialista. Nesse sentido, a educação é condição para a libertação plena, mas a evolução social também é condição para a criação de um sistema de ensino humano e humanista. Maravilha da dialéctica esta.

Voltando à frase:
o conhecimento deve ser a base de qualquer competência, sob pena de se vir a estar perante um autómato e não de um ser pensante quando olharmos alguém que tenha adquirido bem as competências sem a sua base científica. Esta frase que agora nos é dada como a descoberta da nova fórmula educativa não representa mais que a velha forma pela qual o patrão ordena ao trabalhador a sua nova tarefa. O efeito prático desta "nova" fórmula já se avizinha com a aplicação do Processo de Bolonha e com as práticas pedagógicas distorcidas de grande parte do Ensino Profissional, exigindo que o estudante trabalhe sem remuneração e sem direitos de protecção no trabalho, sob o pretexto de que está a adquirir competências e a conhecer o mundo do trabalho. Ora, para conhecer o mundo do trabalho, resta toda uma vida de trabalhador àquele estudante, durante a qual poderá desenvolver as suas competências e a sua prática, as quais deve antes ser iniciadas no período de aprendizagem escolar.

Encarar a escola como uma simples ante-câmara do mundo do trabalho é destruir o conceito de escola e transformá-lo no de "oficina de aprendizes". A restauração da figura do aprendiz é, por isso mesmo, hoje um objectivo do capitalismo na Europa.

Um sistema de ensino que se dedique à formação de gerações individualistas, de jovens formatados e alienados do conhecimento e da produção cultural, artística e científica é um sistema de ensino morto na sua essência, passando a ser uma linha de montagem de trabalhadores sem direitos e com a sua capacidade de questionar num estado latente, inactiva.

É o sistema de Ensino do Capitalismo.

4 comments:

G. Mbeki said...

Comecei a comentar aqui, mas a coisa ficou tão grande que acabei por largar uma posta no bitoque sobre este teu artigo.

http://obitoque.blogspot.com/2006/06/escola-de-competncias.html

zoltrix said...

mas só dizes coisas mais que correctas! não digo mais nada pois o que faz falta é espalhar esta opinião!

David Carreto said...
This comment has been removed by a blog administrator.
David Carreto said...

bem calhei a vir cá ver as modas, e olha que ganda volta que eu aqui encontrei. :)

Concordo com a tua análise sobre a influência dos valores economicistas no sistema de ensino, mas não entendo que bolonha seja um condicionamento da mente critica ou analitica dos jovens, pelo sistema de ensino deixar de basear a educação na transmissão de conhecimentos e passar a desenvolvê-la com o objectivo da aquisição de competências.
muito simplesmente porque a aquisição de competências reflecte no fundo, a nossa capacidade de analisar, criticar, e aprender, por nós. claro que isto é no papel, e na prática será diferente, mas a análise teórica que eu faço é diferente.

Na teoria seria muito melhor, mas ai cabe apenas às instituições de ensino, e seus responsáveis docentes (infelizmente amorfos e autoritários ao ponto de excluirem os alunos da discussão) definir como organizar os planos curriculares, para assim melhorar um sistema que quer ser implimentado às 3 pancadas, e que em suma irá impossibilitar os jovens, sem possibilidades económicas, de estudarem, independentemente de ter capacidades ou não.

Sem mais, um forte abraço, fizeste-me distrair dos estudos :p