Monday, March 19, 2012

Capitalismo para totós XXI - solidariedade intergeracional

Solidariedade intergeracional - é um conceito que pertence à mesma categoria de "desenvolvimento sustentável" e aliás, corresponde-lhe quase exactamente. Tal como se estabelece no Relatório Brundtland sobre "desenvolvimento sustentável", esse conceito corresponde à capacidade de satisfação das necessidades das gerações actuais, sem comprometer a satisfação das futuras.

A manipulação de conceitos vai sendo cada vez mais profunda e de um conceito conservador como o do "desenvolvimento sustentável" - essencialmente por ignorar a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento capitalista e por gerar a ilusão de que pode o capitalismo auto-conter-se para se tornar sustentável - passa-se agora para o de "solidariedade intergeracional" que leva ainda mais longe a instrumentalização da linguagem e dos conceitos pela classe dominante.

Ou seja, se com o termo "desenvolvimento sustentável" se branqueava a impossibilidade de ser sustentável o capitalismo, com o termo "solidariedade intergeracional" extingue-se mesmo o conceito de "desenvolvimento" e permanece apenas o de "sustentabilidade".

No essencial, "solidariedade intergeracional" é uma distorção do conceito fundamental capitalista de "exploração", atribuindo às actuais gerações o dever de contenção em benefício das futuras. Assim, eliminado o objectivo de desenvolvimento, ficando o de sustentabilidade, podemos mesmo aceitar que a "solidariedade intergeracional" signifique regressão civilizacional, como se vem aliás verificando. A contenção é obviamente o efeito da exploração. Assim, diz-se aos actuais trabalhadores que têm de aceitar a exploração crescente para não comprometer as gerações futuras. Uma espécie de paraíso futuro na terra à custa do suplício dos actuais trabalhadores.

Claro está que, tal como vem sucedendo até aqui, a exploração capitalista é crescente. O que significa que, quanto maior for neste momento, maior será nas gerações futuras.

1 comment:

tcheka said...

Caro,
Acompanho o blog com interesse e, muitas vezes, quase sempre, partilho da análise efectuada.
No entanto, em relação ao conceito de desenvolvimento sustentável, refiro que, do ponto de vista da sociologia do ambiente, esse conceito contrapõe-se ao industrialismo, enquanto paradigma de crescimento em que as sociedades industriais basearam as suas economias - fossem capitalistas ou socialistas. Em 1987, o referido Relatório Brundtland, proposto pelas Nações Unidas, foi redigido com a participação de diversos países "socialistas", como a URSS e a Jugoslávia. Não rejeita o desenvolvimento, nem a indústria, nem a emancipação dos trabalhadores, mas apenas sugere que nesses processos se considere a protecção ambiental enquanto factor de preservação da própria espécie humana - uma tríade positiva de crescimento económico, equidade social e protecção ambiental.
O próprio conceito de solidariedade intergeracional, visto por esse prisma, não deixa de ser justo e, enfim, o objectivo da construção de uma sociedade socialista não será proporcionar às gerações actuais e às vindouras condições de desenvolvimento que seja emancipatório, para que não haja mais exploração nas sociedades humanas? E estamos contra uma sociedade que apoia os seus cidadãos, independentemente da idade, impedindo que seres-humanos morram sozinhos, sem solidariedade?
Ok, eu sou um utilizador diário deste léxico, por isso é-me impossível não olhar para ele de diversas perspectivas. E mesmo defendê-los! Pois não é Cuba o único país do mundo que tem um desenvolvimento sustentável (existem indicadores que o afirmam, ao cruzar Pegada Ecológica e Índice de Desenvolvimento Humano)?
É verdade que os conceitos - estes como outros, como tão bem foi abordado no post sobre Liberdade - são usados, manipulados e descontextualizados para uso da ideologia dominante, para a sua perpetuação, nesta lógica muito pragmática da burguesia de "mudar tudo para que tudo fique na mesma". Até aqui, nada de novo.
Usemos, portanto, os termos e sejamos ideologicamente etimológicos, para mostrar que o desenvolvimento sustentável não é nunca poderá ser o capitalista.
Um abraço.