Thursday, May 29, 2008

é impressão minha ou...

Há jogadas que, por mais bem ensaiadas, por mais exaltadas que pareçam, não escondem o essencial. No mesmo dia em que a notícia da criação de uma "frente de 'esquerda'" que aglomera o Bloco de Esquerda, o Manuel Alegre e mais uns quantos ex-comunistas e outros revisionistas e oportunistas da mesma espécie, atinge os jornais como um metoro; o bloco de esquerda vai para a Assembleia da República fazer um número particularmente triste, talvez para mostrar que, mesmo namorando alguns PS's, continua zangado com o Governo.

Há coisas que de tão flagrantes, por vezes custam a ver.

Ora vejamos:
i. Diz Manuel Alegre a certa altura do seu vaidoso manifesto que recusar é uma virtude, transpondo palavras de Miguel Torga. Mas este Manuel Alegre não será o mesmo que deu todos os seus fôlegos políticos a um PS que sempre praticou uma política de direita? Não será o mesmo que abandonou a luta pela transformação da sociedade e que se converteu às modernices da social-democracia e à mordomias da institucionalização? Então este Manuel Alegre não é o mesmo que tem servido ao longo da história como muleta do PS, como a consciência inútil mas tranquilizante de que alguém diz "não" no seio do PS, mesmo que isso não produza nenhum efeito. Não tenhamos ilusões, este Manuel Alegre sabe tão bem quanto nós qual é o seu verdadeiro papel. Num país como Portugal, de recentes revoluções e manifestamente virado à esquerda, qualquer partido de direita precisa de uma face aparente de esquerda - assim o fez PSD com Sá-Carneiro; o faz PS com Manuel Alegre e outros tantos chamados democratas. Então este Manuel Alegre não será o mesmo que diz que "sim" a tudo lá no parlamento? Onde está a coragem de dizer "não"?

2. A coragem de dizer "não" de Manuel Alegre aparece sempre que é necessária para salvar o PS. O próprio Mário Soares, o não menos rastejante Vital Moreira, vieram deixar os seus avisos à praça pública: é preciso começar a mostrar nem que seja uma réstia de preocupação social para que os comunistas não assumam o protagonismo das bandeiras da esquerda. Então, qual paladino do anticomunismo, lá vem o cavaleiro brilhante da poesia, o homem de esquerda, mostrar que há no PS quem pense nessas coisas sociais e que não pode nunca é o Poder cair na rua, onde bem se pode entender, cair em mãos de comunistas. E assim, lá vem o ego insaciável do Manuel Alegre angariar mais umas simpatias, mesmo que seja preciso criar um partido ou um movimento. Qualquer coisa para travar o avanço dos comunistas e deixar intocado o sistema que prontamente defende desde, pelo menos, o 11 de Março.

3. O Bloco de Esquerda anda lá pela Assembleia a fazer o que pode para não se ficar atrás do PCP em nada. Pelo menos na letra dos Projectos de Lei e outras iniciativas. Não há nada que lhes não valha e se for preciso copiam os projectos, o que é preciso é que se faça! Até aí tudo bem. Quantos mais melhor! Agora o que não pode é fingir que está muito zangado com o Governo, que é revolucionário ou isto ou aqueloutro, que as palavras já pouco dizem na boca destas gentes. Então anda por ali a fazer as figuras tristes que hoje fez, sem centrar as questões sociais nas questões políticas e trazendo a política parlamentar para o mesmo nível que o lado oposto do hemiciclo - o da demagogia barata e achincalhante - e depois anda pelas costas a criar movimentos com os responsáveis pelo rumo político actual? haja decência e seriedade.

Bem podem espernear de incómodo. Podem bem criar as ilusões de última da hora que a situação exige para a manutenção do poder e para o afastamento dos comunistas. Bem podem querer que todos andemos de vendas que haverá sempre quem atento esteja, aponte o dedo e acuse. E o que não podem mesmo, mesmo, mas mesmo mesmo iludir é que: não haverá ruptura de esquerda, democrática, séria e comprometida sem o Partido Comunista Português. E isso salta à vista.

7 comments:

Mide said...

Hoje ao longo do dia tive muita vontade de encontrar um texto como o teu! Aqui está, ainda bem que passei por cá.

pedras contra canhões said...

sempre às ordens! quando precisares é só pedir. tens belogue mide?

Mide said...

tenho mas está hiper-desactualizado. Mesmo muuito.
É o linhadovouga.blogspot.com

o castendo said...

Obrigado pela tua síntese daqui:
http://imperiobarbaro.blogspot.com/2008/05/condio-trabalhadora.html
Utilizei-a «descaradamente» no artigo do «Avante!»:
http://ocastendo.blogs.sapo.pt/282992.html

Anonymous said...

já tinha visto uma coisa parecida... na altura chamaram-lhe "FUR", e foi o que foi.

poesianopopular said...

É claro que salta à vista, mas os que lá vão, são os que não querem ver!
São aqueles a quem os de direita dizem:- se fossem todos como vocês, até nós eramos de esquerda!

rms said...

É a génese da auto-intitulada esquerda moderna. Uns foguetes pra TV, porque é preciso aparecer, e fica tudo na mesma.